quinta-feira, 10 de maio de 2012

Comentando o "Manifesto contra a Corrupção e a favor da vida"

No dia 13 do mês de abril deste ano, a Casa da Juventude Pe. Burnier (CAJU) e mais 37 Entidades populares e pastorais da sociedade civil, que lutam pelos direitos humanos, assinaram o “Manifesto contra a Corrupção e a favor da Vida”, que representa o clamor de nossa sociedade e - embora não tenha saído na imprensa - foi amplamente divulgado na internet. “A sociedade - diz o Manifesto - acompanha, estarrecida e indignada, a sequência de escândalos envolvendo diversos órgãos oficiais. Em 2011, foram trazidos a público resultados da Operação ‘Sexto Mandamento’ da Polícia Federal, o que evidenciou a realidade de várias famílias pobres que choravam e continuam chorando a execução de seus/suas filhos/as diante de ações violentas e organização criminosa dos responsáveis pela Segurança Pública. No início deste ano, novas e mais amplas denúncias na Operação ‘Monte Carlo’ revelam ligações de uma rede de corrupção que envolve as diversas estruturas oficiais - representantes eleitos, funcionários públicos e altos escalões das Polícias - e contraventores, todos liderados pelo bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira”. Diante dessas situações - que deveriam ser “alertas à população sobre o Estado e sua organização política”, e suscitar na sociedade civil “uma postura crítica” - “muitas pessoas deixam-se levar pela indiferença, outras pela desesperança e outras ainda pelo medo”. Por isso, as Entidades abaixo e demais pessoas comprometidas com a justiça, “denunciam essas estruturas de violência e de morte e gritam pela vida, especialmente pela vida da juventude empobrecida”. “A indignação - continua o Manifesto - é maior ainda pelo fato de que os envolvidos nas denúncias são justamente os que imputam aos/às pobres, aos/às adolescentes e jovens a culpa pela violência. Fazem os discursos de endurecimento das leis, pela redução da maioridade penal e, continuamente, buscam ratificar as ações violentas e de extermínio desta população, fazendo-a responsável por todas as desgraças sociais, levando as vítimas a reelegerem esses personagens, confirmando esse discurso, que banaliza e até estimula a própria violência”. O Manifesto denuncia, pois: “a precarização e o abandono de Políticas Públicas”, “a deficiência na garantia de direitos à população jovem e pobre”, o descaso para com “os/as professores/as surpreendidos/as por golpes contra suas conquistas e qualificações”, a situação das “escolas sem as condições necessárias”, “a prática de segurança pública marcada pelo medo e pela violência com índices que se comparam aos de uma guerra” (em Goiânia, só no mês de março, foram assassinadas 60 pessoas), a realidade desumana das “cadeias superlotadas e interditadas”, da “saúde marcada por mortes”, da “falta de atendimento”, das “más condições para os/as profissionais”, da “exploração e abuso sexual”, das “crianças em situação de rua”, do “trabalho escravo”, da “concentração de terras” e de “inúmeras outras situações de desgoverno”. Na imprensa destes dias, novas revelações apareceram. “Vídeos inéditos feitos pela Polícia Federal durante a Operação Monte Carlo mostram as ligações do grupo de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com policiais acusados de corrupção e acompanham até mesmo um suposto pagamento de propina em uma i igreja. As imagens são as primeiras que surgem na operação Monte Carlo e foram reveladas ontem (dia 29 de abril/12) com exclusividade pela ‘TV Folha’. Os vídeos se complementam com os áudios obtidos pela PF na operação que levou o Ministério Público Federal a denunciar 81 pessoas e revelou as relações de políticos, servidores públicos e policiais civis e federais com o empresário acusado de comandar jogos ilegais” (Folha de S. Paulo, 30/04/12, p.A4). E ainda: Cachoeira “negociou a compra do controle de um partido político, conforme indicam gravações feitas pela Polícia Federal durante a Operação Monte Carlo. Uma sequência de diálogos ocorrida em maio de 2011 faz referência ao negócio e cita o nome do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e o de um assessor do governador Agnelo Queiroz (PT-DF). No dia 5 daquele mês, apontam os grampos, Cachoeira havia jantado com Perillo na casa do senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO). No dia seguinte, Cachoeira conversa com Edivaldo Cardoso, ex-presidente do Detran-GO, que também participara do encontro” (Folha de S. Paulo, 01/05/12, p. A4). Infelizmente - como escrevi no último artigo - na nossa sociedade a corrupção é estrutural e faz parte de um sistema socioeconômico, político, ecológico e cultural podre, iníquo e antiético. Os atos de corrupção são vazamentos da máscara desse sistema, que rachou (Cf. A máscara rachou e a corrupção vazou. Diário da Manhã, Opinião Pública, 28/04/12, p. 2). As Entidades - que, expressando o sentimento geral da população, assinam o Manifesto - temem que, no caso em apuração, “se confirme um anúncio prévio de novo engavetamento de todas essas denúncias, como foi o exemplo da Operação ‘Sexto Mandamento’, com todos os policiais envolvidos soltos e, em alguns casos, já absolvidos”. Esperamos (embora existam motivos para desconfiar) que esse temor não se torne realidade e que a CPMI da corrupção cumpra o seu papel com isenção, responsabilidade e ética. Esperamos também que os responsáveis desse mar de lama sejam processados e julgados. É isso o que almejam as Entidades - que assinam o Manifesto - quando afirmam: “Cabe-nos, nessa conjuntura, mobilizar a sociedade civil, os movimentos sociais, as igrejas e todas as lideranças comprometidas com os direitos humanos a unirem forças no intuito de exigir apuração transparente - inclusive das denúncias de financiamento de campanhas eleitorais -, fim da corrupção, punição à rede criminosa, cassação de mandatos, devolução de valores aos cofres públicos e continuidade das investigações em busca de ramificações de redes criminosas”. Enfim, as Entidades concluem dizendo: “É preciso que a luz lançada sobre essas situações provoque sentimentos de justiça e reafirmação do compromisso com a vida. Cremos que estas ações darão à população novo vigor para se manter indignada, mas, ao mesmo tempo, confiante na busca da humanização marcada pela garantia de direitos”. Estamos, os cristãos/ãs, no tempo da Páscoa, que é Vida. Lutemos para que todos/as tenham Vida e Vida em abundância (Cf. Jo 10,10). Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 05/05/12, p. 04 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120505&p=20 http://www.adital.com.br/site/noticia_imp.asp?lang=PT&img=S&cod=66624 (Sobre a divulgação do Manifesto na internet, veja os links: http://www.casadajuventude.org.br/index.php?option=content&task=view&id=3394&Itemid=2 http://www.cptgoias.com/ http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=66154 http://www.ihu.unisinos.br/noticias/508568 http://caritas.org.br/novo/2012/04/18/manifesto-contra-corrupcao-favor-da-vida/ (divulgação em diversas línguas) http://correiodobrasil.com.br/manifesto-contra-a-corrupcao-e-a-favor-da-vida/434820/ http://verbonet.com.br/verbonet/index.php?option=com_content&view=article&id=19730:goias-e-df-entidades-da-igreja-assinam-qmanifesto-contra-corrupcao-e-pela-vidaq&catid=5:noticias http://www.radiovaticana.net/bra/Articolo.asp?c=581109) Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) Prof. de Filosofia da UFG aposentado Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos (Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO) Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A máscara rachou e a corrupção vazou

Assistimos, nestes últimos tempos, a um espetáculo deprimente. O tema dominante da mídia, nacional e regional, é a corrupção. Parece que estamos mergulhados num mar de lama. A teia de corrupção - comandada pelo empresário Carlinhos Cachoeira - é tão extensa e complexa, que se torna até difícil fazer uma síntese do que está acontecendo. Antes das minhas reflexões, para apresentar o “estado da questão” sobre o caso Carlinhos Cachoeira, sirvo-me de uma reportagem da Folha de S. Paulo. “Cachoeragate/O esquema. A Máquina de Cachoeira. Entenda como operava, segundo a Polícia Federal, o esquema montado pelo empresário para que políticos atuassem em favor de seu grupo no Congresso e em Governos estaduais”. A respeito da Operação Monte Carlo: Após 15 meses de investigação, a Polícia Federal (PF) prendeu, em fevereiro deste ano, o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. O contraventor tem 48 anos de idade, herdou do pai Sebastião as atividades do jogo do bicho nos anos 1960 - 1970 e ajudava a recolher apostas nas bancas de Anápolis - GO. “Ganhou notoriedade em 2004, quando veio a público um vídeo de 2002 em que negociava propina para fazer negócios no Governo do Rio. Seu interlocutor, Waldomiro Diniz, mais tarde foi assessor do ex-ministro José Dirceu”. Segundo a apuração feita, “ele explorava jogos ilegais e tinha um laboratório farmacêutico, entre outros negócios. Nos dias seguintes, diversas relações de Cachoeira vieram à tona”. A respeito dos Políticos envolvidos: “Escutas telefônicas feitas pela PF mostram que Cachoeira tinha influência sobre políticos que defendiam interesses de seu grupo no Congresso e em Governos estaduais. A relação que mais ganhou destaque foi com o senador Demóstenes Torres”. “Políticos receberam ao menos R$ 780 mil em doações de firmas contratadas pelo grupo de Cachoeira e abastecidas por recursos cuja origem é a Delta, segundo a PF”. A respeito dos Governos envolvidos: “Segundo as investigações, Cachoeira tinha pessoas de sua confiança em postos-chave dos Governos de Goiás e do Distrito Federal, além de influência em Órgãos federais, como a Anvisa”. A PF, “com a autorização da Justiça, gravou desde 2009 conversas de Cachoeira e de pessoas que trabalhavam para ele com políticos e empresários”. As gravações “sugerem relação entre o grupo e os governadores (de Goiás e do Distrito federal), mas não mostram conversas diretas entre eles. Os dois admitem contatos ocasionais com Cachoeira, mas negam influência dele em seus Governos”. A respeito das Empresas envolvidas: “As investigações sugerem também que o grupo trabalhou para defender interesses da construtora Delta nos Estados onde ela tinha contratos. A PF suspeita também que o laboratório Vitapan era usado por Cachoeira para lavar dinheiro do jogo ilegal”. Sempre segundo a PF, “Cachoeira controlava uma rede de empresas de fachada que movimentaram milhões de reais nos últimos anos. Pelo menos R$ 39 milhões foram repassados pela construtora Delta para elas” (Folha de S. Paulo, 20/04/12, p. A8. Vejam, na íntegra, os documentos da Operação Monte Carlo, nos sites: www.jb.com.br/pais/noticias/2012/04/04 e www.leidoshomens.com.br). No dia 19 do mês corrente, com o apoio de 72 dos 81 senadores e de 396 dos 513 deputados, foi criada a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), que vai apurar a ligação de políticos e agentes públicos com Carlinhos Cachoeira. O documento de criação da CPMI especifica como alvo da investigação pelo menos 15 tipos de crimes cometidos pelo contraventor e seu grupo: tráfico de influência, fraude nas licitações, corrupção e formação de quadrilha, entre outros. Especifica também a necessidade de investigar todas as empresas "associadas" a Cachoeira, o que inclui a Delta Construções, maior empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O documento se refere a "empresas supostamente legais, controladas por Cachoeira ou que a ele estejam associadas, direta ou indiretamente". E afirma: "Urge enfrentar o desafio de destrinçar as relações entre o poder público e as atividades do senhor Carlos Augusto Ramos". O enfrentamento da ligação do contraventor com agentes públicos "é ponto de honra para o Congresso Nacional". "Está em causa o resguardo da própria lisura do devido processo legislativo". Será que podemos acreditar nas palavras dos parlamentares? Será que é isso mesmo o que eles querem ou será que eles (o que é mais provável) não estão debochando da nossa cara? Vejam o cúmulo do absurdo e do descaramento. A CPMI, criada para investigar os negócios do empresário Carlinhos Cachoeira, terá entre seus integrantes “fichas-sujas”: o ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL), que foi afastado do cargo por corrupção e hoje é senador, e outros 16 parlamentares com pendências na Justiça, como os senadores Romero Jucá (PMDB-RR) e Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) (Cf. Folha de S. Paulo, Ib., p. A4). É muita maracutaia! É muita falta de respeito para com o povo! Diversas pessoas, diante dessa teia de corrupção (lembremos também o “mensalão” e outros escândalos de corrupção) ficam surpresas e decepcionadas com determinados políticos, que sempre se apresentaram como defensores da “moralidade”. É compreensível, mas não podemos esquecer que, atrás dessa máscara de “moralidade”, existe “um sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida - DA, 385), ou melhor, um sistema socioeconômico, político, ecológico e cultural iníquo, corrupto, podre e imoral. A iniqüidade, a corrupção, a podridão e a imoralidade são sistêmicas, estruturais. Os atos de corrupção - que mais aparecem - são simples vazamentos (erupções) desse sistema. A máscara rachou e a corrupção vazou. Para os políticos e agentes públicos desse sistema iníquo, o importante não é “ser éticos”, mas “parecer éticos”. Colaborar, com o nosso voto e a nossa prática política para fortalecer esse sistema dominante, é um crime. Unidos e organizados - os Movimentos Sociais Populares, os Sindicatos autênticos (sobretudo de Trabalhadores), as Igrejas, as Pastorais Sociais e todas as pessoas que acreditam num mundo novo - precisamos tomar consciência da urgente necessidade de aproveitar os espaços e as brechas possíveis (abrindo sempre novos espaços e novas brechas) para fazer acontecer um projeto socioeconômico, político, ecológico e cultural alternativo: um projeto popular, justo e fraterno. A esperança já é certeza de vitória. Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 28/04/12, p. 02 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120428&p=18 - 28/04/12 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=66456 - 26/04/12 http://correiodobrasil.com.br/a-mascara-rachou-e-a-corrupcao-vazou/442046/ - 26/04/12 http://minutonoticias.com.br/a-mascara-rachou-e-a-corrupcao-vazou - 26/04/12 http://desacato.info/2012/04/a-mascara-rachou-e-a-corrupcao-vazou/ - 27/04/12) Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) Prof. de Filosofia da UFG aposentado Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos (Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO) Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Irmã Katherine: uma santa de nossos dias

No dia 9 desse mês de abril/12, segunda feira na oitava da Páscoa e primeiro dia do Tempo Pascal, faleceu, na Santa Casa de Misericórdia de Goiânia, a Irmã Katherine Marie Popowich, missionária da Congregação Irmãs de São José de Rochester, com 84 anos de idade e 66 anos de vida religiosa. Ela, cuja vida foi uma caminhada pascal, “completou sua Páscoa”, chegou à Páscoa definitiva, à plenitude da Páscoa. Na Igreja da Comunidade Jesus de Nazaré do Jardim Curitiba II, durante o velório, na Missa de corpo presente e na Missa de 7º dia, ouvimos emocionados - de pessoas que conheceram e conviveram com a Irmã Katharine - muitos testemunhos de apreço sobre a religiosa missionária, que nos edificaram a todos/as. Ela era realmente uma pessoa de profunda sensibilidade humana, uma verdadeira discípula missionária de Jesus, que viveu a radicalidade evangélica. A Irmã Katherine “foi uma das fundadoras da missão das Irmãs de São José de Rochester no Brasil, chegando ao Brasil em 1964, em resposta ao chamado do Vaticano II que convidou Congregações Religiosas para mandar Irmãs para servir na America Latina. Durante 48 anos, ela conviveu com o povo em Paranaiguara, São Simão, Cachoeira Alta e Goiânia - GO, e Uberlândia - MG. Em seu grande amor pela Congregação, ela iniciou os encontros nacionais e internacionais das Irmãs de São José e serviu como presidente da CRB (Conferencia dos Religiosos do Brasil - GO) nos anos 90”. Chegando no Brasil, a religiosa missionária “iniciou seu ministério como professora e diretora nas Escolas Municipais de Paranaiguara, onde a educação ainda se encontrava em fase inicial, e como agente de pastoral na Diocese de Jataí, permanecendo nesta Diocese até 1984, quando foi transferida para Uberlândia - MG. Desde 1989 tem se doado a serviço do povo nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) nos bairros de Nova Esperança, Jardim Curitiba, na região Noroeste da cidade de Goiânia conhecida como ‘Alto da Poeira’". A Irmã Katherine - que era usuária do SUS - “foi uma militante apaixonada e grande defensora do Sistema Único de Saúde (SUS), tendo servido no Conselho Municipal de Saúde por muitos anos, se afastando de suas atividades como Conselheira em dezembro de 2011. Ela serviu como presidente do Conselho Municipal de Saúde de Goiânia em 2000-2001. Contribuiu para que fosse construída a Maternidade Nascer Cidadão, no Jardim Curitiba III, com uma proposta alternativa de parto humanizado. Lutou também pela Maternidade Dona Íris e pelo CAPS na Vila Mutirão. Ela sempre incentivou os outros usuários e usuárias a participarem do Conselho Municipal de Saúde e de Conselhos locais” (Falecimento da Irmã Katherine em Goiânia: http://www.isjbrasil.com.br/index.php?page=noticia&id_noticia=706 - 10/04/12). O SUS, que em teoria é um dos melhores planos de saúde pública, na prática - pela falta de infra-estrutura adequada, de recursos humanos e financeiros - é ainda muito precário e longe do ideal de saúde pública sonhado pela Irmã Katherine. Mesmo nessas condições, existem nas Unidades de Saúde Pública muitas pessoas (médicos/as, enfermeiros/as e outros agentes de saúde) que trabalham com dedicação e amor a serviço do povo. A Irmã Katherine acreditava que é possível uma política de saúde pública fraterna e de qualidade para todos/as. E é por isso que, com muita garra, a religiosa missionária ajudou a consolidar o SUS em Goiânia e a implantar a Maternidade Nascer Cidadão. Fraternidade e saúde pública, diz a Campanha da Fraternidade 2012. Entre as diversas homenagens que a Irmã Katherine recebeu, a de Madrinha da Maternidade Nascer Cidadão foi a que mais a emocionou. Em sua última entrevista à Prefeitura de Goiânia, ela disse: "Para quem auxiliou na implantação da Maternidade Nascer Cidadão e dedicou muito a quem precisa, é um grande privilégio poder ser homenageada por Goiânia e o que é melhor, representando as mulheres da região’’ (http://www.prefeituragoiania.stiloweb.com.br/site/goianianoticias.php?tla=2&cod=6351 - 11/04/12). A Irmã Katherine era uma mulher pioneira, que encorajava, cutucava e incentivava a todos/as. Ela se identificava com a Igreja das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): uma Igreja simples, fraterna, evangélica, toda ministerial (servidora) e Povo de Deus. Nestes últimos tempos, a religiosa missionária foi a pessoa que mais divulgou o Documento 92 da CNBB: Mensagem ao Povo de Deus sobre as Comunidades Eclesiais de Base, resumindo o Documento e traduzindo-o numa linguagem acessível. “A ultima imagem de Irmã Katherine - diz a Irmã Elenice Buoro - que guardo no coração e na retina é a de uma peregrina subindo com dificuldade, mas com persistência, a rampa do Santuário de Trindade, no dia 27 de outubro de 2011, na caminhada das CEBs, apoiada de um lado numa Irmã e do outro segurando-se no corrimão. Imagem certamente do que foi sua vida: Uma busca constante e persistente de Deus junto com os irmãos e irmãs, em Comunidade, para fazer acontecer o Reino, sobretudo junto dos mais pobres e excluídos” (Falecimento da Irmã Katherine em Goiânia. Site citado). Como falei no velório e na Missa de 7º dia, entre as muitas virtudes e qualidades da Irmã Katherine, destaco três: a serenidade de uma mulher de Deus, de muita fé e sempre sorridente; a firmeza de uma mulher forte, corajosa, guerreira, uma verdadeira profetisa, que denunciava as situações de injustiça e de violação dos direitos humanos, mas que também - entranhadamente solidária com os empobrecidos, oprimidos e excluídos - lutava para mudar estas situações; e a sabedoria do Espírito Santo que - fascinada por Jesus de Nazaré e seu projeto de vida - a impelia a estar sempre atenta aos sinais dos tempos como apelos de Deus e, em sintonia com a vida e o sofrimento do nosso povo, a tornava capaz de dar o conselho certo na hora certa. Por ter tido a felicidade de conhecer a Irmã Katherine e de conviver com ela em diversos momentos - que foi uma experiência muito enriquecedora - posso, sem nenhuma dúvida, afirmar que a Irmã Katherine é uma santa dos nossos dias e pedir: Santa Katherine, Roga pelo nosso povo! Roga pela Igreja! Roga por nós! (Mais notícias sobre a Irmã Katherine nos sites: http://www.saude.goiania.go.gov.br/html/noticia/12/01/especialkhaterine.shtml http://www.arquidiocesedegoiania.org.br/site/donwloads/cadernosaude.pdf e no livro: Margaret Brennan, SSJ. A Boa Chuva. As Irmãs de São José de Rochester no Brasil - 1964-2004. Edição em português, Goiânia - GO, 2006) Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 20/04/12, p. 06 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120420&p=26 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=66247 http://marujo-do-caete.blogspot.com.br/ http://minutonoticias.com.br/irma-katherine-uma-santa-dos-nossos-dias http://correiodobrasil.com.br/irma-katherine-uma-santa-dos-nossos-dias/437253/ Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) Prof. de Filosofia da UFG aposentado Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos (Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO) Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Páscoa: uma reflexão teológico-pastoral

A Páscoa - passagem da morte para a vida (vida de ressuscitados, vida nova em Cristo, vida segundo o Espírito) - acontece no mundo na medida em que o ser humano se humaniza, naturalizando-se (vivendo em comunhão com a natureza e suas formas de vida) e o mundo se naturaliza, humanizando-se (vivendo em comunhão com o ser humano e sua forma de vida). A Páscoa, podemos dizer, é a utopia de um humanismo naturalizado e de um naturalismo humanizado, acontecendo. "A criação toda geme e sofre dores de parto até agora. E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no íntimo, esperando a adoção, a libertação para nosso corpo” (Rm 8, 22-23).
O ser humano - como tudo o que existe - é um ser-no-mundo (a mundanidade é constitutiva do ser humano e de todos os seres). O ser humano, porém, sabe (tem consciência) que é um ser-no-mundo (a consciência é constitutiva do ser humano). Por isso, ele é também um ser-com-o-mundo (material e vivente), com-os-outros (semelhantes) e com-o-Outro absoluto” (Deus). A alteridade mundana (cósmica), a alteridade humana e a alteridade divina são as dimensões e relações fundamentais do ser humano. Elas se desdobram em muitas dimensões e relações e constituem sua identidade. O ser humano, portanto, é um ser pluridimensional e pluri-relacional.
As dimensões e relações do ser humano são históricas, situadas (no espaço) e datadas (no tempo). Sendo históricas, elas são estruturais (sociais, econômicas, políticas, ecológicas, culturais) e individuais ou interindividuais (corpóreas - incluindo a sexualidade -, bio-psíquicas, espirituais ou pessoais). Toda dimensão e relação marca o ser humano todo, mas não é a totalidade do ser humano.
Fazer acontecer a Páscoa (passagem) significa humanizar naturalizando e naturalizar humanizando as dimensões e relações do ser humano no mundo. Significa fazer acontecer o Amor em todas essas dimensões e relações. Significa passar, sempre mais, de uma vida de desamor (egoísmo) para uma vida de amor.
Quando afirmamos que Deus é Amor, afirmamos, em primeiro lugar, que Deus é. "Eu sou Aquele que sou” (Ex 3, 14). Deus é a plenitude do Ser. O ser humano (homem e mulher) - como tudo o que existe - é, porque Deus é. Deus é a fonte do ser nos seres. "Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At, 17, 28).
Cada um de nós pode dizer: Eu sou "eu" antes que alguém possa entrar em contato comigo, mas eu não sou "eu" (no sentido estrito do verbo ser) sem a "presença ontológica" (em linguagem filosófica) ou a "presença criadora” (em linguagem teológica) de Deus que me "põe" no ser, como "põe" no ser tudo o que existe. Neste sentido, Deus é mais íntimo a mim do que eu mesmo (cf. Santo Agostinho, Confissões, III, 6, 11). "Quando eu me torno presente, 'íntimo', a mim mesmo, Deus, de certo modo, 'já' está em mim: presente em mim antes de mim mesmo" (L. Podeur. Imagem moderna do mundo e Fé cristã. Paulinas, São Paulo, 1977, p. 127). A "presença ontológica" ou a "presença criadora” de Deus atinge o real por dentro e não por fora; é nisso que se funda toda relação para com Deus. Pela "presença ontológica" ou "presença criadora”, "Deus está no mais profundo da realidade; ele é o fundo, porque é o fundamento transcendente (absoluto) de tudo" (Ib. p. 128).
Em segundo lugar (em sentido lógico e não cronológico), depois de afirmar que Deus é, afirmamos que Deus é Amor (cf. 1Jo 4, 8). O amor é a natureza de Deus, é o ser de Deus. Ora, o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus, por amor e para amar, e, portanto, ele também é amor". Deus disse: ‘façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança’” (Gn 1, 26). O amor - que é a natureza de Deus - é também a natureza do ser humano, é o ser do ser humano. "O amor é o meu peso. Para qualquer parte que vá, é ele quem me leva” (S. Agostinho. Confissões, XIII, 9).
O que significa para o ser humano ser amor? O amor define e envolve a totalidade do ser humano no mundo, a totalidade de sua existência, em todas as suas dimensões e relações, para com o mundo (material e vivente), para com os outros (semelhantes) e para com o Outro absoluto (Deus), no mundo. O ser humano existe para amar, é a sua condição existencial. "Somos o que amamos” (S. Agostinho. Cidade de Deus, XIV, 28), isto é, nossa essência está definida pelo que amamos.
Mas o que é realmente amar? Amar é a vocação ontológica do ser humano, ou seja, a vocação do ser humano enquanto ser humano. Amando, o ser humano encontra o verdadeiro sentido da vida; amando, ele é feliz, realizado. "Ama e faze o que quiseres. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas em tom alto, fala por amor; se corriges, corrige por amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor: dessa raiz não pode sair senão o bem!" (S. Agostinho. Comentário à Primeira Carta de João, VII, 8).
E o que significa amar? Se amar é a vocação ontológica do ser humano, amar significa "ser mais”, significa ser sempre mais ser humano e viver sempre mais intensamente (profundamente) sua humanidade, em todas as dimensões e relações. O ser humano é um "vir-a-ser”, um ser de busca permanente.
A vocação ontológica se constitui (se realiza) e acontece na história (no tempo e no espaço). Há uma dialeticidade, ou, em outras palavras, uma interação entre o ontológico e o histórico. Podemos dizer que o ser humano é enquanto histórico e é histórico enquanto é. A vocação ontológica do ser humano torna-se vocação histórica. O ser humano é chamado (permito-me criar uma palavra) a "amorizar” o mundo e a sociedade na qual ele vive, isto é, a impregnar esse mundo e essa sociedade de amor.
A Páscoa acontece onde o Amor acontece. Sejamos, hoje, os agentes da Páscoa, até a Páscoa definitiva.

(Veja também o meu Artigo: A festa do Divino Pai Eterno. Uma reflexão teológico-pastoral.
Em Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 02/07/11, p. 4, ou em: http://www.adital.com.br/site/noticia_imp.asp?lang=PT&img=N&cod=58062;http://www.diocesedecaxias.org.br/conteudo_artigos.php?cod_artigo=504;http://www.claudiocarvalhaes.com/uncategorized-pt-br/a-festa-do-divino-pai-eterno-uma-reflexao-teologico-pastoral/.
No presente escrito, retomo algumas reflexões desse Artigo).

Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 13/04/12, p. 02

http://www.dmdigital.com.br/novo/?ref=dmsite#!/view?e=20120413&p=18
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=65974


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG aposentado
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Tempo Pascal

O Ano Litúrgico “compreende dois tempos fortes: o Ciclo Pascal, tendo como centro o Tríduo Pascal, a Quaresma como preparação e o Tempo Pascal como prolongamento; o Ciclo do Natal, com sua preparação no Advento e o seu prolongamento até a festa do Batismo do Senhor. Além destes dois, temos o Tempo Comum” (CNBB, Guia Litúrgico-Pastoral. Edições CNBB, p. 11).
O Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor começa na 5ª feira santa à noite (depois do por do sol), com a Celebração da Ceia (mandamento do amor, lava-pés) e vai até à tarde do domingo da Páscoa da Ressurreição com as Vésperas. O Tríduo Pascal (o Cristo Crucificado, Sepultado e Ressuscitado) é o ápice do Ano Litúrgico porque celebra a Morte e a Ressurreição do Senhor, “quando Cristo realizou a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus pelo seu mistério pascal, quando morrendo destruiu a nossa morte e ressuscitando renovou a vida” (Normas sobre o Ano Litúrgico e o Calendário - NALC, 18).
O Tempo Pascal é de 50 dias, entre o domingo da Ressurreição e o domingo de Pentecostes. É o tempo da alegria e da exultação, um só dia de festa, “um grande domingo”. São dias de Páscoa e não após Páscoa (cf. NALC, 22). “Os oito primeiros dias do tempo pascal formam a oitava da Páscoa e são celebrados como solenidades do Senhor” (NALC, 24). “Ressuscitados com Cristo, cantamos sua glória, sua vitória sobre a morte. O ‘aleluia’ volta a ressoar em nossos lábios, invadindo todo o nosso ser com ardor sempre crescente, pois ‘as coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo’” (CNBB, Guia Litúrgico-Pastoral, p. 88).
A solenidade da Ascensão, no Brasil, é celebrada no 7º domingo da Páscoa. A semana seguinte, até Pentecostes, caracteriza-se pela preparação à celebração da vinda do Espírito Santo. Em sintonia com as outras Igrejas cristãs, nesta semana realizamos no Brasil a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos” (cf. Diretório Ecumênico, 22 e 24).
Para os cristãos, a Páscoa (até a Páscoa definitiva) é o acontecimento histórico central. Celebrar ou fazer a memória da Páscoa (Mistério Pascal) significa torná-la presente no mundo de hoje, vivenciá-la em todas as dimensões da vida humana e cósmica. A Liturgia é a celebração da Vida no Mistério Pascal e, ao mesmo tempo, a celebração do Mistério Pascal na Vida. A espiritualidade é - em seu sentido mais profundo - espiritualidade pascal. Vejamos o porquê.
Em primeiro lugar (no sentido lógico e não cronológico), a espiritualidade é o jeito “humano” de ser do ser humano e envolve o ser humano todo, em todas as suas dimensões e relações. Ela perpassa, impregna e absorve a totalidade do ser humano, a totalidade de sua existência.
Como, porém, o ser humano, por ser histórico (situado e datado), é um "vir-a-ser" e um ser de busca permanente, ele pode - ao longo de sua vida no mundo e na sociedade - adquirir uma profundidade e intensidade sempre maior na vivência do "humano", até o fim da vida. Portanto, a espiritualidade é, antes de tudo, espiritualidade humana. Ser espirituais significa ser “humanos”, viver a humanidade em graus crescentes de profundidade e intensidade. Nunca ninguém exagera em ser “humano”, nunca ninguém é “humano” demais.
Para os cristãos, à luz da fé, a espiritualidade humana é espiritualidade cristã. Não pode, porém, ser espiritualidade cristã se não for primeiro (sempre no sentido lógico e não cronológico) espiritualidade humana. A espiritualidade cristã é uma espiritualidade radicalmente humana. Os cristãos, em nome de sua fé, não têm o direito de ser omissos, mas devem estar sempre na linha de frente em todas as lutas que visam tornar a sociedade e o mundo mais humanos.
“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos seres humanos de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 1). Trata-se de uma solidariedade (compaixão) entranhável dos cristãos com toda a humanidade. Na prática e não só na teoria, os cristãos deveriam ser, por assim dizer, especialistas em humanidade.
Os cristãos acreditam que "o mistério do ser humano só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. (…) Cristo manifesta plenamente o ser humano ao próprio ser humano e lhe descobre a sua altíssima vocação" (GS, 22). "Todo aquele que segue Cristo, o Homem perfeito, torna-se ele também mais ser humano" (GS, 41). "A razão principal da dignidade humana consiste na vocação do ser humano para a comunhão com Deus" (GS, 19). "A fé esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do ser humano. E por isso orienta a mente para soluções plenamente humanas" (GS, 11).
Reparem que o texto não diz “soluções não somente humanas, mas também sobrenaturais” (visão dualista da vida humana), mas diz “soluções plenamente humanas”. Para os cristãos, o plenamente humano inclui a dimensão da fé. O cristianismo é um humanismo pleno, um humanismo radical. Pela fé, os cristãos descobrem sempre mais claramente o verdadeiro sentido da vida (na história), até o seu pleno, último e definitivo sentido (na meta-história).
Pela centralidade da Páscoa na vida dos cristãos, a espiritualidade cristã é, pois, espiritualidade pascal: cristológica, pneumatológica e trinitária (comunitária - eclesial). Viver a espiritualidade pascal significa viver como Jesus viveu, morrer como Jesus morreu, ressuscitar como Jesus ressuscitou. Em outras palavras, viver a espiritualidade pascal significa fazer acontecer a Páscoa de Jesus na vida pessoal, na história humana e no mundo todo. A Páscoa (o mistério pascal), que é passagem da morte (e de tudo o que a morte significa) para a vida (vida nova em Cristo, vida segundo o Espírito) é uma realidade dinâmica (processual), que impregna a totalidade da existência humana no mundo.
Para os cristãos, a vida é uma caminhada pascal, que faz o Reino de Deus acontecer, até a Páscoa definitiva, que é a plenitude do Reino de Deus, a plenitude da Vida e da Felicidade. Que a nossa espiritualidade seja realmente - e sempre mais - espiritualidade pascal!

Obs.: Veja também o meu artigo Espiritualidade pascal: no Diário da Manhã, 21/04/11, p. 15, ou no link: http://www.adital.com.br/site/noticia_imp.asp?lang=PT&img=N&cod=55841.

Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 01/04/12, p. 07

http://www.dmdigital.com.br/novo/?ref=dmsite#!/view?e=20120401&p=23
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=65643


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG aposentado
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

sexta-feira, 23 de março de 2012

Por uma política de saúde pública fraterna

A Campanha da Fraternidade - CF 2012 tem como tema: Fraternidade e
saúde pública e como lema: Que a saúde se difunda sobre a terra (cf. Eclo 38, 8). O grande desafio da CF deste ano é ajudar as pessoas a tomar consciência da necessidade de uma política de saúde pública fraterna: uma utopia possível.

Como afirma Dom Odilo Pedro Scherer, cardeal arcebispo de S. Paulo, na CF 2012, “o olhar está voltado para o acesso aos serviços, para as políticas em saúde pública, os atendimentos médicos e hospitalares, a falta de acesso a medicamentos. A situação está muito séria na adequação do SUS. Os pobres, que não têm possibilidade de ter plano de saúde, dependem de um sistema de saúde deficitário, que está longe de atender os requisitos básicos. A saúde vai muito mal no Brasil” (Folha de S. Paulo. Entrevista da 2ª, 05/03/12, p. A16).
Em 3 de março/12, o Ministério da Saúde divulgou um relatório de avaliação do SUS, no qual a nota média ficou em 5,4. Perguntado sobre o relatório, Dom Odilo afirmou: “(O SUS) foi muito mal avaliado. Não basta que poucos tenham condições de ter acesso a ótimos hospitais. É uma questão de fraternidade, solidariedade, levantar a questão, reclamar, mostrar a situação real nos grotões do país, nas periferias das grandes cidades. E não é só isso. A saúde pública vive um processo de terceirização, de comercialização” (Ib.). E, fazendo duras críticas às Organizações Sociais - OS (que em princípio - dizem - seriam entidades privadas sem fins lucrativos que administram serviços públicos a partir de parcerias com o governo), afirmou ainda: ”Na medida em que se terceiriza os serviços de saúde, vira comércio, eles acabam sendo submetidos às leis de mercado. Isso pode comprometer o atendimento dos pacientes. Saúde é um bem público, um direito básico, fundamental. Impostos são recolhidos para esse fim” (Ib.).
O Hino da CF 2012 retrata muito bem a situação desumana e antiética em que se encontra a saúde pública. Meditemos!

1. Ah! Quanta espera, desde as frias madrugadas,
Pelo remédio para aliviar a dor!
Este é teu povo, em longas filas nas calçadas,
A mendigar pela saúde, meu Senhor!

Tu, que vieste pra que todos tenham vida, (Jo 10, 10)
Cura teu povo dessa dor em que se encerra;
Que a fé nos salve e nos dê força nessa lida, (Mc 5, 34)
E que a saúde se difunda sobre a terra! (Cf. Eclo 18, 8)

2. Ah! Quanta gente que, ao chegar aos hospitais,
Fica a sofrer sem leito e sem medicamento!
Olha, Senhor, a gente não suporta mais,
Filho de Deus com esse indigno tratamento!

3. Ah! Não é justo, meu Senhor, ver o teu povo
Em sofrimento e privação quando há riqueza!
Com tua força, nós veremos mundo novo, (Cf. Ap 21, 1-7)
Com mais justiça, mais saúde, mais beleza!

4. Ah! Na saúde já é quase escuridão,
Fica conosco nessa noite, meu Senhor, (Cf. Lc 24, 29)
Tu que enxergaste, do teu povo, a aflição
E que desceste pra curar a sua dor. (Cf. Ex. 3, 7-8)

5. Ah! Que alegria ver quem cuida dessa gente
Com a compaixão daquele bom samaritano. ( Lc. 10, 25-37)
Que se converta esse trabalho na semente
De um tratamento para todos mais humano!

6. Ah! Meu Senhor, a dor do irmão é a tua cruz!
Sê nossa força, nossa luz e salvação! (Cf. Sl. 27, 1)
Queremos ser aquele toque, meu Jesus, (Cf. Mc. 5, 20-34)
Que traz saúde pro doente, nosso irmão!

Como já disse no artigo Tempo da Quaresma (Diário da Manhã, Opinião Pública, 24/02/12, p. 4), com a CF 2012, a Igreja deseja SENSIBILIZAR a todos e a todas “sobre a dura realidade de irmãos e irmãs que não têm acesso à assistência da Saúde Pública condizente com suas necessidades e dignidade”; REFLETIR sobre essa realidade, “que clama por ações transformadoras” e MOBILIZAR “por melhoria no Sistema Público de Saúde”. “A conversão pede que as estruturas de morte sejam transformadas” (CF 2012. Texto-Base, p. 9 e 12). Lutemos por uma política de saúde pública fraterna e de qualidade para todos/as.

Sobre a realidade da saúde pública, leia também os meus artigos:

1.Uma saúde pública criminosa (Diário da Manhã, Opinião Pública, 11/06/11, p, 3).
2.As mortes do sistema público de saúde: quem vai responder por elas? (Ib. 09/07/11, p. 3)
3.O Ipasgo e o descaso com a saúde pública (Ib. 08/08/11, p. 4).
4.O ‘corredor da morte’ dos pobres (Ib. 17/08/11, p. 6).
5.Um descaso inadmissível e injustificável (Ib. 04/11/11, p. 7).
6.Saúde pública: uma situação de violência permanente (Ib. 27/01/12, p. 6).

Obs.: Os artigos foram publicados também no site www.adital.com.br (todos), no site www.direitoshumanos.etc.br (três), no site www.correiocidadania.com.br (um) e em outros sites ou blogs.

Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 23/03/12, p. 06


http://www.dmdigital.com.br/novo/?ref=dmsite#!/view?e=20120323&p=22 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=65404



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

terça-feira, 20 de março de 2012

Educação pública estadual: Solidariedade aos professores em greve

Em março de 2011, no artigo “O descaso na educação pública estadual” (Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 25/03/11, p. 3) retratei a situação de calamidade pública em que se encontram muitas escolas estaduais, afirmando que a estrutura física das escolas, a qualificação dos professores e a questão dos salários influenciam decisivamente na qualidade do ensino e do aprendizado. Passou um ano e a situação continua a mesma.
Como já lembrei no artigo citado, a Constituição Federal diz que os Estados e os Municípios devem aplicar anualmente “vinte e cinco por cento, no mínimo, da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino” (Art. 212). Reparem: a Constituição Federal reza: “no mínimo”. Isso quer dizer que, se houver necessidade, o Estado pode e deve aplicar mais.
A Constituição Federal diz também que o direito à educação, entre outros direitos, deve ser assegurado à criança e ao adolescente, “com absoluta prioridade” (Art. 227). Ora, se o direito à educação deve ser assegurado “com absoluta prioridade”, mesmo que faltem verbas para outras obras, nunca deveriam faltar para a educação. Em caso contrário, não se trataria de “absoluta prioridade”. É uma questão de lógica.
Falando da educação, a Constituição Federal diz ainda: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Art. 205).
A greve na Rede Estadual da Educação começou no dia 6 de fevereiro/12 e, só depois de um mês, aconteceram as primeiras negociações entre o governo e os educadores. Isso demonstra o descaso e a falta de responsabilidade do Poder Público para com a educação.
Nas negociações, a proposta do governo do Estado foi de formar uma comissão que teria o prazo de 40 dias para apresentar as modificações ao plano de carreira dos professores que contemplem “a gratificação de titularidade, gratificação de desempenho e avaliações”.
Em assembleia, realizada no dia 8 de março/12, os educadores estaduais não aceitaram a proposta do governo e decidiram continuar a greve. “Segundo os trabalhadores, não há garantias em relação ao retorno da gratificação de titularidade, extinta no final do ano passado, quando foi incorporada ao vencimento do trabalhador para atingir o valor do piso nacional”. E, além disso, o prazo de 40 dias, exigido pelo governo estadual para apresentar soluções, é longo demais.
Iêda Leal, presidente do Sintego, afirmou: “A categoria entendeu que ainda não há uma proposta que responda as nossas reivindicações, portanto a greve continua. Continuaremos lutando pelos nossos direitos adquiridos e em negociação com o governo”
(http://www.sintego.org.br/site/#[ajax]noticia&id=820).
Falando que a busca de qualificação profissional pode ser comprometida com a extinção da gratificação de titularidade do Plano de Cargos e Salários dos profissionais da Educação do Estado (a principal reclamação dos professores), o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG), Ged Guimarães (ao contrário do que afirmou o secretário estadual da Educação Thiago Peixoto sobre a distância entre o que se aprende na academia e a sala de aula) diz que “’as questões ligadas ao chão da escola’ serão melhor pensadas pelo professor quando ele tiver mesmo uma formação teórica eficiente. Segundo o professor, quando o profissional estuda, ele melhora a visão do mundo e tem condições de pensar sua realidade de forma crítica. ‘Se isso não ocorre, ele começa apenas a repetir o que vê na TV, o que ouve do colega e o que lê no livro’” (O Popular, 11/03/12, p. 5).
A greve dos educadores - com sua pauta de reivindicações - é justa e legítima. Recebeu de movimentos, entidades e pessoas da sociedade civil inúmeras moções de indignação e repúdio às ações do governo, e de apoio e solidariedade aos professores. Cabe ao governo estadual tomar consciência de sua responsabilidade, valorizar os professores e dialogar com eles, em busca de soluções para uma educação pública de qualidade.
Termino o meu escrito com o desabafo do professor Pedro (nome fictício), que recebi por e-mail. Falando da greve dos professores, que resultou da votação do final de 2011 na Assembléia Legislativa, em relação à carreira dos professores, afirma: “Foi um duro golpe em nossas expectativas, pois todos já computavam um aumento de salário com a promessa de pagamento do piso salarial. Não foi o que aconteceu. Não tivemos aumento e ainda ficamos sem um plano de carreira. Não vi vantagens na meritocracia para quem está tão por baixo, poderia até ser bom se já estivéssemos em um patamar aceitável. A incorporação da gratificação não trouxe nenhum benefício para quem tinha lutado para conquistá-la. Outra questão foi a maneira como esta lei foi aprovada, sem nenhuma análise por parte dos deputados. Nem o relator deputado Francisco Jr. leu (o texto da lei) e deu parecer favorável sem nenhuma ressalva em apenas dez minutos. Um absurdo! Isto demonstra a falta de compromisso dos deputados com a sociedade. Três já arrependeram de terem acreditado no secretário e no relator naturalmente, e disseram que foram enganados. Como isso é possível? Não lêem o que assinam ou aprovam. Particularmente fiquei decepcionado com o posicionamento do Francisco Jr., de quem esperava atitudes diferentes daquelas corriqueiras e praticadas por seus colegas”. Sem comentários!
Uma outra educação é possível! Lutemos por ela.


Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 16/03/12, p. 03

http://www.dmdigital.com.br/novo/?ref=dmsite#!/view?e=20120316&p=19
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=65226


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos