segunda-feira, 4 de outubro de 2021

CEBs: uma Igreja que é militante de um Mundo Novo

 



As CEBs não são somente uma Igreja que é sinal visível do Reino de Deus no Mundo (como vimos), mas são também - e ao mesmo tempo - uma Igreja que é militante de um Mundo Novo.

Por serem uma Igreja profundamente inserida e encarnada na vida do Povo - as CEBs são aliadas ou organicamente ligadas a todas as Forças Sociais Populares: Movimentos Sociais Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares, Conselhos de Direitos, Fóruns ou Comitês de Defesa dos Direitos Humanos e de Cuidado com a Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum, de Comissões de Justiça e Paz, de Entidades de Jovens Estudantes e Outras Organizações Populares.

As CEBs têm uma identidade eclesial, reconhecem a autonomia das Forças Sociais Populares e são parte integrante delas.

Por serem portadoras do novo, as Forças Sociais Populares fazem acontecer um Projeto alternativo ao Projeto Capitalista neoliberal dominante: o Projeto Popular (social, econômico, político, ecológico, cultural e religioso), o Projeto de Outro Mundo possível, o Projeto de um Mundo Novo, que - à luz da fé - é o Reino de Deus acontecendo na história do ser humano e da Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum.

Em sua ação evangelizadora, ou seja, no anúncio da Boa Notícia do Reino de Deus, as CEBs são servidoras e samaritanas, vivem a compaixão e a misericórdia e estão sempre do e ao lado dos pobres.

Para as CEBs, a “opção pelos pobres” (empobrecidos), marginalizados, oprimidos, excluídos e descartados não é uma “opção preferencial”, ou seja, não é uma alternativa entre duas ou mais alternativas, mas é o caminho que leva à vida: o caminho de Jesus de Nazaré e de seus seguidores e seguidoras.  

A “opção pelos pobres” é profundamente evangélica - profética e libertadora - e não meramente ideológica (embora as ideologias sejam uma mediação necessária, por ser o ser humano um ser histórico, situado e datado). Ela é o eixo estruturante do jeito de ser Igreja das CEBs e de sua ação evangelizadora. Todos e todas são convidados e convidadas a entrar nesse caminho. A partir dos e das pobres - e junto com eles e elas - as CEBs participam do processo de libertação do ser humano todo e de todos os seres humanos no mundo com o mundo, segundo o Projeto de Deus.

O referencial das CEBs é sempre a práxis de Jesus de Nazaré. Pela sua proximidade, compaixão e entranhável solidariedade, ele tornou-se defensor intransigente do povo; denunciou, com indignação e firmeza, a hipocrisia dos fariseus e doutores da Lei. “Serpentes! Raça de cobras venenosas!” (Mt 23,33). Dialogou com o jovem rico, que - pelo seu apego aos bens - não teve coragem de segui-lo e foi embora triste. Encontrou com Zaqueu - também homem rico - em sua casa, que se converteu e mudou totalmente de vida, praticando a partilha dos bens.

A presença de Jesus e o anúncio da Boa Notícia do Reino de Deus - que é a sua Utopia, o seu Projeto de Vida - não deixaram e não deixam ninguém indiferente (ou, como se costuma dizer, “em cima do muro”). Todos e todas sentiram-se e sentem-se obrigados e obrigadas a tomar uma posição: a favor ou contra.

Pela sua pregação, Jesus foi considerado subversivo. “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23,2).

Em nossa realidade, a “opção pelos pobres” leva necessariamente as CEBs - uma Igreja que é militante de um Mundo Novo - a tomar uma posição clara e firme contra o sistema capitalista neoliberal, denunciando - com coragem profética - a perversidade do sistema, e lutando para abrir caminhos novos que levem a mudanças não só conjunturais, mas também e sobretudo estruturais, em vista de um novo modelo de sociedade.

Por fim, as CEBs são uma “Igreja pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres": a Igreja de Jesus de Nazaré, a nossa Igreja.




Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 15 de setembro de 2021

 


O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/cebs-uma-igreja-que-e-militante-de-um-mundo-novo/  


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Uma perversidade diabólica do prefeito Gustavo Mendanha

 

 

“A Prefeitura de Aparecida de Goiânia, com a ajuda da Guarda Civil Municipal (GCM) e da PM, realiza o segundo despejo violento na Ocupação Beira-Mar, no bairro Independência das Mansões, às 6h da manhã dessa segunda-feira (27 de setembro). 56 famílias perderam sua moradia em meio à pandemia e a enorme crise econômica. A Prefeitura realizou o despejo sem mandato judicial ou ordem administrativa! Não houve também nenhuma notificação prévia às famílias.

A Campanha Despejo Zero denuncia mais um despejo truculento e ilegal em Goiás” (Comitê de Direitos Humanos de Goiás Dom Tomás Balduino).

Sou membro do Comitê e é com muita indignação que declaro: a denúncia da Campanha Nacional Despejo Zero - que tem todo meu apoio - é também a minha denúncia. Trata-se - mais uma vez - de um ato de uma perversidade diabólica. Digo mais: além de ilegal, todo despejo é imoral e injusto. A própria palavra “despejo” é desrespeitosa e ofensiva.

Infelizmente, em pleno tempo de pandemia, às 6 horas da manhã (dia 27) Gustavo Mendanha - de maneira violenta, covarde e sem nenhum respeito pelas crianças, idosos e idosas, trabalhadores e trabalhadoras que, como verdadeiros heróis e heroínas, lutam pelo direito sagrado à moradia digna e por um Brasil mais justo e humano - são barbaramente despejados e despejadas, como se fossem criminosos e criminosas, por um Prefeito insensível e perverso. Chega de tanta violência e tanta bandidagem institucionalizada! Deixo um aviso a esses políticos e governantes: aguardem a justiça de Deus! Ela não falha!

Mais uma vez, o meu total apoio às famílias despejadas como se fossem lixo descartável. Irmãos e irmãs de caminhada, soube que continuam na terra. Parabéns pela resistência. A terra é de vocês. Lutem com garra por ela. Toda terra urbana abandonada para fins de especulação imobiliária e toda terra rural improdutiva é de quem precisa dela para trabalhar e para morar. Chega de políticos e governantes iníquos, a serviço dos poderosos e exploradores do povo!

Unido a muitos outros companheiros e companheiras, reafirmo: estamos com vocês. Lembrem-se: Deus está sempre do lado dos que lutam pela justiça e, com certeza, está do lado de vocês.  Com Deus, vocês já são vitoriosos.  Os demônios de hoje (leia: os políticos e governantes criminosos) serão derrotados.

“O futuro da humanidade está, em grande medida, nas mãos de vocês (dos Movimentos Populares), na capacidade de vocês se organizarem e promoverem alternativas criativas na busca diária dos ‘3 T’ (trabalho, teto, terra), e também na participação de vocês como protagonistas nos grandes processos de mudança, regionais, nacionais e mundiais” (Papa Francisco. 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15). Unidos na Luta!

Despejo Zero! Parem os Despejos! Não joguem o Povo na Rua!





Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 27 de setembro de 2021




segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Um processo de construção coletiva

 


Grito dos Excluídos e das Excluídas:

“espaço de animação e profecia” 




“Nestes 27 anos de história - afirma a Coordenação Nacional - o Grito dos Excluídos e das Excluídas mudou a cara do 7 de Setembro e da Semana da Pátria, chamando o povo para descer das arquibancadas dos desfiles cívicos e militares e participar, ativamente, na luta por seus direitos, nas ruas e praças, nos centros e nas periferias de todo o Brasil. Para ecoar seus gritos de denúncia e de anúncio de um projeto de país mais justo e igualitário, na defesa da dignidade da vida em primeiro lugar”. E ainda: “Estar nas ruas é um ato democrático e, na Semana da Pátria, é um tempo favorável para seguirmos firmes nessa defesa”.

O Grito dos Excluídos e das Excluídas é, portanto, “um processo de construção coletiva, é muito mais que um ato. Por isso, nossa luta não se encerra no dia 7 de Setembro. Nossa luta é uma maratona, não é uma corrida de 100 metros. O Grito é uma manifestação popular carregada de simbolismo, espaço de animação e profecia, sempre aberto e plural de pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas da população mais vulnerável”.

Com coragem profética, a Coordenação Nacional apresenta-nos a realidade: “Estamos vivendo um momento de crises - social, ambiental, sanitária, humanitária, política e econômica - sobretudo causadas pela ação nefasta de um governo genocida, negacionista e promotor do caos que visa principalmente destruir, de qualquer forma, a democracia e a soberania do nosso país”.

Neste ano de 2021, em muitas capitais e cidades do Brasil, o Grito dos Excluídos e das Excluídas foi realizado em conjunto com a Campanha Nacional “Fora Bolsonaro”: um grito tão amplo e tão forte, que - na conjuntura atual - integra e sintetiza de alguma forma todos os gritos.

De fato - continua a Coordenação Nacional - o que nos motiva a gritar neste ano de 2021 são:

  • “as quase 580 mil mortes pela COVID-19, muitas das quais (a grande maioria) poderiam ter sido evitadas;
  • a corrupção na negociação de compra e distribuição das vacinas contra a COVID-19 (CPI);
  • o desmonte da saúde pública (SUS);
  • a carestia e a fome que voltaram com tudo e assolam as camadas empobrecidas da população;
  • o desemprego;
  • o desvio do dinheiro público, através do orçamento federal, para o pagamento de juros da dívida pública, ao invés de investir em políticas sociais;
  • a falta de moradia, que se agrava com os despejos criminosos;
  • a não demarcação das terras indígenas e o grito profético dos povos indígenas dizendo ‘Não ao Marco temporal’;
  • a denúncia contra o tratamento dado aos povos em situação de rua, sejam de qualquer origem, migrantes e refugiados ou deslocados internos, que lutam e resistem por dignidade e cidadania universal no Brasil;
  • a cultura do ódio disseminada pelo governo federal e seus aliados que ataca e retira os direitos humanos de mulheres, LGBTQIA+, negros/as, dos povos originários - Indígenas e Quilombolas, das pessoas portadoras de deficiência, dos/as trabalhadores/as, dos setores excluídos da sociedade”.

A Coordenação Nacional conclui, pois, dizendo: “Não podemos ficar indiferentes a essa realidade que atenta contra a vida do nosso povo, porque acreditamos que é possível e necessária a construção de um outro modelo de sociedade!!!” (https://www.gritodosexcluidos.com/post/nota-da-coordenacao-nacional).

Segundo o Papa Francisco, hoje os Pobres não são só Excluídos e Excluídas, mas Descartados e Descartadas (são lixo).

Por fim, como cristão católico (da Igreja renovada e libertadora), religioso dominicano e presbítero (padre), com profunda dor no coração, denuncio: apesar da Carta de apoio ao 27º Grito dos Excluídos e das Excluídas da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotransformadora da CNBB (31 de julho/21) e do Pronunciamento de Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB, a respeito do dia 7 de Setembro (03 de setembro/21), a grande maioria das Igrejas locais do Brasil (graças a Deus, não todas) - incluindo a Igreja de Goiânia (que viveu um retrocesso de mais de 50 anos) - em relação ao Grito dos Excluídos e das Excluídas, foram (com poucas e louváveis exceções) totalmente omissas (um silêncio que, do ponto de vista ético e cristão, é criminoso) e traíram Jesus nos Pobres.

Por conhecer e ter vivido intensamente a história de renovação da Igreja de Goiânia desde o início da década de 1970, já tinha feito essa mesma denúncia - com as lágrimas nos olhos - na manifestação de Goiânia em frente à Catedral (de portas fechadas). Na ocasião, disse ainda que naquele momento Jesus não estava na Catedral, mas na Praça junto com o Povo que lutava por um novo Brasil.

Infelizmente, na manifestação de Goiânia (muito bem preparada e coordenada pelos Movimentos Populares e outras Entidades), da Igreja Católica estavam presentes somente alguns grupos de pessoas das Comunidades, algumas religiosas e (por aquilo que pude constatar) um padre, o autor deste escrito. É lamentável! Por ser feriado, a presença devia ser maciça. Os verdadeiros cristãos e cristãs - em nome de sua consciência cidadã e de sua fé - deveriam estar sempre na linha de frente de todas as lutas por um Brasil e um Mundo Novo (o Reino de Deus na história).

Ah, se ouvíssemos o convite do papa Francisco! “Soube que são muitos na Igreja aqueles/as que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares”.

“Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos (todos os cristãos/ãs católicos/as), juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15). A esperança nunca morre!

Unidos e unidas, continuemos a luta por um outro Brasil, verdadeiramente. independente”! (Os destaques em negrito são meus. Veja também: https://www.gritodosexcluidos.com).




Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 11 de setembro de 2021


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

CEBs: uma Igreja que é sinal visível do Reino de Deus no Mundo

 


Na sinagoga de Nazaré, Jesus retomou as palavras do profeta Isaias e fez delas o seu programa de missão e de vida: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a Boa Notícia (do Reino de Deus) aos pobres. Enviou-me para anunciar a libertação aos presos e a recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e para anunciar o ano da graça do Senhor”. E acrescentou: “Hoje se cumpre essa passagem da Escritura que vocês acabaram de ouvir” (Lc 4,16-21).

O “hoje” de Jesus é também o nosso “hoje”, é o “hoje” das CEBs. O Reino de Deus - que o evangelista Mateus e sua Comunidade chamam Reino dos Céus - é a Sociedade do Bem Viver e do Bem Conviver (como dizem os nossos irmãos e irmãs indígenas); é o Mundo Novo acontecendo na história do ser humano, da Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum e do universo inteiro.

Em outras palavras, o Reino de Deus é a Páscoa acontecendo: passagem da morte (e tudo o que ela significa) para a vida nova em Cristo, até sua plenitude na meta-história (na eternidade), a casa de nosso Pai-Mãe, que é Deus. Essa é a salvação trazida por Jesus!

Costuma-se dizer: “Jesus veio para nos salvar”. Ora, “Jesus nos salva”, suscitando em nós o desejo de entrar livre e conscientemente - nele e com ele - no caminho da vida nova até sua plenitude, que é a meta final de todos e todas nós. É esse o caminho da realização humana, da felicidade, da salvação!

Como Igreja que “nasce do Povo pelo Espírito de Deus”, que “atualiza o jeito de ser de Jesus de Nazaré” e que “se constitui de irmãos e irmãs em comunhão”, as CEBs - mesmo com suas limitações humanas - são uma Igreja que, pelo testemunho e pela palavra, anuncia a Boa Notícia de Jesus de Nazaré - o Reino de Deus - aos pobres e a todos aqueles e aquelas que - ao lado dos pobres e junto com eles e elas - querem seguir Jesus, “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

As CEBs são, pois, uma Igreja “em saída permanente”, que se encarna na vida do povo e se torna sal da terra, luz do mundo e fermento na massa.

As CEBs são ainda uma Igreja que escuta os sinais dos tempos à luz do Evangelho. “Para desempenhar sua missão a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho”. Por isso, “é necessário conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática" (A Igreja no mundo de hoje - GS 4).

“Como discípulos/as de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados/as a discernir os 'sinais dos tempos' à luz do Espírito Santo, para nos colocar a serviço do Reino, anunciado por Jesus, que veio ‘para que todos tenham vida e para que a tenham em plenitude' (Jo 10,10)" (Documento de Aparecida - DA 33).

Por fim, as CEBs são uma Igreja sinal visível (sacramento) do Reino de Deus no mundo. “O Reino de Deus está no meio de vocês” (Lc 17,21). “Felizes os Pobres no Espírito (no Amor), porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). “Felizes os perseguidos por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,10).

O Reino de Deus (o Projeto de Vida de Jesus de Nazaré) é o Projeto de Vida mais “revolucionário” que existe. Nesse Projeto todos e todas - sem nenhum tipo de discriminação - são iguais em dignidade e valor, irmãos e irmãs em Cristo no Espírito Santo (no Amor), filhos e filhas do mesmo Pai-Mãe, que é Deus.

Em Cristo e no Espírito Santo (no Amor), Deus está sempre presente na nossa caminhada. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome (por minha causa e do meu Projeto), aí estou eu no meio deles” (Mt 18,20) “Eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

Para tomar consciência e fazer a experiência de quanto Deus nos ama, meditemos as palavras do Papa Francisco: “A presença de Deus no meio da humanidade não se concretizou num mundo ideal, idílico, mas neste mundo real, marcado por muitas situações boas e más, caracterizado por divisões, maldade, pobreza, prepotências e guerras. Ele quis habitar na nossa história como ela é, com todo o peso de seus limites e dos seus dramas. Agindo desse modo, demonstrou de modo insuperável a sua inclinação misericordiosa e repleta de amor pelas criaturas humanas. Ele é Deus Conosco; Jesus é Deus Conosco” (Audiência Geral, 18/12/13). Com esta certeza, continuemos a caminhada!


                                                                                                                                                                      






Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 15 de agosto de 2021




Artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/cebs-uma-igreja-que-e-sinal-visivel-do-reino-de-deus-no-mundo/

segunda-feira, 26 de julho de 2021

CEBs: uma Igreja que se constitui de irmãos e irmãs em comunhão

 


Jesus de Nazaré quis e quer uma Comunidade de seguidores e seguidoras que seja uma Comunidade de irmãos e irmãs em comunhão.

Para se referir a essa Comunidade - o Povo de Deus da Nova Aliança - os autores do Novo Testamento adotaram o termo Igreja (em grego: Ekklesia), que quer dizer Assembleia: Comunidade reunida. Neste sentido, Jesus - dirigindo-se a Pedro - diz: "Você é Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja" (Mt 16,18). (Observamos que - com o passar do tempo - o termo Igreja adquiriu também o significado de ‘templo’: lugar de oração e de culto).

Portanto, desde a época em que foi escrito o Novo Testamento, a Comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré começou a ser chamada Igreja. Trata-se, porém, de uma Igreja de irmãos e irmãs em comunhão e não de uma Igreja de classes (clero, religiosos/as, leigos/as). Por ‘comunhão’ entende-se, pois, ‘comunhão eclesial’ e não ‘comunhão hierárquica’ (que não é verdadeira comunhão).

Essa Igreja de irmãos e irmãs em comunhão reconhece - na prática e não só na teoria - que todos os seres humanos - homens, mulheres e pessoas de outras orientações sexuais (integrantes da Comunidade LGBTQIA+) - são iguais em dignidade e valor. "Deve-se reconhecer cada vez mais a igualdade fundamental entre todos os seres humanos" (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS 29), criados à imagem e semelhança de Deus (Cf. Gn 1,26-27). “Reina verdadeira igualdade quanto à dignidade e ação comum a todos os fiéis na edificação do Corpo de Cristo" (Concílio Vaticano II. A Igreja - LG 32). "A razão principal da dignidade humana consiste na vocação do ser humano para a comunhão com Deus" (GS 19). “É comum a dignidade dos filhos e filhas de Deus batizados e batizadas, no seguimento de Jesus, na comunhão recíproca e no mandamento missionário” (Exortação Apostólica Pós-sinodal “Ecclesia in America - EA 44). “Todos e todas são chamados à santidade (perfeição humana, felicidade) e receberam a mesma fé pela justiça de Deus” (LG 32). "O mistério do ser humano só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. (…) Cristo manifesta plenamente o ser humano ao próprio ser humano e lhe descobre a sua altíssima vocação" (GS 22).

Nessa Igreja de Jesus de Nazaré, todas as relações são de comunhão entre irmãos e irmãs. Nelas, não há espaço para relações de dependência, submissão, subordinação, subserviência, dominação, inferioridade ou superioridade.

Nas relações de comunhão entre irmãos e irmãs, todos e todas - na diversidade dos carismas (dons) e dos ministérios (serviços) - são sujeitos conscientes e responsáveis de suas opções, atitudes e atos. “A cada um e a cada uma é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor. 12,7).

Sabemos, porém, que a Igreja (pessoas e Instituição) - que é no mundo com o mundo, que é mundo - é uma Igreja divina e humana, santa e pecadora, ao mesmo tempo. No decurso da história, a Igreja se deixou influenciar pela sociedade imperial, feudal e capitalista, e incorporou - em sua própria estrutura social - elementos (pompa, luxo, poder, triunfalismo e outros) que não têm nada a ver com o Evangelho: a Boa Notícia de Jesus de Nazaré. Para tomar consciência disso, basta fazer a memória de como Jesus viveu e de como as primeiras Comunidades cristãs viveram.

Por causa desses desvios - farisaicamente legitimados e sacralizados -  “desenvolvendo perspectivas já presentes no Concílio, mas ainda não explicitadas, vários teólogos - a começar por Congar - têm proposto pensar a estrutura social da Igreja em termos de 'comunidade - carismas e ministérios' (e não em termos de ‘hierarquia - laicato’). O primeiro termo, 'comunidade' (ou o teologicamente mais denso 'comunhão'), inclui tudo o que há de comum a todos os membros da Igreja; e a dupla 'carismas e ministérios' inclui tudo o que positivamente os distingue. É esta, aliás, a perspectiva do Novo Testamento, onde nunca aparece o termo 'leigo' ou ‘leiga’ (e - podemos acrescentar - nem o termo ‘clero’), mas sublinham-se os elementos comuns a todos os cristãos e cristãs e, ao mesmo tempo, valorizam-se as diferenças carismáticas, ministeriais e de serviço. Neste sentido, os termos que designam os membros do Povo de Deus acentuam a condição comum a todos os renascidos pela água e pelo Espírito: 'santos/as', 'eleitos/as', 'discípulos/as', 'irmãos/ãs'” (CNBB. Missão e Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas - 62, 1999, nº 105).

Por fim, é só o amor que - pelo seu grau de profundidade - pode dar um sentido maior ou menor (não, mais importante ou menos importante) à vida humana e à vida da Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum.

Essa é a Igreja que as CEBs querem ser! Essa é a nossa Igreja!






Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br


25 de julho de 2021





quarta-feira, 21 de julho de 2021

Suspender os despejos já!

 


A defesa da vida dos pobres não pode esperar


No dia 3 do mês de junho, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, “determinou a suspensão por seis meses de medidas que resultem em despejos, desocupações, remoções forçadas ou reintegrações de posse de natureza coletiva em imóveis que sirvam de moradia ou que representem área produtiva pelo trabalho individual ou familiar de populações vulneráveis que já estavam habitadas antes de 20 de março de 2020, quando foi aprovado o estado de calamidade pública em razão da pandemia de Covid-19”. 

Em relação a ocupações posteriores à pandemia, ele “decidiu que o poder público poderá atuar a fim de evitar a sua consolidação, desde que as pessoas sejam levadas para abrigos públicos ou que de outra forma se assegure a elas moradia adequada, conforme a Constituição”.

O Projeto de Lei - PL 827/2020 ( de autoria de André Janones - AVANTE/MG), Natália Bonavides - PT/MT) "estabelece medidas excepcionais em razão da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN) decorrente da infecção humana pelo coronavírus SARS-CoV-2, para suspender o cumprimento de medida judicial, extrajudicial ou administrativa que resulte em desocupação ou remoção forçada coletiva em imóvel privado ou público, urbano ou rural, e a concessão de liminar em ação de despejo de que trata a Lei nº 8.245, de 18 de outubro de 1991, e para estimular a celebração de acordos nas relações locatícias” (Fonte: Agência Senado).

O Projeto - que propõe a suspensão das ações de despejo até o final de 2021 - foi aprovado pela Câmara dos Deputados, no dia 18 de maio passado, com 263 votos e enviado ao Senado. O senador Rodrigo Pacheco, presidente da Casa, retirou a proposta da pauta - a pedido de um grupo de senadores - para uma sessão de debate sobre o assunto, realizada no dia 11 do mês de junho. A questão central foi: os despejos coletivos de imóveis devem ser suspensos durante a pandemia?

Senadores/as, a defesa da vida dos pobres não pode esperar, deve ser imediata: 14 mil famílias já foram despejadas durante a pandemia e mais de 85 mil estão ameaçadas neste momento.

Reparem: os senadores/as que pediram o debate não estão preocupados/as com as famílias que moram nas Ocupações, mas com o fato que o Projeto pode enfraquecer a “segurança jurídica” (leia: dos detentores do poder econômico) e abalar o “direito à propriedade” (leia: dos latifundiários ou grileiros de terras no campo - os coronéis rurais - e dos donos de imobiliárias na cidade - os coronéis urbanos). O “direito à propriedade” - com sua “segurança jurídica” - é o ídolo que esses senadores/as adoram. Para eles e elas, os pobres, “excluídos” e “descartados” do sistema capitalista neoliberal - que é um sistema econômico perverso e iníquo - são “baderneiros”, “invasores” e “criminosos”. Quanta hipocrisia, quanta injustiça e quanta desumanidade!

Lembro aos senadores/as que o “direito à propriedade” - com sua “segurança jurídica” - não é um direito absoluto, mas deve ter sempre uma função social. Os latifúndios abandonados e improdutivos (no campo) e os terrenos cercados (malditas cercas!) para fins de especulação imobiliária (na cidade) não só podem, mas devem ser ocupados. Eles pertencem às pessoas que precisam deles para trabalhar, morar e viver dignamente. Como diz São Tomás de Aquino - ensinamento assumido pelo Pensamento Social Cristão - a destinação dos bens para uso de todos os seres humanos é de direito primário e a propriedade - com sua “segurança jurídica” - de direito secundário. Quando o segundo impede o acesso ao primeiro - ele é injusto, desumano, antiético e anticristão (mesmo se for legal).

Do ponto de vista ético, todo despejo é injusto e - em época de pandemia - chega a ser diabólico (só se despeja lixo não reciclável e não pessoas humanas). Pessoas humanas somente podem ser removidas - e com todo respeito - nos casos de o terreno ocupado ser de utilidade pública ou de preservação ambiental e - mesmo nesses casos - somente depois que estiverem prontas outras moradias dignas para as pessoas a serem removidas.

Finalmente, depois de tantos adiamentos, no dia 23 do mês de junho o Senado aprovou, por 38 votos favoráveis e 36 contrários, o PL 827/2020 que suspende despejos e remoções durante o período da pandemia, até o final de 2021. Além de ter sido uma vitória muito apertada, a aprovação do PL foi somente pela metade. A bancada ruralista conseguiu a aprovação de um destaque que exclui da proteção contra os despejos as famílias das áreas rurais. É lamentável!

O PL voltou, pois, para a Câmara dos Deputados, que no dia 14 deste mês de julho aprovou em votação simbólica o Projeto, mantendo o texto do Senado. Reparem a demora na aprovação do Projeto (no Senado: 23 de junho e na Câmara: 14 de julho). Ela diz tudo!

Por fim, termino com um testemunho: os moradores das Ocupações urbanas e rurais, em sua grande maioria (digo isso por experiência pessoal) são verdadeiros heróis e heroínas. Com a nossa solidariedade e o nosso apoio, sua luta pelo direito à terra de trabalho e à terra de moradia - parte integrante do direito à vida - continua. A esperança nunca morre!


Campanha Nacional DESPEJO ZERO!

Em defesa da Vida no Campo e na Cidade!




Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 20 de julho de 2021


segunda-feira, 5 de julho de 2021

A Igreja se prostituindo

 


No dia 1º deste mês de julho, o presidente Jair Bolsonaro participou - com seguranças, batedores, familiares e parlamentares - de uma Missa na Paróquia Nossa Senhora da Saúde, na Asa Norte de Brasília, transmitida pela TV Brasil. O evento religioso tinha sido combinado com a administração da Paróquia. Na hora da Comunhão, Bolsonaro entrou na fila e recebeu a Eucaristia das mãos de dom Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília.

Lendo a notícia, fiquei profundamente indignado e com muita dor no coração. Foi realmente um ato público de prostituição da Igreja e de profanação da Eucaristia. É inacreditável!

Como pode um presidente, genocida e assassino, ser recebido ostensiva e deliberadamente numa Igreja e receber a sagrada Eucaristia? Além disso, Bolsonaro sempre demostrou que não tem uma opção religiosa definida e nem um comportamento macro - ecumênico que respeite e valorize todas as Igrejas e Religiões. Ele fala o nome de Deus em vão e usa hipócrita, cínica e oportunisticamente todas as manifestações religiosas para legitimar sua prática política criminosa.

Embora só Deus julgue a consciência das pessoas, objetivamente falando (ou seja, pelos fatos), podemos afirmar que Bolsonaro é um pecador público e a denúncia profética de seu mau comportamento deve ser também pública. A Igreja não pode ser conivente com uma política perversa e iníqua como a do presidente.

Abro um parêntese e cito mais um fato que mostra claramente que o presidente é um cafajeste hipócrita.

No último dia 16 - para tratar da demarcação de terras - centenas de indígenas “representantes de mais de 35 Povos originários, com o apoio da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), marchavam na capital federal e esperavam ser recebidos por um representante da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), mas a tropa de choque da PM cercou o prédio da entidade e atacou os manifestantes com bombas de efeito moral e spray de pimenta”.

Os nossos irmãos e irmãs indígenas - verdadeiros donos do Brasil - foram recebidos em Brasília pela PM do governo Bolsonaro com bombas. A líder indígena Sonia Guajajara, coordenadora executiva da APIB, escreveu:  “Um grande retrocesso que estamos sofrendo! Um órgão que deveria defender nossos direitos e interesses, agora nos ataca” (Em: https://www.brasildefato.com.br/2021/06/17/). Que absurdo! Quanta maldade e quanta crueldade!

Ora, diante do fato que aconteceu na Igreja de Brasília, lembrei-me da grande figura de Santo Ambrósio, bispo de Milão. Segundo o relato de Sozomeno em sua História da Igreja - depois do massacre de 7000 pessoas em Tessalônica (390), às portas da Igreja em Milão, aconteceu a seguinte cena: “Quando Teodósio se aproximou dos portões do edifício, ele foi recebido por Ambrósio, o bispo da cidade, que se apoderou de seu manto de púrpura, e disse-lhe, na presença da multidão: ‘Afaste-se! Um homem renegado pelo pecado, e com as mãos encharcadas no sangue injustamente derramado, não é digno, sem arrependimento, de entrar neste recinto sagrado, ou participar dos Santos Mistérios’” (Citado por: Marcus Cruz - UFMT. Um homem renegado pelo pecado. A penitência de Milão e as relações entre a Igreja e o Império no final do IV século. Em: www.dialogosmediterranicos.com.br  Número 5 - Novembro/2013, p. 34).

Lamentavelmente, Bolsonaro - segundo pesquisas divulgadas nas redes sociais - é responsável pelo massacre de mais de 375 mil mortes (ao menos, de 3 em cada 4 mortes), que podiam ter sido evitadas: um massacre muito maior que o de Tessalônica (7 mil pessoas) do imperador Teodósio.

É verdade que o contexto histórico na qual viveu S. Ambrósio era diferente do nosso, mas com certeza sua atitude profética continua sendo uma luz que nos mostra como devemos agir hoje para sermos verdadeiros seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. A Igreja não pode ser conivente com a bandidagem, mesmo que - muitas vezes - seja legalizada.

Quem sabe!? Se o arcebispo de Brasília tivesse tomado a atitude profética de S. Ambrósio, poderia ter acontecido com Bolsonaro o mesmo que aconteceu com Teodósio: “O imperador, impressionado e admirado com a coragem do bispo, começou a refletir sobre sua própria conduta e, com muita contrição, refez seus passos” (Ib.). Tudo é possível, com a graça de Deus.

Que o Espírito Santo nos ilumine para que sejamos sempre uma Igreja profética e nunca uma Igreja prostituta!





Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 04 de julho de 2021


A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos