segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Nem União Democrática Ruralista na Presidência e nem Operação Triunfo em Goiás

 


O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou, no dia 2 de março de 2026, a Resolução nº. 23.760, que estabelece o calendário oficial das Eleições de 2026.

Elas ocorrerão no dia 4 de outubro deste ano (1º turno). Serão pessoas eleitas para os cargos de presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais. Nos casos em que houver necessidade de 2º turno, a votação ocorrerá no dia 25 do mesmo mês.

Votar é - para todos e todas nós - uma grande responsabilidade sociopolítica, humana, ética e cristã.

Em consciência, não podemos votar em candidatos e candidatas que - teórica e praticamente – já provaram que são contra mudanças sociopolíticas estruturais que levem à superação do Sistema

Capitalista Neoliberal: um “sistema econômico iníquo” (Documentos de Aparecida, 385).

Ronaldo Caiado, pré-candidato à presidência, foi um dos fundadores da União Democrática Ruralista (UDR), que teve uma atuação marcante na defesa da propriedade privada e na oposição aos Movimentos Populares. A UDR foi criada em 1985 no contexto de redemocratização e discussões sobre a Reforma Agrária na Constituinte. É uma entidade criminosa que sempre foi contra a Reforma Agrária. Assassinou impunemente muitos trabalhadores/as rurais e seus companheiros/as de militância pelo direito à terra: o direito de viver, morar e trabalhar dignamente.

Ronaldo Caiado, enquanto presidente da UDR, de 1986 a 1989, liderou proprietários de terras contra a Reforma Agrária na Assembleia Constituinte antes de se licenciar para concorrer à Presidência da República. Ele foi responsável por diversos conflitos agrários e episódios de violência no campo contra Movimentos Populares: o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e outros.

Um dos casos mais emblemáticos, ligado diretamente à Presidência da UDR foi o assassinato do trabalhador rural sem-terra Sebastião Camargo de 65 anos, morto com um tiro na cabeça em 7 de fevereiro de 1998 durante uma ação de despejo num acampamento da Fazenda Boa Sorte, no município de Marilena, no noroeste do Paraná.

Marcos Menezes Prochet, ex-presidente da UDR no Paraná, foi acusado de envolvimento na execução do trabalhador. Depois de muitas tramitações e anulações durante décadas, Prochet foi absolvido pelo Tribunal do Júri de Curitiba em maio de 2026. Mais um crime - como muitos outros - até hoje impune.

Entre os companheiros/as de militância dos trabalhadores/as rurais que poderiam ser lembrados, cito o caso do Pe. Josimo Tavares.

Nascido em Marabá (PA) no ano de 1953, Josimo Morais Tavares - devido a uma grande enchente em 1957 - mudou-se com a família para o município de Xambioá (GO). Com 11 anos de idade, ingressou no Seminário Menor Leão XIII, na cidade de Tocantinópolis (TO). Ele também estudou Filosofia em São Paulo e Teologia em Petrópolis.

Retornou ao então norte goiano como padre e, posteriormente, assumiu a coordenação da CPT-TO.

O mártir foi assassinado em Imperatriz (MA), no dia 10 de maio de 1986, a mando de latifundiários da região do Bico do Papagaio, no Tocantins (cf. https://cptnacional.org.br/martir/padre-josimo-tavares-martir-da-terra/).

Padre Josimo Tavares nos deixou o seguinte testemunho: “Nem o medo me detém. É a hora de assumir. Morro por uma justa causa. Agora quero que vocês entendam o seguinte: tudo isto que está acontecendo é uma consequência lógica resultante do meu trabalho, na luta pelos Pobres, em prol do Evangelho que me levou a assumir até as últimas consequências” (ib.).

Relatórios de Entidades de Direitos Humanos e da Comissão Pastoral da Terra apontam que o período de intensas disputas de terra na década de 1990 e início dos anos 2000 registrou dezenas de mortes de trabalhadores rurais em muitos Estados. Os altos índices de impunidade nas investigações envolviam e envolvem até hoje grandes proprietários de terra. Entre muitos outros pré-candidatos nos quais - se confirmados - ninguém deve votar, lembro mais um: o pré-candidato à reeleição para governador do Estado de Goiás, que em 16 de fevereiro de 2005 (então governador) foi o responsável pelo despejo - numa hora e meia - de cerca 14.000 pessoas (4 mil famílias) da Ocupação Sonho Real no Parque Oeste Industrial em Goiânia (GO) da forma mais perversa possível.

O diabólico despejo foi cinicamente chamado “Operação Triunfo”, precedida da chamada “Operação Inquietação”, durante a qual - por uma semana inteira - de meia-noite às 6 horas, a Polícia Militar jogava contra a população naquela Ocupação bombas chamadas de efeito moral (o certo seria dizer, de efeito imoral), assustando as pessoas e traumatizando as crianças.

A operação militar produziu duas vítimas fatais (Pedro e Vagner), 16 feridos à bala, tornando-se um desses paraplégico (Marcelo Henrique) e 800 pessoas detidas (suspeita-se com razão que o número de mortos e feridos tenha sido bem maior).

Marconi Perillo é o principal responsável por esse crime diabólico até hoje impune. E ainda, tem a cara-de-pau de se apresentar novamente como pré-candidato a governador. Dá para entender? Por fim, diante desse quadro de assassinatos e de impunidade - no campo e na cidade – peço que - se confirmados - ninguém vote nos pré-candidatos acima citados e Cia. Ltda. Seria um crime contra os trabalhadores/as rurais e seus companheiros/as, clamando a Deus por justiça.


           
                                                             Foto: Arquivo CPT Nacional 



Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 03 de agosto de 2026

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos