terça-feira, 30 de novembro de 2021

A questão da “dignidade” na Igreja

 


A respeito da questão da “dignidade”, a Igreja - influenciada pela cultura dominante na sociedade, que é a cultura capitalista neoliberal e não a cultura popular - coloca primeiramente a dignidade no cargo que a pessoa humana ocupa e não na própria pessoa humana. Com isso, consciente ou inconscientemente, ela nega um valor humano e cristão (radicalmente humano, evangélico) fundamental, causando muitas injustiças.

Como exemplo, vejam o que reza uma Oração (depois da Benção do Santíssimo Sacramento ou do Rosário) muito conhecida pelo povo: “Derramai as vossas bênçãos sobre o nosso Santo Padre, o papa, sobre o nosso bispo, sobre o nosso pároco e todo o clero, sobre o chefe da nação e do Estado e sobre todas as pessoas constituídas em dignidade para que governem com justiça”.

Pergunto: Existe alguma pessoa humana que não é “constituída em dignidade”? É verdade que os defensores dessa maneira de ver a realidade fazem uma distinção e dizem que existe uma dignidade inerente a pessoa humana e uma dignidade inerente ao cargo que ela ocupa. É “uma conversa pra boi dormir”, que pretende “naturalizar” e “legitimar” essa mentalidade.

A dignidade está somente na pessoa humana e é ela que dá valor ao cargo ocupado. O meu irmão ou irmã que mora na rua - vítima de uma sociedade injusta, iníqua e perversa - tem a mesma dignidade do papa ou do presidente da República. Toda pessoa humana é “constituída em dignidade”.

Infelizmente, em nossa sociedade - e na Igreja - existem muitos preconceitos a respeito da dignidade humana. “Para reconhecermos que a dignidade humana é fundamental, precisamos fazer algumas perguntas: Qual é o nível de humanidade e dignidade atribuído a pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+, aos migrantes e às mulheres? Quais mortes causam mais comoções e quais delas a sociedade considera aceitáveis? Quem são as pessoas que têm mais oportunidades?”.

E ainda: “O principal fundamento dos Direitos Humanos é a garantia da dignidade humana. Todos os seres humanos devem ter reconhecido seu direito a ter direitos (saúde, educação, emprego, moradia, saneamento básico, justiça, etc.). Portanto, violências no campo físico, moral, psíquico, social e cultural são inaceitáveis. Mas, os princípios que norteiam a dignidade humana estão longe de serem realidade na nossa sociedade (e na Igreja). Ainda temos hoje, diversos grupos sociais privados do direito à vida” (https://usinadevalores.org.br/dignidade-humana/).

Apesar de tudo isso, podemos afirmar que “os seres humanos de hoje tornam-se cada vez mais conscientes da dignidade da pessoa humana e, cada vez em maior número, reivindicam a capacidade de agir segundo a própria convicção e com liberdade responsável, não forçados por coação mas levados pela consciência do dever” (Concílio Vaticano II. Dignitatis Humanae - DH, 1).

Todos os seres humanos, homens, mulheres e pessoas com identidade de gênero ou orientação sexual diferentes (LGBTQIA+) - por serem imagem e semelhança de Deus - têm a mesma dignidade e o mesmo valor. “Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa Imagem e semelhança’. (...) E Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, macho e fêmea os criou” (Gn 1,26-27).

“Na Igreja, Povo de Deus, é comum (deveria ser comum...) a dignidade dos filhos e filhas de Deus batizados e batizadas, no seguimento de Jesus, na comunhão recíproca e no mandamento missionário” (Exortação Apostólica Pós-sinodal “Ecclesia in America - EA 44).

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade” (Declaração Universal dos Direitos Humanos - 1948, art. 1). É esse o nosso ideal! Lutemos por ele!

Com o presente texto inicio a terceira série de artigos - reflexões eclesiológicas na perspectiva libertadora - sobre algumas questões, que são fundamentais e que só foram mencionadas de passagem em outros artigos: as questões da “dignidade” (este artigo), da “igualdade”, da “democracia”, da “sinodalidade”, da “comunhão”, da “participação”, da “missão”, da “radicalidade”, do “pecado estrutural”, do “pecado individual”, da “graça estrutural” e da “graça individual” na Igreja. (Os destaques em negrito são meus).


                                                        Ilustração da V Jornada Mundial dos Pobres no Brasil - CNBB - 2021


Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 15 de outubro de 2021


O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/a-questao-da-dignidade-na-igreja/


terça-feira, 9 de novembro de 2021

Direito famélico

 


No Jornal O Popular (Goiânia - GO) do dia 30 e 31 de outubro próximo passado, na página 14, sobre a VIDA URBANA, lemos a seguinte manchete: “Furto famélico está em 20% das prisões”.

Mariana Carneiro - autora da reportagem -  começa o seu texto com estas palavras: “Uma a cada cinco prisões em flagrante por furto, em Goiânia, nos dias úteis de julho a 26 de outubro deste ano, foi por furto famélico, quando a pessoa comete o delito para se alimentar”.

A jornalista, de um lado, relata que Gilles Gomes, advogado criminalista, “durante inspeções em presídios já conheceu pessoas que estavam presas por terem cometidos furtos famélicos”; de outro lado, relata que “desde 2004, existe um entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) de que casos com esse perfil devem ser arquivados, segundo o princípio da insignificância, casos em que o valor do furto é tão irrisório que não causa prejuízo à vítima do crime. Entretanto, a norma não é obrigatória”.

Na reportagem, Leonardo Stutz, defensor público da área criminal, afirma que “a situação reflete o cenário de pobreza estrema que muitos brasileiros enfrentam”: situação que - acrescento eu - é fruto de um sistema hipócrita e perverso, estruturalmente antiético (ou seja, desumano) que é o sistema capitalista ultraneoliberal.

Mesmo reconhecendo a gravidade da situação, a respeito dos chamados “furtos famélicos”, os juízes - com poucas exceções - não estão preocupados em salvaguardar o direito à alimentação das pessoas que se encontram em extrema necessidade. A preocupação deles é que o “furto” não cause prejuízo à vítima do “crime”.

Infelizmente, nesses casos, as decisões dos juízes são quase sempre muito ambíguas e - na maioria das vezes - descaradamente a favor dos poderosos. Também, dá para entender! Vejam só!

“Em Goiás (nos outros Estados não deve ser muito diferente), 170 juízes (do TJ) receberam mais de R$ 100 mil em outubro” (deste ano), incluindo os adicionais, chamados “penduricalhos”.  No mesmo mês, “o maior rendimento bruto foi de R$ 162 mil. Neste caso, o magistrado recebeu subsídio de R$ 35,4 mil e R$ 5 mil em direitos pessoais (abono permanência)” (https://opopular.com.br/noticias/politica/em-goi%C3%A1s-170 ju%C3%ADzes-receberam-mais-de-r-100-mil-em-outubro-1.2348767). Como podemos acreditar na justiça desses juízes?

Mesmo que os pobres e, sobretudo, os mais pobres entre os pobres -que, por extrema necessidade, praticaram “furtos famélicos” - não cheguem a ser presos ou fiquem presos por pouco tempo por serem os casos arquivados, seguindo o princípio da insignificância, eles e elas são sempre humilhados com maus-tratos e palavras desrespeitosas, como: “furtam bolacha, leite, macarrão”, “furtam alimentos vencidos”, “presos por cometerem furtos famélicos”, “presos em fragrante furto”, “cometem delito para se alimentar”, “praticam uma conduta ilícita”, etc.

Segundo o ensinamento ético (o ético é o humano) de Santo Tomás de Aquino (1225-1274) - que integra o Pensamento Social Cristão - quando uma pessoa ou um grupo de pessoas encontra-se em situação de miséria ou de extrema necessidade, “tudo é comum ou seja, todos os bens são de todos e de todas(“In casu extremae necessitatis, omnia sunt communia”: Suma Teológica. IIa IIae, questão 32, artigo 7, resposta 3). 

Portanto, do ponto de vista ético - humano e cristão (radicalmente humano) -  o chamado “furto famélico” não é “furto”, não é “crime”, não é “delito”, não é “conduta ilícita”, mas é “direito famélico”, “direito à alimentação”, que é um direito fundamental de toda pessoa humana e é parte integrante do direito à vida.

Lutemos por esse direito e por um novo modelo de sociedade: justo, igualitário, de irmãos e irmãs.

(Todos os destaques em negrito - menos a manchete da reportagem - são meus)








Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 05 de novembro de 2021




CEBs: uma Igreja que vive a Espiritualidade da Libertação

 


“O seguimento de Jesus é fruto de uma fascinação

que responde ao desejo de realização humana,

ao desejo de vida plena”

 (Documento de Aparecida - DA, 277)


Toda verdadeira Espiritualidade é “da Libertação”, porque “liberta” de tudo aquilo que impede a vida. “Eu vim para que todos e todas tenham vida e a tenham em plenitude” (Jo 10,10).

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) - mesmo diante dos inúmeros desafios que precisam enfrentar no dia a dia - são uma Igreja que vive a Espiritualidade da Libertação: uma espiritualidade humana, cristã, pascal e do seguimento de Jesus.

A Espiritualidade da Libertação é, antes de tudo, espiritualidade humana. Ela envolve o ser humano todo, em todas as suas dimensões (corpóreas, biopsíquicas e espirituais ou pessoais) e em todas as suas relações (sociais, econômicas, políticas, ecológicas, culturais e religiosas) com o mundo material e vivente, com os outros-semelhantes e com o Outro absoluto-Deus. A Espiritualidade perpassa, impregna e absorve a totalidade do ser humano, a totalidade de sua existência.

Portanto, ser espiritual significa antes de tudo ser “humano”, viver o “humano” em graus crescentes de profundidade. Nunca o ser humano é “humano” demais, nunca o ser humano exagera em ser “humano”.

“Não se encontra nada verdadeiramente humano que não ressoe no coração dos discípulos e discípulas de Cristo” (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS 1).

Para os que somos cristãos e cristãs, à luz da fé, a espiritualidade humana é espiritualidade cristã (evangélica). Não são duas espiritualidades diferentes. É a mesma espiritualidade. A espiritualidade não pode ser cristã se não for humana e, se for humana, é - implícita ou explicitamente - cristã.

"A fé esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do ser humano. E por isso orienta a mente para soluções plenamente humanas" (GS 11).

O plenamente humano inclui a dimensão da fé. Quando verdadeira, a fé humaniza, torna o ser humano mais ser humano. O autêntico cristianismo é um humanismo pleno (radical). Ser cristãos e cristãs é ser plenamente (radicalmente) humanos.

Trata-se de uma solidariedade (compaixão) entranhável dos que somos cristãos e cristãs para com todos os seres humanos e com a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum, a partir dos pobres, marginalizados, explorados, oprimidos, excluídos e descartados.

A espiritualidade cristã é, pois, espiritualidade pascal, ou seja, espiritualidade que brota da vivência, sempre mais profunda, da Páscoa (o mistério do Cristo crucificado, sepultado e ressuscitado). Para os que somos cristãos e cristãs, o mistério pascal é o centro da nossa vida na sociedade e no mundo. Do ponto de vista celebrativo, ele é o centro do ano litúrgico. A liturgia é a celebração do mistério pascal na vida e a celebração da vida no mistério pascal.

Viver o mistério pascal - a espiritualidade pascal - significa viver como Jesus viveu, morrer como Jesus morreu, ressuscitar como Jesus ressuscitou.

A espiritualidade pascal é "espiritualidade de comunhão" (DA 181, 307, 316); é “espiritualidade de comunhão com todos os e as que creem em Cristo” (DA 189); e é “espiritualidade de comunhão missionária" (DA 203).

A alma (a vida) da espiritualidade pascal é o Espírito Santo, o Amor de Deus, que nos faz mergulhar no mistério da Santíssima Trindade, a “melhor Comunidade”, nos torna testemunhas do Cristo Ressuscitado e nos compromete com o seu Projeto de Vida, que é o Reino de Deus na sociedade e no mundo.

A espiritualidade pascal é, pois, espiritualidade do seguimento de Jesus de Nazaré. "Todo aquele que segue Cristo, o Homem perfeito, torna-se ele também mais ser humano" (GS 41).

“No seguimento de Jesus Cristo, aprendemos e praticamos as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão entranhável frente à dor humana, sua proximidade aos pobres e aos pequenos, sua fidelidade à missão, seu amor serviçal até à doação de sua vida” (DA 139).

Os cristãos e cristãs somos chamados a ser hoje “profetas e profetisas da vida” nas situações concretas da realidade do ser humano e do mundo. Vivamos essa espiritualidade! É o caminho da felicidade!







Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 15 de outubro de 2021



O Artigo foi publicado originalmente no Portal das CEBs:

https://portaldascebs.org.br/cebs-uma-igreja-que-vive-a-espiritualidade-da-libertacao/


segunda-feira, 4 de outubro de 2021

CEBs: uma Igreja que é militante de um Mundo Novo

 



As CEBs não são somente uma Igreja que é sinal visível do Reino de Deus no Mundo (como vimos), mas são também - e ao mesmo tempo - uma Igreja que é militante de um Mundo Novo.

Por serem uma Igreja profundamente inserida e encarnada na vida do Povo - as CEBs são aliadas ou organicamente ligadas a todas as Forças Sociais Populares: Movimentos Sociais Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares, Conselhos de Direitos, Fóruns ou Comitês de Defesa dos Direitos Humanos e de Cuidado com a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum, de Comissões de Justiça e Paz, de Entidades de Jovens Estudantes e Outras Organizações Populares.

As CEBs têm uma identidade eclesial, reconhecem a autonomia das Forças Sociais Populares e são parte integrante delas.

Por serem portadoras do novo, as Forças Sociais Populares fazem acontecer um Projeto alternativo ao Projeto Capitalista neoliberal dominante: o Projeto Popular (social, econômico, político, ecológico, cultural e religioso), o Projeto de Outro Mundo possível, o Projeto de um Mundo Novo, que - à luz da fé - é o Reino de Deus acontecendo na história do ser humano e da Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum.

Em sua ação evangelizadora, ou seja, no anúncio da Boa Notícia do Reino de Deus, as CEBs são servidoras e samaritanas, vivem a compaixão e a misericórdia e estão sempre do e ao lado dos pobres.

Para as CEBs, a “opção pelos pobres” (empobrecidos), marginalizados, oprimidos, excluídos e descartados não é uma “opção preferencial”, ou seja, não é uma alternativa entre duas ou mais alternativas, mas é o caminho que leva à vida: o caminho de Jesus de Nazaré e de seus seguidores e seguidoras.  

A “opção pelos pobres” é profundamente evangélica - profética e libertadora - e não meramente ideológica (embora as ideologias sejam uma mediação necessária, por ser o ser humano um ser histórico, situado e datado). Ela é o eixo estruturante do jeito de ser Igreja das CEBs e de sua ação evangelizadora. Todos e todas são convidados e convidadas a entrar nesse caminho. A partir dos e das pobres - e junto com eles e elas - as CEBs participam do processo de libertação do ser humano todo e de todos os seres humanos no mundo com o mundo, segundo o Projeto de Deus.

O referencial das CEBs é sempre a práxis de Jesus de Nazaré. Pela sua proximidade, compaixão e entranhável solidariedade, ele tornou-se defensor intransigente do povo; denunciou, com indignação e firmeza, a hipocrisia dos fariseus e doutores da Lei. “Serpentes! Raça de cobras venenosas!” (Mt 23,33). Dialogou com o jovem rico, que - pelo seu apego aos bens - não teve coragem de segui-lo e foi embora triste. Encontrou com Zaqueu - também homem rico - em sua casa, que se converteu e mudou totalmente de vida, praticando a partilha dos bens.

A presença de Jesus e o anúncio da Boa Notícia do Reino de Deus - que é a sua Utopia, o seu Projeto de Vida - não deixaram e não deixam ninguém indiferente (ou, como se costuma dizer, “em cima do muro”). Todos e todas sentiram-se e sentem-se obrigados e obrigadas a tomar uma posição: a favor ou contra.

Pela sua pregação, Jesus foi considerado subversivo. “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23,2).

Em nossa realidade, a “opção pelos pobres” leva necessariamente as CEBs - uma Igreja que é militante de um Mundo Novo - a tomar uma posição clara e firme contra o sistema capitalista neoliberal, denunciando - com coragem profética - a perversidade do sistema, e lutando para abrir caminhos novos que levem a mudanças não só conjunturais, mas também e sobretudo estruturais, em vista de um novo modelo de sociedade.

Por fim, as CEBs são uma “Igreja pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres": a Igreja de Jesus de Nazaré, a nossa Igreja.




Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 15 de setembro de 2021

 


O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/cebs-uma-igreja-que-e-militante-de-um-mundo-novo/  


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Uma perversidade diabólica do prefeito Gustavo Mendanha

 

 

“A Prefeitura de Aparecida de Goiânia, com a ajuda da Guarda Civil Municipal (GCM) e da PM, realiza o segundo despejo violento na Ocupação Beira-Mar, no bairro Independência das Mansões, às 6h da manhã dessa segunda-feira (27 de setembro). 56 famílias perderam sua moradia em meio à pandemia e a enorme crise econômica. A Prefeitura realizou o despejo sem mandato judicial ou ordem administrativa! Não houve também nenhuma notificação prévia às famílias.

A Campanha Despejo Zero denuncia mais um despejo truculento e ilegal em Goiás” (Comitê de Direitos Humanos de Goiás Dom Tomás Balduino).

Sou membro do Comitê e é com muita indignação que declaro: a denúncia da Campanha Nacional Despejo Zero - que tem todo meu apoio - é também a minha denúncia. Trata-se - mais uma vez - de um ato de uma perversidade diabólica. Digo mais: além de ilegal, todo despejo é imoral e injusto. A própria palavra “despejo” é desrespeitosa e ofensiva.

Infelizmente, em pleno tempo de pandemia, às 6 horas da manhã (dia 27) Gustavo Mendanha - de maneira violenta, covarde e sem nenhum respeito pelas crianças, idosos e idosas, trabalhadores e trabalhadoras que, como verdadeiros heróis e heroínas, lutam pelo direito sagrado à moradia digna e por um Brasil mais justo e humano - são barbaramente despejados e despejadas, como se fossem criminosos e criminosas, por um Prefeito insensível e perverso. Chega de tanta violência e tanta bandidagem institucionalizada! Deixo um aviso a esses políticos e governantes: aguardem a justiça de Deus! Ela não falha!

Mais uma vez, o meu total apoio às famílias despejadas como se fossem lixo descartável. Irmãos e irmãs de caminhada, soube que continuam na terra. Parabéns pela resistência. A terra é de vocês. Lutem com garra por ela. Toda terra urbana abandonada para fins de especulação imobiliária e toda terra rural improdutiva é de quem precisa dela para trabalhar e para morar. Chega de políticos e governantes iníquos, a serviço dos poderosos e exploradores do povo!

Unido a muitos outros companheiros e companheiras, reafirmo: estamos com vocês. Lembrem-se: Deus está sempre do lado dos que lutam pela justiça e, com certeza, está do lado de vocês.  Com Deus, vocês já são vitoriosos.  Os demônios de hoje (leia: os políticos e governantes criminosos) serão derrotados.

“O futuro da humanidade está, em grande medida, nas mãos de vocês (dos Movimentos Populares), na capacidade de vocês se organizarem e promoverem alternativas criativas na busca diária dos ‘3 T’ (trabalho, teto, terra), e também na participação de vocês como protagonistas nos grandes processos de mudança, regionais, nacionais e mundiais” (Papa Francisco. 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15). Unidos na Luta!

Despejo Zero! Parem os Despejos! Não joguem o Povo na Rua!





Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 27 de setembro de 2021




segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Um processo de construção coletiva

 


Grito dos Excluídos e das Excluídas:

“espaço de animação e profecia” 




“Nestes 27 anos de história - afirma a Coordenação Nacional - o Grito dos Excluídos e das Excluídas mudou a cara do 7 de Setembro e da Semana da Pátria, chamando o povo para descer das arquibancadas dos desfiles cívicos e militares e participar, ativamente, na luta por seus direitos, nas ruas e praças, nos centros e nas periferias de todo o Brasil. Para ecoar seus gritos de denúncia e de anúncio de um projeto de país mais justo e igualitário, na defesa da dignidade da vida em primeiro lugar”. E ainda: “Estar nas ruas é um ato democrático e, na Semana da Pátria, é um tempo favorável para seguirmos firmes nessa defesa”.

O Grito dos Excluídos e das Excluídas é, portanto, “um processo de construção coletiva, é muito mais que um ato. Por isso, nossa luta não se encerra no dia 7 de Setembro. Nossa luta é uma maratona, não é uma corrida de 100 metros. O Grito é uma manifestação popular carregada de simbolismo, espaço de animação e profecia, sempre aberto e plural de pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas da população mais vulnerável”.

Com coragem profética, a Coordenação Nacional apresenta-nos a realidade: “Estamos vivendo um momento de crises - social, ambiental, sanitária, humanitária, política e econômica - sobretudo causadas pela ação nefasta de um governo genocida, negacionista e promotor do caos que visa principalmente destruir, de qualquer forma, a democracia e a soberania do nosso país”.

Neste ano de 2021, em muitas capitais e cidades do Brasil, o Grito dos Excluídos e das Excluídas foi realizado em conjunto com a Campanha Nacional “Fora Bolsonaro”: um grito tão amplo e tão forte, que - na conjuntura atual - integra e sintetiza de alguma forma todos os gritos.

De fato - continua a Coordenação Nacional - o que nos motiva a gritar neste ano de 2021 são:

  • “as quase 580 mil mortes pela COVID-19, muitas das quais (a grande maioria) poderiam ter sido evitadas;
  • a corrupção na negociação de compra e distribuição das vacinas contra a COVID-19 (CPI);
  • o desmonte da saúde pública (SUS);
  • a carestia e a fome que voltaram com tudo e assolam as camadas empobrecidas da população;
  • o desemprego;
  • o desvio do dinheiro público, através do orçamento federal, para o pagamento de juros da dívida pública, ao invés de investir em políticas sociais;
  • a falta de moradia, que se agrava com os despejos criminosos;
  • a não demarcação das terras indígenas e o grito profético dos povos indígenas dizendo ‘Não ao Marco temporal’;
  • a denúncia contra o tratamento dado aos povos em situação de rua, sejam de qualquer origem, migrantes e refugiados ou deslocados internos, que lutam e resistem por dignidade e cidadania universal no Brasil;
  • a cultura do ódio disseminada pelo governo federal e seus aliados que ataca e retira os direitos humanos de mulheres, LGBTQIA+, negros/as, dos povos originários - Indígenas e Quilombolas, das pessoas portadoras de deficiência, dos/as trabalhadores/as, dos setores excluídos da sociedade”.

A Coordenação Nacional conclui, pois, dizendo: “Não podemos ficar indiferentes a essa realidade que atenta contra a vida do nosso povo, porque acreditamos que é possível e necessária a construção de um outro modelo de sociedade!!!” (https://www.gritodosexcluidos.com/post/nota-da-coordenacao-nacional).

Segundo o Papa Francisco, hoje os Pobres não são só Excluídos e Excluídas, mas Descartados e Descartadas (são lixo).

Por fim, como cristão católico (da Igreja renovada e libertadora), religioso dominicano e presbítero (padre), com profunda dor no coração, denuncio: apesar da Carta de apoio ao 27º Grito dos Excluídos e das Excluídas da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotransformadora da CNBB (31 de julho/21) e do Pronunciamento de Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB, a respeito do dia 7 de Setembro (03 de setembro/21), a grande maioria das Igrejas locais do Brasil (graças a Deus, não todas) - incluindo a Igreja de Goiânia (que viveu um retrocesso de mais de 50 anos) - em relação ao Grito dos Excluídos e das Excluídas, foram (com poucas e louváveis exceções) totalmente omissas (um silêncio que, do ponto de vista ético e cristão, é criminoso) e traíram Jesus nos Pobres.

Por conhecer e ter vivido intensamente a história de renovação da Igreja de Goiânia desde o início da década de 1970, já tinha feito essa mesma denúncia - com as lágrimas nos olhos - na manifestação de Goiânia em frente à Catedral (de portas fechadas). Na ocasião, disse ainda que naquele momento Jesus não estava na Catedral, mas na Praça junto com o Povo que lutava por um novo Brasil.

Infelizmente, na manifestação de Goiânia (muito bem preparada e coordenada pelos Movimentos Populares e outras Entidades), da Igreja Católica estavam presentes somente alguns grupos de pessoas das Comunidades, algumas religiosas e (por aquilo que pude constatar) um padre, o autor deste escrito. É lamentável! Por ser feriado, a presença devia ser maciça. Os verdadeiros cristãos e cristãs - em nome de sua consciência cidadã e de sua fé - deveriam estar sempre na linha de frente de todas as lutas por um Brasil e um Mundo Novo (o Reino de Deus na história).

Ah, se ouvíssemos o convite do papa Francisco! “Soube que são muitos na Igreja aqueles/as que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares”.

“Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos (todos os cristãos/ãs católicos/as), juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15). A esperança nunca morre!

Unidos e unidas, continuemos a luta por um outro Brasil, verdadeiramente. independente”! (Os destaques em negrito são meus. Veja também: https://www.gritodosexcluidos.com).




Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 11 de setembro de 2021


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

CEBs: uma Igreja que é sinal visível do Reino de Deus no Mundo

 


Na sinagoga de Nazaré, Jesus retomou as palavras do profeta Isaias e fez delas o seu programa de missão e de vida: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a Boa Notícia (do Reino de Deus) aos pobres. Enviou-me para anunciar a libertação aos presos e a recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e para anunciar o ano da graça do Senhor”. E acrescentou: “Hoje se cumpre essa passagem da Escritura que vocês acabaram de ouvir” (Lc 4,16-21).

O “hoje” de Jesus é também o nosso “hoje”, é o “hoje” das CEBs. O Reino de Deus - que o evangelista Mateus e sua Comunidade chamam Reino dos Céus - é a Sociedade do Bem Viver e do Bem Conviver (como dizem os nossos irmãos e irmãs indígenas); é o Mundo Novo acontecendo na história do ser humano, da Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum e do universo inteiro.

Em outras palavras, o Reino de Deus é a Páscoa acontecendo: passagem da morte (e tudo o que ela significa) para a vida nova em Cristo, até sua plenitude na meta-história (na eternidade), a casa de nosso Pai-Mãe, que é Deus. Essa é a salvação trazida por Jesus!

Costuma-se dizer: “Jesus veio para nos salvar”. Ora, “Jesus nos salva”, suscitando em nós o desejo de entrar livre e conscientemente - nele e com ele - no caminho da vida nova até sua plenitude, que é a meta final de todos e todas nós. É esse o caminho da realização humana, da felicidade, da salvação!

Como Igreja que “nasce do Povo pelo Espírito de Deus”, que “atualiza o jeito de ser de Jesus de Nazaré” e que “se constitui de irmãos e irmãs em comunhão”, as CEBs - mesmo com suas limitações humanas - são uma Igreja que, pelo testemunho e pela palavra, anuncia a Boa Notícia de Jesus de Nazaré - o Reino de Deus - aos pobres e a todos aqueles e aquelas que - ao lado dos pobres e junto com eles e elas - querem seguir Jesus, “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

As CEBs são, pois, uma Igreja “em saída permanente”, que se encarna na vida do povo e se torna sal da terra, luz do mundo e fermento na massa.

As CEBs são ainda uma Igreja que escuta os sinais dos tempos à luz do Evangelho. “Para desempenhar sua missão a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho”. Por isso, “é necessário conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática" (A Igreja no mundo de hoje - GS 4).

“Como discípulos/as de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados/as a discernir os 'sinais dos tempos' à luz do Espírito Santo, para nos colocar a serviço do Reino, anunciado por Jesus, que veio ‘para que todos tenham vida e para que a tenham em plenitude' (Jo 10,10)" (Documento de Aparecida - DA 33).

Por fim, as CEBs são uma Igreja sinal visível (sacramento) do Reino de Deus no mundo. “O Reino de Deus está no meio de vocês” (Lc 17,21). “Felizes os Pobres no Espírito (no Amor), porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). “Felizes os perseguidos por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,10).

O Reino de Deus (o Projeto de Vida de Jesus de Nazaré) é o Projeto de Vida mais “revolucionário” que existe. Nesse Projeto todos e todas - sem nenhum tipo de discriminação - são iguais em dignidade e valor, irmãos e irmãs em Cristo no Espírito Santo (no Amor), filhos e filhas do mesmo Pai-Mãe, que é Deus.

Em Cristo e no Espírito Santo (no Amor), Deus está sempre presente na nossa caminhada. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome (por minha causa e do meu Projeto), aí estou eu no meio deles” (Mt 18,20) “Eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

Para tomar consciência e fazer a experiência de quanto Deus nos ama, meditemos as palavras do Papa Francisco: “A presença de Deus no meio da humanidade não se concretizou num mundo ideal, idílico, mas neste mundo real, marcado por muitas situações boas e más, caracterizado por divisões, maldade, pobreza, prepotências e guerras. Ele quis habitar na nossa história como ela é, com todo o peso de seus limites e dos seus dramas. Agindo desse modo, demonstrou de modo insuperável a sua inclinação misericordiosa e repleta de amor pelas criaturas humanas. Ele é Deus Conosco; Jesus é Deus Conosco” (Audiência Geral, 18/12/13). Com esta certeza, continuemos a caminhada!


                                                                                                                                                                      






Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 15 de agosto de 2021




Artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/cebs-uma-igreja-que-e-sinal-visivel-do-reino-de-deus-no-mundo/

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos