terça-feira, 16 de junho de 2026

O Ser Humano como Ser de Práxis (5)

 


Vimos que na realidade - social e individualmente falando - a Prática ou Ação humana da classe média (os médios proprietários e os assalariados de alto poder aquisitivo) e da classe trabalhadora (trabalhadores e trabalhadoras ligados diretamente à produção), em sua maioria, é também (do ponto de vista objetivo e não sempre do ponto de vista subjetivo ou intencional) - uma Prática "desde o mesmo", ou seja, uma Prática "comprometida" com o sistema dominante, contribuindo - mesmo inconscientemente - para sustentá-lo (defendê-lo, legitimá-lo) e reproduzi-lo.

A Prática "desde o mesmo" parte de uma visão essencialista e fixista da história; sustenta e reproduz a história (a sociedade e o indivíduo) como totalidade totalizada (fechada, estabelecida), absolutizada e divinizada ("história da totalidade"), e, ao mesmo tempo, em processo de totalização, absolutização e divinização sempre maior ("meta-história da totalidade" ou "história da totalidade" em permanente processo de meta-historicização). Ela "nega" o "outro" como o "diferente", o "distinto", aquele que não faz parte (não integra) essa totalidade, aquele que - para essa totalidade - "não-existe" ("não-é") e, fazendo isso, acaba negando o próprio Ser humano enquanto tal.

Existem fundamentalmente duas maneiras de "negar" o "outro" (como o "diferente", o "distinto"): a primeira, "absorvendo" o "outro" no "mesmo" (enquanto possível, "agradavelmente"); a segunda, excluindo (desconhecendo, desconsiderando, descartando) o "outro" e dizendo que o "outro" "não-existe" ("não-é"). As duas maneiras estão presentes no processo histórico e meta-histórico do Ser humano como um todo, mas - podemos dizer - a primeira "predomina" nos países capitalistas industrializados (desenvolvidos) e a segunda "predomina" nos países capitalistas não-industrializados (subdesenvolvidos, do chamado Terceiro Mundo).

Nos países capitalistas industrializados, a Prática "desde o mesmo" (histórico-social e histórico-individual) se projeta e se processa (acontece) "comprometida" com um modo de fazer história em que a sociedade "absorve", "instrumentaliza" e "mercantiliza" o Ser humano em todos os campos, inclusive no da sexualidade, e não admite nem a possibilidade da existência do "outro" (do "diferente", do "distinto") histórico (social e individual) e meta-histórico (meta-social e meta-individual). Esta sociedade caracteriza-se pelo fim da oposição, pela aliança das classes, pelo totalitarismo, pela manipulação das necessidades e pela doutrinação dos objetos.

Na sociedade industrial desenvolvida, a produção e a distribuição em massa de objetos (produtos, mercadorias) "reivindicam o indivíduo inteiro e a psicologia industrial deixou de há muito de limitar-se à fábrica. Os múltiplos processos de introjeção parecem coisificados em reações quase mecânicas. O resultado não é o ajustamento, mas a mimese: uma identificação imediata do indivíduo com a sua sociedade e, através dela, com a sociedade em seu todo" (MARCUSE, H. A Ideologia da Sociedade Industrial. O Homem unidimensional. Zahar, Rio de Janeiro, 19734, p. 30-31. Para caracterizar a sociedade industrial desenvolvida sigo de perto o pensamento de H. MARCUSE com o qual estou plenamente de acordo).

Essa identificação imediata e automática "é o produto de uma gerência e organização complicadas e científicas" (Ib., p. 31).  Até o "espaço privado" (interior), no qual o Ser humano pode tornar-se e permanecer "ele próprio", se apresenta invadido e desbatado pela realidade tecnológica (Cf. Ib., p. 30).

Inclusive, na sociedade industrial contemporânea, "o progresso técnico e a vida mais confortável permitem a inclusão sistemática de componentes da libido (sexualidade) no campo da produção e troca de mercadorias. Mas, independentemente do quão controlada possa ser a mobilização da energia instintiva (importa às vezes em administração científica da libido), do quanto possa servir de sustentáculo do statu quo - ela é também agradável aos indivíduos administrados, como o é o pilotar uma lancha, empurrar a segadora motorizada no jardim, dirigir o automóvel a grande velocidade" (Ib., p. 84-85). Essa mobilização e administração da libido - que é um processo de dessublimação repressiva (controlada, ajustada, institucionalizada) - traz satisfação, mas, ao mesmo tempo, "gera submissão e enfraquece a racionalidade do protesto" (Ib., p. 85).

A classe trabalhadora, porém, podendo ter como seus "aliados" pessoas da chamada classe média e até de algumas pessoas da classe dominante (dispostas - por uma motivação humana e ética - a fazer o "suicídio de classe") poderá (como veremos) - de acordo com o seu nível de consciência e de organização (Movimentos Sociais Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partifos Políticos Populares e outras Organiações Sociais Populares) - se tornar o sujeito primordial da Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana) "desde o outro", ou seja, da Prática que - a partir dos pobres, empobrecidos, marginalizados, oprimidos, explorados e descatados pelo sistema dominante (dos que "não-são", dos que "não-contam") - leva à construção de uma história socialmente (estruturalmente) e individualmente (subjetivamente) nova.

Como diz o ditado: Povo unido e organizado jamais será vencido! É a nossa esperança. Para os que somos - ou queremos ser - Cristãos e Cristãs (radicalmente Seres humanos) é o Reino de Deus acontecendo na história do Ser Humano no Mundo com o Mundo: a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum. A luta continua! Vamos em frente!

(Continua no próximo artigo sobre o mesmo tema)

 

Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 28 de maio de 2026




O artigo foi publicado originalmente em:




domingo, 7 de junho de 2026

Romaria das CEBs em memória do 6º Intereclesial

 


Neste ano de 2026 celebramos 40 anos do 6º Encontro Intereclesial das CEBs, que aconteceu na cidade de Trindade (GO), de 21 a 25 de julho de 1986,

Participaram do 6º Encontro 1647 pessoas, das quais 742 eram representantes das bases, 203 agentes de pastoral, 30 assessores, 51 bispos, 16 representantes de Igrejas evangélicas, 10 representantes dos povos indígenas, 56 observadores latino-americanos, 35 observadores nacionais, 17 observadores de outros países, além do pessoal da imprensa, documentação e equipes de serviço.

O tema escolhido foi: CEBs, Povo de Deus em busca da Terra Prometida, ligado ao tema da Campanha da Fraternidade de 1986 como também provocado pelo agravamento da situação agrária no Brasil (cf. https://cebsdobrasil.com.br/intereclesiais/).

A Arquidiocese de Goiânia - com o apoio de Dom Fernando Gomes dos Santos, seu 1º arcebispo - tinha em 1986 um Secretariado de Pastoral (SPAR) bem organizado e um Plano de Pastoral no qual as CEBs eram a prioridade das prioridades.

À época Dom Fernando escreveu: "O Secretariado da Pastoral Arquidiocesana (SPAR) tem sido o grande centro de convergência e de irradiação de tudo o que se passa na Arquidiocese no campo pastoral... Hoje o SPAR conta com o Coordenador da Pastoral, Frei Marcos Sassatelli, OP que é também Vigário Geral, e com uma extraordinária equipe de sacerdotes, religiosas/os e leigas/os competentes, de rara dedicação e eficiência. No SPAR, funcionam oito Comissões que dinamizam as atividades fundamentais, referentes às prioridades do Plano Pastoral, elaborado em Assembleia Arquidiocesana e constantemente estudado nas reuniões e encontros...” (Veja o depoimento completo na Revista Eclesiástica Brasileira - REB, março de 1985).

Dom Fernando, que dizia ter-se convertido no Concílio Vaticano II (do qual particiou), o SPAR e toda a Arquidiocese acolheram o 6º Intereclesial e, com muito entusiasmo, começaram os preparativos.

Inesperadamente, no dia 1º de junho de 1985 (há 41 anos) Dom Fernando faleceu, ou melhor, fez sua Páscoa definitiva (a plenitude da Páscoa). A partida de Dom Fernando (que certamente continuou e continua presente de outra forma) nos abalou a todos e a todas, principalmente aqueles e aquelas que eram seus colaboradores diretos na Coordenação Pastoral.

Vivemos um período de certa perplexidade por estarmos preocupados e preocupadas com a continuidade da opção pastoral da Arquidiocese. Nesse período, foram tomadas algumas decisões e assumidas algumas posições de maneira um tanto autoritária e antifraternas. Tudo isso é humano e faz parte de nossas limitações.  

Superado esse período, a preparação do Encontro continuou e, ainda em 1985, “foi criada, em nível regional, uma Comissão Ampliada. É significativo assinalar a origem da Ampliada Nacional, constituída nos preparativos do Encontro de Trindade, como grupo de apoio e serviço de preparação à Igreja que sediava o Intereclesial. Sua criação foi uma maneira de se garantir a presença dos Regionais como um trabalho coordenado nacionalmente e de se garantir também a preservação da memória dos Encontros”.

O novo jeito de ser Igreja que caracteriza as CEBs “foi um dos temas de reflexão e aprofundamento que surgiram nesse Encontro. Clodovis Boff destacou três ideias fortes que definiram este novo jeito de ser Igreja: a Palavra de Deus, a participação e a luta. A analogia da roda serviu para ele demonstrar melhor a experiência das Comunidades como conjunto organizado: o eixo é a Palavra de Deus; os raios são os ministérios, as tarefas; o aro são as lutas da Comunidade, que fazem o povo caminhar na história”.

Outro aspecto relevante do 6º Encontro “foi a reflexão sobre a especificidade da luta das mulheres, negros e indígenas. É um marco na caminhada das CEBs, pois se reconhece agora outros planos de opressão social: a racial, a étnica e a de gênero (sexual). Dois outros temas assumirão um lugar de destaque nos Encontros subsequentes: a questão latino-americana e o ecumenismo” (https://cebsdobrasil.com.br/intereclesiais/).

Falou-se muitas vezes no Encontro que a Trindade é a melhor Comunidade. A comunhão entre irmãos e irmãs - iguais em dignidade e valor, mas diferentes nos dons e serviços - é a mensagem central das CEBs.

Lembro, enfim, que Dom Antonio Ribeiro de Oliveira, sucessor de Dom Fernando e novo arcebispo de Goiânia, apoiou e deu continuidade a preparação do 6º Intereclesial. Ele gostava de dizer que se converteu no Encontro de Trindade.

Foi em memória do 6º Encontro, que a Comissão de CEBs da Arquidiocese de Goiânia realizou no dia 30 de maio deste ano de 2026 uma Romaria ao Santuário do Divino Pai Eterno em Trindade (veja a programação no final do texto). Participaram ativamente dessa Romaria cerca de 300 pessoas.

Concluo, afirmando com toda convicção: a proposta de vida de Jesus e das primeiras Comunidades Cristãs - que é hoje a proposta das CEBs - se for bem entendida, é a mais revolucionária que existe. Ela faz o Mundo Novo acontecer, que é um mundo de irmãos e irmãs de verdade: o Reino de Deus na história do Ser humano e da Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum.




Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

                        Goiânia, 06 de maio de 2026


Parlamentares debochando na cara do Povo





Em 20 de abril, escrevi o artigo “Tribunal de Justiça de Goiás: descaradamente injusto”, denunciando as injustiças despudoradas do TJ-GO.

 

Lamentavelmente, no TJ-GO a prática da injustiça continua. “Uma auditoria determinada pela Corregedoria Nacional de Justiça, órgão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontou R$ 35 milhões em pagamentos indevidos nas folhas do pessoal de março, abril e maio de magistrados ativos e inativos do Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO). O montante é relacionado a itens como verbas retroativas vedadas, passivos funcionais acima do limite mensal e indenização de férias maior que o teto legal” (O Popular, 22/05/26, p. 6).

 

Infelizmente, no Poder Público, a prática despudorada da injustiça em benefício próprio não acontece somente no TJ-GO, mas é bastante comum.

 

Cito mais um caso do Estado de Goiás (nos outros Estados do Brasil e até nos outros países não é muito diferente).

 

“A Assembleia Legislativa de Goiás (ALEGO) atinge 5.874 cargos de livre nomeação: 143 por deputado. Estrutura supera números da Câmara dos Deputados, onde o máximo é de 25 cargos de confiança por congressista” (O Popular, 25/05/26, p. 6).

 

“Reportagem publicada pela Folha de S. Paulo mostrou que a ALEGO tem 14 comissionados para cada um dos 41 deputados estaduais. Com o resultado, o Legislativo de Goiás registrou a maior relação entre parlamentares e comissionados do País. A matéria destacou que o prédio da ALEGO tem gabinetes de 100 metros quadrados para cada parlamentar. Diante disso, caso todos fossem trabalhar ao mesmo tempo, cada funcionário teria menos de um metro quadrado de espaço” (O Popular, 29/05/26, p. 4).

 

E ainda: “A ALEGO pagou R$ 36,8 milhões a comissionados em abril” (Ib. Manchete da 1ª página). Que absurdo! Quanta malandragem!  

 

Diante dessa situação de imoralidade pública, que grita por justiça diante de Deus, pessoalmente, o que mais me dói é o silêncio e a omissão dos parlamentares que estão (ao menos, dizem que estão) do lado do povo pobre, explorado e descartado.

Pelo amor de Deus, não tenham medo, denunciem publicamente essa prática perversa e imoral. Não a aceitem em hipótese alguma. Sejam coerentes.

 

De um lado, é verdade que “os seres humanos fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado” (MARX, Karl. O 18 Brumário de Luis Bonaparte, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 5ª edição, 1986, p. 17).

 

De outro lado, é verdade também que aqueles e aquelas que acreditam num projeto de sociedade estruturalmente novo, um projeto igualitário de irmãos e irmãs: humano, ético, justo e comunitário (socialista e comunista no verdadeiro sentido da palavra), não podem deixar de anunciá-lo e testemunhá-lo publicamente sem barganhas e falsas alianças com aqueles e aquelas que defendem o projeto capitalista neoliberal ou ultraneoliberal, estruturalmente desumano, antiético e injusto.

 

A palavra “aliança”, que significa “comunhão de projetos”, foi muito banalizada, sobretudo na política partidária. Entre aqueles/as que defendem o projeto capitalista de sociedade e aqueles/as que lutam por um projeto alternativo de sociedade - igualitário e comunitário - não pode haver alianças. O máximo possível são acordos pontuais para resolver ou amenizar situações emergenciais que não podem esperar um novo projeto de sociedade com mudanças estruturais.

 

Lembremo-nos: os cristãos e as cristãs somos chamados e chamadas a ser “radicalmente seres humanos” (Hans Kung).

 

"Todo aquele e aquela que segue Cristo, o Ser humano perfeito, torna-se ele e ela também mais Ser humano" (GS 41). "A fé esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do Ser humano. E por isso orienta a mente para soluções plenamente humanas" (GS 11). Reparem: o texto não diz “soluções não somente naturais, mas também sobrenaturais” (visão dualista da vida humana), mas diz “soluções plenamente humanas”.

 

“O mistério do Ser humano só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado”. Cristo “revela o Ser humano ao próprio Ser humano e lhe descobre a sua sublime vocação” (GS 22). O plenamente humano, para os cristãos e cristãs, inclui a dimensão da fé.

 

O ser humano é também natureza (Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum), é a parte pensante da natureza e a natureza é também ser humano. O verdadeiro humanismo é um humanismo plenamente natural e - ao mesmo tempo - um naturalismo plenamente humano. Meditemos! Que assim seja!

 

Em tempo: No dia 1º de junho deste ano de 2026, completaram 41 anos da Páscoa plena e definitiva de Dom Fernando Gomes dos Santos, primeiro arcebispo da Arquidiocese de Goiânia. Ele foi um verdadeiro profeta, que lutou com coragem “sem violência e sem medo” contra a ditadura civil-militar, por uma sociedade mais justa de irmãos e irmãs e - ao mesmo tempo - por uma Igreja pós-conciliar renovada e libertadora à luz da Conferência de Medellín. Em Assembleia Geral da Arquidiocese, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) tornaram-se a prioridade das prioridades do Plano de Pastoral. Por diversos anos tive a alegria de ser amigo e colaborador dele como pessoa de total confiança no serviço de Coordenador da Pastoral e Vigário Geral da Arquidiocese de Goiânia. Por isso, sei também de quanto ele sofreu (sofrendo junto com ele) na sociedade e na própria Igreja. Dom Fernando, presente!

(Veja o Artigo: https://freimarcos.blogspot.com/2026/04/arquidiocese-de-goiania-70-anos.html)




ALEGO - Atividades parlamentares da semana 30/05/2026 a 03/06/2026   


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

                        Goiânia, 03 de maio de 2026