domingo, 8 de fevereiro de 2026

16 de fevereiro de 2005 Mais uma vez: uma data que não pode ser esquecida

 


  “Ele - Jesus - veio morar entre nós” (João 1,14)

“É tarefa da Igreja, como parte de sua missão evangelizadora, denunciar como injustiça e como pecado que clama ao céu a negação e precarização do direito fundamental à moradia e apoiar e fortalecer os Movimentos Populares que lutam por moradia digna” (Campanha da Fraternidade 2026. Fraternidade e Moradia, 163).

No dia 16 de fevereiro de 2005, cerca de 14 mil pessoas (4 mil famílias) da Ocupação “Sonho Real”, no Parque Oeste Industrial (Goiânia - GO), foram despejadas e jogadas na rua numa hora e meia da forma mais desumana, iníqua, cruel, perversa e diabólica possível. Não dá para entender como seres humanos - no caso, o governador Marconi Perillo e seus colaboradores - possam ter sido capazes de uma maldade como essa. No mês de fevereiro, fazemos a memória, ou seja, tornamos presente hoje esse fato para que nunca mais aconteça.

A moradia digna é um direito fundamental de toda pessoa humana. Do ponto de vista ético, terrenos urbanos abandonados para futura especulação imobiliária ou terrenos rurais sem função social não só podem, mas devem ser ocupados por aqueles e aquelas que precisam deles para morar e/ou trabalhar.

Todo despejo é desumano, antiético e injusto; se tiver liminar de juiz, é mais injusto ainda porque se torna uma injustiça legalizada e institucionaliza. Pessoa humana não se despeja (não é lixo degradável).

Lembro mais uma vez que - do ponto de vista humano e cristão - só existem três casos nos quais os moradores/as de uma Ocupação podem ser removidos/as com dignidade e respeito (não despejados/as).

Primeiro:  se, no terreno ocupado, os moradores/as correm risco de vida. Nesse caso, o Poder Público tem a obrigação de removê-los o mais rápido possível e com todo cuidado. Se não tiver moradias dignas para serem ocupadas, o Poder Público tem a obrigação de pagar o aluguel social até que as moradias estejam prontas. Segundo: se o terreno ocupado for de utilidade pública. Terceiro: se o terreno ocupado for de preservação ambiental. Nos dois últimos casos, porém, somente depois que tiver outras moradias dignas prontas para serem ocupadas.

Em fevereiro de 2005, poucos dias antes do diabólico despejo - que foi uma verdadeira operação de guerra - o Governador Marconi Perillo tinha declarado publicamente - numa entrevista coletiva, na qual eu estava presente - que não iria mandar retirar as famílias da Ocupação “Sonho Real” e que estava decidida a desapropriação da área. Inclusive, tratava-se de uma área com todas as condições legais para ser desapropriada.

Ora, apesar de ter publicamente empenhado sua palavra (os Moradores e Moradoras fizeram até festa), Marconi Perillo, pressionado pelos donos das grandes Imobiliárias de Goiânia - os que realmente mandam na capital - foi covarde, não manteve a palavra dada e voltou atrás. Por ser bastante valorizada, a área da Ocupação “Sonho Real” tinha se tornado objeto de “especulação imobiliária” dos adoradores do deus dinheiro.

De 6 a 15 de fevereiro de 2005, de 0 às 6h (reparem o tempo e o horário!), a Polícia Militar do Estado de Goiás começou a ação violenta da hipocritamente chamada “reintegração de posse”. Cínica e maldosamente, recebeu o nome de "Operação Inquietação". Foram dez dias de tortura física e psicológica coletiva. Cercou a área com viaturas, impediu a entrada e a saída de pessoas e cortou o fornecimento de energia elétrica. Com as sirenes ligadas, com o barulho de disparos de armas de fogo, com a explosão de bombas de efeito moral (ou melhor: de “efeito imoral”!), gás de pimenta e lacrimogêneo, a Polícia Militar promoveu o terror entre os Moradores da Ocupação e provocou traumas psicológicos nas crianças. Que perversidade! Que crueldade! Nenhuma lei permite uma Operação noturna criminosa como essa.

Depois da “Operação Inquietação”, no dia 16 de fevereiro de 2005, a Polícia Militar do Estado de Goiás realizou uma verdadeira Operação de Guerra, que também - cínica e maldosamente - foi chamada "Operação Triunfo". Em uma hora e quarenta e cinco minutos, cerca de 14 mil pessoas (4 mil famílias) foram despejadas de suas moradias de maneira violenta, truculenta e sem nenhum respeito pela dignidade da pessoa humana. A Operação Militar produziu duas vítimas fatais (Pedro e Vagner), 16 feridos à bala, tornando-se um desses paraplégico (Marcelo Henrique) e 800 pessoas detidas (suspeita-se com razão que o número de mortos e feridos seja bem maior).

Já disse e reafirmo: nessas Operações Militares imorais e criminosas - mesmo que hipocritamente legalizadas - todos os Direitos Humanos fundamentais foram gravemente violados: o Direito à Vida, o Direito à Moradia, o Direito ao Trabalho, o Direito à Saúde, o Direito à Alimentação e à Água, os Direitos das Crianças e dos Adolescentes, os Direitos das Mulheres, os Direitos dos Idosos e os Direitos das Pessoas com Necessidades Especiais.

Depois do despejo forçado e violento, e depois de passar uma noite acampadas na Catedral de Goiânia - onde aconteceu também o velório de Pedro e Vagner num clima de muita indignação e sofrimento - cerca de mil famílias (aproximadamente 2.500 pessoas), que não tinham para onde ir - mesmo provisoriamente -  ficaram alojadas nos Ginásios de Esportes dos Bairros Novo Horizonte e Capuava (por mais de três meses) e, em seguida, no Acampamento do Grajaú (por mais de três anos) como verdadeiros refugiados de guerra.

Nesse período, diversas pessoas - sobretudo crianças e idosos - morreram em consequência das condições subumanas de vida, vítimas do descaso do Poder Público do Estado de Goiás e da Prefeitura de Goiânia. Foi o maior despejo urbano, o mais iniquo, o mais perverso e o mais cruel de toda a história de Goiânia, de Goiás e - acho eu - do Brasil, cometido pelo Poder Público.

Em 16 de fevereiro deste ano de 2026, a “Operação Triunfo” - apesar de muitos esforços no sentido de exigir a “federalização do caso” e a justiça - completa 21 anos de impunidade. Que vergonha para a Justiça de Goiânia, de Goiás e do Brasil! Quem pode acreditar nessa Justiça!

E tem mais! O governador da época Marconi Perillo - o maior responsável por esse despejo diabólico - tem a cara-de-pau de querer ser novamente candidato a governador, falando das mil maravilhas de seu governo. Será que ainda existem pessoas que acreditam nisso e vão votar nele?

Quanta maldade e quanta hipocrisia! Os responsáveis por tamanha iniquidade, praticada contra os Pobres, aguardem a justiça de Deus!  Ela pode tardar, mas nunca falha!

(Veja o Documentário: “Sonho Real: uma história de luta por moradia” do Coletivo da Mídia Independente - Goiânia - GO)  

                     Velório de Pedro e Vagner - https://fotografia.folha.uol.com.br   


                                                                                         Marcos Sassatelli - Frade dominicano 
Doutor em Filosofia (USP)
e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
                                                     Cel. e WA: (62) 9 9979 2282 

                                                                                                                                                                   Goiânia, 02 de fevereiro de 2026     



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