quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Democracia popular

 

Antes de votarmos nas eleições do segundo turno, lembremos a “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”:


  • lançada oficialmente no dia 11 do mês de agosto deste ano na Faculdade de Direito da USP em São Paulo, com atos realizados no mesmo dia em quase todas as capitais do país e outras cidades, e
  • assinada por mais de um milhão de pessoas , incluindo representantes de Organizações sociais (e o autor destas linhas).

Ela nos convida a lutar urgentemente em defesa da democracia, contra toda ameaça de volta a um regime de governo ditatorial e fascista e - nesse momento tão grave que estamos vivendo - não podemos nos omitir.


         A Carta denuncia:


  • Vivemos em um país de profundas desigualdades sociais, com carências em serviços públicos essenciais, como saúde, educação, habitação e segurança pública. Temos muito a caminhar no desenvolvimento das nossas potencialidades econômicas de forma sustentável. O Estado apresenta-se ineficiente diante dos seus inúmeros desafios. Pleitos por maior respeito e igualdade de condições em matéria de raça, gênero e orientação sexual ainda estão longe de ser atendidos com a devida plenitude”. E ainda:
  • “Estamos passando por momento de imenso perigo (repito: imenso perigo) para a normalidade democrática, risco às Instituições da República e insinuações de desacato ao resultado das eleições. Ataques infundados e desacompanhados de provas questionam a lisura do processo eleitoral e o Estado Democrático de Direito tão duramente conquistado pela sociedade brasileira”. 

Por fim, com firmeza, declara:

  • “No Brasil atual não há mais espaço para retrocessos autoritários. Ditadura e tortura pertencem ao passado. A solução dos imensos desafios da sociedade brasileira passa necessariamente pelo respeito ao resultado das eleições. Em vigília cívica contra as tentativas de rupturas, bradamos de forma uníssona: Estado Democrático de Direito Sempre!".

A mensagem da Carta é uma denúncia e, ao mesmo tempo, um alerta que nos faz refletir a todos e a todas.

Além disso, precisamos continuar lutando para que a democracia (que - permitam-me um neologismo - no Capitalismo neoliberal é, na realidade, uma “elitocracia”) se torne cada vez mais “democracia popular”. Isso será plenamente possível somente com a superação do Projeto Capitalista e a implantação do Projeto Popular (fraterno, comunitário e socialista), onde todas as pessoas sejam reconhecidas como iguais em dignidade e valor e tenham os mesmos direitos; e onde também os direitos da Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum sejam respeitados.

No 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares (Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 07-09/07/15), em seu discurso, o papa Francisco pergunta: “Reconhecemos que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?”. E responde: “Se é assim - insisto - digamo-lo sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o suporta a Terra, a Irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco” (o grifo é meu).

O papa continua insistindo: “Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que atinja também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença”. Meditemos!

Termino com as palavras da jovem Manuela de Morais Ramos, presidenta do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP: “É preciso ousar sonhar e caminhar no sentido da luta por uma democracia ainda inexistente no país. Não queremos a democracia da fome, a democracia das chacinas e tampouco a democracia dos ricos. Queremos a antítese da democracia que temos hoje, em outros termos, a democracia da diversidade, a democracia dos trabalhadores, uma democracia real. Queremos a democracia dos povos!” (Ato em defesa da Democracia, 11 de agosto de 2022).

(Cf. https://www.brasildefato.com.br/2022/08/10/lancamento-da-carta-aos-brasileiros-reune-inumeras-personalidades).

Lembrando as palavras do papa Francisco, da Manuela e, sobretudo, conscientes da nossa responsabilidade, no segundo turno das eleições para presidente votemos pela “democracia popular”, votemos 13!

                                                                                               Brasil de Fato, 10/08/22

                                                                                                Brasil de Fato, 10/08/22


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 19 de outubro de 2022



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quinta-feira, 13 de outubro de 2022

O Ser humano

 

“A Ética da Libertação é assumida como uma perspectiva e uma alternativa; ambas - perspectiva e alternativa - partem de uma situação concreta, de uma realidade histórica”, lida - analisada e interpretada - desde os Pobres. Essa situação concreta é, para nós, a América Latina e o Caribe (mas vale também para a situação concreta da África, da Ásia e da Europa). Delas - perspectiva e alternativa - “a Ética da Libertação recebe seus elementos essenciais e assume, a partir desta situação, os problemas universais do Ser humano e da sociedade" (Caldera, A. S. Filosofia e Crise. Pela Filosofia latino-americana. Vozes, Petrópolis, 1984, p. 25). 

Na realidade, a Ética da Libertação (toda Ética é da Libertação:  liberta de tudo aquilo que impede a Vida) faz parte da Antropologia filosófica e/ou teológica da Libertação.

Na primeira série de artigos sobre a Ética da Libertação, as reflexões teológico-pastorais são vividas e tematizadas em torno do eixo: O Ser humano.

Neste - o primeiro da série - apresento um quadro geral, que é, ao mesmo tempo, um roteiro, dos temas que serão desenvolvidos posteriormente:

  • O Ser humano “no-mundo” (“no-espaço” e “no-tempo”): a “mundanidade” (“espacialidade” e “temporalidade”) do Ser humano e de todos os seres.
  • O Ser humano “com-o-mundo” (“com-o-espaço” e “com-o-tempo”): a "mundanidade" ("espacialidade" e "temporalidade") consciente, própria do Ser humano, ser pluri-dimensional e pluri-relacional (ser de relações).

              º “Com-o-mundo material e vivente” e “com-os-outros” (semelhantes).

              º “Com-o-Outro absoluto” (Deus).

  • O Ser humano histórico: a “historicidade” do Ser humano. 

              º O Ser humano social: a "socialidade" do Ser humano histórico.

              º O Ser humano individual: a “individualidade” do Ser humano histórico. 

                    . O Ser humano corpóreo: a "corporeidade” do Ser humano individual.

                    . O Ser humano bio-psíquico: a “bio-psiquicidade” do Ser humano individual.

                O Ser humano espiritual ou pessoal: a “espiritualidade” ou “pessoalidade” do Ser humano individual.

  • O Ser humano meta-histórico: a “meta-historicidade” ("meta-socialidade" e "meta-individualidade") do Ser humano. 
              º O Ser humano meta-histórico “já e ainda não” no mundo (no espaço e no tempo):  a meta-historicidade relativa.

         º O Ser humano meta-histórico “além da morte” na eternidade: a meta-historicidade absoluta (plena).

Termino com uma oração: “Assim como aqui (em assembleia) nos reunistes, ó Pai, à mesa do vosso Filho em união com a Virgem Maria, Mãe de Deus (e nossa), e com todos os santos e santas, reuni no Mundo Novo, onde brilha a vossa paz, os homens e as mulheres de todas as classes e nações, de todas as raças e línguas, para a ceia da comunhão eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Oração Eucarística VIII).

Na sociedade e - mais ainda - na Igreja precisamos acabar com as classes. Todos e todas (incluindo a comunidade LGBTQIA+) - mesmo sendo pessoas humanas únicas e diferentes (of. a Teoria da Evolução de Darwin) - somos iguais em dignidade e valor.

Todos e todas somos filhos e filhas do mesmo Pai-Mãe que é Deus. Todas e todos somos irmãos e irmãs em Cristo.

É este o projeto de vida - de sociedade e de mundo - de Jesus de Nazaré: a Boa Notícia do Reino de Deus. É este o Projeto de Vida Popular (verdadeiramente fraterno, comunitário, socialista). Por fim, é este o Projeto de Vida humano, ético e cristão.


 

                                         www.fatosdesconhecidos.com.br/características-que-te-fazem-um-ser-humano-único


                                         https://br.freepik.com/vetores-premium/igualdade-em-direitos-humanos


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 10 de outubro de 2022



O artigo foi publicado originalmente em:
https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano/















quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Jesus subversivo

 

entre o nosso povo(Lc 23,2) 



Companheiros e companheiras, irmãos e irmãs de caminhada – depois de ouvir o vídeo: https://www.youtube.com › watch (toda a Igreja convocada por bispos e padres) – em consciência sinto a necessidade de fazer, com toda firmeza, uma denúncia: o vídeo citado é baseado na mentira e na hipocrisia do começo até o fim; trata-se de um vídeo repugnante.

Dizem os autores do vídeo: “somos mais de 8.000 padres conservadores”. Que pena!

O vídeo “pede voto para o presidente Jair Bolsonaro (PL) e prega contra ‘o candidato que defende o comunismo ateu’, em suposta alusão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não é nem comunista e nem ateu”.

Irmãos e irmãs, lembremos a acusação que os fariseus e mestres da Lei fizeram contra Jesus quando foi preso e condenado à morte na cruz: Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo (Lc. 23,2).

Os “fariseus e mestre da Lei“ de hoje - disfarçados até de “padres e bispos” - fazem a mesma acusação que fizeram a Jesus contra todos aqueles e aquelas que - mesmo com seus limites humanos e com seus erros - se colocam de corpo e alma: 

  • ao lado e do lado dos “pequeninos” do Evangelho: os pobres, marginalizados, oprimidos, excluídos e descartados do nosso “sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida, 385), perverso, desumano, antiético e anticristão;
  • contra os poderosos e opressores do povo, que são os esteios desse modelo econômico e dessa nossa sociedade baseada na violação institucionalizada dos Direitos Humanos, na injustiça estrutural e na desigualdade gritante, que mata milhões de pobres pela fome e a falta de condições mínimas para uma vida humana digna;
  • e contra os “fariseus e mestres da Lei” de hoje, que - mentindo descaradamente - falam o nome de Deus em vão, deturpam o Evangelho (a Boa Notícia de Jesus de Nazaré) e o usam para naturalizar e legitimar a iniquidade e perversidade de nossa sociedade capitalista neoliberal.  

Meditemos: Hoje, no mundo temos 828 milhões de pessoas passando fome; destas, mais de 33 milhões somente no Brasil. As 8 pessoas mais ricas do mundo possuem tantos bens quanto a metade da população mais pobre (3,6 bilhões de pessoas). As 5 pessoas mais ricas do Brasil têm um patrimônio igual à renda da metade da população mais pobre (106,3 milhões de pessoas). Somente na grande Goiânia - GO, o número de pessoas em situação de pobreza extrema é atualmente de mais de 500 mil pessoas. É esse o pecado social (estrutural) institucionalizado e legalizado que os padres conservadores do vídeo defendem e querem hipocritamente legitimar em nome do Evangelho!

Ouçamos as palavras do papa Francisco aos Movimentos Populares e à Igreja, que continuam plenamente atuais.

Dirigindo-se aos Movimentos Populares, Papa Francisco afirma: “Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas mãos de vocês, na capacidade de vocês se organizarem e promoverem alternativas criativas na busca diária dos ‘3 T’ (trabalho, teto, terra), e também na participação de vocês como protagonistas nos grandes processos de mudança, regionais, nacionais e mundiais”.

Dirigindo-se, pois, à Igreja, Papa Francisco constata: “Soube que são muitos na Igreja aqueles e aquelas que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares”.

E convida: “Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos (cristãos e cristãs em geral), juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).

Será que a Igreja está atendendo ao convite do papa? Em sua grande maioria, infelizmente não!

Por fim, podemos afirmar com certeza que a proposta de vida de Jesus de Nazaré é a mais revolucionária que existe (muito mais que todas as propostas de vida socialistas e comunistas que tivemos até agora). Na proposta de Jesus, todos e todas somos chamados e chamadas a viver como irmãos e irmãs, partilhando tudo o que somos e temos: é o “comunismo” ou “comunitarismo” radical.  

Sejamos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré!

No segundo turno, votemos 13, o candidato que - hoje - mais se aproxima do Projeto de Vida de Jesus!


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 05 de outubro de 2022

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Amem seus inimigos!

 

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame seu próximo e odeie seu inimigo’. Eu, porém, lhes digo: Amem seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês sejam filhos/as de seu Pai que está no céu. Porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos” (Mt 5,43-45).

O amor que Jesus de Nazaré nos pede é um amor sem limites, é um amor que não exclui ninguém, é um amor radical.

Ora, se Jesus nos pede para amar os nossos inimigos, quer dizer que existem inimigos e que nós temos inimigos. Enquanto seguidores e seguidoras de Jesus, perguntemo-nos: quais são os nossos inimigos? A resposta é clara: são todos aqueles/as que com sua maneira de agir e pensar sustentam e reproduzem um projeto de sociedade e de mundo (a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum) estruturalmente iníquo, perverso, injusto, desumano, antiético e anticristão: o Anti-Reino de Deus.

No meio político - sobretudo político-partidário - costuma-se dizer: “os políticos que pensam diferentemente de nós devem ser tratados como adversários e não como inimigos”. Não é bem assim! Essa afirmação precisa ser esclarecida. Vejamos!

Como seres humanos temos fundamentalmente dois projetos de vida para nós mesmos e para o mundo: um projeto humano natural (e natural humano) que humaniza naturalizando (e naturaliza humanizando), e um projeto desumano antinatural (e antinatural desumano) que desumaniza desnaturalizando (e desnaturaliza desumanizando). É o projeto ético e o projeto antiético, que - à luz da fé - é também projeto cristão ou projeto anticristão: o Reino de Deus ou o Anti-Reino de Deus.

Os/as que nos comprometemos com o primeiro projeto somos objetivamente inimigos/as dos/as que se comprometem com o segundo projeto. Entre nós podemos ter diferenças e divergências quanto aos passos a serem dados e aos meios a serem utilizados para fazer acontecer o projeto na história do ser humano e do mundo. Porém, por termos o mesmo projeto, somos adversários e não inimigos.

Concretamente, os/as que nos comprometemos com o Projeto Social (sócio-econômico-político-ecológico-cultural-religioso) Popular (projeto fraterno, comunitário e socialista) somos objetivamente inimigos/as dos/as que se comprometem com o Projeto Capitalista Neoliberal. Não há possibilidade de aliança (que é comunhão de projetos), mas somente de acordos pontuais em casos muito especiais e, às vezes, por motivos opostos.

Exemplificando, entre os/as que estão comprometidos/as com Projeto. Capitalista Neoliberal e que, portanto, são nossos inimigos e inimigas - temos:

  • Os que se apresentam como pessoas de bem e - com a maior frieza e indiferença - defendem e apoiam o trabalho escravo doméstico, rural e empresarial.
  • Os que - adoradores do deus dinheiro (o deus capital) - de maneira cruel e perversa, exploram os trabalhadores/as com salários miseráveis. No mundo - conforme foi amplamente divulgado - temos atualmente 828 milhões de pessoas passando fome; destas, mais de 33 milhões somente no Brasil. As 8 pessoas mais ricas do mundo possuem tantos bens quanto a metade da população mais pobre (3,6 bilhões de pessoas). As 5 pessoas mais ricas do Brasil têm um patrimônio igual à renda da metade da população mais pobre. Na grande Goiânia, o número de pessoas em situação de pobreza extrema é atualmente de mais de 500 mil pessoas. Quanta desigualdade, injustiça, fome, miséria, falta de moradia, de trabalho e de condições de vida digna para a maioria do povo! É o pecado social ou estrutural institucionalizado e legalizado!
  • Os magistrados - juízes e desembargadores - que, com a maior insensibilidade e o maior descaramento, aumentam seus próprios salários, recebendo - muitos deles - mais de R$ 100.000 por mês. Como podemos confiar na justiça desses magistrados?

Todas essas pessoas e outras não são somente nossos adversários, mas nossos inimigos. Apesar disso, como seres humanos e, sobretudo, como cristãos e cristãs (radicalmente seres humanos) devemos amá-las, orar a Deus por elas e pedir por sua conversão (como aconteceu com Zaqueu no encontro com Jesus). Lembremos: a única maneira de amar os inimigos -  opressores do povo - é ser contra o seu projeto de vida.

Por fim, nas próximas eleições, antes de votar perguntemo-nos: dentro daquilo que “as condições objetivas nos permitem hoje”, quais são os partidos e os candidatos/as realmente comprometidos/as com o Projeto Popular? Votemos nesses partidos e nesses candidatos/as!



 


https://www.ecodebate.com.br/2013/05/03/ba- empresa-de- alimentos-e-processada-por-trabalho-escravo/


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 02 de setembro de 2022


domingo, 28 de agosto de 2022

A Missão Goiânia visita as Ocupações

 

Segundo dados divulgados pela Campanha Despejo Zero em maio deste ano, Goiás possui 2.756 famílias ameaçadas de despejo e outras 1.623 despejadas, além de 976 em Ocupações, com despejos suspensos temporariamente: até 31 de outubro deste ano.

Para muitas pessoas e famílias de nossa sociedade capitalista - profundamente injusta e de uma desigualdade estrutural gritante - as Ocupações são o único caminho para conquistar legitimamente (sublinho: legitimamente) o Direito à moradia.

De 17 a 19 de agosto, representantes do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), da Campanha Despejo Zero, da Plataforma Dhesca e do Fórum Nacional de Reforma Urbana em Goiás realizaram a Missão Goiânia, visitando famílias das Ocupações ameaçadas de despejo e pessoas em Situação de Rua na capital e na região metropolitana.

As Ocupações visitadas foram: do Povo Trabalhador (Teresópolis de Goiás), Solar Ville, Nova Canaã e Alfredo Nasser (Goiânia), Beira da Mata e Alto da Boa Vista (Aparecida de Goiânia).   

Os membros da Missão Goiânia participaram também da Reunião ordinária do Comitê interestadual de Monitoramento de Políticas Públicas para a População em Situação de Rua (CIAMP); de Roda de Conversa com a mesma População; e ainda de Roda de Conversa com famílias do Assentamento Popular Dom Tomás de Formosa - GO; de Reunião com a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e com a Secretaria Estadual de Administração.

Por fim, no dia 19 (sexta-feira) participaram da Audiência Pública na Câmara Municipal de Goiânia, presidida pelo vereador Mauro Rubem (PT), da Comissão de Saúde e Assistência Social da Casa. Participou também do debate, a vereadora Aava Santiago (PSDB), presidenta da Comissão de Direitos Humanos da mesma Casa.

Acompanhamos os membros da Missão Goiânia - em suas Visitas, Reuniões, Rodas de Conversa e Audiência Pública - representantes do:

  • Rodas de Conversa e Audiência Pública - representantes do:
  • Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduíno,
  • Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD),
  • Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST),
  • Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM),
  • Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR),
  • Programa de Extensão (Educação, Saúde e Direito à Cidade) do Instituto Federal Goiano (IFG), e da:
  • Universidade Estadual de Goiás (UEG) e
  • Comissão de Saúde e Assistência Social da Câmara Municipal de Goiânia,

Getúlio Vargas do CNDH informou que o Relatório das visitas, em Goiânia, será concluído em dois meses. Fez algumas recomendações e destacou: “Em nossa missão, aqui, o que vimos é que (além do direito à Moradia) são muitos os Direitos Humanos violados”. Segundo ele, as famílias que vivem em Ocupações ou em Situação de Rua, em Goiânia e na região metropolitana, não têm água; não conseguem atendimento em Unidades de Saúde, nem vagas para as crianças em Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) e Escolas, porque não podem “apresentar um CEP”.

(Cf. https://www.jornalonlinenossavoz.com/2022/08/em-audienciapublica-camara-discute.html; https://ohoje.com/noticia/politica/n/1430632/t/camara-discute-violacao-de-direitos-de-pessoas-em-situacao-de-rua/)

A Resolução Nº 17 do CNDH, de 06 de agosto de 2021, logo no início - em destaque - “reconhece como conduta contrária aos Direitos Humanos a realização de despejos, remoções e deslocamentos sem ordem judicial e dispõe medidas preventivas e soluções garantidoras de Direitos Humanos”.

Permito-me uma observação crítica - que considero de fundamental importância - ao texto da Resolução. Os despejos de pessoas e famílias de suas Ocupações são uma “conduta contrária aos Direitos Humanos” não só “sem ordem judicial”, mas também “com ordem judicial”.

A questão dos despejos, antes de ser jurídica, é ética (humana). Inclusive - por se tratar de pessoas - a própria palavra “despejo” é ofensiva e seu uso é uma “conduta contrária aos Direitos Humanos”.

Do ponto de vista ético, só existem três razões para “remover com dignidade” (não “despejar”) pessoas humanas de uma Ocupação; se a área for:

  • de risco,
  • de preservação ambiental,
  • e de utilidade pública.

Mesmo nestes três casos, a remoção só pode ser realizada depois que estiverem prontas outras moradias - provisórias ou definitivas - para serem ocupadas.

Todo despejo - mesmo com ordem judicial - é injusto e antiético. Despejo nunca mais!


Visita à Ocupação Beira da Mata em Aparecida de Goiânia -18/08/22
https://www.maisgoias.com.br/



                                                                             Foto: Divulgação/Câmara Municipal - 19/08/22  




Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 27 de agosto de 2022


A Ética hoje

 

Seguem, a partir de agora, algumas reflexões teológico-pastorais sobre a Ética na perspectiva libertadora.

Neste primeiro artigo - de caráter introdutório - trato da questão da Ética hoje e, no final, apresento as linhas fundamentais da proposta de Ética da Libertação, que pretendo desenvolver posteriormente.

A questão da Ética, na sociedade e cultura contemporânea, voltou a ser central. Desde as décadas de 1980 e 1990 fala-se:

- da "necessidade cultural de Ética" (Viano, C. A. (Org.). Teorie etiche contemporanee. Bollati Boringhieri, Torino, 1990, p. 11);

- do "retorno à Ética" e das "tendências e ambiguidades de tal fenômeno" (Angelini, G. Ritorno all'Etica? Tendenze e ambiguità di un fenomeno recente, em "Il Regno" 14 (1990) 438-449);

- da "emergência da Ética" (VV. AA. L’ Etica nel Pensiero contempoaneo. Mucchi, Modena, 1989, p.7);

- do “renascimento da Ética", da "urgência da reflexão ética" e da "atenção com a qual são considerados e discutidos os problemas éticos", que "envolvem a vida e a qualidade da vida das gerações presentes e futuras" (Da Re, A. Il ritorno dell'Etica nel Pensiero contemporaneo. Gregoriana, Padova, 1988, p. 9-17);

- da "necessidade de um projeto de Ética mundial" e de "uma Moral ecumênica em vista da sobrevivência humana” (KÜNG, H. Projeto de Ética Mundial. Uma Moral ecumênica em vista da sobrevivência humana. Paulinas, São Paulo, 1993).

Pergunta-se, pois: “como pensar a Ética a partir das contradições de um mundo que produz uma ciência e seus intelectuais dedicados a pesquisar, no mesmo espaço e ao mesmo tempo, princípios de vida e armas de morte?” (VV. AA. Ética. Companhia das Letras, São Paulo, 1992).

Pergunta-se, pois: “como pensar a Ética a partir das contradições de um mundo que produz uma ciência e seus intelectuais dedicados a pesquisar, no mesmo espaço e ao mesmo tempo, princípios de vida e armas de morte?” (VV. AA. Ética. Companhia das Letras, São Paulo, 1992).

Para o Ser humano de hoje, "trata-se de compreender o processo epocal que tornou incertas a solidez e a estabilidade na transmissão dos valores e das normas achadas evidentes, pelo qual perderam eficácia os habituais critérios de legitimidade, os princípios reconhecidos para estabelecer aquilo que é bem e aquilo que é mal”.

As mudanças produzidas por essa transformação - que são muitas - podem ser descritas como:        

- “passagem de uma sociedade tradicional, que prescrevia comportamentos socialmente apreciados e aceitos sem discutir sua legitimidade, a uma sociedade pós-tradicional, na qual temos sistemas morais baseados não em prescrições sociais, mas em preferências individuais”; ou como:

- “passagem de uma sociedade de diferenciação estratificada, na qual a pertença a um estrato comportava a aceitação de uma moral no âmbito de uma mais geral subordinação desta última à religião, a uma diferenciação funcional, que reconhece ao ser humano maiores liberdades em relação ao seu ambiente social, inclusive a liberdade de comportar-se de maneira não racional e não moral" (L’Etica nel pensiero contemporâneo, op. cit., p. 7).

É nesta realidade complexa e contraditória que surge a Ética da Libertação. Ela elabora - e emite - juízos de valor desde o ponto de vista dos Pobres (a partir dos Pobres, na ótica dos Pobres): empobrecidos, marginalizados, oprimidos, excluídos e descartados. É este, aliás, o ponto de vista de Jesus de Nazaré e do Evangelho: a Boa Notícia do Reino de Deus.  

Propriamente falando, a Ética da Libertação não é um dos ramos da Filosofia e/ou da Teologia da Libertação, mas é o tema que a perpassa. Por ser “intrinsecamente moral”, o ético é uma dimensão “constitutiva” ou “consubstancial” de toda a Filosofia e/ou Teologia da Libertação.

Mesmo, porém, tendo como fonte de inspiração uma realidade particular, seu valor é universal, porque a Ética da Libertação é Ética da Vida e da Vida em plenitude para todos os seres humanos e para a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum.  

A proposta de Ética da Libertação - que irei aprofundar nas próximas reflexões teológico-pastorais - é vivida e tematizada em torno de três eixos: o ser humano, o ser humano como ser práxico (prático-teórico e teórico-prático) e o ser humano práxico como ser ético.

Portanto - além deste que situa historicamente a Ética da Libertação - estão previstas três séries de artigos.


Paulo Meneses e Outros
A Hora da Ética Libertadora, 1985
Traça Livraria e Sebo





Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 26 de agosto de 2022


O artigo foi publicado originalmente em:
https://portaldascebs.org.br/a-etica-hoje/


terça-feira, 2 de agosto de 2022

A questão da “obediência” na Igreja

 


Termino - ao menos por enquanto - a terceira e última série de reflexões teológico-pastorais sobre a Igreja na perspectiva libertadora, abordando a questão da “obediência” na Igreja.

Jesus, como ser humano, “foi obediente até a morte e morte de cruz” (Fl 2,8) por estar em plena e total “comunhão” com o Pai. “Pai, se queres, afasta de mim este cálice. Contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42). Jesus, “embora sendo Filho, sofrendo aprendeu o que é obedecer. Levado à perfeição, tornou-se a fonte da salvação eterna para todos/as os/as que lhe obedecem” (Hb 5,8-9).

Com sua vida, Jesus nos mostra que ser obedientes significa estar:

  • em plena comunhão com Deus e
  • totalmente disponíveis para realizar o seu Projeto no mundo, que é o Reino

Todos e todas nós cristãos e cristãs - cada um e cada uma de acordo com sua vocação particular - somos chamados e chamadas a viver, teórica e praticamente, essa obediência.

Aqueles e aquelas que na Igreja e, sobretudo, na “Vida Cristã de Particular Consagração” (Vida Religiosa Consagrada) são chamados e chamadas a exercer o ministério da Coordenação nos diversos níveis devem ser mais obedientes do que os outros e as outras.

Por objeção de consciência - às vezes - para sermos obedientes, temos que praticar a “desobediência civil” e/ou “religiosa”, como fez o próprio Jesus.

Na Igreja - que é (ou, deveria ser) uma Comunidade de irmãos e irmãs “em comunhão”, iguais em dignidade e valor - as relações entre as pessoas e entre os diferentes ministérios (serviços) devem ser relações de “comunhão”: “comunhão eclesial”.

Ora, nas relações de “comunhão” não há espaço para relações de “dependência”, de “submissão”, de “subordinação”, de “subserviência”, de “dominação”, de “inferioridade” ou “superioridade”. Todos e todas - na diversidade dos carismas (dons) e ministérios (serviços) - são sujeitos eclesiais conscientes e responsáveis de suas opções, atitudes e atos. “A cada um/uma é concedida a manifestação do Espírito para o bem comum” (1Cor 12,7).  

Na Igreja, as palavras “obediência”, “autoridade”, “poder”, não têm (ou, não deveriam ter) o mesmo sentido que têm na sociedade, sobretudo na sociedade capitalista neoliberal de hoje. "Vocês sabem: aqueles que se dizem governadores das nações têm poder sobre elas, e os seus dirigentes têm autoridade sobre elas. Mas, entre vocês não deve ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deve tornar-se o servidor de todos" (Mc 10,42-44).

Há tempo, um conhecido jurista escreveu com certa ironia: “por incrível que pareça, a palavra ‘superior’ ainda é usada somente no meio militar e no meio religioso”. É lamentável!

Ninguém é “superior” a ninguém e a última razão do agir humano é sempre a consciência da pessoa, que deve ser respeitada.

 

Infelizmente, na Igreja e - de maneira especial - na “Vida Cristã de Particular Consagração” (Vida Religiosa Consagrada), a “obediência” tornou-se às vezes (felizmente, não sempre) uma questão meramente jurídica e formal, que violenta a consciência das pessoas e não tem nada a ver com o Evangelho.

Para exemplificar, cito dois casos. Primeiro: “Irmã Maria” (nome fictício) é transferida pela “Superiora” Provincial da Casa onde mora atualmente no Brasil para outra, em outro país. Depois de muita reflexão e oração, a Irmã diz à “Superiora” que em consciência, pela idade avançada e outras razões pessoais, não está em condições psicológicas de aceitar a transferência. Mesmo assim, em nome da obediência, a “Superiora” mantém a transferência e a Irmã, seguindo sua consciência, decide deixar a Congregação e continuar com o seu compromisso de doação exclusiva a serviço do Reino de forma particular.

Segundo caso: Frei Pedro (nome fictício) é transferido pelo “Superior” Provincial da Casa Religiosa onde mora atualmente para outra, em outro lugar, para assumir uma nova responsabilidade pastoral. O Frei está passando por um período de graves problemas pessoais e a única coisa da qual precisa no momento é toda atenção, compreensão e carinho dos irmãos. Mesmo assim, em nome da “obediência”, o “Superior” mantém a transferência, sem medir as possíveis consequências de seu ato.

Essa obediência meramente “jurídica e formal” - que não respeita a consciência das pessoas, a última razão do agir humano - é uma violação dos Direitos Humanos. Meditemos!

Observação: Com o próximo artigo, começarei algumas reflexões teológico-pastorais sobre a Ética, sempre na perspectiva libertadora. Serão - prevejo eu - três séries de reflexões: sobre: o Ser humano, o Ser humano práxico (prático-teórico e teórico-prático) e o Ser humano ético.

Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 26 de julho de 2022





A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos