quarta-feira, 9 de junho de 2021

O genocida Jair Bolsonaro e seus apoiadores genocidas

 

Para tentar desqualificar - com deboche e cinismo - as manifestações de protesto contra o genocida Bolsonaro, “os aliados do governo trabalham para distorcer o foco dos atos. Em vez de reconhecer que as manifestações são pela falta de vacina e em desacordo com a condução do governo no enfrentamento da pandemia, levantam o discurso de que as passeatas tiveram viés eleitoral... Em contrapartida, argumentam que os bolsonaristas - que vão às ruas em apoio ao presidente - são cristãos e patriotas” (O Popular, 01/06/21, p. 5).

Meu Deus, quanta hipocrisia! Que cristãos e patriotas são esses? Na verdade, eles são demônios que - fria e maldosamente - usam o nome de “cristãos” e de “patriotas” para legitimar - como sendo natural e normal - o genocídio de milhares de pessoas, sobretudo pobres.

No dia 3 deste mês de junho, o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass) atualizou os números sobre a pandemia da Covid-19 no Brasil. Até esse dia, os casos confirmados foram: 16.803.472 (83.391 somente nas últimas 24 horas); as mortes confirmadas foram: 469.388 (1.682 somente nas últimas 24 horas).

Se desde o início da pandemia tivéssemos tido um Governo sério e com uma política de Saúde cientificamente planejada que colocasse a vida em primeiro lugar, certamente a maioria das mortes poderia ter sido evitada.

Um fato concreto mostra como isso é possível, havendo vontade e deliberação política. De 21 de fevereiro a 26 de maio deste ano “a vacinação já salvou entre 4 e 6 mil goianos” (O Popular, 5 e 6 de junho, Manchete, 1ª página).

Jair Bolsonaro é responsável por milhares de mortes, que deveriam pesar na sua consciência (se é que ainda tem consciência!). Ele tornou-se um dos maiores genocidas de toda a história do Brasil e seus apoiadores (entre os quais - lamentavelmente - temos líderes de Igrejas ou Organizações religiosas que, de maneira hipócrita e diabólica, usam o nome de Deus para enganar o povo) tornam-se também genocidas.  Fala-se, inclusive, de um “gabinete paralelo” da Saúde, que vazou e virou foco da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

Pelos crimes contra a humanidade que cometeu, Bolsonaro já devia estar na cadeia. Não dá para aguardar as próximas eleições! Fora Bolsonaro, já!

Na Mensagem da 58ª Assembleia Geral da CNBB (12-16 de abril de 2021), os bispos - depois de expressarem sua solidariedade às famílias que perderam entes queridos e sua gratidão aos profissionais de saúde que têm doado sua vida em favor das pessoas doentes - denunciam: “O Brasil experimenta o aprofundamento de uma grave crise sanitária, econômica, ética, social e política, intensificada pela pandemia, que nos desafia, expondo a desigualdade estrutural enraizada na sociedade brasileira. Embora todos sofram com a pandemia, suas consequências são mais devastadoras na vida dos pobres e fragilizados. Essa realidade de sofrimento deve encontrar eco no coração dos discípulos de Cristo. Tudo o que promove ou ameaça a vida diz respeito à nossa missão de cristãos. Sempre que assumimos posicionamentos em questões sociais, econômicas e políticas, nós o fazemos por exigência do Evangelho. Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada”.

Os bispos louvam, pois, o testemunho das Comunidades cristãs pelas mais diversas formas de solidariedade e partilha, que amenizam as consequências da pandemia e continuam denunciando: “São inaceitáveis discursos e atitudes que negam a realidade da pandemia, desprezam as medidas sanitárias e ameaçam o Estado Democrático de Direito. É necessária atenção à ciência, incentivar o uso de máscara, o distanciamento social e garantir a vacinação para todos, o mais breve possível. O auxílio emergencial, digno e pelo tempo que for necessário, é imprescindível para salvar vidas e dinamizar a economia, com especial atenção aos pobres e desempregados. É preciso assegurar maiores investimentos em saúde pública e a devida assistência aos enfermos, preservando e fortalecendo o Sistema Único de Saúde - SUS”.

E finalizam: “São inadmissíveis as tentativas sistemáticas de desmonte da estrutura de proteção social no país. Rejeitamos energicamente qualquer iniciativa que intente desobrigar os governantes da aplicação do mínimo constitucional do orçamento na saúde e na educação”.

Unidos e unidas na luta por um outro Brasil possível e necessário, já somos vitoriosos e vitoriosas”. Que Deus fortaleça a nossa esperança!



Crédito: Reprodução / Redes Sociais



Foto: Jorge Hely/Framephoto/Estadão Conteúdo



Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 07 de junho de 2021


segunda-feira, 24 de maio de 2021

CEBs: uma Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus


O sonho do Concílio Vaticano II (1962-1965) de uma Igreja-Comunidade, Pobre, Ministerial, Povo, Santa e Pecadora, e toda ela Missionária (Dom Aloísio Lorscheider) foi retomado e aprofundado pela II Conferência Episcopal Latino-Americana e Caribenha de Medellín (1968), a partir da Opção pelos Pobres: empobrecidos, marginalizados, oprimidos, explorados e descartados.

Medellín aponta - como caminho para fazer acontecer a Igreja sonhada pelo Vaticano II - as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), inicialmente chamadas Comunidades Cristãs de Base ou, simplesmente, Comunidades de Base. As CEBs são, pois, Comunidades Eclesiais Populares e - sempre segundo Medellín - a Pastoral Popular é a Evangelização a partir da Base, a partir dos Pobres.

As CEBs têm também o apoio do Documento de Puebla (1979) e de outros Documentos da Igreja em geral, latino-americana e caribenha, regional e local. Infelizmente, porém - sobretudo nestes últimos anos - o apoio teórico dos Documentos às CEBs não é sempre acompanhado do apoio prático das Igrejas locais. Ao contrário, atualmente muitas dessas Igrejas fazem questão de não falar mais de CEBs e de voltar ao modelo de Igreja pré-conciliar.

Continuando as reflexões teológico-pastorais sobre a Igreja, na perspectiva da Eclesiologia da Libertação, inicio - com este texto -  uma segunda série de artigos (ou colunas), que tratam de temas fundamentais para compreendermos as CEBs.

Elas são Comunidades que voltam às fontes bíblico-patrísticas e, ao mesmo tempo, estão sempre atentas aos sinais dos tempos, seguindo o método (caminho) “ver-julgar-agir” (“analisar-interpretar-libertar”) e “celebrar”, adotado pelo Concílio Vaticano II, sobretudo na Constituição Pastoral “A Igreja no mundo de hoje” (GS).

Na Igreja Católica - e também em outras Igrejas Cristãs - do Brasil e da América Latina e Caribe, as CEBs - no campo e na cidade - nascem no final da década de 1950 e início da década de 1960. “Surgem na conjuntura da sociedade contemporânea que produziu uma atomização da existência, um anonimato geral das pessoas e uma fragmentação em praticamente todos os níveis da convivência humana, devido aos desafios vindos de uma sociedade globalizada e urbanizada onde a vivência comunitária parecia não ter mais espaço para existir. Como reação a este fenômeno, há uma tendência de se retomar as relações primárias entre as pessoas e buscar relacionamentos de reciprocidade. As CEBs representam esta reação no interior da/s Igreja/s”.

Entre os elementos que - por um longo período - ajudaram na preparação do terreno para o surgimento das CEBs, “destacamos a experiência da Catequese Popular (Movimento catequético), a contribuição da Ação Católica Brasileira, que assume o modelo belga, francês e canadense da Ação Católica especializada (JAC - Juventude Agrária Católica; JEC - Juventude Estudantil Católica; JIC - Juventude Independente Católica; JOC - Juventude Operária Católica; JUC - Juventude Universitária Católica), o Movimento de Educação de Base (MEB), o Movimento por um Mundo Melhor (MMM), os diferentes Planos de Pastoral da CNBB (Plano de Emergência - 1962, Plano de Pastoral de Conjunto - 1966), contando ainda com o Movimento Bíblico que busca novas formas de interpretação da Palavra de Deus, e o Movimento Litúrgico na Europa e também no Brasil” (https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/2017/06/12/).  

As CEBs têm consciência de ser “uma Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus” (1º Encontro Intereclesial de CEBs. Vitória - ES, 6-8 de janeiro de 1975). Por isso, elas são ao mesmo tempo: “um novo e antigo jeito (modo) de ser Igreja” e - como ideal a ser perseguido - “um novo e antigo jeito de toda a Igreja ser”.

Nessa segunda série de artigos - além do apresentado neste texto - abordarei os temas: CEBs: uma Igreja que atualiza o jeito de ser de Jesus de Nazaré; uma Igreja que é constituída de irmãos e irmãs em Comunhão; uma Igreja que é sinal visível do Reino de Deus no Mundo; uma Igreja que é militante de um Mundo Novo; e - por fim -  uma Igreja que vive a Espiritualidade da Libertação. 

 






Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 14 de maio de 2021

 

 

 

O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/2021/05/20/cebs-uma-igreja-que-nasce-do-povo-pelo-espirito-de-deus/















segunda-feira, 26 de abril de 2021

Ser Igreja-missão


 “O Vaticano II faz-nos passar de uma Igreja-cristandade para uma Igreja-missão, uma Igreja toda ela missionária” (Dom Aloísio Lorscheider). 

A Igreja - como qualquer outra realidade - é no mundo, é mundo e - ser no mundo, ser mundo - significa ser na totalidade das coisas existentes, ser parte integrante dessa totalidade. Como Instituição humana, porém, a Igreja não só é no mundo, é mundo, mas sabe - tem consciência - de ser no mundo, de ser mundo. Por isso, a Igreja é com o mundo, se relaciona com o mundo. 

A relação da Igreja com o mundo acontece de quatro maneiras.

Na 1ª, a Igreja é fermento no mundo. É a Igreja sal da terra e luz do mundo. É a Igreja encarnada na vida do povo. É a Igreja na Base e de Base, que anuncia - com o testemunho e com a palavra - a Boa Notícia de Jesus de Nazaré: o Reino de Deus. É a Igreja Comunhão: Comunidade de irmãos e irmãs em Cristo, filhos e filhas do mesmo Pai-Mãe (Deus), iguais em dignidade e valor, que - na diversidade de ministérios (serviços) e carismas (dons) - transforma o mundo por dentro.

Na 2ª, a Igreja absorve o mundo. É a Igreja poder espiritual e temporal. É a Igreja que - com seu poder religioso imperial - quer dominar o mundo em nome de Deus. É a Igreja-cristandade, triunfalista, cheia de luxo e de pompa. Basta lembrar a tiara que era usada pelo Papa.

Na 3ª, a Igreja se opõe ao mundo. É a Igreja que combate o mundo.  O mundo é mau, não presta e está perdido. É a Igreja que -  por se opor a tudo o que é do mundo - prega a fuga do mundo e a salvação das almas.

Na 4ª, a Igreja é paralela ao mundo. É a Igreja que - mesmo sem se opor - não se interessa pelo mundo. Afirma que tudo o que é do mundo não tem nada a ver com a Igreja. É a Igreja voltada para dentro de si mesma: fundamentalista, individualista e intimista. Sua história é paralela à história do mundo.

Essas quatro maneiras de a Igreja se relacionar com o mundo não são cronológicas. De alguma forma - por ser a Igreja (Instituição e pessoas) santa e pecadora - estão sempre presentes, mas uma delas predomina. A primeira - o jeito de ser Igreja que Jesus quis e quer - predominou na Idade Antiga; a segunda, na Idade Média; a terceira, na Idade Moderna; e a quarta, na Idade Contemporânea (em parte).

Nos últimos 55 anos - depois do Concílio Vaticano II - a primeira maneira de a Igreja se relacionar com o mundo - a de Jesus de Nazaré - irrompeu novamente com toda força do Espírito Santo.

O Concílio Vaticano II fez e ainda faz nos passar de uma Igreja que absorve o mundo - “Igreja-cristandade” - e também, de uma Igreja que se opõe ao mundo ou que não se interessa pelo mundo (2ª, 3ª e 4ª maneiras) para uma Igreja que é fermento no mundo - “Igreja-missão, Igreja toda ela missionária” - (1ª maneira).

Há algum tempo, porém, num processo de retorno ao modelo de Igreja pré-conciliar - articulado pelas forças conservadoras e reacionárias da Igreja (refiro-me à Igreja Católica) - há um embate entre a primeira e a quarta maneira de a Igreja se relacionar com o mundo. Com certeza, a primeira será vitoriosa, porque Jesus quer.

"Como Cristo, por sua encarnação ligou-se às condições sociais e culturais dos seres humanos com quem conviveu; assim também deve a Igreja inserir-se nas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus” (A atividade missionária da Igreja - AG, 10).

É urgente! Ouçamos as palavras do nosso irmão o Papa Francisco e seu premente apelo: “Soube que são muitos na Igreja aqueles/as que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos (todos os cristãos/as), juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15). É esse o caminho para sermos - hoje - Igreja-missão (Igreja “em saída”)!

Com este texto, termino a primeira série de artigos sobre a Igreja que o Vaticano II sonhou.







Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 14 de abril de 2021

 

 

 

O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/2021/04/23/ser-igreja-missao/


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Na pandemia ou não, despejos nunca mais!

 

O advogado Leandro Gaspar Scalabrin, representante do Observatório de Direitos Humanos (ODH) do Poder Judiciário, apresentou aos ministros do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) alguns dados do relatório sobre o Direito à Moradia, produzido pela Entidade em junho de 2020.

Scalabrin explicou: “Durante a pandemia (somente até junho de 2020) já ocorreram 79 despejos. Nesses, 9 mil famílias foram colocadas em situação de desabrigo. Atualmente (sempre em junho de 2020), 64 mil famílias estão ameaçadas de despejo no Brasil”.

Diante de novas liminares de despejo coletivo - “reintegração de posse” - nas Ocupações urbanas e nos Acampamentos rurais, a CNBB propôs que o Conselho Nacional de Justiça, “no âmbito de suas competências, recomende providências aos órgãos do Poder Judiciário no sentido de suspender o cumprimento de mandados coletivos de desocupações de imóveis urbanos e/ou rurais até a ocorrência efetiva de imunização social, por meio de vacina e/ou remédio, da população brasileira, especialmente daquelas pessoas mais vulneráveis e atingidas pelas ordens de despejos coletivos”.

Atendendo a proposta da CNBB - apresentada ao Poder Judiciário através do Observatório dos Direitos Humanos (ODH) - o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no dia 23 de fevereiro passado, em sua 325ª Sessão Ordinária, aprovou uma resolução recomendando ao Judiciário que não autorize ações de despejo coletivo durante a pandemia da Covid-19.

(Fonte:  https://www.cnbb.org.br/proposta-da-cnbb-para-que-o-judiciario-nao-autorize-despejos-na-pandemia-e-aprovada-no-conselho-nacional-de-justica/ e https://www.cnbb.org.br/observatorio-dos-direitos-humanos-cnbb-proposta-contra-despejo-de-familias/)

Neste contexto de pandemia - por serem os despejos coletivos de uma perversidade e crueldade diabólicas - a resolução do CNJ representa, sem dúvida, uma grande vitória para todos e todas que lutam pelo direito à terra de trabalho e à moradia digna.

Esperamos que - terminada, se Deus quiser, a pandemia - a CNBB dê mais um passo à frente e declare profeticamente, de maneira clara e inequívoca, que todo despejo coletivo (o que comumente acontece, mas vale também para o despejo de uma só família ou pessoa) é sempre - em qualquer situação - injusto: desumano, antiético e anticristão.

O Evangelho de Jesus de Nazaré não deixa margem para meias verdades, comportamentos diplomáticos e acordos parciais. “Que o sim de vocês seja sim, e o não seja não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5,37).

“Despejo” - chamado hipócrita e legalmente de “desocupação” ou “reintegração de posse” - é uma palavra que se usa somente para falar de “lixo”. Até quando se fala de objetos - melhor tratados que as pessoas - usa-se sempre a palavra “remoção” ou “descarga” (dependendo do caso) e não “despejo”.

Do ponto de vista da justiça - o ponto de vista humano, ético e cristão - só é permitida a remoção com dignidade de famílias de suas moradias em Ocupações urbanas ou Acampamentos rurais em dois casos: quando a terra ocupada é de utilidade pública ou de preservação ambiental e - mesmo nesses casos -  só depois que estiverem prontas outras moradias para receberem as famílias.

A propriedade particular não é um direito absoluto, mas deve ter uma função social e, por motivo de utilidade pública, o Governo (Municipal, Estadual e Federal) - se necessário -  pode sempre recorrer à desapropriação.

As terras abandonadas para fins de especulação imobiliária (como é comum acontecer nas grandes cidades), as terras de latifúndios improdutivos, as terras com monoculturas que destroem a natureza e visam unicamente a exportação e o lucro e as terras com trabalho escravo, devem ser destinadas pelo Governo (Municipal, Estadual e Federal) - avaliando a necessidade ou não da desapropriação - à implantação de projetos de moradia popular (na cidade) ou de reforma agrária popular (no campo).

Terra, Teto (Moradia) e Trabalho (os três T) - lembra-nos o Papa Francisco - são Direitos Humanos fundamentais de todos e de todas.

Na pandemia ou não, despejos nunca mais!

(Leia o artigo "Todo despejo é injusto!", em: http://www.ihu.unisinos.br/602803-todo-despejo-e-injusto ou em: http://freimarcos.blogspot.com/2020/09/todo-despejo-e-injusto.html ).








Grito dos Excluídos/as 2020 (Goiás)



Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 29 de março de 2021

 

 



quinta-feira, 25 de março de 2021

Ser Igreja santa e pecadora

 

“O Vaticano II faz-nos passar de uma Igreja pura e sem mancha para uma Igreja santa e pecadora, sempre necessitada de conversão e de reforma” (Dom Aloísio Lorscheider).

Dizer que a Igreja é somente “pura e sem mancha” ou somente “santa” e que pecadores são os cristãos e cristãs individualmente considerados, significa negar a condição humana da Igreja Instituição no mundo, que a torna também pecadora.

Mesmo sendo pecadora, nela - Instituição e pessoas - existe muita santidade. Quanta compaixão, doação e amor encontramos em organizações e movimentos da Igreja Instituição! Quanta profundidade humana, sabedoria e testemunho encontramos nas pessoas, não só nas que foram canonizadas, mas sobretudo nas pessoas anônimas, simples e pobres!

A santidade - o amor acontecendo na história do ser humano no mundo - é a graça (o bem moral). A Igreja no mundo deve ser sinal visível (sacramento) da graça: dom de Deus e, ao mesmo tempo, conquista do ser humano. A graça torna o ser humano mais humano e, portanto, mais realizado e mais feliz.  Por isso, os cristãos e cristãs são chamados a ser radicalmente humanos e humanas, testemunhando no mundo essa radicalidade.

A não-santidade - o desamor (o egoísmo) acontecendo na história do ser humano no mundo - é o pecado (o mal moral). “O pecado diminui o ser humano, impedindo-o de atingir sua plena realização” (A Igreja no mundo de hoje - GS, 13). A Igreja no mundo - em vez de ser sinal da graça - torna-se, muitas vezes, sinal do pecado.

A graça é, pois, graça social (sócio-econômico-político-ecológico-cultural) e graça individual (corpórea-bio-psíquica-espiritual ou pessoal). Por graça social (ou estrutural) entende-se a estrutura da sociedade (da qual a Igreja é parte integrante) na medida em que é - e se torna cada vez mais - humana, ética, justa, igualitária, fraterna e cristã. Por graça individual entende-se o projeto de vida dos indivíduos ou pessoas (opção fundamental), seus comportamentos habituais (atitudes) e suas ações (atos) na medida em que são - e se tornam cada vez mais - humanos, éticos, justos, igualitários, fraternos e cristãos.

O pecado é, pois, pecado social e pecado individual (com as mesmas dimensões da graça). Por pecado social (ou estrutural) entende-se a estrutura da sociedade (da qual a Igreja é parte integrante), na medida em que é - e se torna cada vez mais - desumana, antiética, injusta, desigual, antifraterna e anticristã. Por pecado individual entende-se o projeto de vida (que, na realidade, é projeto de morte) dos indivíduos ou pessoas (opção fundamental), seus comportamentos habituais (atitudes) e suas ações (atos), na medida em que são - e se tornam cada vez mais - desumanos, antiéticos, injustos, antifraternos e anticristãos.

A pior face do pecado social (estrutural) da Igreja e o pior pecado individual dos cristãos e cristãs é a hipocrisia (o farisaísmo): o uso deturpado e falsificado do nome de Deus, de sua Palavra (sobretudo do Evangelho), da própria Igreja - Instituição e pessoas - para legitimar e abençoar projetos sociais (estruturais) e projetos individuais totalmente desumanos, injustos, antiéticos, antifraternos e anticristãos. Basta lembrar a posição da Igreja em relação ao regime imperial, escravista, feudal e capitalista. Jesus chamou os fariseus de “hipócritas”, “sepulcros caiados”, “serpentes”, “raça de cobras venenosas” (cf. Mt 23,13-36).

Ora, a face mais bonita da graça social (estrutural) da Igreja e a mais bonita graça individual dos cristãos e cristãs é a profecia. Quantas organizações eclesiais marcadas pelo profetismo e quantos cristãos e cristas, verdadeiros profetas e profetisas, que deram a vida por amor na luta pela Justiça e pelo Reino de Deus: os mártires da caminhada!

Por fim, reconhecendo que a Igreja no mundo é “santa e pecadora, sempre necessitada de conversão e de reforma”, lutemos para que ela cresça - cada dia mais - na graça (a santidade) e se liberte - cada dia mais - do pecado (a não-santidade).






Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 14 de março de 2021

  

 

O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/2021/03/15/ser-igreja-santa-e-pecadora/

 

 

 

 

quarta-feira, 17 de março de 2021

Por uma imprensa a serviço da Justiça e da Verdade - Uma denúncia contra O Popular


O fato que vou narrar agora - entre outros - mostra claramente que O Popular (Goiânia - GO) é um Jornal que está a serviço dos interesses dos poderosos (como, infelizmente, a maioria dos Jornais).

No dia 13 de fevereiro passado enviei o seguinte e-mail ao editor de O Popular, Fabricio Cardoso: “Não sei se será possível, mas tomo a liberdade de fazer um pedido. Como eu vivi muito de perto - sofrendo com o povo - o caso do Parque Oeste Industrial, gostaria muito que O Popular publicasse o meu artigo “Jônathas Silva esqueceu um ‘detalhe’: o despejo da Ocupação ‘Sonho Real’”, em resposta ao artigo de auto-exaltação do professor Jônathas Silva (à época Secretário de Segurança Pública de Goiás) Não à politicagem” (O Popular, 03/02/21, p. 3) e em memória dos 16 anos do despejo (acontecido no dia 16 de fevereiro de 2005).

No dia 15, Fabricio respondeu: “Ficamos agradecidos pela disposição em publicar conosco, dando um testemunho pessoal em nossas páginas. O único ponto é o tamanho do artigo, que deve ser de 2,6 mil toques com espaço. O seu está com 3,5 mil. Podemos editar, mas é de bom tom oferecer essa possibilidade ao autor”.

Atendendo à exigência do Jornal, enviei novamente o artigo com tamanho reduzido e pedi que - se houvesse necessidade de reduzi-lo mais ainda - me comunicasse. No mesmo dia Fabricio respondeu: “Não se preocupe. Estourou um tantinho, mas está na margem do ajustável”. Fiquei contente, certo de que O Popular publicaria o meu artigo.

No dia seguinte (16), tive uma surpresa que me deixou profundamente indignado. Sem a minha autorização, o artigo foi publicado como “carta ao leitor” com o título trocado e com mais alguns cortes no texto. Sempre no mesmo dia - diante da minha indignação - Fabrício pediu desculpa por não me ter avisado antes e me deu a seguinte justificativa: “No grupo de editores surgiu um argumento de que do seu texto derivariam pedidos de respostas reiterados, com réplicas e tréplicas. No esforço de preservarmos a pluralidade de temas nos artigos (que ‘pluralidade’ é essa!), encaminhamos a solução pela seção de cartas”.

Ora, eu pergunto: Por que os defensores e bajuladores dos poderosos - esteios do sistema capitalista neoliberal dominante - têm direito a “pedidos de respostas reiterados, com réplicas e tréplicas” e os porta-vozes dos excluídos/as e descartados/as (que nunca têm voz e nem vez) desse sistema iniquo não podem ter o mesmo direito?

Concretamente, no caso em questão, por que o autor desse escrito não tinha o direito de desmascarar um Secretário de Segurança Pública que despejou de suas moradias (numa hora e 45 minutos) 14 mil pessoas - entre as quais, muitas crianças e idosos - como se fossem ”lixo”?

A minha indignação foi tanta que, num primeiro momento, pensei em mover uma ação judicial contra o Jornal O Popular, que - do ponto de vista legal - não tinha o direito de transformar o artigo numa “cartinha”, trocando o título e fazendo cortes no texto sem a minha autorização.

Depois de refletir melhor, sabendo que uma ação judicial exigiria de minha parte bastante tempo (que não tenho) e sabendo - também e sobretudo -  que as redes sociais têm hoje um alcance muito maior que o Jornal, optei por escrever esse artigo de denúncia, divulgando-o em nível nacional.

Termino com um testemunho: como ser humano e cristão, compartilhar a experiência de vida dos irmãos e irmãs da Ocupação “Sonho Real” - verdadeiros heróis e heroínas na defesa do direito à moradia digna - me edificou muito, e me fortaleceu no desejo de estar sempre ao lado e do lado dos excluídos/as e descartados/as, na construção de um Brasil Novo e de um Mundo Novo.

Lutemos por uma imprensa a serviço da Justiça e da Verdade!

Por fim, quero dizer que a minha denúncia é contra O Popular e seus responsáveis, e não contra os/as jornalistas, que também são trabalhadores/as.

(Leia o artigo "Jonathas Silva esqueceu um 'detalhe': o desejo da Ocupação 'Sonho Real', em http://www.ihu.unisinos.br/606912-jonathas-silva-esqueceu-um-detalhe-o-despejo-da-ocupacao-sonho-real ou em: http://freimarcos.blogspot.com/2021/02/jonathas-silva-esqueceu-um-detalhe-o.html





Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 16 de março de 2021


quarta-feira, 10 de março de 2021

Um apelo dramático: acorda Brasil

 


Em nome do Deus da vida, acorda Brasil! Tiremos imediatamente esse presidente, psicopata e assassino, que todo dia mata - cínica e friamente - milhares de pessoas de Covid-19 por falta de assistência médica adequada e de vagas nos hospitais: enfermarias e UTIs.

“Goiás tem 495 na fila de internação para Covid-19” (O Popular, 09/03/21. Manchete de 1ª página). “Paraná tem 1.071 pessoas à espera de um leito de UTI ou enfermaria para Covid-19”. Márcia Huçulak, Secretária Municipal da Saúde de Curitiba, afirma: "Fizemos do Brasil um covidário, um lugar perfeito para a proliferação do vírus e das suas novas variantes" (https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2021/03/08/covid-19).

Todos os Estados se encontram mais ou menos na mesma situação. Chega de tanta criminalidade! Não dá mais! O povo quer viver! É uma questão de legítima defesa social.

Judiciário e Congresso não sejam omissos e coniventes com o crime, cumpram seu papel e tirem esse psicopata assassino da presidência! Congresso - por estarmos numa situação de emergência - suspenda todos os gastos do país que não sejam estritamente necessários; cobre uma “taxa especial” de todos os que possuem grandes fortunas; exija que o Executivo organize, com a máxima urgência, um plano nacional de socorro médico e hospitalar a todos e todas que precisam de assistência para salvar suas vidas; e cobre imediatamente um plano de vacinação gratuita contra a Covid-19 para toda a população.

Sociedade civil, acorda! Sindicatos de trabalhadores/as, Movimentos Populares, Movimentos estudantis e as mais diversas Organizações sociais unamo-nos, lutemos e derrubemos esse assassino!

Além de ser um homem totalmente antiético, ele viola, impune e permanentemente, a Constituição Federal do Brasil, que - em seu artigo 5º -  depois de declarar que “todos e todas são iguais perante a lei”, destaca “a inviolabilidade do direito à vida” e - no parágrafo 3º - afirma categoricamente que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”.

A longa espera de doentes graves de Covid-19 por falta de vagas nos hospitais - enfermarias e UTIs - e (o que é pior ainda) a morte por asfixia por falta de oxigênio, é realmente um tratamento desumano e degradante: uma verdadeira tortura.

Igrejas - católica e evangélicas - tomem uma posição clara e firme contra essa situação criminosa! Não sejamos - os cristãos e cristãs - Igrejas de Judas, que traem Jesus nos pobres, ou Igrejas de Pilatos, que lavam as mãos! Sejamos Igrejas proféticas! Falemos! Denunciemos! Lutemos pela vida!  “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Lembra-nos o Papa Francisco: “Todos e todas devem ter acesso aos cuidados de saúde, sejam eles quem forem, onde quer que estejam". “A saúde não é um bem de consumo, mas um direito universal: unamos os esforços para que os serviços de saúde sejam acessíveis a todos e todas”.

Continua o Papa: "Quando a pessoa doente não é colocada no centro e considerada em sua dignidade, criam-se atitudes que podem levar até mesmo a especular sobre as desgraças dos outros. E isso é muito grave! É preciso estar vigilantes, especialmente quando os pacientes são idosos com uma saúde severamente comprometida, se eles estão sofrendo de doenças graves e dispendiosas para os seus cuidados ou são particularmente difíceis, tais como pacientes psiquiátricos. O modelo empresarial no setor de saúde, se adotado de forma indiscriminada, ao invés de otimizar os recursos disponíveis, corre o risco de produzir descartes humanos. Otimizar os recursos significa usá-los de maneira ética e solidária e não penalizar os mais frágeis” (https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-10/papa-francisco-saude-direito-universal-tweet.html).

Chega de tanta iniquidade! Um outro Brasil é possível e necessário! Unidos e organizados, lutemos por ele!





Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 09 de março de 2021


A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos