domingo, 8 de fevereiro de 2026

O Ser Humano como Ser de Práxis (2)

 


(Continua o tema do último artigo sobre o Ser Humano como Ser de Práxis - parte 2)

Existem atividades que são do Ser humano enquanto ser vivente, integrante do planeta Terra (comuns a todos os viventes). Por exemplo, o nascimento e o crescimento do Ser humano.

A própria Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum, é um grande ser vivo, um superorganismo vivo ou uma consciência viva inata (não reflexa).

Existem outras atividades que são do Ser humano enquanto ser vivente de vida animal (comuns a todos os animais). Por exemplo, num nível físico, as atividades de um órgão humano; num nível psíquico, as atividades do Ser humano (ou do animal) de tipo sensorial, instintivo etc. O Ser humano também é sujeito de atividades vitais biológicas ou instintivas que não transcendem seu nível meramente vital e/ou animal.

Existem, enfim, atividades que são do Ser humano enquanto tal, ou seja, enquanto ser vivente de vida animal racional, ser pensante (atividades propriamente humanas).

Como, porém, o Ser humano não é racionalidade pura, ele só pode ser racional, porque é vivente, porque é animal. No Ser humano, a racionalidade integra a biopsiquicidade (racionalidade biopsíquica) e a biopsiquicidade só é "humana" quando integra a racionalidade (biopsiquicidade racional).

A atividade propriamente ou especificamente humana distingue-se de qualquer outra que se situa no nível meramente vital e/ou animal.

"Essa atividade implica na intervenção da consciência, graças à qual o resultado existe duas vezes e em tempos diferentes: como resultado ideal e como produto real. O resultado ideal, que se pretende obter, existe primeiro idealmente, como mero produto da consciência, e os diversos atos do processo se articulam ou estruturam de acordo com o resultado que se dá primeiro no tempo, isto é, o resultado ideal. Em virtude dessa antecipação do resultado que se deseja obter, a atividade propriamente humana tem um caráter consciente. Sua característica é a de que por muito que o resultado real diste do ideal, trata-se, em todo caso, de adequar intencionalmente o primeiro ao segundo”.

Isso “não significa que o resultado obtido tenha de ser forçosamente uma simples duplicação real de um modelo ideal preexistente. Não, a adequação não tem por que ser perfeita. Pode assemelhar-se pouco, e até mesmo nada, com a finalidade original, já que esta sofre modificações, às vezes radicais, no processo de sua realização”.

Pois bem, “para que se possa falar em atividade humana basta que nela se formule um resultado ideal, ou fim a atingir, como ponto de partida, e uma intenção de adequação, independentemente de como se plasma, em definitivo, o modelo ideal original" (VÁSQUEZ, A. Sánchez. Filosofia da Práxis. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977², p. 187-188).

Toda atividade propriamente humana, portanto, se desenvolve de acordo com certas finalidades, e essas finalidades só existem como produtos da consciência do Ser humano. Elas prefiguram o resultado da atividade humana real (concreta), que já não é mera atividade da consciência. O Ser humano se encontra numa relação de interioridade com suas diferentes atividades e com seus produtos (não numa relação de exterioridade como acontece com um agente físico ou animal). A consciência do Ser humano estabelece as finalidades (os objetivos) como leis de suas atividades, às quais se subordinam os produtos, que, de certa maneira, são por elas governados. Essa subordinação e esse governo, todavia, nunca pode ser absoluto, porque se encontra limitado pelos objetos das atividades e pelos meios utilizados para a materialização e concretização das finalidades.

Por exemplo, no trabalho, como atividade especificamente humana, "ao final do processo de trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto (a finalidade) que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade" (MARX, K. O Capital. Livro I, Vol. I, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 19805, p. 202).

Na atividade propriamente humana, a consciência é a consciência do fim, que determina a consciência dos meios adequados à sua realização. O fim (ou causa final) é primeiro na ordem da concepção e último na ordem da execução ou da realização.

Por ser consciente, a atividade humana é uma atividade projetual e processual; ela é projeto (prospectiva mental) e processo (execução progressiva). "Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele projeta na mente sua construção antes de transformá-la em realidade” (Ib.).

A Práxis - por ser "o modo de ser-no-mundo conscientemente” (“o modo de ser-no-mundo se relacionando”) do Ser humano - é Práxis histórica e meta-histórica. A Práxis histórica é "o modo de ser-no-mundo historicamente” do Ser humano. A Práxis meta-histórica é "o modo de ser-no-mundo meta-historicamente” do Ser humano.

(Continua no próximo artigo sobre o mesmo tema)


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 26 de janeiro de 2026


O artigo foi publicado originalmente em:
https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano-como-ser-de-praxis-2/# (04/02/26)

 

16 de fevereiro de 2005 Mais uma vez: uma data que não pode ser esquecida

 


  “Ele - Jesus - veio morar entre nós” (João 1,14)

“É tarefa da Igreja, como parte de sua missão evangelizadora, denunciar como injustiça e como pecado que clama ao céu a negação e precarização do direito fundamental à moradia e apoiar e fortalecer os Movimentos Populares que lutam por moradia digna” (Campanha da Fraternidade 2026. Fraternidade e Moradia, 163).

No dia 16 de fevereiro de 2005, cerca de 14 mil pessoas (4 mil famílias) da Ocupação “Sonho Real”, no Parque Oeste Industrial (Goiânia - GO), foram despejadas e jogadas na rua numa hora e meia da forma mais desumana, iníqua, cruel, perversa e diabólica possível. Não dá para entender como seres humanos - no caso, o governador Marconi Perillo e seus colaboradores - possam ter sido capazes de uma maldade como essa. No mês de fevereiro, fazemos a memória, ou seja, tornamos presente hoje esse fato para que nunca mais aconteça.

A moradia digna é um direito fundamental de toda pessoa humana. Do ponto de vista ético, terrenos urbanos abandonados para futura especulação imobiliária ou terrenos rurais sem função social não só podem, mas devem ser ocupados por aqueles e aquelas que precisam deles para morar e/ou trabalhar.

Todo despejo é desumano, antiético e injusto; se tiver liminar de juiz, é mais injusto ainda porque se torna uma injustiça legalizada e institucionaliza. Pessoa humana não se despeja (não é lixo degradável).

Lembro mais uma vez que - do ponto de vista humano e cristão - só existem três casos nos quais os moradores/as de uma Ocupação podem ser removidos/as com dignidade e respeito (não despejados/as).

Primeiro:  se, no terreno ocupado, os moradores/as correm risco de vida. Nesse caso, o Poder Público tem a obrigação de removê-los o mais rápido possível e com todo cuidado. Se não tiver moradias dignas para serem ocupadas, o Poder Público tem a obrigação de pagar o aluguel social até que as moradias estejam prontas. Segundo: se o terreno ocupado for de utilidade pública. Terceiro: se o terreno ocupado for de preservação ambiental. Nos dois últimos casos, porém, somente depois que tiver outras moradias dignas prontas para serem ocupadas.

Em fevereiro de 2005, poucos dias antes do diabólico despejo - que foi uma verdadeira operação de guerra - o Governador Marconi Perillo tinha declarado publicamente - numa entrevista coletiva, na qual eu estava presente - que não iria mandar retirar as famílias da Ocupação “Sonho Real” e que estava decidida a desapropriação da área. Inclusive, tratava-se de uma área com todas as condições legais para ser desapropriada.

Ora, apesar de ter publicamente empenhado sua palavra (os Moradores e Moradoras fizeram até festa), Marconi Perillo, pressionado pelos donos das grandes Imobiliárias de Goiânia - os que realmente mandam na capital - foi covarde, não manteve a palavra dada e voltou atrás. Por ser bastante valorizada, a área da Ocupação “Sonho Real” tinha se tornado objeto de “especulação imobiliária” dos adoradores do deus dinheiro.

De 6 a 15 de fevereiro de 2005, de 0 às 6h (reparem o tempo e o horário!), a Polícia Militar do Estado de Goiás começou a ação violenta da hipocritamente chamada “reintegração de posse”. Cínica e maldosamente, recebeu o nome de "Operação Inquietação". Foram dez dias de tortura física e psicológica coletiva. Cercou a área com viaturas, impediu a entrada e a saída de pessoas e cortou o fornecimento de energia elétrica. Com as sirenes ligadas, com o barulho de disparos de armas de fogo, com a explosão de bombas de efeito moral (ou melhor: de “efeito imoral”!), gás de pimenta e lacrimogêneo, a Polícia Militar promoveu o terror entre os Moradores da Ocupação e provocou traumas psicológicos nas crianças. Que perversidade! Que crueldade! Nenhuma lei permite uma Operação noturna criminosa como essa.

Depois da “Operação Inquietação”, no dia 16 de fevereiro de 2005, a Polícia Militar do Estado de Goiás realizou uma verdadeira Operação de Guerra, que também - cínica e maldosamente - foi chamada "Operação Triunfo". Em uma hora e quarenta e cinco minutos, cerca de 14 mil pessoas (4 mil famílias) foram despejadas de suas moradias de maneira violenta, truculenta e sem nenhum respeito pela dignidade da pessoa humana. A Operação Militar produziu duas vítimas fatais (Pedro e Vagner), 16 feridos à bala, tornando-se um desses paraplégico (Marcelo Henrique) e 800 pessoas detidas (suspeita-se com razão que o número de mortos e feridos seja bem maior).

Já disse e reafirmo: nessas Operações Militares imorais e criminosas - mesmo que hipocritamente legalizadas - todos os Direitos Humanos fundamentais foram gravemente violados: o Direito à Vida, o Direito à Moradia, o Direito ao Trabalho, o Direito à Saúde, o Direito à Alimentação e à Água, os Direitos das Crianças e dos Adolescentes, os Direitos das Mulheres, os Direitos dos Idosos e os Direitos das Pessoas com Necessidades Especiais.

Depois do despejo forçado e violento, e depois de passar uma noite acampadas na Catedral de Goiânia - onde aconteceu também o velório de Pedro e Vagner num clima de muita indignação e sofrimento - cerca de mil famílias (aproximadamente 2.500 pessoas), que não tinham para onde ir - mesmo provisoriamente -  ficaram alojadas nos Ginásios de Esportes dos Bairros Novo Horizonte e Capuava (por mais de três meses) e, em seguida, no Acampamento do Grajaú (por mais de três anos) como verdadeiros refugiados de guerra.

Nesse período, diversas pessoas - sobretudo crianças e idosos - morreram em consequência das condições subumanas de vida, vítimas do descaso do Poder Público do Estado de Goiás e da Prefeitura de Goiânia. Foi o maior despejo urbano, o mais iniquo, o mais perverso e o mais cruel de toda a história de Goiânia, de Goiás e - acho eu - do Brasil, cometido pelo Poder Público.

Em 16 de fevereiro deste ano de 2026, a “Operação Triunfo” - apesar de muitos esforços no sentido de exigir a “federalização do caso” e a justiça - completa 21 anos de impunidade. Que vergonha para a Justiça de Goiânia, de Goiás e do Brasil! Quem pode acreditar nessa Justiça!

E tem mais! O governador da época Marconi Perillo - o maior responsável por esse despejo diabólico - tem a cara-de-pau de querer ser novamente candidato a governador, falando das mil maravilhas de seu governo. Será que ainda existem pessoas que acreditam nisso e vão votar nele?

Quanta maldade e quanta hipocrisia! Os responsáveis por tamanha iniquidade, praticada contra os Pobres, aguardem a justiça de Deus!  Ela pode tardar, mas nunca falha!

(Veja o Documentário: “Sonho Real: uma história de luta por moradia” do Coletivo da Mídia Independente - Goiânia - GO)  

                     Velório de Pedro e Vagner - https://fotografia.folha.uol.com.br   


                                                                                         Marcos Sassatelli - Frade dominicano 
Doutor em Filosofia (USP)
e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
                                                     Cel. e WA: (62) 9 9979 2282 

                                                                                                                                                                   Goiânia, 02 de fevereiro de 2026     



quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Ser Humano como Ser de Práxis (1)

 


A Práxis é a categoria que ocupa o lugar central - é o eixo - da Ética (ou, Antropologia ética) filosófico-teológica da Libertação.

A Práxis é o Ser humano - ser pluri-dimensional e pluri-relacional - "sendo", "vindo-a-ser" ("se fazendo", "acontecendo"); ela é o Ser humano "sendo conscientemente", ou seja, "sendo se relacionando" e - ao mesmo tempo - "se relacionando sendo". No "ser se relacionando", a ênfase é colocada no Ser humano como ser pluri-dimensional; no "se relacionar sendo", a ênfase é colocada no Ser humano como ser pluri-relacional.

Em outras palavras, a Práxis é o modo do Ser humano ser-no-mundo-com-o-mundo (a irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum) conscientemente.

Portanto, a Práxis "não é um modo, mas o modo de ser-no-mundo" do Ser humano; ela é "o modo intramundano que reúne todo o ser do Ser humano"; "o modo essencial de ser atualmente como Ser humano em seu mundo"; "o modo do Ser humano existir; "o modo pelo qual o Ser humano se lança no mundo e se transcede nele" ("o modo de sua transcendência").

A Práxis "é atualidade no mundo". A Práxis, "como atualidade no mundo, é a mobilidade mesma do Ser humano, é seu ser em ato, é simplesmente estar-sendo Ser humano. Esse estar-sendo é sempre de alguma maneira, e neste sentido mesmo o pensar é um modo de Práxis. E o fato de ter algo diante dos olhos como um ser pensado é um modo de ser atualmente no mundo (...); é um modo de Práxis (...)" (DUSSEL, E. Por uma Ética da Libertação latino-americana: I- Acesso ao ponto de partida da Ética. Loyola - Unimep, São Paulo - Piracicaba, 1982, p. 42, 88-90).

Sendo a mobilidade mesma do Ser humano seu ser em ato, a Práxis é "a 'totalidade estruturada das ações humanas' (...). Neste sentido a teoria surge. A Práxis segunda ou mera ação decidida é posterior ao ato teórico e se integra como um momento na totalidade da Práxis a priori" (DUSSEL, E. Filosofia da Libertação. Loyola - Unimep, São Paulo - Piracicaba, 1980, p. 240, nota 5).

Em suma, “a Práxis é a Vida do Ser humano na totalidade de suas determinações reais". “Ela não é atividade prática contraposta à teoria; é determinação da existência humana como elaboração da realidade" (CHATELET, F. Logos e Práxis. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1972, p. 215).

A Práxis,"sendo o modo específico de ser do Ser humano, com ele se articula de modo essencial, em todas as suas manifestações; e não determina apenas alguns de seus aspectos ou características. A Práxis se articula com todo o Ser humano e o determina na sua totalidade". Em poucas palavras, a Práxis "é a esfera do humano" (KOSIK, K. Dialética do Concreto. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1976², p. 202).

Pela Praxis, o Ser humano não só atua (age conhecendo e/ou conhece agindo), mas também tem consciência (sabe) que atua.

Enfim, o Ser humano "é real, efetiva e atualmente, quando existe, quando está em seu mundo presente pela Práxis". Por isso, "a morte indica a impossibilidade da Práxis, o radical não poder mais ser-no-mundo" (DUSSEL, E. Por uma Ética da Libertação latino-americana: I- Acesso ao ponto de partida da Ética, p. 90).

Ora, se a Práxis é atividade especificamente humana ou atividade consciente, podemos dizer que "toda Práxis é atividade, mas nem toda atividade é Práxis" (VÁSQUEZ, A. Sánchez. Filosofia da Práxis. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977², p. 185).

Em geral, por atividade entende-se aquela atividade (ou conjunto de atividades) em virtude da qual um agente (sujeito ativo) atua sobre uma determinada matéria-prima, para conservá-la ou transformá-la (modificá-la). Não especifica ainda de que tipo de atuação se trata, qual é a natureza da matéria-prima, nem qual é o resultado (o produto) desta atividade.

Assim entendida, "atividade opõe-se a passividade, e seu âmbito é o da efetividade e não o do meramente possível. O agente é o que age, o que atua, e não o que apenas tem possibilidade ou está em disponibilidade para atuar ou agir. Sua atividade não é potencial, mas sim atual" (Ib., p.186).

(Para uma visão histórica do conceito de "Práxis", cf. KONDER, L. O futuro da Filosofia da Práxis. O Pensamento de Marx no século XXI. Paz e Terra, São Paulo, 1992, p. 97-128. Cf. também PETROVIC, G. "Práxis". Em: BOTTOMORE, T. (Org.). Dicionário do Pensamento Marxista. Zahar, Rio de Janeiro, 1988, p. 292-296. E ainda GOZZI, G. "Práxis". Em: BOBBIO, N., MATTEUCCI, N. e PASQUINO, G. (Orgs.). Dicionário de Política. UNB, 1991, p. 987-992).

(Continua no próximo artigo sobre o mesmo tema)


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 21 de janeiro de 2026





O artigo foi publicado originalmente em:
https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano-como-ser-de-praxis-1/  (19/01/26)

domingo, 11 de janeiro de 2026

O Capitalismo: o mal estrutural mundial

 


                                                                                                     Invasão militar da Venezuela

pelos Estados Unidos

Hoje, o Capitalismo é o mal estrutural mundial, ou - em linguagem teológica - o pecado estrutural mundial, legalizado e institucionalizado.

A invasão militar da Venezuela pelos Estados Unidos e seu presidente Donald Trump - ocorrida no início de janeiro deste ano de 2026 - condenada pela ONU e pela Comunidade Internacional - é atualmente a prova mais evidente dessa realidade iníqua, perversa e diabólica, que é o Capitalismo (ou “Capetalismo”).

Pergunto: Quem elegeu Donald Trump presidente do mundo? Com que direito invadiu militarmente a Venezuela, desrespeitando gravemente o povo de outro país e matando vítimas Inocentes?

Na invasão da Venezuela, os principais direitos gravemente desrespeitados - além de outros - são:

Violação da Soberania Nacional: A ação militar direta dos EUA no território venezuelano, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, desrespeita o princípio fundamental da soberania dos Estados, consagrado na Carta das Nações Unidas.

Proibição do Uso da Força: O direito internacional proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, exceto em casos de legítima defesa ou com mandato da ONU. Especialistas foram unânimes em apontar a ilegalidade (e - acrescento - a imoralidade) da ação.

Violação de Direitos Humanos Fundamentais: O ataque resultou em mortes (ao menos 40 pessoas, segundo relatos iniciais) e muitos atos de violência contra o direito à vida de civis e militares envolvidos.

Desrespeito ao Devido Processo Legal: A operação, que incluiu a captura do presidente Nicolás Maduro para ser julgado nos EUA, foi considerada um ‘sequestro’ e uma clara violação das normas internacionais de extradição e do devido processo legal”. 

(https://www.google.com/search?sca_esv=7670df6d756a93b6&rlz=1C1CHZN_pt-BRBR1086BR1086&q=Lista+dos+direitos+violados+na+inva%C3%A7%C3%A3o+da+Venezuela..)  

Além de muitas outras Organizações civis e religiosas, a Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) e o Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM) condenaram (em nome da Igreja da Venezuela e de toda a América Latina) a agressão militar externa e rejeitaram qualquer intervenção estrangeira na Venezuela, defendendo a soberania do país e a busca por soluções pacíficas.

A Conferência Episcopal Venezuelana (CEV):

Rechaçou veementemente as ações militares dos EUA que resultaram na captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores  e pediu o fim da Violência.

Convidou o povo venezuelano a manter a serenidade, a sabedoria e a fortaleza diante dos acontecimentos recentes e a perseverar na oração pela unidade nacional.

Expressou solidariedade às vítimas da violência, aos feridos e aos familiares dos falecidos e falecidas.

Defendeu a Soberania e a enfatizou que a situação deve ser resolvida internamente, sem ingerências externas, garantindo a soberania do país.

Manifestou proximidade e solidariedade ao povo venezuelano em meio à angústia e ansiedade provocadas pela crise política e social.

O Conselho Episcopal Latino-americano e Caribenho (CELAM):

Divulgou uma Nota, condenando a agressão militar, rejeitando a violência, a intervenção externa e defendendo o diálogo e a negociação, no respeito à vontade do povo venezuelano. A nota sublinha que  "o bem do povo deve estar sempre acima de qualquer outra consideração".

Em nome de toda a Igreja Cristã Católica o Papa Leão XIV afirmou: "O bem-estar do amado povo venezuelano deve prevalecer sobre todas as outras considerações e levar à superação da violência e ao início de caminhos de justiça e paz, garantindo a soberania do país".(domingo, 04 de janeiro/26).

O CELAM, a CEV e o Papa concordam que o bem-estar do povo venezuelano deve prevalecer sobre quaisquer outras considerações políticas ou militares e que crise deve ser resolvida através de caminhos de justiça, paz e diálogo e em conformidade com o direito internacional

(Cf.https://www.google.com/search?q=A+posi%C3%A7ao+do+Celam+e+da+Igreja+venezuelana+sobre+a+invas%C3%A3o&rlz=1C1CHZN_pt-....).

Por fim, fiquei contente de ver a Igreja à qual pertenço - que é santa  (graça estrutural da instituição e graças pessoais dos critãos/ãs) e - ao mesmo tempo - pecadora (pecado estrutural da Instituição e pecados pessoais dos critãos/ãs) - se posicionar pública e profeticamente contra a invasão da Venezuela. 

Os cristãos e cristãs precisamos lutar muito para sermos de verdade e sempre:

uma Igreja Comunidade de irmãos e irmãs que - na pluralidade dos ministérios (serviços e diversidade dos carismas (dons) - têm a mesma dignidade e o mesmo valor;

uma Igreja realmente evangélica, profética, pobre e dos pobres;

uma Igreja que - sendo dos pobres - é de todos aqueles e aquelas que querem seguir o caminho de Jesus e das primeiras Comunidades cristãs, hoje.

Nunca é demais lembrar: se queremos ser cristãos e cristãs de verdade, precisamos ser radicalmente seres humanos. O verdadeiro cristianismo é um humanismo natural e um naturalismo humano radicais.

Unidos e unidas na luta por um outro muno possível: um Mundo Novo, sempre mais Novo.

Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, 
Foram presos ilegalmente por forças especiais do EUA.
 Imagem de arquivo (Foto: Prensa Presidencial).

Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia Flores,
foram presos ilegalmente por forças especiais do EUA.
Imagem de arquivo (Foto. Prensa Presidencial).




Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)   
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282  

Goiânia, 07 de janeiro de 2026

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

“Não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7)

 




Estamos no tempo litúrgico do Natal, que vai até o dia 11 de janeiro/26: 2º domingo do mês e Festa do Batismo de Jesus. 

Em geral, nas Celebrações do Natal fazemos a memória, ou seja, tornamos presente hoje o nascimento de Jesus, mas não refletimos - salvo poucas exceções - sobre o caminho que Maria grávida e José fizeram antes de Jesus nascer e o lugar onde Ele nasceu.

“Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o Império. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, se completaram os dias para o parto e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro da casa” (Lc 2,1-7).

Jesus nasceu como sem-teto e tudo indica que - ainda no seio de sua mãe Maria e junto com seu pai José - foi morador de rua em Belém.

Os próprios textos litúrgicos e os padres ou ministros que coordenam as Celebrações do tempo do Natal não falam nada sobre a manjedoura do estábulo onde Jesus nasceu e sobre o seu significado para nós hoje. Cito três exemplos: 

Na Missa da Noite de Natal - no Anúncio do Natal - lemos: “Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do eterno Pai, querendo santificar o mundo com o seu misericordioso advento, concebido pelo Espírito Santo, decorridos nove meses após a sua concepção, nasceu em Belém de Judá, da Virgem Maria, feito homem: natividade de nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne”.

Na mesma Missa - na Oração depois da Comunhão - rezamos: “Senhor nosso Deus, ao celebrarmos com alegria o Natal de Nosso Redentor, dai-nos alcançar, por uma vida santa, seu eterno convívio”.

E ainda: na Missa do Dia de Natal - também na Oração depois da Comunhão - rezamos: “Que o Salvador do mundo, hoje nascido, como nos fez nascer para a vida divina, nos conceda também a imortalidade”.

Pergunto: Por que Jesus nasceu na manjedoura de um estábulo? O que Ele quis nos dizer com isso? 

O que significam para nós as palavras: “Não havia lugar para eles dentro de casa”? Em nossa realidade de hoje, há lugar para Jesus nascer dentro de casa? Onde Jesus nasce? Meditemos!

Na Região Metropolitana de Goiânia - por exemplo - com certeza Jesus continua nascendo hoje como sem-teto nas Ocupações: Paulo Freire, Zumbi dos Palmares, Marielle Franco, Terra Prometida, Alto da Boa Vista e Beira da Mata (entre outras), onde nossos irmãos e irmãs lutam pelo direito à moradia digna, que é um direito fundamental de todo ser humano.

É nessas Ocupações e a partir delas que acontece hoje o nascimento de Jesus na vida de todos e todas aqueles e aquelas que querem ser seus seguidores e suas seguidoras.

Na Região onde Jesus nasceu “havia pastores, que passavam a noite nos campos tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: ‘Não tenham medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto lhes servirá de sinal: vocês encontrarão um recém-nascido, envolto em faixas e deitado na manjedoura’. De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: ‘Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados’” (Lc 2, 8-14).

Quando os anjos voltaram para o céu, “os pastores combinaram entre si: ‘Vamos a Belém, ver esse acontecimento que o Senhor nos revelou’. Foram então, às pressas, e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura. Tendo-o visto, contaram o que o anjo lhes anunciara sobre o menino. E todos os que ouviam os pastores, ficaram maravilhados com aquilo que contavam. Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração. Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido, conforme o anjo lhes tinha anunciado” (Lc 2, 15-20).

Os pastores foram os primeiros que receberam a Boa Notícia do nascimento de Jesus. Eles eram os “sem-terra” da época, mal-vistos pelos poderosos, porque ocupavam as grandes propriedades com seus rebanhos de ovelhas. Segundo uma lei daquele tempo, um pastor não podia ser testemunha em Tribunal. Não era considerado uma pessoa idônea.

Pessoalmente, neste Natal, não ouvi nenhum padre ou ministro (certamente houve alguns) que - coordenando a Celebração - falasse claramente sobre o significado para nós hoje do nascimento de Jesus como sem-teto na manjedoura de um estábulo

Ora, é a partir do seu nascimento como sem-teto, que Jesus continua nascendo hoje para todos aqueles e aquelas que querem ser seus seguidores e seguidoras.

Um feliz tempo de Natal e um Ano Novo de muitas vitórias para todos e todas nós que lutamos por um Mundo Novo. À luz da fé, é o Reino de Deus acontecendo na história do Ser humano e da Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum.

Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)   
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282  

Goiânia, 28 de dezembro de 2025





Paróquia Nossa Senhora da Terra - Jardim Curitiba 3 - Goiânia - GO - Natal de 2021

Por representar uma mulher pobre com o menino Jesus pobre,

sumiram com a imagem original de Nossa Senhora da Terra.

Pergunto: será que uma mulher rica dá à luz na manjedoura de um estábulo?

Quanta hipocrisia!



sábado, 20 de dezembro de 2025

“Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23, 2)



A acusação - que levou Jesus de Nazaré, o Salvador do mundo, a ser preso e a morrer na Cruz por amor a todos e todas nós, desde os pobres, marginalizados, oprimidos, excluídos e descartados - foi essa: “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23, 2).

Jesus ressuscitou, está vivo e caminha conosco. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome (por minha causa), eu estou aí no meio deles” (Mt 18, 20). E ainda: “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20).

Hoje, muitos cristãos e cristãs, que - como discípulos missionários e discípulas missionárias de Jesus de Nazaré continuam sua missão no mundo - são chamados e chamadas de “subversivos e subversivas”. Lembremos, por exemplo, os mártires do Brasil e da América Latina, como Pe. Josimo Tavares, Margarida Alves, Dom Oscar Romero e muitos outros.

O pior e o que mais dói é quando essas acusações são da própria Igreja Instituição e daqueles que - pelo ministério que exercem - deveriam ser verdadeiros irmãos e animadores das Comunidades cristãs.

A tomada de posição de Dom Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo, no Brasil, a respeito do Pe. Júlio Lancellotti - é uma grave violação dos Direitos Humanos e um comportamento totalmente antievangélico.

O caso repercutiu negativamente no Brasil, na América Latina e no mundo. É lamentável! Que Igreja é essa! Certamente não é a Igreja que Jesus sonhou e quis!

Faço minhas as palavras dos teólogos Leonardo Boff e Fernado Altemeyer Junior:

“Nos últimos dias, fomos surpreendidos por um fato que nos deixou estarrecidos: o Padre Júlio Lancellotti, o Cura d’Ars dos pobres e de gente de rua, que já há 40 anos cuida com ternura e amorosidade de centenas da população de rua, dando-lhes o pão, o abrigo, a biblioteca, a escola e tantas obras de genuína misericórdia bíblica, foi-lhe imposta, de repente, a proibição de transmitir pela mídia sua Missa dominical. Frequentavam a Missa, bem no sentido tradicional, portanto, livre de qualquer censura canônica, pessoas de sua Paróquia de São Miguel Arcângelo, gente de toda a cidade de São Paulo, gente vinda de todos os Estados da Federação, Missa seguida até no estrangeiro, na América Latina e na Europa. Não só. Foi-lhe vedado o acesso à mídia virtual na qual era frequente com sua presença profética e profunda sabedoria. Irradiava bondade e esperança. Sempre terminava com estas palavras-geradoras: Força! Coragem! Ninguém desanime!”.

(https://www.ihu.unisinos.br/661394-pe-julio-lancelllotti-um-justo-entre-as-nacoes-perseguido-artigo-de-leonardo-boff-e-fernando-altemeyer-jr).

Infelizmente, a posição de Dom Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo, é - ao menos nesse caso - a mesma dos Políticos que defendem uma sociedade estruturalmente injusta, desigual e que - por abominarem a população em situação de rua - perseguem e caluniam o Pe. Júlio Lancellotti.

Pe. Júlio, estamos com você. Apreciamos sua Nota Pública, mas temos consciência do profundo sofrimento seu, dos nossos irmãos e irmãs, moradores em situação de rua e dos pobres em geral. Desejamo-lhes um Natal de muita esperança e um Ano Novo de muitas vitórias.

Por fim, um Feliz Natal e um Feliz Ano Novo aos nossos leitores e leitoras.




Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)   
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282  

Goiânia, 18 de dezembro de 2025












domingo, 7 de dezembro de 2025

O Ser Humano meta-histórico “além da morte” (5)

 


 (Continua o tema do artigo anterior - parte 5)

O Ser humano meta-histórico “já e ainda não” - além de meta-social - é também meta-individual, mas a meta-individualidade não é a totalidade do Ser humano meta-histórico.

A "meta-individualidade" - "meta-corporeidade", "meta-biopsiquicidade" e "meta-espiritualidade" ou "meta-pessoalidade" - é, podemos dizer, "meta-individualidade social", porque o indivíduo influencia e condiciona dialeticamente a sociedade (e vice-versa, como já vimos).

O Ser humano individual, ou seja, em suas relações individuais (interindividuais), é "ontologicamente" voltado para o meta-individual; é, "já e ainda não", meta-individual. A dimensão da meta-individualidade - meta-corporeidade, meta-biopsiquicidade, meta-espiritualidade ou meta-pessoalidade - é constitutiva do Ser humano meta-histórico.

O Ser humano individual - ser corpóreo, biopsíquico e espiritual ou pessoal - meta-individualiza-se, dialética e permanentemente, como “Vida individual” ou “Morte individual”, até à meta-individualização plena (total, absoluta) como “Vida individual plena” ou “Morte individual plena”.

A meta-individualização plena (total, absoluta) como “Vida individual plena” é a afirmação da dimensão individual do Ser humano em sua plenitude: humanização plena (Vida eterna, Páscoa definitiva, plenitude da Ressurreição, plenitude do Reino de Deus, Salvação eterna, Céu, Paraíso).

A meta-individualização plena (total, absoluta) como “Morte individual plena” é a negação de tudo o que foi dito no parágrafo anterior (Anti-Reino de Deus, Perdiçao eterna, Inferno).

Para o Ser humano meta-individual (meta-corpóreo, meta-bio-psíquico, meta-espiritual ou meta-pessoal) unido aos outros (semelhantes), o processo dialético e permanente da meta-individualização - até à meta-individualização plena (total, absoluta) como Vida meta-individual plena ou Morte meta-individual plena - passa pelo reconhecimento dos outros como outros ou não e pela experiência do amor meta-individual (meta-corpóreo, meta-bio-psiquico, meta-espiritual ou meta-pessoal) ou não (desamor meta-individual, egoísmo meta-individual), em todas as suas manifestações (expressões).

Essa experiência é ainda a condição necessária para encontrar (conhecer e vivenciar) o significado fundamental - último e definitivo - da existência humana individual. A experiência do amor meta-individual ou não se dá (acontece) na e pela Práxis meta-individual (voltaremos sobre o assunto, falando da Práxis meta- individual).

No final do tema do Ser humano meta-histórico “já e ainda não” e “além da morte”, sinto a necessidade - baseado em argumentos racionais iluminados pela fé - de levantar alguns questionamentos e de dar-lhes a minha resposta.

Os questionamentos: Se cremos que Deus é Amor (Comunidade de Amor, Santíssima Trindade) e que o Ser humano - criado à imagem e semelhança de Deus - é também Amor, como podemos admitir que irmãos e irmãs nossos se encontrem na “absoluta frustração no ódio” (desamor), ou seja, na Morte plena (Morte eterna, Inferno)? Como podemos ser felizes, aceitando que irmãos e irmãs nossos sejam infelizes, sofrendo para toda a eternidade? Qual é a relação que existe entre a vontade de Deus e a liberdade do Ser humano?

A minha resposta: Reconheço que, ontologicamente falando, a possibilidade meta-histórica da Morte plena (Morte eterna) existe. Creio, porém, que Deus Amor, na sua infinita misericórdia (que é o Amor acontecendo), nunca permitiu (até no caso do traidor Judas Iscariotes), nunca permite e nunca permitirá que essa possibilidade meta-histórica “além-da-morte” se torne uma realidade concreta. Creio ainda que Deus - por ser Amor - no limiar entre o tempo e a eternidade, sempre deu, sempre dá e sempre dará a todos e a todas (inclusive, aos maiores criminosos e criminosas) as condições necessárias para fazerem um ato de Amor totalmente livre e sincero - tão intenso e tão profundo - que leve à conversão e à mudança total de vida (penso também que tenha acontecido o mesmo - embora de maneira diferente - com o chamado “mundo dos anjos”).

Na minha experiência existencial (imagino que isso aconteça com todos os Seres humanos), não conseguiria ser feliz, sabendo que um irmão meu (mesmo que tenha sido o maior criminoso do mundo e mesmo que seja um só) é infeliz para sempre, na Morte eterna. Afinal, é meu irmão ou minha irmã!

“Reconhecemos o Amor que Deus tem por nós e acreditamos nesse Amor. Deus é Amor: quem permanece no Amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4, 16). “Em Deus vivemos, nos movemos e existimos”. “Deus quer que todos os Seres humanos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”. “É Deus que realiza em nós tanto o querer como o fazer, conforme seu desígnio benevolente” (At 17, 28; 1Tm 2, 4; Fl 2, 13 respectivamente. Veja também: CONCÍLIO VATICANO II.  A Igreja no mundo de hoje - GS, 45)

Ora, se é Deus “que realiza em nós tanto o querer como o fazer”, com certeza Ele só pode querer e fazer o bem.

Em atitude de adoração diante da infinita sabedoria de Deus Amor,

faço minha a prece das Laudes (Oração da Manhã)

da segunda-feira da Sexta Semana do Tempo Pascal:

“Pelos méritos da cruz de Cristo, que morreu para libertar o mundo,

dai à humanidade inteira a salvação e a paz”.

(No próximo artigo começaremos a refletir sobre o tema: O Ser Humano como Ser de Práxis)


Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Goiânia, 06 de novembro de 2025





O artigo foi publicado originalmente em:
https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano-meta-historico-alem-da-morte-5/ (16/11/25)

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos