domingo, 18 de dezembro de 2011

Para além dos lanches do TJ-GO

        Diante das repercussões que o meu artigo “Os lanches do TJ-GO” - publicado no Diário da Manhã, dia 8 do corrente mês de dezembro - teve na imprensa, pensei em retomar o assunto.
Como dominicano, confrade e discípulo do grande filósofo e teólogo São Tomás de Aquino, inicio o meu escrito, fazendo “o estado da questão” (“status quaestionis”) a respeito das repercussões do artigo citado, que tanta celeuma suscitou.   Em seguida, levanto alguns problemas muito graves, que - embora ligados - vão “além dos lanches do TJ-GO”. E para fazer isso, recorro a depoimentos de pessoas que, por razões profissionais, estão por dentro desses problemas e os vivem diariamente. De acordo com o ditado popular, “contra fatos não há argumentos”.
            Quanto ao estado da questão, lembro antes de tudo que no dia 9 desse mês, um dia após a publicação do meu artigo e no mesmo Jornal (p. 4), Eusébio Ribeiro da Costa, diretor-financeiro do TJ-GO, escreveu um artigo com o título “A verdadeira face dos lanches do TJ” com o objetivo - segundo ele - de “restabelecer a verdade” sobre os “equivocados comentários”, dizendo que se trata de “levianas, inverídicas e caluniosas afirmações” e que o autor fez uma “leitura distorcida” e “não buscou a verdade”. Infelizmente, o artigo é um longo elenco de afirmações sem provas, que visa desmoralizar o autor e enganar a opinião pública. Graças a Deus, o efeito foi justamente o contrário.
É bom que se diga que os dados do último artigo não são meus, mas foram tirados da coluna “Direito & Justiça” do Jornal O Popular. Como autor do artigo eu só fiz algumas reflexões e levantei algumas suspeitas (sem afirmar nada), a partir desses dados. O TJ-GO, portanto, deveria contestar os dados do Jornal O Popular, apresentando outros dados com as respectivas provas e documentos. Ele, de má fé, preferiu despejar sua ira em cima da minha pessoa, escolhendo o alvo errado. O TJ-GO deveria saber que a mentira não se torna verdade, fazendo uma série de afirmações agressivas e desrespeitosas.
No mesmo dia 9 e no mesmo Jornal Diário da Manhã (p. 1 do Caderno “Opinião Pública”), Paulo Ernane Moreira Barros, Juiz Federal da 15ª Vara de Goiânia, escreveu outro artigo com o título “Crítica imprudente” no qual procura desqualificar o meu artigo, dizendo que foi escrito “de forma jocosa e sensacionalista”, sem conhecimento de causa e com imprudência. Mais uma vez, trata-se de afirmações sem provas.
Sempre no mesmo dia 9, o site do TJ-GO (www.tjgo.jus.br) divulgou “Nota Oficial”, incorporando na íntegra o artigo do diretor-financeiro do TJ.
Dois dias depois, também no Diário da Manhã (p. 7 do Caderno “Opinião Pública”), Ari Queiroz, Juiz de Direito e Professor da PUC-GO, publicou mais um artigo com o título “Agora implicam até com nosso lanche”, no qual tenta mais uma vez, de maneira cínica e irônica, desqualificar o meu artigo, dizendo que o autor deveria “procurar saber a verdade” antes de “falar besteiras” e “pensar melhor antes de agir como ventríloquo”. Senhor juiz, só um pequeno reparo. No meu entender, ventríloquo não é quem, por honestidade intelectual, cita integralmente e entre aspas uma fonte de dados, mas quem, por falta de caráter, se presta a ser um mero repetidor de afirmações absurdas e ridículas.
Levanto agora alguns problemas muito graves, que vão “além dos lanches do TJ-GO”. Devido ao espaço reduzido de um artigo, cito (não como ventríloquo, mas com plena consciência) parte de alguns depoimentos que recebi pela internet (omitindo os nomes, por motivos óbvios), parabenizando pelo artigo e dizendo que tudo o que nele está escrito é a pura verdade.
Primeiro depoimento: “Esses dias fui até a presidência do TJ-GO, fiquei indignado com tanto de carrinhos que entravam e saiam dos gabinetes, levando lanches e mais lanches de tudo quanto era tipo de guloseimas para as pessoas que trabalham naquele órgão (...). De repente, entra o presidente e seu chefe de gabinete, que nem olharam ao redor para pelo menos cumprimentar as pessoas que os aguardavam e ainda não nos receberam dizendo que teria que ter hora marcada. Pareciam uns reis e um simples humano como eu sai e fui embora. Um absurdo o que essas pessoas fazem. Acham que são deus. Quem paga a conta? Quem tá ganhando com tudo isso? Parabéns pelo seu artigo” (Um cidadão).
Segundo depoimento: “O texto (o artigo ‘Os lanches do TJ-GO’) é tão real que dias atrás, mais precisamente, 01/12/11, estive em Montes Claros de Goiás para participar de uma audiência - semana de conciliação - teria uma audiência que estava marcada para as 14h30, todavia a mesma somente veio a ocorrer às 18h30. E foi assim, devido ao tratamento desrespeitoso, por que não, desumano que é dado a população por parte deste Tribunal. Estavam ali centenas de pessoas, a maioria teve que aguardar por mais de cinco horas do lado externo do Forum, debaixo de muito sol, outra hora, de chuva, para aguardar por sua audiência de conciliação. E mais, sem que a eles fosse fornecido nenhum lanche. Por outro lado, juízes, conciliadores, promotores, servidores estavam no ar condicionado desfrutando de um belo lanche. E o mais revoltante ainda é entrar no site do TJ e ver uma foto do presidente do TJ, onde informa que no dia de hoje (09/12/11), o mesmo encontra-se naquela cidade inaugurando o Fórum daquela Comarca, como se tudo fosse mil maravilhas. Tudo no intuito de aparecer na mídia, todavia, não divulga o caos que foi naquela cidade quando da realização da conciliação. Prova do que estou falando são as pessoas que lá estavam presentes” (Um advogado).
Terceiro depoimento: “Na condição de servidor do TJ-GO, venho por meio deste trazer ao senhor o meu profundo apoio no tocante ao seu artigo. Nenhuma inverdade foi dita, embora o Tribunal, mais uma vez, em sua página, via assessoria de imprensa, tente distorcer a verdade, criando enes justificativas para o injustificável. Posso garantir ao senhor que nos corredores daquela casa, dita de justiça, a prática de atos que ofendem à questão da igualdade é quase que rotineira. A questão do lanche, é só a ponta de um iceberg, que aponta para um sem número de outras injustiças praticadas pelos nossos ‘doutores’. Permita-me, trazer elementos que talvez lhe sirvam (...): Para os juízes - 5 a 6 frutas (diariamente) + salgadinhos (3 ou 4 tipos) + sucos, coalhada...tudo isso diariamente. Para os servidores - pão e margarina (às vezes, só pão). Tentam descaracterizar o seu artigo afirmando que o total gasto é devido à alimentação de quase 8000 servidores. Balela! O grosso dessa maracutaia está no privilégio que é dado aos nossos nobres e digníssimos doutores. É ali que o dinheiro vai embora! E o pior é que todo mundo sabe disso (inclusive o Ministério Público) e nada é feito!!!” (Um servidor do TJ-GO).
Quarto depoimento: “Sou do Acre e morei em Minaçu-GO  mais de 12 anos (até 2009). Durante esses 12 anos, ingressei com mais de 1.500 ações - individuais e coletivas - contra os grupos Furnas e Cem/Tractebel, responsáveis pela construção das Usinas Hidrelétricas de Serra da Mesa e Cana Brava, que atingiram cerca de 11 municípios no norte de Goiás. Contando com a leniência/dolosa das autoridades federais e sobretudo estaduais (MP e Judiciário de Minaçu), cerca de 5.000 famílias (aproximadamente 1.500 posseiros),  deixaram de receber suas indenizações e re-assentamentos, num calote - dado pelas 2 empresas - de algo próximo a 300 milhões de reais. No CMI (Centro de Mídia Independente), publiquei, por diversas vezes, tais atrocidades, mas nunca consegui sensibilizar as autoridades de Goiás/Federal  para esse descaso. Todos os Processos, desde 2000, estão parados ou engavetados, inclusive com o apoio do TJ-GO (assumo isso publicamente)”.
E também: “Outra história escabrosa. Na calada da noite o governador de Goiás Marconi Perilo, juntamente com uma corja de ladrões, venderam - sem licitação - para o corrupto grupo Sama/Eternit (sede em Minaçu-GO), uma área de terra pública de Goiás - denominada de Vila de Sama - com 1.400 lotes de 1.000 m2, com infra-estrutura de uma cidade, avaliada em R$. 50.000.000,00, pela bagatela de R$. 190.000,00 (preço de um carro). Ingressei em 2006 com uma Ação Popular na Comarca de Minaçu-GO e, pasmem, desde aquela data, o processo está parado. Nessa mesma ação (...), há também uma denúncia feita  pelo Ministério Público Federal contra autoridades de Goias e Sama/Eternit, provando que num período de 07 anos, a partir  de 2001, eles criaram uma empresa fantasma e conseguiram sonegar de imposto (cefem/amianto), a quantia de R$. 13.000.000,00. Toda a quadrilha está processada pela Justiça Federal de Goiânia, mas nenhum Jornal toca no assunto. Até uma desembargadora do TJ-GO vinha vendendo sentença para o governador Marconi Perilo, e nada ocorreu até hoje”.
E ainda: “É com relação aos crimes ambientais. Furnas, ao construir Serra da Mesa, tinha a obrigação, além de indenizar os posseiros - 1.500 - coisa que não fez - e reassentar os não-proprietários, inundou cerca de 178.000 mil hectares de mata, sem fazer o processo de desmatamento e retirada da madeira do lago, para fins de comercialização. É muito roubo/crime/danos, etc. acobertados pelas  autoridades de Goiás e  ninguém, mas ninguém mesmo, tem coragem de falar sobre o assunto, a não ser eu. (...) Até cemitério - com 300 cadáveres, foi inundado por Furnas e Cem/Tractebel, quando tinham a obrigação de retirá-los e sepultá-los em outra localidade, dentro dos princípios da dignidade. Nada disso foi feito” (Um advogado).
Muitos outros depoimentos, sobre muitos outros fatos, poderiam ser lembrados, como por exemplo, a cínica e iníqua “Operação Triunfo” (precedida da também cínica e iníqua “Operação Inquietação) da Ocupação “Sonho Real” no Parque Oeste Industrial, em 2005, que foi a pior barbárie praticada em toda a história de Goiânia, com o apoio e a conivência criminosa do TJ-GO. Lembrem-se os responsáveis dessa barbárie e de outras semelhantes que a justiça de Deus tarda, mas não falha.
Por enquanto, penso que não precisa dizer mais nada. Realmente os problemas levantados são muito graves e vão “além dos lanches do TJ-GO”, que - como diz um dos depoimentos - são só “a ponta de um iceberg”.

“Viva a esperança! Viva a esperança!” (Pedro Casaldáliga. Refrão do Canto “Trovas do Cristo Libertador”).
              Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 17/12/11, p. 3

                                                                                                                                                     Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos (Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
                                                                                                                                                      E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Os lanches do TJ-GO

Pasmem! “Em 10 meses, TJ gasta meio milhão em lanches” (O Popular, 15/11/11, Manchete, 1ª página). Deire Assis, na coluna “Direito & Justiça”, afirma: “A relação dos pagamentos realizados pelo Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO) entre 1º de janeiro e 1º de novembro de 2011, conforme relatório da Diretoria Financeira e Divisão de Execução Orçamentária e Financeira do órgão disponível no Portal da Transparência no site da instituição na internet mostram que o Judiciário gastou no período mais de meio milhão com o custeio de despesas com lanches: R$ 519,9 mil”.
            A colunista continua dizendo: “Seis empresas constam como fornecedoras de despesas classificadas como ‘serviços de buffet’ e ‘fornecimento de lanches’. A maior despesa desta natureza (R$ 165,3 mil) ocorreu em fevereiro com fornecimento de lanches a magistrados e ao movimento de conciliação” (Ib. p, 8).
            Que afronta aos trabalhadores/as, que ganham o salário mínimo! Que desrespeito acintoso para com todos aqueles/as que - por causa da iniquidade de nossa sociedade hipócrita - sobrevivem dos restos de comida dos lixões!
            Por que tanta mordomia e tanto desperdício do dinheiro público? Que Tribunal de Justiça é esse? Quem vai investigar se o valor dos lanches foi ou não superfaturado e se alguém se aproveitou ou não do dinheiro público para seus interesses pessoais? Quem vai devolver aos cofres públicos o dinheiro gasto indevidamente? O TJ-GO deve - se é que tem - uma explicação à sociedade.
            Seria oportuno e certamente muito saudável que o TJ-GO, antes de usar irresponsável e inescrupulosamente o dinheiro público - que é dinheiro do povo - com suntuosos e requintados lanches ou com superfaturamento dos mesmos, lembrasse a situação de miséria em que vivem muitos de nossos irmãos e irmãs no mundo e no Brasil.
No mundo, “cerca de 100 milhões de pessoas estão sem teto; 1 bilhão de analfabetos; 1,1 bilhão de pessoas vivem na pobreza, destas, 630 milhões são extremamente pobres, com renda per capta anual bem menor que 275 dólares; 1,5 bilhão de pessoas sem água potável; 1 bilhão de pessoas passando fome; 150 milhões de crianças subnutridas com menos de 5 anos (uma para cada três no mundo); 12,9 milhões de crianças morrem a cada ano antes dos seus 5 anos de vida” (www.webciencia.com - acessado em 05/11/11).
No Brasil - que é o quinto país do mundo em extensão territorial, ocupando metade da área do continente sul-americano - nós temos “uma questão estrutural ao longo de séculos: sempre se produziu uma desigualdade econômica e social muito grande, e que continua. Vem diminuindo pouco. Márcio Pochmann, presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), afirma que 10% ainda concentram um percentual de 70% da riqueza nacional, sendo que os 90% mais pobres têm acesso a apenas 25% a 30% da renda nacional. Na opinião dele, se a gente considerar as famílias donas de conglomerados econômicos, cinco mil famílias detêm mais ou menos 45% da renda brasileira, o que é uma concentração absurda. Em 2003, nós estávamos entre os quatro ou cinco piores países do mundo em distribuição de renda. Hoje estamos entre os 15, 20 países com a pior distribuição de renda do mundo. (...) No início dos anos 2000 tínhamos no Brasil em torno de 50 milhões de pessoas que, ou passavam fome diariamente, ou não tinham alimento suficiente regularmente. Hoje, diminuiu mais ou menos pela metade, mas temos ainda em torno de 16 milhões de pessoas que estão na extrema pobreza (...)” (Selvino Heck. A fome é uma criação humana. Entrevista, julho/11. Em www.pucrs.br).  
Os programas sociais - chamados programas de distribuição de renda - do Poder Público, sobretudo do Governo Federal, melhoram (pelo menos enquanto existem) a situação de miséria e fome do povo, amenizando seu sofrimento, mas não resolvem o problema na raiz. As causas da fome e da desigualdade socioeconômica são de caráter estrutural e são a consequência de um sistema econômico perverso, desumano e antiético.
De fato, a fome no Brasil continua gritante. Trata-se de “uma tragédia a conta-gotas, dispersa, silenciosa, escondida nos rincões e nas periferias. Tão escondida que o Brasil que come não enxerga o Brasil faminto e aí a fome vira só número, estatística, como se o número não trouxesse junto com ele, dramas, histórias, nomes. Na inversão do ciclo da vida, proeza é criança viva, bebê recém enterrado, acontecimento banal. No Brasil, a cada cinco minutos, morre uma criança. A maioria de doenças da fome. Cerca de 280 a 290 por dia. É o que corresponderia, de acordo com o Unicef, a dois Boeings 737 de crianças mortas por dia”.
Segundo o médico Flávio Valente - voluntário em campanhas contra a desnutrição e a fome - “existem, pelo menos, 36 milhões de brasileiros que nunca sabem quando terão a próxima refeição”. Sempre segundo o médico, há hoje na sociedade um comportamento que é comum e do qual todos nós somos responsáveis: “a aceitação (...) de que crianças ainda morram de fome no nosso país e que isso seja considerado natural” (Jussara Faustino. Fome no Brasil. Em: www.coladaweb.com.br – 25/11/11).
Enfim, “do ponto de vista estrutural, a fome é resultado do tipo de sociedade que temos: uma sociedade capitalista que concentra renda, exclui as pessoas, não permite que haja igualdade e uma melhor distribuição de renda. Então a razão estrutural é esta: uma sociedade que visa ao lucro, e o lucro acontece junto com o acúmulo de riqueza e de renda. Além disso, nós vivemos 20, 30 anos de neoliberalismo. O neoliberalismo significa: ‘Quem pode mais, chora menos’. Mas não se trata apenas da política econômica e social, é também uma política cultural, de valores, que influencia na maneira como as pessoas agem em relação umas às outras. Precisamos fazer um trabalho longo de reconstrução de valores de solidariedade” (Selvino Heck. A fome é uma criação humana. Ib.).
Terminando, quero dizer: Se o TJ-GO meditasse sobre essa realidade iníqua, perversa e desumana, os lanches seriam certamente mais frugais e - quem sabe - não haveria superfaturamento ou desvio de dinheiro público.

Uma outra sociedade é possível! Lutemos para que ela aconteça.
                Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 08/12/11, p. 2



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Uma manifestação do Espírito de Deus

“Para que todos os seres humanos vejam a razão da nossa esperança”
(Liturgia das Horas, Laudes, 1ª Semana do Advento, Segunda feira)

No dia 27 deste mês de novembro/11, uma Romaria ao Santuário do Divino Pai Eterno em Trindade - GO “fez a memória” dos 25 anos do 6º Interreclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), acontecido nessa mesma cidade, do dia 21 a 25 de julho de 1986, com o tema “CEBs, Povo de Deus em Busca da Terra Prometida”. A Romaria foi promovida pelo Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia, mas teve também a participação de Comunidades do Vicariato Leste, do Vicariato de Aparecida, de outras Comunidades da Arquidiocese e de alguns representantes de outros lugares do Brasil.
Ao todo, participaram da Romaria, com muita vibração e fé, mais de mil pessoas. Estiveram também presentes e concelebraram Dom Tomás Balduino, Bispo Emérito da cidade de Goiás, Pe. Antônio Donizete Guimarães, Vigário Episcopal do Vicariato Leste, Pe. Alaor, Pároco da Paróquia S. Rita de Cássia do Parque S. Rita, Pe. Sidney, Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Esperança do Jardim Nova Esperança, Frei José Fernandes, da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, o que escreve este artigo, Frei Marcos, Vigário Episcopal do Vicariato Oeste, Pe. Paim, Vigário Episcopal do Vicariato de Trindade (na primeira parte da Romaria), que fez uso da palavra, dando as boas-vindas, e mais algum Padre no meio do Povo.
A Romaria, mesmo tendo sido programada num tempo relativamente breve, teve uma ampla divulgação na Internet, pelo blog do Regional Centro-Oeste da CNBB, pelo site da Adital (Notícias da América Latina e Caribe), pelo site da Casa da Juventude (Caju) e diversos outros sites. Destacamos também o apoio recebido da Equipe de Crato - CE, que está preparando - com muito entusiasmo e dedicação - o 13º  Interreclesial das CEBs, com o tema “Justiça e Profecia a Serviço da Vida” e o lema “CEBs, Romeiras Do Reino no Campo e na Cidade”. O 13º Interreclesial acontecerá na cidade de Crato - CE, do dia 07 a 11 de janeiro de 2014.
            Enfim, agradecemos a todos/as, que, de uma forma ou de outra, se disponibilizaram para ajudar na divulgação, na preparação e na coordenação da Romaria. Queremos manifestar um agradecimento especial a Equipe de Crato - CE, que elaborou - por iniciativa própria e com muita criatividade artística - um data-show, com diversos slides, fazendo o histórico dos Interreclesiais e destacando - inclusive com o Cartaz da nossa Romaria - o 6º Interreclesial. O texto usado pela Equipe foi o meu Artigo “25 anos do 6º Encontro Interreclesial das CEBs”, publicado no Diário da Manhã de Goiânia, no dia 31 de julho/11 e no site da Adital, no dia 01 de agosto/11. O data show sobre as CEBs será certamente muito útil para Encontros de formação, sobretudo de Animadores.
            O 1º Interreclesial das CEBs, acontecido em Vitória - ES, de 06 a 08 de janeiro/75, tinha como tema “Uma Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus”.
            A vida das CEBs e a história dos Interreclesiais são a prova concreta que o tema do 1º Interreclesial se tornou - e se torna cada vez mais - realidade. De fato, as CEBs são uma Igreja que nasce do Povo (sobretudo do Povo empobrecido, oprimido e excluído) pelo Espírito de Deus.
            A Romaria do dia 27 deste mês de novembro/11, primeiro domingo do Advento, foi uma grande Celebração, que começou às 9h. O primeiro momento dessa Romaria-Celebração foi a Acolhida festiva das Comunidades (no trevo de entrada de Trindade) e o Lanche comunitário, num clima de partilha e muita alegria. O segundo momento foi a Caminhada penitencial rumo ao Santuário Novo, com três paradas para pedidos de perdão. O terceiro momento - já entrando no Santuário Novo - foi o Louvor à Santíssima Trindade, a melhor Comunidade. O quarto momento foi a Celebração da Palavra (recebida com cantos e danças), iniciando com a Memória do 6º Interreclesial. O quinto momento foi a Celebração da Eucaristia (com cantos e danças na procissão do Ofertório). O sexto e último momento foi a Renovação do Compromisso e do Envio. A Romaria-Celebração terminou por volta das 13h e 30m, com muitas pessoas cantando e dançando, num clima de fé e espírito fraterno.
             As Comunidades, e todos/as que participamos da Romaria-Celebração tivemos a graça de fazer a experiência de “uma Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus”.
            Estamos convencidos que ninguém pode deter a força do Espírito de Deus, nem os Herodes, os Fariseus e os Sinédrios de ontem; nem os Herodes, os Fariseus e os Sinédrios de hoje, que aparecem quando e onde menos  esperamos.
            Uma Romaria-Celebração, como a do dia 27 deste mês de novembro/11, renovou - em todos/as que participamos - o entusiasmo, a fé e a esperança “num outro mundo possível” e “numa outra Igreja possível”: a “Igreja dos Pobres” (João XXIII), a “Igreja Povo de Deus” (Concílio Vaticano II).
Foi justamente às vésperas do Concílio Vaticano II, na Mensagem do dia 11 de setembro/62, que João XXIII afirmou: “A Igreja se apresenta como é e como quer ser: a Igreja de todos e particularmente a ‘Igreja dos Pobres’” (Mensagem de João XXIII. Citada por: Oscar Beozzo. Medellín: Inspiração e raízes. Em: www.servicioskoinonia.org - 27/09/98).
No final da primeira sessão do Concílio Vaticano II, retomando o propósito de João XXIII, o cardeal Giacomo Lercaro, em sua intervenção, declarou com toda força evangélica: "Esta é a hora dos Pobres, dos milhões de Pobres que estão por toda a terra, esta é a hora do mistério da Igreja, mãe dos Pobres, é a hora do mistério de Cristo sobretudo no Pobre". Por conseguinte, "a mais profunda exigência do nosso tempo, incluindo nossa grande esperança de promover a unidade de todos os cristãos, não seria satisfeita, seria ao contrário frustrada, se o problema da evangelização dos Pobres do nosso tempo, fosse tratado no Concílio, como um tema que se junta aos outros". Com efeito, "não se trata de um tema qualquer, mas num certo sentido do único tema de todo o Vaticano II" (Giacomo Lercaro. Discurso: Per la forza dello Spirito Santo. Citado por Oscar Beozzo, Ib.).
            Dom Helder Câmara dizia que devemos agir como o Cristo, que, pertencendo a todos, se identificou com os Pobres, os Oprimidos e com todos aqueles que sofrem.
Termino, lembrando que a atualidade das CEBs foi oficialmente reafirmada pelo Documento de Aparecida, da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe, e pelo Documento “Mensagem ao Povo de Deus sobre as CEBs”, da 48ª Assembleia Geral da CNBB de 2010. Na Mensagem os bispos, retomando as palavras do Doc. 25 de 1982, declaram: “As Comunidades Eclesiais de Base constituem, em nosso país, uma realidade que expressa um dos traços mais dinâmicos da vida da Igreja”.


                  Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 01/12/11, p. 2



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Tempo do Advento

“Já que é vosso dom tudo o que somos,
para vós se oriente também todo o nosso viver”
(Oração das Laudes, Sábado da II Semana do Tempo Comum)

O Advento é um tempo litúrgico de renovada esperança e de alegre espera da vinda de Jesus. “Possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os seres humanos, é também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos” (Normas sobre o Ano Litúrgico e o Calendário - NALC, N. 39). 
O Tempo litúrgico do Advento é formado por quatro semanas Nas duas primeiras semanas somos convidados a vigiar, esperando a vinda gloriosa do Salvador.  Nas últimas duas semanas, lembrando a espera dos profetas e de Maria, somos convidados a nos preparar para celebrar - fazer a memória, tornar presente - em nossa vida e em nossa história o nascimento de Jesus em Belém.
Um símbolo que pode nos ajudar a entender e viver o sentido do Advento é a Coroa do Advento, que é feita de um círculo de galhos sempre verdes, simbolizando o amor infinito de Deus para com todos os povos. As quatro velas, acesas e colocadas no círculo - uma a cada semana do Advento - nos lembram a luz de Deus que vem ao mundo para iluminar nossa existência e nossa história.
Na abertura do Advento escutamos a antífona: “Anunciai a todos os povos: Deus vem, nosso Salvador” (I Vésperas do 1º domingo do Advento), que ressoa durante todo o Ano Litúrgico. A Liturgia “convida a renovar seu anúncio a todos os povos e o resume em duas palavras: ‘Deus vem’. Esta expressão tão sintética contém uma força de sugestão sempre nova. Detenhamo-nos um momento a refletir: não usa o passado - Deus veio -, nem o futuro - Deus virá -, mas o presente: ‘Deus vem’. Se prestarmos atenção, trata-se de um presente contínuo, ou seja, de uma ação que sempre acontece: está acontecendo, acontece agora e acontecerá mais uma vez. Em qualquer momento, ‘Deus vem’. O verbo ‘vir’ apresenta-se como um verbo ‘teológico’, inclusive ‘teologal’, porque diz algo que tem a ver com a natureza própria de Deus. Anunciar que ‘Deus vem’ significa, portanto, anunciar simplesmente o próprio Deus, através de uma de suas marcas essenciais e significativas: é o ‘Deus-que-vem’” (Bento XVI. Meditação sobre o Advento, 10/12/2006 - www.cnbbco.org.br).
O Advento é um tempo forte de espiritualidade. E a espiritualidade é, antes de tudo, uma espiritualidade humana. É o jeito de ser e de viver do ser humano, enquanto ser espiritual. Ela envolve o ser humano todo, em todas as suas dimensões e relações: pessoais, sociais, econômicas, políticas, culturais e ecológicas. Ela perpassa, impregna e absorve a totalidade do ser humano, a totalidade de sua existência no mundo.
Para os que somos cristãos, a espiritualidade humana - à luz da fé - torna-se espiritualidade cristã (do seguimento de Jesus de Nazaré). Não pode, porém, ser espiritualidade cristã se não for primeiro (no sentido lógico e não cronológico) espiritualidade humana. A espiritualidade cristã é uma espiritualidade radicalmente humana. Precisamos os cristãos ser especialistas em humanidade. Não temos o direito de sermos indiferentes e omissos diante dos desafios que o mundo de hoje nos apresenta como apelos de Deus, mas devemos estar sempre na linha de frente em todas as lutas que visam tornar a sociedade e o mundo mais humanos.
 “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos seres humanos de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 1).
“Eu vim - diz Jesus - para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo.16, 4). Somos os cristãos “discípulos missionários de Jesus Cristo, para que nele todos os povos tenham vida” (Tema da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe - CELAM).
A espiritualidade cristã é uma espiritualidade pascal: cristológica, pneumatológica e trinitária (comunitária, eclesial). Brota da vivência, sempre mais profunda e sempre mais envolvente, do Ano Litúrgico, que inicia com o Advento e tem como centro a Páscoa (passagem da morte para a vida: vida nova em Cristo, vida segundo o Espírito). A Liturgia é a celebração do mistério pascal na vida e a celebração da vida no mistério pascal. "A celebração litúrgica repercute na vida e a vida é celebrada. Celebração e vida estão intimamente ligadas. Como seguidores de Jesus Cristo progressivamente nos tornamos uma coisa só com ele. É um processo (…) que atinge todo o universo e que se dá concretamente no cotidiano da nossa história. Cristo, embora tenha passado pela morte, venceu-a. Nós também venceremos. Acreditemos na vida" (Ir. Veronice Fernandes, pddm - www.cnbbsul1.org.br - 25/03/08).
Na celebração do mistério pascal na vida e da vida no mistério pascal, “trata-se da recriação de nosso eu, adquirindo a forma de Jesus Cristo ressuscitado, segundo o Espírito de Deus. É processo lento e sofrido, e ao mesmo tempo alegre e esperançoso, que deverá durar até a nossa morte. Perfazendo seu próprio caminho pascal, cada pessoa está ao mesmo tempo participando e colaborando na Páscoa de todo o tecido social, de toda a realidade cósmica (Cf. Rm 8, 18-25)) até à plena comunhão, quando Deus será tudo em todos (Cf. 1Cor 15, 28)" (Ione Buyst. Viver o mistério pascal de Jesus Cristo ao longo do Ano Litúrgico: um caminho espiritual. Semana de Liturgia, São Paulo, outubro de 2002).

O Advento nos leva a uma mudança de vida e nos prepara para celebrar e viver o Natal de Jesus à luz de sua Páscoa, que é também a nossa Páscoa, a Páscoa de toda a humanidade, a Páscoa do mundo inteiro.
                      Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 24/11/11, p. 3  

                                
Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Fazendo a memória do 6º Interreclesial das CEBs

No dia 31 de julho deste ano de 2011 escrevi um Artigo com o título: 25
Anos do 6º Encontro Interreclesial das CEBs. No Artigo fiz um histórico dos 12 Interreclesiais das CEBs, já acontecidos no Brasil, e uma referência ao 13º Interreclesial, que está sendo preparado e acontecerá, de 07 a 11 de janeiro de 2014, em Crato (CE), com o tema: “Justiça e Profecia a Serviço da Vida. CEBs, Romeiras do Reino no Campo e na Cidade”.
No mesmo Artigo apresentei também uma síntese do conteúdo teológico-pastoral do 6º Interreclesial e dei a sugestão de realizar uma Romaria ao Santuário do Divino Pai Eterno em Trindade - GO, fazendo a memória dos 25 anos do 6º Interreclesial (Leia o Artigo em: Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 31/07/11, p. 6, ou em: www.adital.com.br - 01/08/11).
Depois de diversos encontros com pessoas e Comunidades interessadas, o Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia decidiu promover a Romaria - que já tinha sido sugerida no Artigo - no dia 27 deste mês de novembro/11.
Portanto, convida para participarem desta Romaria todas as Comunidades do Vicariato e estende o convite às outras Comunidades da Arquidiocese de Goiânia, do Regional Centro-Oeste da CNBB e do Brasil todo. O 6º Interreclesial marcou a caminhada das CEBs no país inteiro.
Retomo agora algo daquilo que escrevi no Artigo acima citado, a respeito do 6º Interreclesial. Aconteceu há 25 anos, do dia 21 a 25 de julho de 1986, em Trindade - GO (depois de um ano, um mês e 20 dias da Páscoa definitiva do grande Pastor-Profeta Dom Fernando Gomes dos Santos, arcebispo de Goiânia) e teve como tema: “CEBs, Povo de Deus em Busca da Terra Prometida”.
O Encontro contou com 1.647 participantes, dentre os quais 742 representantes das bases, 203 agentes de pastoral, 30 assessores, 51 bispos, 16 representantes de Igrejas evangélicas, 10 representantes dos povos indígenas, e observadores nacionais e estrangeiros.
“O 6º Interreclesial significou uma virada decisiva na vida dos Interreclesiais. (...) Os Encontros Interreclesiais das CEBs passam, em Trindade, por uma transformação de sua natureza. (...) Em razão da proporção dos participantes, bem mais acentuada com respeito aos Encontros anteriores, não havia condições plausíveis para um estudo mais aprofundado sobre os temas propostos. Num evento de quase duas mil pessoas não se podia mais, evidentemente, privilegiar o momento reflexivo. A dimensão celebrativa passa a ocupar lugar de centralidade, o que não significa ausência da dimensão reflexiva, que permanecerá em cena. A novidade é que  a  partir  de  então  os tempos fortes dos Interreclesiais serão ocupados por grandes e vibrantes celebrações de fé. As celebrações do Interreclesial de Trindade foram extremamente criativas, com destaque para a presença de símbolos gestados na ampla e profunda experiência de enraizamento popular das Comunidades” (Os Interreclesiais das CEBs: Identidade em construção! Persp. Real. 29 (1997) 155-187).
Diversas vezes, durante o Encontro, foi proclamado, alto e bom som, que “a Santíssima Trindade é a melhor Comunidade”.
Em sintonia com o tema central, outros grandes temas - ligados à caminhada das CEBs - marcaram o 6º Interreclesial: CEBs e seu estatuto eclesiológico (identidade e missão, fé e política, espiritualidade libertadora e Bíblia, hierarquia e ministérios); CEBs e política partidária; CEBs e projeto político popular; CEBs e sindicalismo; CEBs e movimentos populares; CEBs e lutas específicas (mulheres, negros e índios); CEBs e luta pela terra (terra de Deus, terra de irmãos): CEBs e reforma agrária (projetos do governo); CEBs e moradia (solo urbano); CEBs e questão latino-americana; CEBs e ecumenismo; e outros.
Com a Romaria do dia 27 deste mês de novembro/11, primeiro domingo do Advento, queremos fazer a memória, ou seja, tornar presente hoje tudo o que o 6º Interreclesial significou e ainda significa para a caminhada das CEBs no Brasil.
Nos encontraremos no trevo da entrada de Trindade, a partir das 9:00h. Acolheremos as Comunidades com muito canto, alegria e festa. Partilharemos fraternalmente um lanche comunitário. Faremos uma caminhada penitencial até o Santuário, com cantos de perdão e reconciliação. Entraremos no Santuário do Divino Pai Eterno, louvando, glorificando e agradecendo a Deus pelo reencontro fraterno, pelo perdão recebido e pela vida das nossas Comunidades. Celebraremos a Palavra e a Eucaristia com muita fé. Renovaremos o nosso compromisso de discípulos/as missionários/as de Jesus. Seremos, enfim, enviados/as para continuar a missão de Jesus no mundo de hoje.

Venham! Participem! Será um tempo forte de graça de Deus. Será uma manhã de muita alegria, de muita paz, de muita espiritualidade e de muito compromisso.
Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 17/11/11, p. 6



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

domingo, 13 de novembro de 2011

Um clamor pela vida

          Há poucos dias escrevi um Artigo com o título “Um descaso inadmissível e injustificável” sobre a situação caótica em que se encontram as Unidades de Saúde Pública e, em especial, o Hospital de Urgências de Goiânia (Ugo) (Cf. Diário da Manhã, Opinião Pública, 04/11/11, p. 7; www.adital.com.br - 04/11/11). 
            Depois de publicado o Artigo, apareceram outras reportagens sobre o mesmo assunto: o descalabro com a Saúde Pública e as medidas que o governo diz estar tomando, em caráter emergencial, para solucionar o problema. Uma reportagem anuncia: “Socorro à Saúde”. “Força-tarefa para a Saúde”. Governo de Goiás traça metas para sanar crise nos hospitais públicos.  Marconi ordena atuação imediata para solução” (Diário da Manhã, 05/11/11, manchete 1ª página e p, 2; cf. também p. 3).
            Uma outra reportagem também anuncia: “Pacotão da Saúde”. “Governador Marconi Perillo denuncia burocracia que entrava procedimentos licitatórios. Ele cria força-tarefa para solucionar impasse no setor. Empresa vai cuidar da central de laudos e manutenção dos aparelhos de hospitais. Dilma anuncia R$ 3,6 milhões anuais destinados ao Hugo” (Ib. 09/11/11, manchete 1ª página; cf. também p. 2).
Num outro órgão de imprensa, uma reportagem fala do desligamento em massa de centenas de servidores lotados nos maiores hospitais públicos do Estado e reconhece que isso levou a Secretaria Estadual de Saúde (SES) a anunciar a contratação de 365 profissionais para o setor: 225 médicos, aprovados em concurso realizado no ano passado e mais 135 profissionais, que deverão ser contratados em caráter emergencial. Parece que o governo está começando a perceber a gravidade do problema. Deus queira que seja verdade! Até agora falou-se muito, mas não se fez quase nada.
É preciso não só buscar paliativos, mas mudar a concepção de Saúde Pública e reestruturá-la de maneira global, valorizando os profissionais da saúde, dando condições dignas de trabalho e tratando com respeito os usuários do SUS.
A mesma reportagem fala também do pedido de demissão do médico Boaventura Braz de Queiroz, diretor-geral do Hospital de Doenças Tropicais (HDT) por divergências - diz ele - com a atual Superintendência de Controle e Avaliação Técnica (Scats) a respeito da metodologia de trabalho (Cf. O Popular, 08/11/11, p.9).
Enfim, uma nova reportagem do mesmo órgão de imprensa escreve: “A Saúde fraturada”. “A Saúde Pública de Goiás vive sua pior crise, com debandada de médicos e desabastecimento. Governador culpa burocracia e enfatiza necessidade de terceirizar gestão de hospitais” (Ib. 09/11/11, manchete 1ª página; cf. também p. 3-4).
A reportagem, porém, que mais me chocou foi a respeito do Hospital de Doenças Tropicais (HDT). É realmente uma calamidade pública que clama aos céus! É um crime contra a vida do povo! Será que os nossos governantes não percebem isso? Será que não entendem que os problemas da Saúde Pública devem ser considerados “prioridade absoluta” e resolvidos em caráter de urgência urgentíssima?
Vejam só que tragédia! A reportagem afirma: “Médicos denunciam falhas no HDT”. “Falta de materiais básicos, como gaze, agulha e antibiótico, é um dos problemas denunciados por profissionais do HDT. O hospital público apresenta falta de leito. Paciente, que precisa de isolamento, é internado até em corredor” (O Popular, 07/11/11, manchete 1ª página).
Depois do destaque da primeira página, a reportagem descreve detalhadamente a situação e diz: “A falta de materiais, medicamentos e de condições de trabalho para que os profissionais de saúde prestem bom atendimento provoca uma situação de estresse e risco no Hospital de Doenças Tropicais (HDT), referência no Estado para o tratamento de doenças infecto-contagiosas. Por falta de leitos, pacientes que precisam de isolamento, com doenças altamente contagiosas, como tuberculose, catapora e meningite, ficam internados em leitos comuns e corredores” (Ib. p. 5).
Uma médica do HDT, que pediu para não ser identificada, afirma: “Além disso, as condições de trabalho, especialmente dos médicos, são extremamente precárias, comprometendo a qualidade do atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS)”. “Essas condições - continua a médica - expõem os profissionais de saúde e os próprios pacientes” (Ib.).
Outro problema é a falta de médicos diante da enorme demanda de atendimentos de emergência. Sempre segundo a médica, foram feitas várias reclamações para a Secretaria Estadual de Saúde (SES), mas nenhuma providência foi tomada (Cf. Ib.).
O Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego) recebeu também muitas reclamações de profissionais que trabalham no HDT. Leonardo Reis, presidente do Sindicato define a situação do hospital como “gravíssima” e diz: “É uma situação extremamente desconfortável e ameaçadora, é preciso destinar mais recursos para a saúde” (Ib.). O médico manifesta ainda sua preocupação com o processo de transferência da gestão dos principais hospitais estaduais para Organizações Sociais (OS) e afirma: “A terceirização é uma forma especial de privatização” (Ib.). O sindicato dos servidores da Saúde (Sindsaúde) também se manifestou contrário à terceirização ou privatização dos hospitais públicos.
Por que será que os nossos governantes, antes de tomar decisões na área da saúde, não consultam os médicos, os outros profissionais e as lideranças do povo? Talvez, não tenham ainda percebido que a época do autoritarismo já acabou! Senhor governador, a culpa da situação de descaso em que se encontra a Saúde Pública não é da burocracia (um problema que pode ser solucionado), mas da falta de vontade política.
Diante de tudo isso, pergunto: quem vai responder judicialmente pela situação criminosa em que se encontra a Saúde Pública? O Ministério Público Estadual - embora tenha determinado a suspensão dos processos para contratação de Organizações Sociais (que considero positivo) - é ainda muito omisso e não toma as providências que seriam necessárias a respeito da questão da Saúde Pública.   
Tenho certeza que a situação da Saúde Pública mudaria rapidamente se os que ocupam cargos públicos no Executivo, no Legislativo e no Judiciário fossem obrigados por lei - eles/elas e seus familiares - a usarem, durante o exercício do mandato, o Sistema Único de Saúde (SUS). Quem sabe os nossos congressistas se sensibilizem com o sofrimento do povo, apresentem um projeto de lei a esse respeito e o aprovem em caráter de urgência? Mereceriam, pelo menos nesse caso, o nosso aplauso. A esperança nunca morre!


              Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 12/11/11, p. 5



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

sábado, 5 de novembro de 2011

Um descaso inadmissível e injustificável

Parece pesadelo! Vejam só que situação deprimente! “Falta até água e luvas no Hugo (manchete). No maior hospital de urgências do Centro-Oeste, os médicos sofrem com falta de luvas cirúrgicas, fios para sutura e até água para lavar as mãos. E a lista de problema do Hugo é maior, conforme admite o governo, que culpa a burocracia. Pior para os pacientes”.
            Nas fotos da reportagem - imagens captadas por celular de médico - aparecem: corredor lotado com pacientes, 4 elevadores quebrados, aparelho de ar condicionado queimado usado como ninho por uma coruja, sala de internação lotada, pia com só uma torneira funcionando, sujeira e falta de material de limpeza. Médico afirma “que problemas podem comprometer resultado das cirurgias” (O Popular, 28/10/11, 1ª página).
            Toda essa situação de descalabro foi denunciada várias vezes. “Denúncias por parte de médicos do Hospital de Urgência de Goiânia (Hugo) são frequentes e se repetem há quase duas décadas. Há 14 anos, o neurocirurgião Paulo Roberto Taveira chegou a abandonar um plantão para se dirigir à polícia, onde deu queixa contra a instituição hospitalar por omissão de socorro. Ele tinha o intuito de se resguardar, uma vez que os pacientes vinham morrendo pela falta de condições de atendimento”. Entra governo, sai governo e a situação continua a mesma ou pior.
Realmente, não dá para acreditar! Trata-se de um descaso do Poder Público inadmissível e injustificável! Quem vai responder judicialmente por essa situação criminosa e pelas mortes acontecidas ou que poderão acontecer em consequência dessa mesma situação?
Se os nossos governantes fossem obrigados a levar seus filhos e familiares doentes para serem atendidos e tratados no Hugo, tenho certeza que encontrariam imediatamente uma saída legal para resolver a situação. Infelizmente, os pobres - em nosso sistema capitalista neoliberal - não têm valor nenhum. São material descartável.
            É inadmissível que em pleno século XXI sejamos obrigados a assistir a um espetáculo tão degradante, tão cruel e tão desumano, que grita por justiça diante de Deus. A situação do Hugo - além de ser inadmissível - é também injustificável. Não adianta inventar desculpas, como o entrave da burocracia. O povo não é bobo! Quantas vezes o governo dispensou a licitação pública, em casos considerados (mesmo que às vezes não fossem) de urgência e emergência. Será que existe algo mais urgente e mais emergencial que a saúde pública e a vida dos pobres? 
            O entrave da burocracia não está sendo usado como argumento para, de forma sutil, justificar a terceirização (leia-se: privatização) da Saúde Pública?  “Na avaliação da Secretaria Estadual de Saúde (SES), a burocracia é o grande entrave para a boa administração de Unidades Públicas como o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo). De acordo com a superintendente de Gerenciamento das Unidades Assistenciais de Saúde da SES, Lázara Maria Mundim, há processos - para manutenção e aquisição de material - que chegam a demorar até 530 dias para serem concluídos”. Que absurdo! Que irresponsabilidade! Mais uma vez, não dá para acreditar!
Segundo o secretário estadual da saúde, Antônio Faleiros “a solução para a série de problemas enfrentados pelas Unidades Públicas de Saúde (Hospital Geral de Goiânia - HGG, Materno Infantil, Hospital de Doenças Tropicais - HDT, Hospital de Urgências de Goiânia - Hugo e Hospital de Urgências de Aparecida de Goiânia - Huapa) está no repasse da administração às Organizações Sociais (OS)”. Diz ele: “Não há dúvidas de que, com a administração por meio de OS, a solução e a resposta serão imediatas” (Ib., p. 5). Senhor secretário, será que é realmente esta a solução? Não seria melhor que o Poder Público cumprisse a Constituição Federal, que reza: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação” (Art. 196).
            É só uma questão de vontade política e de priorizar aquilo que realmente é prioritário: a vida, sobretudo, dos empobrecidos, oprimidos e excluídos do nosso “sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida - DA, 385). Precisamos urgentemente de uma Saúde Pública de qualidade para todos/as e não de “terceirizar” ou “privatizar” a Saúde Pública, enriquecendo, com o dinheiro do povo, empresas particulares, que dizem ser Organizações Sociais (OS) e nem sempre (ou quase nunca) são aquilo que dizem ser. Está na hora de o Poder Público assumir sua responsabilidade em relação à Saúde e não de “lavar as mãos”   
                     Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 04/11/11, p. 7

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
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Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
                                                                                                                                                                    E-mail: mpsassatelli@uol.com.br        
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos