segunda-feira, 26 de julho de 2021

CEBs: uma Igreja que se constitui de irmãos e irmãs em comunhão

 


Jesus de Nazaré quis e quer uma Comunidade de seguidores e seguidoras que seja uma Comunidade de irmãos e irmãs em comunhão.

Para se referir a essa Comunidade - o Povo de Deus da Nova Aliança - os autores do Novo Testamento adotaram o termo Igreja (em grego: Ekklesia), que quer dizer Assembleia: Comunidade reunida. Neste sentido, Jesus - dirigindo-se a Pedro - diz: "Você é Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja" (Mt 16,18). (Observamos que - com o passar do tempo - o termo Igreja adquiriu também o significado de ‘templo’: lugar de oração e de culto).

Portanto, desde a época em que foi escrito o Novo Testamento, a Comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré começou a ser chamada Igreja. Trata-se, porém, de uma Igreja de irmãos e irmãs em comunhão e não de uma Igreja de classes (clero, religiosos/as, leigos/as). Por ‘comunhão’ entende-se, pois, ‘comunhão eclesial’ e não ‘comunhão hierárquica’ (que não é verdadeira comunhão).

Essa Igreja de irmãos e irmãs em comunhão reconhece - na prática e não só na teoria - que todos os seres humanos - homens, mulheres e pessoas de outras orientações sexuais (integrantes da Comunidade LGBTQIA+) - são iguais em dignidade e valor. "Deve-se reconhecer cada vez mais a igualdade fundamental entre todos os seres humanos" (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS 29), criados à imagem e semelhança de Deus (Cf. Gn 1,26-27). “Reina verdadeira igualdade quanto à dignidade e ação comum a todos os fiéis na edificação do Corpo de Cristo" (Concílio Vaticano II. A Igreja - LG 32). "A razão principal da dignidade humana consiste na vocação do ser humano para a comunhão com Deus" (GS 19). “É comum a dignidade dos filhos e filhas de Deus batizados e batizadas, no seguimento de Jesus, na comunhão recíproca e no mandamento missionário” (Exortação Apostólica Pós-sinodal “Ecclesia in America - EA 44). “Todos e todas são chamados à santidade (perfeição humana, felicidade) e receberam a mesma fé pela justiça de Deus” (LG 32). "O mistério do ser humano só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. (…) Cristo manifesta plenamente o ser humano ao próprio ser humano e lhe descobre a sua altíssima vocação" (GS 22).

Nessa Igreja de Jesus de Nazaré, todas as relações são de comunhão entre irmãos e irmãs. Nelas, não há espaço para relações de dependência, submissão, subordinação, subserviência, dominação, inferioridade ou superioridade.

Nas relações de comunhão entre irmãos e irmãs, todos e todas - na diversidade dos carismas (dons) e dos ministérios (serviços) - são sujeitos conscientes e responsáveis de suas opções, atitudes e atos. “A cada um e a cada uma é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor. 12,7).

Sabemos, porém, que a Igreja (pessoas e Instituição) - que é no mundo com o mundo, que é mundo - é uma Igreja divina e humana, santa e pecadora, ao mesmo tempo. No decurso da história, a Igreja se deixou influenciar pela sociedade imperial, feudal e capitalista, e incorporou - em sua própria estrutura social - elementos (pompa, luxo, poder, triunfalismo e outros) que não têm nada a ver com o Evangelho: a Boa Notícia de Jesus de Nazaré. Para tomar consciência disso, basta fazer a memória de como Jesus viveu e de como as primeiras Comunidades cristãs viveram.

Por causa desses desvios - farisaicamente legitimados e sacralizados -  “desenvolvendo perspectivas já presentes no Concílio, mas ainda não explicitadas, vários teólogos - a começar por Congar - têm proposto pensar a estrutura social da Igreja em termos de 'comunidade - carismas e ministérios' (e não em termos de ‘hierarquia - laicato’). O primeiro termo, 'comunidade' (ou o teologicamente mais denso 'comunhão'), inclui tudo o que há de comum a todos os membros da Igreja; e a dupla 'carismas e ministérios' inclui tudo o que positivamente os distingue. É esta, aliás, a perspectiva do Novo Testamento, onde nunca aparece o termo 'leigo' ou ‘leiga’ (e - podemos acrescentar - nem o termo ‘clero’), mas sublinham-se os elementos comuns a todos os cristãos e cristãs e, ao mesmo tempo, valorizam-se as diferenças carismáticas, ministeriais e de serviço. Neste sentido, os termos que designam os membros do Povo de Deus acentuam a condição comum a todos os renascidos pela água e pelo Espírito: 'santos/as', 'eleitos/as', 'discípulos/as', 'irmãos/ãs'” (CNBB. Missão e Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas - 62, 1999, nº 105).

Por fim, é só o amor que - pelo seu grau de profundidade - pode dar um sentido maior ou menor (não, mais importante ou menos importante) à vida humana e à vida da Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum.

Essa é a Igreja que as CEBs querem ser! Essa é a nossa Igreja!






Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br




quarta-feira, 21 de julho de 2021

Suspender os despejos já!

 


A defesa da vida dos pobres não pode esperar


No dia 3 do mês de junho, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, “determinou a suspensão por seis meses de medidas que resultem em despejos, desocupações, remoções forçadas ou reintegrações de posse de natureza coletiva em imóveis que sirvam de moradia ou que representem área produtiva pelo trabalho individual ou familiar de populações vulneráveis que já estavam habitadas antes de 20 de março de 2020, quando foi aprovado o estado de calamidade pública em razão da pandemia de Covid-19”. 

Em relação a ocupações posteriores à pandemia, ele “decidiu que o poder público poderá atuar a fim de evitar a sua consolidação, desde que as pessoas sejam levadas para abrigos públicos ou que de outra forma se assegure a elas moradia adequada, conforme a Constituição”.

O Projeto de Lei - PL 827/2020 ( de autoria de André Janones - AVANTE/MG), Natália Bonavides - PT/MT) "estabelece medidas excepcionais em razão da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN) decorrente da infecção humana pelo coronavírus SARS-CoV-2, para suspender o cumprimento de medida judicial, extrajudicial ou administrativa que resulte em desocupação ou remoção forçada coletiva em imóvel privado ou público, urbano ou rural, e a concessão de liminar em ação de despejo de que trata a Lei nº 8.245, de 18 de outubro de 1991, e para estimular a celebração de acordos nas relações locatícias” (Fonte: Agência Senado).

O Projeto - que propõe a suspensão das ações de despejo até o final de 2021 - foi aprovado pela Câmara dos Deputados, no dia 18 de maio passado, com 263 votos e enviado ao Senado. O senador Rodrigo Pacheco, presidente da Casa, retirou a proposta da pauta - a pedido de um grupo de senadores - para uma sessão de debate sobre o assunto, realizada no dia 11 do mês de junho. A questão central foi: os despejos coletivos de imóveis devem ser suspensos durante a pandemia?

Senadores/as, a defesa da vida dos pobres não pode esperar, deve ser imediata: 14 mil famílias já foram despejadas durante a pandemia e mais de 85 mil estão ameaçadas neste momento.

Reparem: os senadores/as que pediram o debate não estão preocupados/as com as famílias que moram nas Ocupações, mas com o fato que o Projeto pode enfraquecer a “segurança jurídica” (leia: dos detentores do poder econômico) e abalar o “direito à propriedade” (leia: dos latifundiários ou grileiros de terras no campo - os coronéis rurais - e dos donos de imobiliárias na cidade - os coronéis urbanos). O “direito à propriedade” - com sua “segurança jurídica” - é o ídolo que esses senadores/as adoram. Para eles e elas, os pobres, “excluídos” e “descartados” do sistema capitalista neoliberal - que é um sistema econômico perverso e iníquo - são “baderneiros”, “invasores” e “criminosos”. Quanta hipocrisia, quanta injustiça e quanta desumanidade!

Lembro aos senadores/as que o “direito à propriedade” - com sua “segurança jurídica” - não é um direito absoluto, mas deve ter sempre uma função social. Os latifúndios abandonados e improdutivos (no campo) e os terrenos cercados (malditas cercas!) para fins de especulação imobiliária (na cidade) não só podem, mas devem ser ocupados. Eles pertencem às pessoas que precisam deles para trabalhar, morar e viver dignamente. Como diz São Tomás de Aquino - ensinamento assumido pelo Pensamento Social Cristão - a destinação dos bens para uso de todos os seres humanos é de direito primário e a propriedade - com sua “segurança jurídica” - de direito secundário. Quando o segundo impede o acesso ao primeiro - ele é injusto, desumano, antiético e anticristão (mesmo se for legal).

Do ponto de vista ético, todo despejo é injusto e - em época de pandemia - chega a ser diabólico (só se despeja lixo não reciclável e não pessoas humanas). Pessoas humanas somente podem ser removidas - e com todo respeito - nos casos de o terreno ocupado ser de utilidade pública ou de preservação ambiental e - mesmo nesses casos - somente depois que estiverem prontas outras moradias dignas para as pessoas a serem removidas.

Finalmente, depois de tantos adiamentos, no dia 23 do mês de junho o Senado aprovou, por 38 votos favoráveis e 36 contrários, o PL 827/2020 que suspende despejos e remoções durante o período da pandemia, até o final de 2021. Além de ter sido uma vitória muito apertada, a aprovação do PL foi somente pela metade. A bancada ruralista conseguiu a aprovação de um destaque que exclui da proteção contra os despejos as famílias das áreas rurais. É lamentável!

O PL voltou, pois, para a Câmara dos Deputados, que no dia 14 deste mês de julho aprovou em votação simbólica o Projeto, mantendo o texto do Senado. Reparem a demora na aprovação do Projeto (no Senado: 23 de junho e na Câmara: 14 de julho). Ela diz tudo!

Por fim, termino com um testemunho: os moradores das Ocupações urbanas e rurais, em sua grande maioria (digo isso por experiência pessoal) são verdadeiros heróis e heroínas. Com a nossa solidariedade e o nosso apoio, sua luta pelo direito à terra de trabalho e à terra de moradia - parte integrante do direito à vida - continua. A esperança nunca morre!


Campanha Nacional DESPEJO ZERO!

Em defesa da Vida no Campo e na Cidade!




Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 20 de julho de 2021


segunda-feira, 5 de julho de 2021

A Igreja se prostituindo

 


No dia 1º deste mês de julho, o presidente Jair Bolsonaro participou - com seguranças, batedores, familiares e parlamentares - de uma Missa na Paróquia Nossa Senhora da Saúde, na Asa Norte de Brasília, transmitida pela TV Brasil. O evento religioso tinha sido combinado com a administração da Paróquia. Na hora da Comunhão, Bolsonaro entrou na fila e recebeu a Eucaristia das mãos de dom Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília.

Lendo a notícia, fiquei profundamente indignado e com muita dor no coração. Foi realmente um ato público de prostituição da Igreja e de profanação da Eucaristia. É inacreditável!

Como pode um presidente, genocida e assassino, ser recebido ostensiva e deliberadamente numa Igreja e receber a sagrada Eucaristia? Além disso, Bolsonaro sempre demostrou que não tem uma opção religiosa definida e nem um comportamento macro - ecumênico que respeite e valorize todas as Igrejas e Religiões. Ele fala o nome de Deus em vão e usa hipócrita, cínica e oportunisticamente todas as manifestações religiosas para legitimar sua prática política criminosa.

Embora só Deus julgue a consciência das pessoas, objetivamente falando (ou seja, pelos fatos), podemos afirmar que Bolsonaro é um pecador público e a denúncia profética de seu mau comportamento deve ser também pública. A Igreja não pode ser conivente com uma política perversa e iníqua como a do presidente.

Abro um parêntese e cito mais um fato que mostra claramente que o presidente é um cafajeste hipócrita.

No último dia 16 - para tratar da demarcação de terras - centenas de indígenas “representantes de mais de 35 Povos originários, com o apoio da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), marchavam na capital federal e esperavam ser recebidos por um representante da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), mas a tropa de choque da PM cercou o prédio da entidade e atacou os manifestantes com bombas de efeito moral e spray de pimenta”.

Os nossos irmãos e irmãs indígenas - verdadeiros donos do Brasil - foram recebidos em Brasília pela PM do governo Bolsonaro com bombas. A líder indígena Sonia Guajajara, coordenadora executiva da APIB, escreveu:  “Um grande retrocesso que estamos sofrendo! Um órgão que deveria defender nossos direitos e interesses, agora nos ataca” (Em: https://www.brasildefato.com.br/2021/06/17/). Que absurdo! Quanta maldade e quanta crueldade!

Ora, diante do fato que aconteceu na Igreja de Brasília, lembrei-me da grande figura de Santo Ambrósio, bispo de Milão. Segundo o relato de Sozomeno em sua História da Igreja - depois do massacre de 7000 pessoas em Tessalônica (390), às portas da Igreja em Milão, aconteceu a seguinte cena: “Quando Teodósio se aproximou dos portões do edifício, ele foi recebido por Ambrósio, o bispo da cidade, que se apoderou de seu manto de púrpura, e disse-lhe, na presença da multidão: ‘Afaste-se! Um homem renegado pelo pecado, e com as mãos encharcadas no sangue injustamente derramado, não é digno, sem arrependimento, de entrar neste recinto sagrado, ou participar dos Santos Mistérios’” (Citado por: Marcus Cruz - UFMT. Um homem renegado pelo pecado. A penitência de Milão e as relações entre a Igreja e o Império no final do IV século. Em: www.dialogosmediterranicos.com.br  Número 5 - Novembro/2013, p. 34).

Lamentavelmente, Bolsonaro - segundo pesquisas divulgadas nas redes sociais - é responsável pelo massacre de mais de 375 mil mortes (ao menos, de 3 em cada 4 mortes), que podiam ter sido evitadas: um massacre muito maior que o de Tessalônica (7 mil pessoas) do imperador Teodósio.

É verdade que o contexto histórico na qual viveu S. Ambrósio era diferente do nosso, mas com certeza sua atitude profética continua sendo uma luz que nos mostra como devemos agir hoje para sermos verdadeiros seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. A Igreja não pode ser conivente com a bandidagem, mesmo que - muitas vezes - seja legalizada.

Quem sabe!? Se o arcebispo de Brasília tivesse tomado a atitude profética de S. Ambrósio, poderia ter acontecido com Bolsonaro o mesmo que aconteceu com Teodósio: “O imperador, impressionado e admirado com a coragem do bispo, começou a refletir sobre sua própria conduta e, com muita contrição, refez seus passos” (Ib.). Tudo é possível, com a graça de Deus.

Que o Espírito Santo nos ilumine para que sejamos sempre uma Igreja profética e nunca uma Igreja prostituta!





Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 04 de julho de 2021


quarta-feira, 30 de junho de 2021

Presidente: “o tirano que mata nossa gente”

 

“Senhor, tu que fugiste de jegue para o Egito, mostra-nos um meio de nos livrar desse fascista brasileiro. Tu que entraste em Jerusalém montado num jumento, dá-nos a coragem de enfrentar o tirano que mata nossa gente. Livra-nos, Senhor, do desgoverno da morte. Está pesado demais” (Dom Vicente Ferreira, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, 13/06/21).

Com Leonardo Boff e fazendo minhas suas palavras, “uno-me nesta oração para que Deus e a Mãe Terra tenham piedade de sua gente e nos livrem de quem está produzindo um holocausto”.

No dia 19 deste mês de junho, o Brasil - com uma população de 214 milhões - registrou 500 mil mortes pela Covid-19. “É a maior tragédia brasileira. Nunca houve um evento tão mortífero quanto a pandemia do novo coronavirus (mesmo com subnotificações). Foram 195 mil vidas perdidas em 2020 e já são mais de 300 mil em 2021... Das 500 mil mortes, 150 mil foram de pessoas abaixo de 60 anos e 350 mil de idosos (60 anos e mais), sendo 280 mil homens e 220 mil mulheres” (https://www.ecodebate.com.br/2021/06/21/). Um verdadeiro massacre!

Segundo estudo do professor e epidemiologista Pedro Hallal, das 500 mil mortes, 375 mil (ou seja, 3 em cada 4) poderiam ter sido evitadas caso o Brasil tivesse adotado uma política de saúde - cientifica e tecnicamente planejada, com medidas de controle da pandemia (como vacinação eficiente, isolamento social e uso de máscaras) - que colocasse a vida em primeiro lugar. O principal responsável por essas mortes é Jair Bolsonaro, que - a toda hora - fala o nome de Deus em vão para, hipócrita e oportunisticamente, acobertar e legitimar seu comportamento político criminoso.

Infelizmente, estamos diante do desgoverno de um presidente frio e insensível, cínico e assassino, para o qual a vida dos seres humanos - sobretudo dos pobres - e da Mãe Terra não vale nada. Além de tudo, com suas palavras e seus atos, debocha da gravidade da pandemia e demostra ser uma pessoa totalmente desiquilibrada.

Comparemos as 500 mil mortes pela Covid-19 do Brasil com as de outros países que têm uma população similar. Conforme foi divulgado nas redes sociais, na Indonésia - com uma população de 276 milhões - as mortes foram 54 mil; no Paquistão - com uma população de 225 milhões - as mortes foram 22 mil; na Nigéria - com uma população de 211 milhões (quase igual à do Brasil: 214 milhões), as mortes (reparem!) foram 2 mil; no Bangladesh - com uma população de 166 milhões - as mortes foram 13 mil. Esse quadro não precisa de comentários, fala por si mesmo.

Em 19 deste mês de junho - dia no qual o país atingiu 500 mil mortes - a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com o lema “toda vida importa”, realizou um tempo de sensibilização em memória dos mortos pela Covid-19 - manifestando conforto, solidariedade e esperança - e fez a seguinte Oração (que é nossa também):


Pai de bondade!
Há mais de um ano, temos chorado por tantos irmãos e irmãs

que a triste e violenta pandemia arrancou de junto de nós.
Chegamos agora a quinhentos mil mortos.
Não são apenas números! São pessoas!

São nossos filhos e filhas, irmãos, irmãs, amigos, parentes, conterrâneos.
Sabemos que uma única morte já é suficiente para entristecer nossos corações.
Quanto mais todas essas mortes,

muitas vezes sem o mínimo necessário

para o tratamento digno como ser humano.
Por isso, vos pedimos:
acolhei cada um desses filhos e filhas e concedei-lhes a paz eterna!
E a nós dai a graça de trabalhar por um mundo onde se respire

solidariedade, acolhimento, partilha, compreensão e resiliência.
Que nossas lágrimas nos lavem da indiferença, do egoísmo e da omissão!
Que a saudade seja estímulo à fraternidade!
E que a fé seja o sustento de nossa esperança!
Pela intercessão da Virgem Mãe Aparecida,

olhai pelo Brasil, olhai pelo povo brasileiro.
Amém.




Ato inter-religioso - Goiânia - GO - 21/06/21







Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 28 de junho de 2021


sexta-feira, 25 de junho de 2021

CEBs: uma Igreja que atualiza o jeito de ser de Jesus de Nazaré

 


Como as primeiras Comunidades Cristãs, as CEBs - movidas pelo Espírito Santo - atualizam o jeito de ser de Jesus de Nazaré. Elas fazem hoje o caminho que Jesus fez em sua época. Mas, qual foi esse caminho? Vejamos!

Maria grávida e José seu esposo tinham ido a Belém para o recenseamento. Enquanto estavam perambulando na cidade à procura de um abrigo, chegou a hora de Maria dar à luz. Tudo indica que - ainda no seio de sua mãe Maria e junto com seu pai José - Jesus foi “morador de rua”, pousando debaixo das marquises de Belém. Finalmente, alguém que estava passando - vendo a situação - ficou com pena e abriu um estábulo para que Maria pudesse dar à luz. Jesus nasceu numa manjedoura como “sem-teto”. “Não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7).

Os que, em primeira mão, receberam a Boa Notícia do nascimento de Jesus foram os pastores, os “sem-terra” da época. “Eu anuncio a vocês a Boa-Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor” (Lc 2,10-11). Os pastores eram pessoas de má fama, mal vistos pelos poderosos e “pessoas de bem”, porque ocupavam as grandes propriedades de terra com seus rebanhos e - por necessidade de sobrevivência - vendiam seus produtos a preços exorbitantes. Segundo uma antiga lei, um pastor não podia ser juiz ou testemunha no tribunal. Não era considerado uma pessoa idônea.

Por que será que Jesus foi “morador de rua” ainda no seio de sua mãe, nasceu como “sem-teto” e anunciou a Boa-Notícia de seu nascimento aos “sem-terra”? Aos olhos dos poderosos e das “pessoas de bem”, de ontem e de hoje, não foi um comportamento absurdo e de muito mau gosto? Os critérios de Jesus não são radicalmente diferentes dos nossos? O que Ele quis nos dizer com isso? Pensemos!

Jesus manifestou-se aos reis magos - pessoas sábias que representavam todos os povos de todas as culturas - enfrentando a ganância e a obsessão pelo poder de Herodes. Jesus - juntamente com sua mãe Maria e seu pai José - fugiu para o Egito e se fez “migrante” para escapar à vingança assassina de Herodes.

Jesus cresceu, em sabedoria e graça, numa família pobre e - vivendo uma vida simples e anônima - trabalhou por muitos anos como operário, como carpinteiro com seu pai José. “Não é este o carpinteiro?” (Mc 6,3). “Não é este o filho do carpinteiro?” (Mt 13,55).

Em sua vida pública - anunciando a Boa-Notícia do Reino de Deus a todos e a todas, mas “a partir da manjedoura” - Jesus, como o Profeta e o Enviado do Pai, sempre foi próximo, compassivo e solidário para com o povo: os doentes, os leprosos, os sofredores, os descartados, os pobres e todos aqueles e aquelas que não tinham voz e não tinham vez na sociedade. Jesus nunca morou numa mansão, num palácio “episcopal” ou qualquer outro palácio. “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8,20).

Pela sua proximidade, compaixão e solidariedade tornou-se defensor intransigente do povo; denunciou, com indignação e firmeza, a hipocrisia dos fariseus e doutores da Lei. “Serpentes! Raça de cobras venenosas!” (Mt 23,33). Pela sua pregação, foi considerado subversivo. “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23,2).

Jesus celebrou a última Ceia com os discípulos e - depois de lavar seus pés - disse: “Eu vos dei o exemplo para que vocês façam o que eu fiz” (Jo 13,16). Jesus morreu na Cruz por amor. “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês. Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos. Vocês são meus amigos, se fizerem o que eu estou mandando” (Jo 15,12-14).

Jesus ressuscitou, venceu a morte e todos os males. Ele está vivo em nosso meio. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20). “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).

É esse o caminho que Jesus de Nazaré fez em sua vida terrena e é esse o caminho que as CEBs - com seu “trenzinho” - fazem hoje. Na imensa variedade de experiências, bonitas e profundamente humanas, as CEBs são o jeito de ser Igreja “a partir da manjedoura” de Belém e de tudo o que ela significa para nós hoje.

Enfim - pelo caminho que fez, a verdade que anunciou e a vida que viveu - Jesus é para as CEBs “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). 





Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 14 de junho de 2021

 

 

 

O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/2021/06/21/cebs-uma-igreja-que-atualiza-o-jeito-de-ser-de-jesus-de-nazare/

 

 

 

 


quarta-feira, 9 de junho de 2021

O genocida Jair Bolsonaro e seus apoiadores genocidas

 

Para tentar desqualificar - com deboche e cinismo - as manifestações de protesto contra o genocida Bolsonaro, “os aliados do governo trabalham para distorcer o foco dos atos. Em vez de reconhecer que as manifestações são pela falta de vacina e em desacordo com a condução do governo no enfrentamento da pandemia, levantam o discurso de que as passeatas tiveram viés eleitoral... Em contrapartida, argumentam que os bolsonaristas - que vão às ruas em apoio ao presidente - são cristãos e patriotas” (O Popular, 01/06/21, p. 5).

Meu Deus, quanta hipocrisia! Que cristãos e patriotas são esses? Na verdade, eles são demônios que - fria e maldosamente - usam o nome de “cristãos” e de “patriotas” para legitimar - como sendo natural e normal - o genocídio de milhares de pessoas, sobretudo pobres.

No dia 3 deste mês de junho, o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass) atualizou os números sobre a pandemia da Covid-19 no Brasil. Até esse dia, os casos confirmados foram: 16.803.472 (83.391 somente nas últimas 24 horas); as mortes confirmadas foram: 469.388 (1.682 somente nas últimas 24 horas).

Se desde o início da pandemia tivéssemos tido um Governo sério e com uma política de Saúde cientificamente planejada que colocasse a vida em primeiro lugar, certamente a maioria das mortes poderia ter sido evitada.

Um fato concreto mostra como isso é possível, havendo vontade e deliberação política. De 21 de fevereiro a 26 de maio deste ano “a vacinação já salvou entre 4 e 6 mil goianos” (O Popular, 5 e 6 de junho, Manchete, 1ª página).

Jair Bolsonaro é responsável por milhares de mortes, que deveriam pesar na sua consciência (se é que ainda tem consciência!). Ele tornou-se um dos maiores genocidas de toda a história do Brasil e seus apoiadores (entre os quais - lamentavelmente - temos líderes de Igrejas ou Organizações religiosas que, de maneira hipócrita e diabólica, usam o nome de Deus para enganar o povo) tornam-se também genocidas.  Fala-se, inclusive, de um “gabinete paralelo” da Saúde, que vazou e virou foco da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

Pelos crimes contra a humanidade que cometeu, Bolsonaro já devia estar na cadeia. Não dá para aguardar as próximas eleições! Fora Bolsonaro, já!

Na Mensagem da 58ª Assembleia Geral da CNBB (12-16 de abril de 2021), os bispos - depois de expressarem sua solidariedade às famílias que perderam entes queridos e sua gratidão aos profissionais de saúde que têm doado sua vida em favor das pessoas doentes - denunciam: “O Brasil experimenta o aprofundamento de uma grave crise sanitária, econômica, ética, social e política, intensificada pela pandemia, que nos desafia, expondo a desigualdade estrutural enraizada na sociedade brasileira. Embora todos sofram com a pandemia, suas consequências são mais devastadoras na vida dos pobres e fragilizados. Essa realidade de sofrimento deve encontrar eco no coração dos discípulos de Cristo. Tudo o que promove ou ameaça a vida diz respeito à nossa missão de cristãos. Sempre que assumimos posicionamentos em questões sociais, econômicas e políticas, nós o fazemos por exigência do Evangelho. Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada”.

Os bispos louvam, pois, o testemunho das Comunidades cristãs pelas mais diversas formas de solidariedade e partilha, que amenizam as consequências da pandemia e continuam denunciando: “São inaceitáveis discursos e atitudes que negam a realidade da pandemia, desprezam as medidas sanitárias e ameaçam o Estado Democrático de Direito. É necessária atenção à ciência, incentivar o uso de máscara, o distanciamento social e garantir a vacinação para todos, o mais breve possível. O auxílio emergencial, digno e pelo tempo que for necessário, é imprescindível para salvar vidas e dinamizar a economia, com especial atenção aos pobres e desempregados. É preciso assegurar maiores investimentos em saúde pública e a devida assistência aos enfermos, preservando e fortalecendo o Sistema Único de Saúde - SUS”.

E finalizam: “São inadmissíveis as tentativas sistemáticas de desmonte da estrutura de proteção social no país. Rejeitamos energicamente qualquer iniciativa que intente desobrigar os governantes da aplicação do mínimo constitucional do orçamento na saúde e na educação”.

Unidos e unidas na luta por um outro Brasil possível e necessário, já somos vitoriosos e vitoriosas”. Que Deus fortaleça a nossa esperança!



Crédito: Reprodução / Redes Sociais



Foto: Jorge Hely/Framephoto/Estadão Conteúdo



Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 07 de junho de 2021


segunda-feira, 24 de maio de 2021

CEBs: uma Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus


O sonho do Concílio Vaticano II (1962-1965) de uma Igreja-Comunidade, Pobre, Ministerial, Povo, Santa e Pecadora, e toda ela Missionária (Dom Aloísio Lorscheider) foi retomado e aprofundado pela II Conferência Episcopal Latino-Americana e Caribenha de Medellín (1968), a partir da Opção pelos Pobres: empobrecidos, marginalizados, oprimidos, explorados e descartados.

Medellín aponta - como caminho para fazer acontecer a Igreja sonhada pelo Vaticano II - as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), inicialmente chamadas Comunidades Cristãs de Base ou, simplesmente, Comunidades de Base. As CEBs são, pois, Comunidades Eclesiais Populares e - sempre segundo Medellín - a Pastoral Popular é a Evangelização a partir da Base, a partir dos Pobres.

As CEBs têm também o apoio do Documento de Puebla (1979) e de outros Documentos da Igreja em geral, latino-americana e caribenha, regional e local. Infelizmente, porém - sobretudo nestes últimos anos - o apoio teórico dos Documentos às CEBs não é sempre acompanhado do apoio prático das Igrejas locais. Ao contrário, atualmente muitas dessas Igrejas fazem questão de não falar mais de CEBs e de voltar ao modelo de Igreja pré-conciliar.

Continuando as reflexões teológico-pastorais sobre a Igreja, na perspectiva da Eclesiologia da Libertação, inicio - com este texto -  uma segunda série de artigos (ou colunas), que tratam de temas fundamentais para compreendermos as CEBs.

Elas são Comunidades que voltam às fontes bíblico-patrísticas e, ao mesmo tempo, estão sempre atentas aos sinais dos tempos, seguindo o método (caminho) “ver-julgar-agir” (“analisar-interpretar-libertar”) e “celebrar”, adotado pelo Concílio Vaticano II, sobretudo na Constituição Pastoral “A Igreja no mundo de hoje” (GS).

Na Igreja Católica - e também em outras Igrejas Cristãs - do Brasil e da América Latina e Caribe, as CEBs - no campo e na cidade - nascem no final da década de 1950 e início da década de 1960. “Surgem na conjuntura da sociedade contemporânea que produziu uma atomização da existência, um anonimato geral das pessoas e uma fragmentação em praticamente todos os níveis da convivência humana, devido aos desafios vindos de uma sociedade globalizada e urbanizada onde a vivência comunitária parecia não ter mais espaço para existir. Como reação a este fenômeno, há uma tendência de se retomar as relações primárias entre as pessoas e buscar relacionamentos de reciprocidade. As CEBs representam esta reação no interior da/s Igreja/s”.

Entre os elementos que - por um longo período - ajudaram na preparação do terreno para o surgimento das CEBs, “destacamos a experiência da Catequese Popular (Movimento catequético), a contribuição da Ação Católica Brasileira, que assume o modelo belga, francês e canadense da Ação Católica especializada (JAC - Juventude Agrária Católica; JEC - Juventude Estudantil Católica; JIC - Juventude Independente Católica; JOC - Juventude Operária Católica; JUC - Juventude Universitária Católica), o Movimento de Educação de Base (MEB), o Movimento por um Mundo Melhor (MMM), os diferentes Planos de Pastoral da CNBB (Plano de Emergência - 1962, Plano de Pastoral de Conjunto - 1966), contando ainda com o Movimento Bíblico que busca novas formas de interpretação da Palavra de Deus, e o Movimento Litúrgico na Europa e também no Brasil” (https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/2017/06/12/).  

As CEBs têm consciência de ser “uma Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus” (1º Encontro Intereclesial de CEBs. Vitória - ES, 6-8 de janeiro de 1975). Por isso, elas são ao mesmo tempo: “um novo e antigo jeito (modo) de ser Igreja” e - como ideal a ser perseguido - “um novo e antigo jeito de toda a Igreja ser”.

Nessa segunda série de artigos - além do apresentado neste texto - abordarei os temas: CEBs: uma Igreja que atualiza o jeito de ser de Jesus de Nazaré; uma Igreja que é constituída de irmãos e irmãs em Comunhão; uma Igreja que é sinal visível do Reino de Deus no Mundo; uma Igreja que é militante de um Mundo Novo; e - por fim -  uma Igreja que vive a Espiritualidade da Libertação. 

 






Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 14 de maio de 2021

 

 

 

O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/2021/05/20/cebs-uma-igreja-que-nasce-do-povo-pelo-espirito-de-deus/















A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos