quarta-feira, 30 de junho de 2021

Presidente: “o tirano que mata nossa gente”

 

“Senhor, tu que fugiste de jegue para o Egito, mostra-nos um meio de nos livrar desse fascista brasileiro. Tu que entraste em Jerusalém montado num jumento, dá-nos a coragem de enfrentar o tirano que mata nossa gente. Livra-nos, Senhor, do desgoverno da morte. Está pesado demais” (Dom Vicente Ferreira, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, 13/06/21).

Com Leonardo Boff e fazendo minhas suas palavras, “uno-me nesta oração para que Deus e a Mãe Terra tenham piedade de sua gente e nos livrem de quem está produzindo um holocausto”.

No dia 19 deste mês de junho, o Brasil - com uma população de 214 milhões - registrou 500 mil mortes pela Covid-19. “É a maior tragédia brasileira. Nunca houve um evento tão mortífero quanto a pandemia do novo coronavirus (mesmo com subnotificações). Foram 195 mil vidas perdidas em 2020 e já são mais de 300 mil em 2021... Das 500 mil mortes, 150 mil foram de pessoas abaixo de 60 anos e 350 mil de idosos (60 anos e mais), sendo 280 mil homens e 220 mil mulheres” (https://www.ecodebate.com.br/2021/06/21/). Um verdadeiro massacre!

Segundo estudo do professor e epidemiologista Pedro Hallal, das 500 mil mortes, 375 mil (ou seja, 3 em cada 4) poderiam ter sido evitadas caso o Brasil tivesse adotado uma política de saúde - cientifica e tecnicamente planejada, com medidas de controle da pandemia (como vacinação eficiente, isolamento social e uso de máscaras) - que colocasse a vida em primeiro lugar. O principal responsável por essas mortes é Jair Bolsonaro, que - a toda hora - fala o nome de Deus em vão para, hipócrita e oportunisticamente, acobertar e legitimar seu comportamento político criminoso.

Infelizmente, estamos diante do desgoverno de um presidente frio e insensível, cínico e assassino, para o qual a vida dos seres humanos - sobretudo dos pobres - e da Mãe Terra não vale nada. Além de tudo, com suas palavras e seus atos, debocha da gravidade da pandemia e demostra ser uma pessoa totalmente desiquilibrada.

Comparemos as 500 mil mortes pela Covid-19 do Brasil com as de outros países que têm uma população similar. Conforme foi divulgado nas redes sociais, na Indonésia - com uma população de 276 milhões - as mortes foram 54 mil; no Paquistão - com uma população de 225 milhões - as mortes foram 22 mil; na Nigéria - com uma população de 211 milhões (quase igual à do Brasil: 214 milhões), as mortes (reparem!) foram 2 mil; no Bangladesh - com uma população de 166 milhões - as mortes foram 13 mil. Esse quadro não precisa de comentários, fala por si mesmo.

Em 19 deste mês de junho - dia no qual o país atingiu 500 mil mortes - a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com o lema “toda vida importa”, realizou um tempo de sensibilização em memória dos mortos pela Covid-19 - manifestando conforto, solidariedade e esperança - e fez a seguinte Oração (que é nossa também):


Pai de bondade!
Há mais de um ano, temos chorado por tantos irmãos e irmãs

que a triste e violenta pandemia arrancou de junto de nós.
Chegamos agora a quinhentos mil mortos.
Não são apenas números! São pessoas!

São nossos filhos e filhas, irmãos, irmãs, amigos, parentes, conterrâneos.
Sabemos que uma única morte já é suficiente para entristecer nossos corações.
Quanto mais todas essas mortes,

muitas vezes sem o mínimo necessário

para o tratamento digno como ser humano.
Por isso, vos pedimos:
acolhei cada um desses filhos e filhas e concedei-lhes a paz eterna!
E a nós dai a graça de trabalhar por um mundo onde se respire

solidariedade, acolhimento, partilha, compreensão e resiliência.
Que nossas lágrimas nos lavem da indiferença, do egoísmo e da omissão!
Que a saudade seja estímulo à fraternidade!
E que a fé seja o sustento de nossa esperança!
Pela intercessão da Virgem Mãe Aparecida,

olhai pelo Brasil, olhai pelo povo brasileiro.
Amém.




Ato inter-religioso - Goiânia - GO - 21/06/21







Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 28 de junho de 2021


sexta-feira, 25 de junho de 2021

CEBs: uma Igreja que atualiza o jeito de ser de Jesus de Nazaré

 


Como as primeiras Comunidades Cristãs, as CEBs - movidas pelo Espírito Santo - atualizam o jeito de ser de Jesus de Nazaré. Elas fazem hoje o caminho que Jesus fez em sua época. Mas, qual foi esse caminho? Vejamos!

Maria grávida e José seu esposo tinham ido a Belém para o recenseamento. Enquanto estavam perambulando na cidade à procura de um abrigo, chegou a hora de Maria dar à luz. Tudo indica que - ainda no seio de sua mãe Maria e junto com seu pai José - Jesus foi “morador de rua”, pousando debaixo das marquises de Belém. Finalmente, alguém que estava passando - vendo a situação - ficou com pena e abriu um estábulo para que Maria pudesse dar à luz. Jesus nasceu numa manjedoura como “sem-teto”. “Não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7).

Os que, em primeira mão, receberam a Boa Notícia do nascimento de Jesus foram os pastores, os “sem-terra” da época. “Eu anuncio a vocês a Boa-Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor” (Lc 2,10-11). Os pastores eram pessoas de má fama, mal vistos pelos poderosos e “pessoas de bem”, porque ocupavam as grandes propriedades de terra com seus rebanhos e - por necessidade de sobrevivência - vendiam seus produtos a preços exorbitantes. Segundo uma antiga lei, um pastor não podia ser juiz ou testemunha no tribunal. Não era considerado uma pessoa idônea.

Por que será que Jesus foi “morador de rua” ainda no seio de sua mãe, nasceu como “sem-teto” e anunciou a Boa-Notícia de seu nascimento aos “sem-terra”? Aos olhos dos poderosos e das “pessoas de bem”, de ontem e de hoje, não foi um comportamento absurdo e de muito mau gosto? Os critérios de Jesus não são radicalmente diferentes dos nossos? O que Ele quis nos dizer com isso? Pensemos!

Jesus manifestou-se aos reis magos - pessoas sábias que representavam todos os povos de todas as culturas - enfrentando a ganância e a obsessão pelo poder de Herodes. Jesus - juntamente com sua mãe Maria e seu pai José - fugiu para o Egito e se fez “migrante” para escapar à vingança assassina de Herodes.

Jesus cresceu, em sabedoria e graça, numa família pobre e - vivendo uma vida simples e anônima - trabalhou por muitos anos como operário, como carpinteiro com seu pai José. “Não é este o carpinteiro?” (Mc 6,3). “Não é este o filho do carpinteiro?” (Mt 13,55).

Em sua vida pública - anunciando a Boa-Notícia do Reino de Deus a todos e a todas, mas “a partir da manjedoura” - Jesus, como o Profeta e o Enviado do Pai, sempre foi próximo, compassivo e solidário para com o povo: os doentes, os leprosos, os sofredores, os descartados, os pobres e todos aqueles e aquelas que não tinham voz e não tinham vez na sociedade. Jesus nunca morou numa mansão, num palácio “episcopal” ou qualquer outro palácio. “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8,20).

Pela sua proximidade, compaixão e solidariedade tornou-se defensor intransigente do povo; denunciou, com indignação e firmeza, a hipocrisia dos fariseus e doutores da Lei. “Serpentes! Raça de cobras venenosas!” (Mt 23,33). Pela sua pregação, foi considerado subversivo. “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23,2).

Jesus celebrou a última Ceia com os discípulos e - depois de lavar seus pés - disse: “Eu vos dei o exemplo para que vocês façam o que eu fiz” (Jo 13,16). Jesus morreu na Cruz por amor. “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês. Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos. Vocês são meus amigos, se fizerem o que eu estou mandando” (Jo 15,12-14).

Jesus ressuscitou, venceu a morte e todos os males. Ele está vivo em nosso meio. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20). “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

É esse o caminho que Jesus de Nazaré fez em sua vida terrena e é esse o caminho que as CEBs - com seu “trenzinho” - fazem hoje. Na imensa variedade de experiências, bonitas e profundamente humanas, as CEBs são o jeito de ser Igreja “a partir da manjedoura” de Belém e de tudo o que ela significa para nós hoje.

Enfim - pelo caminho que fez, a verdade que anunciou e a vida que viveu - Jesus é para as CEBs “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). 





Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 14 de junho de 2021

 

 

 

 

 

 

 


quarta-feira, 9 de junho de 2021

O genocida Jair Bolsonaro e seus apoiadores genocidas

 

Para tentar desqualificar - com deboche e cinismo - as manifestações de protesto contra o genocida Bolsonaro, “os aliados do governo trabalham para distorcer o foco dos atos. Em vez de reconhecer que as manifestações são pela falta de vacina e em desacordo com a condução do governo no enfrentamento da pandemia, levantam o discurso de que as passeatas tiveram viés eleitoral... Em contrapartida, argumentam que os bolsonaristas - que vão às ruas em apoio ao presidente - são cristãos e patriotas” (O Popular, 01/06/21, p. 5).

Meu Deus, quanta hipocrisia! Que cristãos e patriotas são esses? Na verdade, eles são demônios que - fria e maldosamente - usam o nome de “cristãos” e de “patriotas” para legitimar - como sendo natural e normal - o genocídio de milhares de pessoas, sobretudo pobres.

No dia 3 deste mês de junho, o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass) atualizou os números sobre a pandemia da Covid-19 no Brasil. Até esse dia, os casos confirmados foram: 16.803.472 (83.391 somente nas últimas 24 horas); as mortes confirmadas foram: 469.388 (1.682 somente nas últimas 24 horas).

Se desde o início da pandemia tivéssemos tido um Governo sério e com uma política de Saúde cientificamente planejada que colocasse a vida em primeiro lugar, certamente a maioria das mortes poderia ter sido evitada.

Um fato concreto mostra como isso é possível, havendo vontade e deliberação política. De 21 de fevereiro a 26 de maio deste ano “a vacinação já salvou entre 4 e 6 mil goianos” (O Popular, 5 e 6 de junho, Manchete, 1ª página).

Jair Bolsonaro é responsável por milhares de mortes, que deveriam pesar na sua consciência (se é que ainda tem consciência!). Ele tornou-se um dos maiores genocidas de toda a história do Brasil e seus apoiadores (entre os quais - lamentavelmente - temos líderes de Igrejas ou Organizações religiosas que, de maneira hipócrita e diabólica, usam o nome de Deus para enganar o povo) tornam-se também genocidas.  Fala-se, inclusive, de um “gabinete paralelo” da Saúde, que vazou e virou foco da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

Pelos crimes contra a humanidade que cometeu, Bolsonaro já devia estar na cadeia. Não dá para aguardar as próximas eleições! Fora Bolsonaro, já!

Na Mensagem da 58ª Assembleia Geral da CNBB (12-16 de abril de 2021), os bispos - depois de expressarem sua solidariedade às famílias que perderam entes queridos e sua gratidão aos profissionais de saúde que têm doado sua vida em favor das pessoas doentes - denunciam: “O Brasil experimenta o aprofundamento de uma grave crise sanitária, econômica, ética, social e política, intensificada pela pandemia, que nos desafia, expondo a desigualdade estrutural enraizada na sociedade brasileira. Embora todos sofram com a pandemia, suas consequências são mais devastadoras na vida dos pobres e fragilizados. Essa realidade de sofrimento deve encontrar eco no coração dos discípulos de Cristo. Tudo o que promove ou ameaça a vida diz respeito à nossa missão de cristãos. Sempre que assumimos posicionamentos em questões sociais, econômicas e políticas, nós o fazemos por exigência do Evangelho. Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada”.

Os bispos louvam, pois, o testemunho das Comunidades cristãs pelas mais diversas formas de solidariedade e partilha, que amenizam as consequências da pandemia e continuam denunciando: “São inaceitáveis discursos e atitudes que negam a realidade da pandemia, desprezam as medidas sanitárias e ameaçam o Estado Democrático de Direito. É necessária atenção à ciência, incentivar o uso de máscara, o distanciamento social e garantir a vacinação para todos, o mais breve possível. O auxílio emergencial, digno e pelo tempo que for necessário, é imprescindível para salvar vidas e dinamizar a economia, com especial atenção aos pobres e desempregados. É preciso assegurar maiores investimentos em saúde pública e a devida assistência aos enfermos, preservando e fortalecendo o Sistema Único de Saúde - SUS”.

E finalizam: “São inadmissíveis as tentativas sistemáticas de desmonte da estrutura de proteção social no país. Rejeitamos energicamente qualquer iniciativa que intente desobrigar os governantes da aplicação do mínimo constitucional do orçamento na saúde e na educação”.

Unidos e unidas na luta por um outro Brasil possível e necessário, já somos vitoriosos e vitoriosas”. Que Deus fortaleça a nossa esperança!



Crédito: Reprodução / Redes Sociais



Foto: Jorge Hely/Framephoto/Estadão Conteúdo



Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br


Goiânia, 07 de junho de 2021


A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos