sexta-feira, 22 de junho de 2018

Medellín em gotas: 9ª- Igreja servidora



A Igreja “é-no-mundo”, é mundo e serve ao mundo. No processo de socialização - “como processo sociocultural de personalização e solidariedade crescente” - a Igreja, cumprindo sua missão de servidora, contribui na construção da Sociedade do Bem Viver ou, à luz da Fé, do Reino de Deus - “Reino de Justiça, de Amor e de Paz” - que é a Boa Notícia de Jesus de Nazaré.
O documento “Justiça” afirma: “A Igreja Latino-Americana tem uma mensagem para todos os seres humanos que neste continente têm ‘fome e sede de justiça’. O mesmo Deus que criou o ser humano à sua imagem e semelhança, criou a terra e tudo o que nela existe para uso (e - acrescento eu - cuidado) de todos os seres humanos, e de todos os povos, de modo que os bens criados possam bastar a todos de maneira mais justa (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS 69), e dá poder ao ser humano para que solidariamente transforme e aperfeiçoe o mundo (Gn 1,29). É o mesmo Deus que, na plenitude dos tempos envia seu Filho para que feito carne, venha libertar (reparem: libertar) todos os seres humanos, de todas as escravidões a que o pecado os sujeita: a fome, a miséria, a opressão e a ignorância, numa palavra, a injustiça que tem sua origem no egoísmo humano (Jo 8,32-34)”.
Continua reconhecendo: “Por isso, para nossa verdadeira libertação (reparem novamente: verdadeira libertação), todos os seres humanos necessitam de profunda conversão para que chegue a nós o ‘Reino de Justiça, de Amor e de Paz’. A origem de todo desprezo ao ser humano, de toda injustiça, deve ser procurada no desequilíbrio interior da liberdade humana, que necessita sempre, na história, de um permanente esforço de retificação”.
E ainda: “A originalidade da mensagem cristã não consiste tanto na afirmação da necessidade de uma mudança de estruturas, quanto na insistência que devemos por na conversão do ser humano. Não teremos um continente novo sem novas e renovadas estruturas, mas sobretudo não haverá continente novo sem seres humanos novos, que à luz do Evangelho saibam ser verdadeiramente livres e responsáveis”.
Lembra, pois: “Somente a luz de Cristo esclarece o mistério do ser humano. Sob essa luz, toda a obra divina, na história da salvação é uma ação de promoção e de libertação humana (reparem mais uma vez: de promoção e de libertação humana) que tem como único objeto o amor. O ser humano é ‘criado em Cristo Jesus’, feito nele ‘criatura nova’ (2Cor 5,17). Pela fé e pelo batismo, o ser humano é transformado, cheio do dom do Espírito, com um dinamismo novo, não de egoísmo, mas de amor que o leva a buscar uma nova relação mais profunda com Deus, com os seres humanos seus irmãos e com as coisas. O amor, ‘a lei fundamental da perfeição humana, e portanto da transformação do mundo’ (GS 32), não é somente o mandamento supremo do Senhor, é também o dinamismo que deve mover os cristãos a realizarem a justiça no mundo, tendo como fundamento a verdade e como sinal a liberdade”.
E declara: “É assim que a Igreja quer servir ao mundo, irradiando sobre ele uma luz e uma vida que cura e eleva a dignidade da pessoa humana (GS 41), consolida a unidade da sociedade (GS 42) e dá um sentido e um significado mais profundo a toda a atividade dos seres humanos”.
Com toda firmeza, destaca: “Certamente, para a Igreja, a plenitude e a perfeição da vocação humana se alcança com a inserção definitiva de cada ser humano na Páscoa ou triunfo de Cristo, porém a esperança de tal realização definitiva, antes de adormecer, deve ‘avivar a preocupação de aperfeiçoar esta terra onde cresce o corpo da nova família humana, o que pode, de certa maneira, antecipar a visão do novo século’. Não confundimos progresso temporal com Reino de Cristo; entretanto, o primeiro, ‘enquanto pode contribuir a ordenar melhor a sociedade humana, interessa em grande medida o Reino de Deus’ (GS 39)’.
E conclui: “A busca cristã da justiça é uma exigência do ensinamento bíblico. Todos os seres humanos, somos apenas humildes administradores dos bens”.
Termina com uma afirmação que é fundamental para a nossa missão de cristãos e cristãs: “Na busca da salvação devemos evitar o dualismo que separa as tarefas temporais da santificação. Apesar de estarmos rodeados de imperfeições, somos seres humanos de esperança. Cremos que o amor a Cristo e a nossos irmãos será não somente a grande força libertadora (reparem outra vez: a grande força libertadora)  da injustiça e da opressão, mas também e principalmente a inspiradora da justiça social, entendida como concepção de vida e como impulso para o desenvolvimento integral de nossos povos”.
O presente texto é verdadeira Teologia da Libertação. Infelizmente, na Igreja, muitos e muitas esqueceram-no ou fizeram questão de esquecê-lo.  O texto é tão claro que não precisa de maiores explicações. Para todos e todas nós, cristãos e cristãs, deve ser um texto de cabeceira. Ele é uma luz que ilumina toda nossa ação evangelizadora. Meditemos!



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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 20 de junho de 2018

sábado, 16 de junho de 2018

Papa Francisco parabeniza Gustavo Gutiérrez



Gustavo Gutiérrez Merino, Frade Dominicano, nasceu em Lima, no Peru, no dia 8 de junho de 1928. É considerado o “Pai da Teologia da Libertação”. Hoje, ele reside no Convento dos Dominicanos de Lima. Dedica-se ao trabalho pastoral, à pregação de Retiros, à administração de Cursos de Teologia na Universidade de Notre Dame (Indiana, EUA) e no “Studium” Dominicano de Lille (França), e de Conferências em Cursos e Encontros.
Com todo carinho e apreço - como um irmão que de coração aberto escreve a outro irmão - o Papa Francisco envia uma Carta ao teólogo Gustavo Gutiérrez Merino, parabenizando-o pelo seu aniversário de 90 anos (8 de junho de 2018) e agradecendo o seu serviço teológico e o seu amor aos pobres. Por fim, encoraja-o a seguir adiante.
   Vejam que carta bonita e singela: “Estimado irmão: Por ocasião do seu 90º aniversário, escrevo para parabenizá-lo e assegurá-lo de minha oração neste momento significativo de sua vida.
  Uno-me à sua ação de graças a Deus, e agradeço-lhe pela sua contribuição à Igreja e à humanidade através do seu serviço teológico e o seu amor preferencial pelos pobres e descartados da sociedade. Obrigado por todos os seus esforços e pela sua maneira de interpretar a consciência de cada um, para que ninguém seja indiferente ao drama da pobreza e da exclusão”.
Conclui o Papa: “Com esses sentimentos encorajo você a continuar a sua oração e o seu serviço aos outros, dando testemunho da alegria do Evangelho. E por favor, peço-lhe que reze por mim. Que Jesus te abençoe e que a Virgem Santa te cuide!. Fraternalmente, Francisco”.
    Por ser uma pessoa despojada de qualquer formalismo, o que nos toca mais profundamente nas palavras do Papa é sua simplicidade e sua sinceridade.
Francisco já tinha recebido Gustavo Gutiérrez no Vaticano em 14 de setembro de 2013 e também em 22 de novembro de 2014, por ocasião da audiência aos missionários italianos que participaram do 4º Encontro Missionário Nacional em Roma, no qual Gutierrez foi um dos conferencistas.
    A manifestação de um carinho e de uma gratidão toda especial do Papa Francisco ao teólogo Gustavo Gutiérrez “foi celebrada como um gesto de reconhecimento do Santo Padre em relação à Teologia da Libertação por uma série de teólogos, intelectuais e lideranças ligadas a esta tradição que nasceu na América Latina”. Frei Betto declarou: “Ao felicitar nosso confrade e meu dileto amigo Gustavo Gutiérrez por seus 90 anos, o Papa Francisco reconhece o valor da Teologia da Libertação e reforça na Igreja a Opção pelos Pobres” (http://franciscanos.org.br/?p=162244).
     Na verdade, toda Teologia é da Libertação. Se não for da Libertação, não é verdadeira Teologia. “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e proclamar o ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). “Eu vim para que todos e todas tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
     A expressão “da Libertação” - de alguma forma - é uma redundância, mas serve de lembrete. Convida-nos a “fazer teologia” sempre a partir da realidade (da práxis: prática e teoria) e à luz da Palavra, para que o a reflexão teológica nos ajude a entender - melhor e mais profundamente - o sentido da vida e nos comprometa - cada vez mais conscientemente - na luta pela libertação de tudo aquilo que impede a construção de outro mundo possível, que é a sociedade do Bem Viver, que é o Reino de Deus. A Teologia da Libertação é - podemos dizer - o “jeito bíblico” e, de maneira especial, “evangélico” de fazer toda a Teologia.
Uma das críticas que se faz à Teologia da Libertação é a de que - ao menos até agora - ela tratou, quase que exclusivamente, da realidade social e política. Ora, como o ser humano é histórico (um “vir-a-ser”, um ser em construção), seus conhecimentos - meramente racionais (científicos e filosóficos) ou racionais à luz da Fé (teológicos) - são também históricos, situados (no espaço) e datados (no tempo).  
Aconteceu (e poderá sempre acontecer) que - em determinadas situações, para dar sua contribuição na resposta aos prementes desafios apresentados - a Teologia da Libertação aprofundou mais alguns aspectos da realidade (como o social e o político) e deixou na sombra, outros aspectos (como o cultural). Com isso, a Teologia da Libertação deu a impressão que tratava somente de temas sociais e políticos.
Isso é humano e compreensivo quando “se faz teologia” a partir de situações concretas. Aspectos da realidade, que ficaram aparentemente esquecidos, poderão ser aprofundados em outros momentos. Só não se deve apresentar uma parte da verdade como se fosse toda verdade.
Por ser, pois, a história do ser humano no mundo um processo dialético (contraditório) entre libertação e opressão, entre vida e morte (não-vida), infelizmente - além da Teologia da Libertação (a verdadeira Teologia) - temos também a Teologia da Opressão (a falsa Teologia), que procura justificar e legitimar o mal, o pecado - social e pessoal - que existe no mundo, não só racionalmente, mas também em nome de Deus. É a hipocrisia religiosa, que - lamentavelmente - continua presente em nossas Igrejas hoje.
Como seguidores e seguidoras de Jesus - que vivem em Comunidades (Igrejas) - devemos estar sempre inseridos e inseridas (encarnados e incarnadas) na vida do povo, entranhadamente solidários e solidárias com todos e todas que sofrem e organicamente unidos e unidas a todos e todas que lutam pela Vida Humana e por todas as formas de Vida.
    "Como Cristo, por sua Encarnação ligou-se às condições sociais e culturais dos seres humanos com quem conviveu; assim também deve (reparem “deve” e não “pode”) a Igreja inserir-se nas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus” (Concílio Vaticano II. A atividade missionária da Igreja - AG, 10).
Os cristãos e cristãs têm, portanto, o dever de participar (ser militantes) dos Movimentos Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares, Fóruns de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos, Conselhos de Direitos e outras Organizações Populares, comprometidas na construção de “outro mundo possível”, que é a sociedade do Bem Viver, que é o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo.
Parabéns, meu Irmão Dominicano, Frei Gustavo Gutiérrez. Continue a “fazer Teóloga da Libertação”, oferecendo-nos “novas luzes” para entender o mundo no qual vivemos e cumprir nossa missão de seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. Unidos na oração.


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 13 de junho de 2018

sexta-feira, 8 de junho de 2018

“Outra” Celebração do Corpo de Cristo


Jesus de Nazaré foi “morador de rua” antes de nascer. No seio de sua mãe Maria e com seu pai José, perambulou nas ruas de Belém até encontrar um estábulo que abriu as portas para que sua mãe pudesse dá-Lo à luz. Nasceu como “sem-teto” numa manjedoura: “não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7). Anunciou a Boa Notícia do seu nascimento aos pastores, os “sem-terra” da época: “eu anuncio a vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo” (Lc 2,10). Foi migrante no Egito, fugindo de Herodes, um rei ganancioso e assassino. Foi operário (marceneiro) na oficina de seu pai José.
Em sua vida pública, Jesus de Nazaré “andou por toda parte fazendo o bem” (At 10,18). Esteve sempre ao lado dos pobres e “descartados” da sociedade: os leprosos, os mendigos e outros. Nunca morou em palácios ou mansões. Nunca sentou numa cátedra, a não ser a “cátedra” na qual recebeu a “coroa de espinhos”. Sua presença na casa de Zaqueu e seu encontro com o jovem rico provocaram neles uma tomada de posição: Zaqueu se converteu e mudou radicalmente de vida; o jovem rico - diante das exigências da proposta de Jesus - não teve a coragem de segui-lo e “foi embora triste” (Mt 19,22). Foi acusado de ser “subversivo”: “achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23,2). Foi preso, torturado e morto na cruz: “Pai em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Venceu a morte e ressuscitou: “Ele não está aqui, ressuscitou!” (Lc 24,6).
Por fim, Jesus de Nazaré enviou o Espírito Santo, o Amor de Deus, aos discípulos: “assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês, recebam o Espírito Santo” (Jo 20,21-22). Eles perderam o medo, abriram as portas do lugar onde se encontravam e saíram anunciando a Boa Notícia de Jesus (o Reino de Deus) e denunciando tudo o que é contrário a essa Boa Notícia, até sofrerem o martírio.
     É esse Jesus que continua presente hoje, que vive entre nós e caminha conosco: “eis que eu estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28, 20); “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20).
É esse Jesus que - no dia 25 de maio passado, no Jardim Europa, em Goiânia - na pessoa de 9 irmãos nossos adolescentes (todos pobres e a maioria negros) - morreu carbonizado e seu nome era: Daniel, Douglas Matheus, Elias, Elizeu, Gabriel, Johny, Lucas, Lucas Ranyel e Wallace. É esse Jesus que - no dia 30 do mesmo mês - vivo e ressuscitado, estava presente no Ato Público (em frente ao 7º Batalhão da Polícia Militar, onde se encontra o Centro de Internação Provisória), em memória dos adolescentes mortos, denunciando o Estado de Goiás como o responsável pela barbárie praticada e partilhando a dor das mães e familiares.
     “Eles prenderam meu filho vivo e me devolveram um pedaço de carvão” (uma mãe). “Meu filho foi preso por 157 (roubo) e sabe qual foi a pena dele? A morte. Isso de internação é uma mentira” (outra mãe)
No Ato, éramos muitas pessoas presentes: crianças, adolescentes, jovens adultos e idosos. Estávamos lá não só em nome pessoal, mas também em nome das Entidades que representávamos: Associações e Conselhos de Profissionais, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Movimentos Sociais Populares, Foruns de Defesa e Promoção de Direitos Humanos, Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB-GO), Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil e outras.
Em círculo, ao redor de ramalhetes de flores e mensagens escritas, “cheios e cheias de Ira e tristeza” - como Jesus quando, com seu olhar, fixava os fariseus e partidários de Herodes (cf. Mc 2,5) - expressamos, do mais profundo do coração, os nossos sinceros sentimentos de solidariedade às mães e familiares dos adolescentes mortos, partilhando sua dor e seu sofrimento, com falas, cantos e orações (muitas pessoas choravam). Gritávamos o nome dos adolescentes mortos e todos e todas em coro respondíamos: “presente”.
Em Jesus, os adolescentes completaram sua Páscoa - passagem da Morte à Ressurreição - e celebramos sua presença no meio de nós. Foi uma verdadeira experiência de Fé na Vida. Foi “outra” Celebração do Corpo de Cristo, no corpo dos adolescentes mortos e ressuscitados. Éramos uma Comunidade de verdadeiros Irmãos e Irmãs, seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. Fizemos o que Jesus teria feito e o que nosso irmão, o Papa Francisco - estando em Goiânia -  faria.
      Pessoalmente - sem nunca perder a esperança - nessa trágica história, a exemplo de Jesus de Nazaré, dois fatos deixaram-me “cheio de ira e tristeza”. Primeiro fato: constatar que no Ato Público, eu era o único Padre presente (sei que alguns Padres - embora poucos - queriam participar, mas não puderam por motivo justo). Constatar também que não havia ninguém representando oficialmente a Paróquia local e ninguém (nem bispo, nem padre, nem outro agente de pastoral) representando oficialmente a Arquidiocese de Goiânia.
     Segundo fato: constatar que a Arquidiocese - além de não ter feito nenhuma Nota Oficial de denúncia dos responsáveis por essa barbárie e de solidariedade às famílias dos adolescentes mortos - na Missa Solene da Festa do Corpo de Cristo (Praça Cívica - Setor Central), não fez nenhuma referência à tragédia acontecida e nenhuma oração no momento das preces. Deve ter sido para não “desagradar” ou “ofender” as autoridades presentes! Que hipocrisia! Que farisaísmo!
         Não é esse um comportamento que trai Jesus na pessoa dos adolescentes queimados e dos pobres, como fez Judas? Não é esse um comportamento de conivência com os Herodes e Pilatos de hoje?
    Um livro, publicado depois do Concílio Vaticano II, pergunta: “será que os católicos são ainda cristãos?”. Felizmente, baseado na minha longa experiência de convivência com o povo, posso afirmar que - entre os católicos e católicas pobres - existem muitos verdadeiros cristãos e cristãs, seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré, santos e santas de Deus. De qualquer forma, vale a pena refletirmos!
    Termino com o testemunho da avó (70 anos) do adolescente D.P.C. (15 anos), único sobrevivente do incêndio, que teve o braço esquerdo amputado em consequência das queimaduras sofridas e que ainda se encontra em grave estado de saúde. O testemunho é mais uma prova de que os menores infratores precisam de políticas públicas e de programas socioeducativos que suscitem neles a autoestima, a responsabilidade e o desejo de buscar - cada vez mais - o verdadeiro sentido da vida. Eles não precisam de Centros de Internação, que são verdadeiras cadeias ou, pior, depósitos de “lixo humano”.
Diz a avó: “D.P.C. (que na escola tinha notas boas, gostava de tocar violino e, antes da internação, vinha praticando aulas) mandou uma cartinha para mim falando que estava rezando todos os dias para voltar para casa logo, para voltar para as aulas dele, para as coisinhas dele” (O Popular, 05/06/18, p. 13). Meditemos!
(Leia também o artigo “Adolescentes queimados vivos”, em: http://freimarcos.blogspot.com/2018/06/adolescentes-queimados-vivos.html)


A imagem pode conter: 6 pessoas, incluindo Cida Alves, pessoas em pé, multidão e atividades ao ar livre




ato em memoria de menores que morreram em frente ao 7bpm.jpg

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 06 de maio de 2018

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Adolescentes queimados vivos


Um crime bárbaro
que clama a Deus por Justiça

    No final da manhã de sexta-feira - 25 de maio de 2018 - no Centro de Internação Provisória (CIP) para menores do 7º Batalhão da Polícia Militar, no Jardim Europa em Goiânia, 9 adolescentes morreram queimados vivos e 1 ficou gravemente ferido com 90% do corpo queimado. A notícia foi amplamente divulgada nos Meios de Comunicação e chocou a todos e a todas nós.
Fernanda da Silva Rodrigues Fernandes, Coordenadora do Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública, afirmou que a situação do CIP é “calamitosa” e que, em qualquer momento, uma tragédia estava prestes a acontecer. A Defensora Pública destaca: “O Centro de Detenção para menores infratores está localizado em um local que por si só é inadequado e inconstitucional: um Batalhão da Polícia Militar. O que aconteceu lá foi uma omissão do Estado em relação à condição dos menores”.
    Tiago Gregório Fernandes, Defensor Público e Coordenador do Núcleo da Defensoria de Infância e Juventude, afirmou que a estrutura do CIP é inadequada e deficitária e que, dos nove adolescentes que morreram, somente um estava em situação provisória. O Defensor Público declara: “O fato é lamentável e compadecemos em relação aos adolescentes e suas famílias”. E ainda: “Falta projeto pedagógico e ações de aprendizagem. Os adolescentes têm direito a 15 minutos de banho de sol, enquanto adultos em regime fechado tem direito a duas horas”.
Segundo a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-GO), a Defensoria Pública entrou em 2013 com ação civil pública, determinando que, no CIP, as vagas para internos fossem limitadas. O Poder Público não acatou a determinação e a superlotação continuou (e continua até hoje). A capacidade máxima daquele Centro - em condições muito precárias - é para 50 internos e, nos últimos dias, esse número chegou a quase 100.
Roberto Serra, da Comissão de Direitos Humanos da OAB-GO, garante que a situação de descaso em relação aos adolescentes infratores será exposta em breve aos Órgãos Internacionais de Direitos Humanos. Afirma: “Iremos trabalhar junto e iremos denunciar esse problema” (cf. Diário da Manhã, 26 de maio de 2018, p. 3)
Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) de 2012 previa a desativação do CIP do Jardim Europa e a construção de uma nova unidade para a internação provisória de adolescentes infratores para 2013. Nada disso foi cumprido. É lamentável! É uma total falta de interesse! Cuidar de adolescentes infratores não dá lucro!
Conforme disse Bárbara Cruvinel, Presidente da Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB-GO, a morte dos adolescentes, foi “uma tragédia anunciada”; e - acrescento eu - foi um crime bárbaro que clama a Deus por justiça. Os menores estavam sob a tutela do Estado e o responsável por esse crime bárbaro é o Estado. Os adolescentes infratores e os presos em geral são tratados como lixo humano. O CIP e o Presídio são depósitos desse tipo de lixo. Que vergonha para Goiás!
Pensemos na angústia e na dor das mães desses adolescentes mortos, queimados vivos. Quanta insensibilidade! Quanta irresponsabilidade!
Apesar de muitos cristãos e cristãs terem manifestado sua indignação profética pela morte dos adolescentes queimados vivos (a Igreja somos todos os cristãos e cristãs), é com muita dor no coração que - enquanto ser humano e homem de fé - reconheço (e de minha parte, como membro dessa Instituição, peço perdão): a Arquidiocese de Goiânia não fez nenhuma Nota Oficial - para ser lida nas Comunidades e Paróquias - denunciando a irresponsabilidade do Poder Público, que trata os menores infratores como lixo humano e manifestando sua solidariedade às famílias dos adolescentes mortos, queimados vivos: uma verdadeira barbárie.
Infelizmente, a Arquidiocese de Goiânia (já foi bem diferente e - em breve - se Deus quiser voltará a sê-lo) é hoje uma Igreja que - para não ficar de mal com os poderosos, que são opressores do povo, mas que, para a sociedade capitalista e, às vezes, até para a Igreja, são “pessoas de bem” e fazem “leituras” nas Missas - lava as mãos (como Pilatos) e trai Jesus nos “adolescentes infratores”, nos pobres e nos descartados da sociedade (como Judas). Os responsáveis por esse pecado de omissão terão que prestar conta a Deus!
A vida precisa ser defendida não somente antes do nascimento, sendo contra os abortos “biológicos” (embora sabendo entender - sem condenar - as situações dramáticas nas quais muitas vezes o aborto acontece), mas também depois do nascimento, sendo contra os abortos “sociais”. Quantas crianças de 0 a 5 anos de idade - por falta de mínimas condições de vida - são vítimas do aborto “social”, institucionalizado e legalizado pelo “sistema econômico iníquo” no qual vivemos (uma sociedade perversa que sistematicamente aborta suas crianças). Quantas pessoas - adolescentes e idosos - são vítimas do aborto “social”, excluídas e descartadas como lixo humano por esse mesmo sistema.
Pergunto: será que nós, pela nossa omissão (que sempre procuramos justificar) não somos também - às vezes - coniventes com essa situação de injustiça e de pecado social?
Defender a vida antes do nascimento e não defendê-la também depois do nascimento é hipocrisia, é farisaísmo.
Faço, mais uma vez, um apelo aos advogados e às advogadas da Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP) de Goiás para que - num trabalho de voluntariado - deem assistência jurídica às famílias dos adolescentes mortos, vítimas do descaso do Poder Público, para que o Estado seja obrigado a pagar uma indenização às famílias dos adolescentes queimados vivos. A indenização não os trará de volta ao convívio familiar, mas é o mínimo que pode ser feito.
Na partilha fraterna da dor, manifesto minha total solidariedade e meu sincero apoio aos pais (mães e pais) e familiares dos adolescentes mortos. Sintam sempre a presença deles em sua vida, agora felizes na casa do Nosso Pai (que é Nossa Mãe também). Contem com minhas orações. Um grande abraço de irmão.
Por fim - como discípulos e discípulas de Jesus de Nazaré - lembremos as palavras de Dom Helder Câmara: “Não deixem a profecia cair!”.


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7º Batalhão da Polícia Militar, em Goiânia (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)



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Fr. Marcos Sassatelli, Frade Dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 30 de maio de 2018

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos