quinta-feira, 28 de maio de 2026

O Ser Humano como Ser de Práxis (4)

 


(Continua o tema do último artigo sobre o Ser Humano como Ser de Práxis - parte 4)

A Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana) é - para o Ser humano - "o modo de ser-no-mundo (histórica e meta-historicamente) prático-teórico", ou seja, "o modo prático de ser-no-mundo” que - direta ou indiretamente - integra “o modo teórico de ser-no-mundo". A Práxis é entendida aqui como Prática teórica (como Teoria prática, veremos depois), ou seja, como Prática dialeticamente unida à Teoria. A ênfase é colocada na Prática, na Ação como atitude humana concreta frente à realidade.

"A atitude prática não é simplesmente ateórica no sentido de que não tenha nenhuma compreensão do que acontece no mundo. A diferença entre o prático e o teórico não consiste em que o primeiro age e o segundo contempla. A conduta prática, a atitude existencial, possui, certamente, uma compreensão de tudo o que se apresenta dentro do mundo; sua atitude, porém, não é teórica, mas cotidiana, existencial" (DUSSEL, E. Para uma Ética da Libertação latino-americana: I - Acesso ao ponto de partida da Ética, p. 42)

A Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana) comporta sempre certos conhecimentos, como, por exemplo: um conhecimento da realidade na qual se quer atuar (para conservá-la ou transformá-la); um conhecimento dos meios a serem utilizados (as técnicas exigidas em cada Prática ou Ação humana); um conhecimento da experiência feita e elaborada anteriormente, que serve de referencial teórico para determinada atividade; um conhecimento dos objetivos (finalidades) da atividade pela antecipação ideal (intelectual) dos resultados da mesma, que têm de corresponder às condições (necessidades) objetivas da realidade e ao nível de consciência das pessoas envolvidas (cf. VÁSQUEZ, A. Sánchez. Filosofia da Práxis. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977², p. 240).

A Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana) - por ser histórica e meta-histórica - é sempre "comprometida" e nunca "neutra". Tratamos aqui de um "comprometimento" ou "não-neutralidade" da própria Práxis prático-teórica enquanto tal (em seus aspectos externos e internos); de um "comprometimento" ou "não-neutralidade" práxica (prático-teórica).

Podemos dizer que a Práxis prático-teórica (por ser praxicamente "comprometida" e "não-neutra") é Práxis "desde o mesmo” ou Práxis "desde o outro".

Agora, não vamos fazer nenhum juízo ou valoração ética (veremos isso depois), mas somente analisar e interpretar - "filosofico-teologicamente" - a Práxis prático-teórica "desde o mesmo" ou "desde o outro".

A Práxis prático-teórica "desde o mesmo” (“a partir do mesmo”, "do lugar do mesmo"), é a Prática ou Ação humana que se projeta e se processa (acontece) "comprometida" com o "mesmo" histórico: social (socioeconômico-político-ecológico-cultural-religioso) e individual (corpóreo, biopsíquico, espiritual ou pessoal) e meta-histórico: meta-social e meta-individual.

Em outras palavras, é a Prática ou Ação humana que se projeta e se processa "comprometida" com a "ordem estabelecida" (statu quo), ou seja, com o Sistema vigente, que é hoje o Sistema Capitalista neoliberal ou ultraneoliberal. 

(O Sistema do Socialismo real tornou-se, na realidade, um Capitalismo de Estado. Apesar disso - para a maioria das pessoas, ao menos do ponto de vista socioeconômico - ele tem diversas vantagens sobre o Sistema Capitalista propriamente dito).

No sistema capitalista neoliberal ou ultraneoliberal, o sujeito primordial da Prática ou Ação humana é a classe dominante, proprietária dos grandes meios de produção e detentora do poder econômico, político, ecológico, cultural e religioso.

A classe média é formada pelos médios proprietários e (podemos dizer hoje) pelos assalariados de alto poder aquisitivo.

A classe trabalhadora (ligada diretamente à produção) é formada pelos pequenos proprietários, trabalhadores/as autônomos, trabalhadores/as assalariados e - por extensão - toda a classe dos assalariados, prestadora dos mais diferentes serviços.

No sistema capitalista neoliberal ou ultraneoliberal dominante, a classe média e a classe trabalhadora são duas classes socialmente (ou estruturalmente) subordinadas (em maior ou menor grau) aos interesses da classe dominante.

Social e individualmente falando, a Prática da classe média e da classe trabalhadora, em sua maioria, é também - do ponto de vista objetivo e não sempre do ponto de vista subjetivo (intencional) - uma Prática "desde o mesmo", ou seja, uma Prática "comprometida" com o sistema dominante, contribuindo para sustentá-lo (defendê-lo, legitimá-lo) e reproduzi-lo.

Essa é a nossa realidade, mas a esperança nunca morre! A possibilidade de superar e sair dessa situação existe. Cabe às Organizações Sociais Populares (Movimentos Populares, Partidos Políticos Populares, Sindicatos de Trabalhadores/as, Organizações de Mulheres, Entidades de Estudantes, Comissões de Direitos Humanos, Comissões de Justiça e Paz e muitas outras) lutarem unidas e organizadas para fazer acontecer um Novo Projeto de Sociedade e de Mundo.

Para os que somos Cristãos e Cristãs, esse Novo Projeto é o próprio Reino de Deus acontecendo no mundo com o mundo: a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum. Não sejamos omissos! Lutemos unidos/as e organizados/as!

(Continua no próximo artigo sobre o mesmo tema)


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 14 de abril de 2026



O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano-como-ser-de-praxis-4/ (18/05/26)


sexta-feira, 15 de maio de 2026

A bandidagem legalizada e institucionalizada continua

 



O “TJ-GO fez 50 pagamentos acima de R$ 200 mil em abril” (O Popular, 12 de maio de 2026. Manchete da 1ª página). “Tribunal gastou R$ 49,6 milhões em indenizações para magistrados no mês, 118% a mais que março. CNJ determinou cumprimento do teto salarial de R$ 46,3 mil” (Ib.).

“Pagamentos do TJ acima de R$ 100 mil são 448 só em abril”. Penduricalhos: “gratificações e indenizações custaram R$ 49,6 milhões no mesmo mês, que teve 50 repasses maiores que R$ 200 mil (Ib. p. 4). Chega! Não dá mais!

A bandidagem legalizada e institucionalizada continua e dá nojo em qualquer pessoa que tem um mínimo de sensibilidade humana. Ninguém acredita que um Tribunal como esse possa ser um “Tribunal de Justiça”. Que justiça é essa!?

Trata-se de uma perversidade permanente e diabolicamente planejada, que é de um cinismo repugnante: um verdadeiro pontapé na cara dos pobres e dos trabalhadores/as que ganham até um salário-mínimo. Não dá para acreditar que um ser humano seja capaz de tamanha injustiça!

Infelizmente, na sociedade capitalista neoliberal, a cadeia só existe para os pobres. Quando - em casos raríssimos - um rico é preso, só se fala em prisão domiciliar e em redução ou perdão da pena. Os pobres não merecem isso. Trata-se de uma sociedade hipócrita e estruturalmente injusta.

Pergunto:  Como vamos enfrentar essa realidade que clama por justiça diante de Deus?

O Supremo Tribunal Federal (STF), composto por 11 ministros:

- Por ser o Guardião da Constituição Federal de 1988, não deveria garantir a supremacia das normas constitucionais e o cumprimento da lei máxima do Brasil?

- Por ser o Foro Privilegiado, não deveria julgar as autoridades, como o Presidente e Vice-Presidente da República, os membros do Congresso Nacional (deputados e senadores), os ministros de Estado e os seus próprios ministros em infrações penais comuns?

- Por ser a última Instância Recursal, não deveria analisar os recursos extraordinários se uma decisão de Tribunais inferiores violasse a Constituição?

- Por ser o Tribunal da Federação, não deveria resolver os conflitos entre os entes federativos         (União, Estados, DF e Municípios)?

E ainda, o STF, por ser a Instância máxima do Poder Judiciário e ter o Controle da Constitucionalidade:

- Não deveria analisar as leis (ou atos normativos) federais e estaduais para ver se estão de acordo com a Constituição? Se não estiverem, não deveria declará-las inconstitucionais e anulá-las?

- Não deveria atuar sempre para manter o equilíbrio entre os Poderes, proteger os direitos fundamentais e proferir sentenças definitivas?

Por fim, em respeito aos trabalhadores e trabalhadoras - não está na hora (ou melhor, não passou da hora) do STF tomar providências urgentes e rápidas a respeito do caso do TJ-GO e outros semelhantes?

(Cf. https://portal.stf.jus.br/textos/verTexto.asp?servico=sobreStfConhecaStfInstitucional)

A luta continua! Esperançar é preciso!

“Senhor, seus caminhos são justos e verdadeiros” (Ap 15,3)

“Ser Cristãos e Cristãs é ser radicalmente Seres Humanos” (Hans Küng)

“Para que toda a humanidade se abra à esperança de um Mundo Novo”

(Oração Eucarística VI-D. - Edição de 1992)

Tribunal de Justiça do Estado de Goiás - TJ-GO


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 15 de maio de 2026


quarta-feira, 6 de maio de 2026

O Jesus da Trabalhadora e Trabalhador: o Jesus do Evangelho

 


No 1º de maio/26 celebramos, mais uma vez, o Dia Internacional da Trabalhadora e Trabalhador. No Brasil (como em outros países) as Centrais Sindicais, os Sindicatos de Trabalhadoras e Trabalhadores, os Movimentos Sociais Populares, as Organizações de Mulheres, as Entidades de Jovens Estudantes, os Fóruns ou Comitês de Direitos Humanos, as Comissões de Justiça e Paz e Outras Organizações Populares - unidas e unidos (mesmo com suas diferenças) realizaram Manifestações, que fortaleceram - e continuam fortalecendo - sua vontade de lutar com esperança, que já é certeza de vitória.

Em Goiânia - no 1º de maio/26 - as entidades acima citadas realizaram, no centro da cidade - das 8 às 12 horas - com a participação de cerca mil pessoas (entre as quais me incluo) uma Manifestação muito bonita e significativa.

Em todas as Manifestações do país foram destacadas as questões: do emprego (condenando a exploração estrutural do sistema capitalista e os casos de trabalho escravo), do direito das trabalhadoras e trabalhadores, da democracia popular, da soberania e da vida digna para todas e todos. Foi reivindicada também a votação do fim da escala 6x1 no trabalho.

Como cristão, acredito que - nas Manifestações do 1º de maio/26 - o Jesus da Trabalhadora e Trabalhador, que o Jesus do Evangelho, estava presente e caminhava conosco.

Ora, eu pergunto: quem é o Jesus do Evangelho? De forma muito resumida, respondo: o Jesus do Evangelho é o Jesus que nasceu como Sem-Teto. Maria grávida e José seu esposo tinham ido a Belém para o recenseamento. Chegou a hora de Maria dar à luz. Tudo indica que - ainda no seio de sua mãe Maria e junto com seu pai José - Jesus foi Morador de Rua, pousando debaixo das marquises da cidade de Belém.

Alguém que estava passando ficou com pena da situação e abriu um estábulo para Maria dar à luz. Jesus nasceu numa manjedoura como Sem-Teto. “Não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7). Os que, em primeira mão, receberam a Boa Notícia do nascimento de Jesus foram os Pastores, os Sem-Terra da época. “Eu anuncio a vocês a Boa-Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador” (Lc 2,10-11).

Jesus manifestou-se aos Reis Magos, sábios e estudiosos que - vindo do Oriente em busca de sinais da presença de Deus - representavam todos os povos de todas as culturas.

Com sua mãe Maria e seu pai José, Jesus foi migrante no Egito para fugir de Herodes que - obcecado pelo poder - queria matá-lo.

Jesus cresceu, em sabedoria e graça, numa família pobre e - vivendo uma vida simples e anônima - trabalhou por muitos anos como carpinteiro com seu pai José. “Não é este o filho do carpinteiro?” Sua mãe não se chama Maria? (Mt 13,55). “Não é este o carpinteiro?” (Mc 6,3).

Em sua vida pública - anunciando a Boa Notícia do Reino de Deus a todas e todos, mas a partir da manjedoura e de tudo o que ela significa, Jesus - como o Profeta e o Enviado do Pai - sempre foi próximo, compassivo e entranhadamente solidário para com o Povo: os Pobres - doentes, leprosos, sofredores, marginalizados, oprimidos, explorados, descartados - e todos aqueles e aquelas que não tinham voz e não tinham vez na sociedade. “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8,20).

Pela sua proximidade, compaixão e entranhável solidariedade tornou-se defensor intransigente do Povo; denunciou, com indignação e firmeza, a hipocrisia dos fariseus e doutores da Lei. “Serpentes! Raça de cobras venenosas!” (Mt 23,33).

Dialogou com o jovem rico, que - pelo seu apego aos bens - não teve a coragem (ao menos naquele momento) de segui-lo e foi embora triste (cf. Mt 19,16-26; Mc. 10,17-27; Lc 18,18-30). Encontrou-se com Zaqueu - também homem rico - em sua casa, que se converteu e mudou totalmente de vida, praticando a partilha dos bens (cf. Lc 19,1-10).

A presença de Jesus, anunciando a Boa Notícia do Reino de Deus - que é sua Utopia, seu Projeto de Vida - não deixou e não deixa ninguém indiferente ou em cima do muro. Todas e todos sentiram-se e sentem-se obrigadas e obrigados a tomar uma posição: a favor ou contra. As exigências de Jesus para com suas seguidoras e seguidores, são radicais. Todas e todos, mesmo diferentes, são iguais em dignidade e valor, chamados a viver em Comunidades de irmãs e irmãos de verdade (sem classes). Existe um projeto de vida mais revolucionário do que esse? Não é esse o verdadeiro socialismo e comunismo (ou comunitarismo)?

Jesus celebrou a última Ceia com os discípulos e - depois de lavar seus pés - disse: “Eu vos dei o exemplo para que vocês façam o que eu fiz” (Jo 13,16).

Pelo seu jeito de ser e agir, pela sua pregação, Jesus foi considerado subversivo. “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo”. “Ele está provocando revolta entre o povo, com seu ensinamento” (Lc 23,2.5). Diante de Pilatos, Jesus foi acusado de ser um malfeitor. “Se ele não fosse malfeitor, não o teríamos trazido até aqui” (Jo 18,30).

Foi como subversivo e malfeitor que Jesus foi preso e condenado. Morreu na Cruz por amor. “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim(Jo 13,1).

Jesus ressuscitou, está vivo e caminha conosco. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome (por minha causa e do meu Projeto), eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20). “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (ib. 28,20).

É esse o Jesus do Evangelho, ontem, hoje e sempre. É esse o Jesus que caminha com as Trabalhadoras e Trabalhadores em suas lutas por um Mundo Novo.

Por fim, faço minhas as palavras do Papa Francisco aos representantes dos Movimentos Populares, por ocasião do 10º aniversário do 1º Encontro mundial: "continuem a combater a economia criminosa com a economia popular.  Não desistam...” (20 de setembro de 2024).

Trabalhadoras e Trabalhadores unidos e organizados jamais serão vencidos!


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 03 de maio de 2026




A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos