quinta-feira, 1 de abril de 2021

Na pandemia ou não, despejos nunca mais!

 

O advogado Leandro Gaspar Scalabrin, representante do Observatório de Direitos Humanos (ODH) do Poder Judiciário, apresentou aos ministros do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) alguns dados do relatório sobre o Direito à Moradia, produzido pela Entidade em junho de 2020.

Scalabrin explicou: “Durante a pandemia (somente até junho de 2020) já ocorreram 79 despejos. Nesses, 9 mil famílias foram colocadas em situação de desabrigo. Atualmente (sempre em junho de 2020), 64 mil famílias estão ameaçadas de despejo no Brasil”.

Diante de novas liminares de despejo coletivo - “reintegração de posse” - nas Ocupações urbanas e nos Acampamentos rurais, a CNBB propôs que o Conselho Nacional de Justiça, “no âmbito de suas competências, recomende providências aos órgãos do Poder Judiciário no sentido de suspender o cumprimento de mandados coletivos de desocupações de imóveis urbanos e/ou rurais até a ocorrência efetiva de imunização social, por meio de vacina e/ou remédio, da população brasileira, especialmente daquelas pessoas mais vulneráveis e atingidas pelas ordens de despejos coletivos”.

Atendendo a proposta da CNBB - apresentada ao Poder Judiciário através do Observatório dos Direitos Humanos (ODH) - o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no dia 23 de fevereiro passado, em sua 325ª Sessão Ordinária, aprovou uma resolução recomendando ao Judiciário que não autorize ações de despejo coletivo durante a pandemia da Covid-19.

(Fonte:  https://www.cnbb.org.br/proposta-da-cnbb-para-que-o-judiciario-nao-autorize-despejos-na-pandemia-e-aprovada-no-conselho-nacional-de-justica/ e https://www.cnbb.org.br/observatorio-dos-direitos-humanos-cnbb-proposta-contra-despejo-de-familias/)

Neste contexto de pandemia - por serem os despejos coletivos de uma perversidade e crueldade diabólicas - a resolução do CNJ representa, sem dúvida, uma grande vitória para todos e todas que lutam pelo direito à terra de trabalho e à moradia digna.

Esperamos que - terminada, se Deus quiser, a pandemia - a CNBB dê mais um passo à frente e declare profeticamente, de maneira clara e inequívoca, que todo despejo coletivo (o que comumente acontece, mas vale também para o despejo de uma só família ou pessoa) é sempre - em qualquer situação - injusto: desumano, antiético e anticristão.

O Evangelho de Jesus de Nazaré não deixa margem para meias verdades, comportamentos diplomáticos e acordos parciais. “Que o sim de vocês seja sim, e o não seja não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5,37).

“Despejo” - chamado hipócrita e legalmente de “desocupação” ou “reintegração de posse” - é uma palavra que se usa somente para falar de “lixo”. Até quando se fala de objetos - melhor tratados que as pessoas - usa-se sempre a palavra “remoção” ou “descarga” (dependendo do caso) e não “despejo”.

Do ponto de vista da justiça - o ponto de vista humano, ético e cristão - só é permitida a remoção com dignidade de famílias de suas moradias em Ocupações urbanas ou Acampamentos rurais em dois casos: quando a terra ocupada é de utilidade pública ou de preservação ambiental e - mesmo nesses casos -  só depois que estiverem prontas outras moradias para receberem as famílias.

A propriedade particular não é um direito absoluto, mas deve ter uma função social e, por motivo de utilidade pública, o Governo (Municipal, Estadual e Federal) - se necessário -  pode sempre recorrer à desapropriação.

As terras abandonadas para fins de especulação imobiliária (como é comum acontecer nas grandes cidades), as terras de latifúndios improdutivos, as terras com monoculturas que destroem a natureza e visam unicamente a exportação e o lucro e as terras com trabalho escravo, devem ser destinadas pelo Governo (Municipal, Estadual e Federal) - avaliando a necessidade ou não da desapropriação - à implantação de projetos de moradia popular (na cidade) ou de reforma agrária popular (no campo).

Terra, Teto (Moradia) e Trabalho (os três T) - lembra-nos o Papa Francisco - são Direitos Humanos fundamentais de todos e de todas.

Na pandemia ou não, despejos nunca mais!

(Leia o artigo "Todo despejo é injusto!", em: http://www.ihu.unisinos.br/602803-todo-despejo-e-injusto ou em: http://freimarcos.blogspot.com/2020/09/todo-despejo-e-injusto.html ).








Grito dos Excluídos/as 2020 (Goiás)



Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 29 de março de 2021

 

 



quinta-feira, 25 de março de 2021

Ser Igreja santa e pecadora

 

“O Vaticano II faz-nos passar de uma Igreja pura e sem mancha para uma Igreja santa e pecadora, sempre necessitada de conversão e de reforma” (Dom Aloísio Lorscheider).

Dizer que a Igreja é somente “pura e sem mancha” ou somente “santa” e que pecadores são os cristãos e cristãs individualmente considerados, significa negar a condição humana da Igreja Instituição no mundo, que a torna também pecadora.

Mesmo sendo pecadora, nela - Instituição e pessoas - existe muita santidade. Quanta compaixão, doação e amor encontramos em organizações e movimentos da Igreja Instituição! Quanta profundidade humana, sabedoria e testemunho encontramos nas pessoas, não só nas que foram canonizadas, mas sobretudo nas pessoas anônimas, simples e pobres!

A santidade - o amor acontecendo na história do ser humano no mundo - é a graça (o bem moral). A Igreja no mundo deve ser sinal visível (sacramento) da graça: dom de Deus e, ao mesmo tempo, conquista do ser humano. A graça torna o ser humano mais humano e, portanto, mais realizado e mais feliz.  Por isso, os cristãos e cristãs são chamados a ser radicalmente humanos e humanas, testemunhando no mundo essa radicalidade.

A não-santidade - o desamor (o egoísmo) acontecendo na história do ser humano no mundo - é o pecado (o mal moral). “O pecado diminui o ser humano, impedindo-o de atingir sua plena realização” (A Igreja no mundo de hoje - GS, 13). A Igreja no mundo - em vez de ser sinal da graça - torna-se, muitas vezes, sinal do pecado.

A graça é, pois, graça social (sócio-econômico-político-ecológico-cultural) e graça individual (corpórea-bio-psíquica-espiritual ou pessoal). Por graça social (ou estrutural) entende-se a estrutura da sociedade (da qual a Igreja é parte integrante) na medida em que é - e se torna cada vez mais - humana, ética, justa, igualitária, fraterna e cristã. Por graça individual entende-se o projeto de vida dos indivíduos ou pessoas (opção fundamental), seus comportamentos habituais (atitudes) e suas ações (atos) na medida em que são - e se tornam cada vez mais - humanos, éticos, justos, igualitários, fraternos e cristãos.

O pecado é, pois, pecado social e pecado individual (com as mesmas dimensões da graça). Por pecado social (ou estrutural) entende-se a estrutura da sociedade (da qual a Igreja é parte integrante), na medida em que é - e se torna cada vez mais - desumana, antiética, injusta, desigual, antifraterna e anticristã. Por pecado individual entende-se o projeto de vida (que, na realidade, é projeto de morte) dos indivíduos ou pessoas (opção fundamental), seus comportamentos habituais (atitudes) e suas ações (atos), na medida em que são - e se tornam cada vez mais - desumanos, antiéticos, injustos, antifraternos e anticristãos.

A pior face do pecado social (estrutural) da Igreja e o pior pecado individual dos cristãos e cristãs é a hipocrisia (o farisaísmo): o uso deturpado e falsificado do nome de Deus, de sua Palavra (sobretudo do Evangelho), da própria Igreja - Instituição e pessoas - para legitimar e abençoar projetos sociais (estruturais) e projetos individuais totalmente desumanos, injustos, antiéticos, antifraternos e anticristãos. Basta lembrar a posição da Igreja em relação ao regime imperial, escravista, feudal e capitalista. Jesus chamou os fariseus de “hipócritas”, “sepulcros caiados”, “serpentes”, “raça de cobras venenosas” (cf. Mt 23,13-36).

Ora, a face mais bonita da graça social (estrutural) da Igreja e a mais bonita graça individual dos cristãos e cristãs é a profecia. Quantas organizações eclesiais marcadas pelo profetismo e quantos cristãos e cristas, verdadeiros profetas e profetisas, que deram a vida por amor na luta pela Justiça e pelo Reino de Deus: os mártires da caminhada!

Por fim, reconhecendo que a Igreja no mundo é “santa e pecadora, sempre necessitada de conversão e de reforma”, lutemos para que ela cresça - cada dia mais - na graça (a santidade) e se liberte - cada dia mais - do pecado (a não-santidade).






Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 14 de março de 2021

  

 

O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/2021/03/15/ser-igreja-santa-e-pecadora/

 

 

 

 

quarta-feira, 17 de março de 2021

Por uma imprensa a serviço da Justiça e da Verdade - Uma denúncia contra O Popular


O fato que vou narrar agora - entre outros - mostra claramente que O Popular (Goiânia - GO) é um Jornal que está a serviço dos interesses dos poderosos (como, infelizmente, a maioria dos Jornais).

No dia 13 de fevereiro passado enviei o seguinte e-mail ao editor de O Popular, Fabricio Cardoso: “Não sei se será possível, mas tomo a liberdade de fazer um pedido. Como eu vivi muito de perto - sofrendo com o povo - o caso do Parque Oeste Industrial, gostaria muito que O Popular publicasse o meu artigo “Jônathas Silva esqueceu um ‘detalhe’: o despejo da Ocupação ‘Sonho Real’”, em resposta ao artigo de auto-exaltação do professor Jônathas Silva (à época Secretário de Segurança Pública de Goiás) Não à politicagem” (O Popular, 03/02/21, p. 3) e em memória dos 16 anos do despejo (acontecido no dia 16 de fevereiro de 2005).

No dia 15, Fabricio respondeu: “Ficamos agradecidos pela disposição em publicar conosco, dando um testemunho pessoal em nossas páginas. O único ponto é o tamanho do artigo, que deve ser de 2,6 mil toques com espaço. O seu está com 3,5 mil. Podemos editar, mas é de bom tom oferecer essa possibilidade ao autor”.

Atendendo à exigência do Jornal, enviei novamente o artigo com tamanho reduzido e pedi que - se houvesse necessidade de reduzi-lo mais ainda - me comunicasse. No mesmo dia Fabricio respondeu: “Não se preocupe. Estourou um tantinho, mas está na margem do ajustável”. Fiquei contente, certo de que O Popular publicaria o meu artigo.

No dia seguinte (16), tive uma surpresa que me deixou profundamente indignado. Sem a minha autorização, o artigo foi publicado como “carta ao leitor” com o título trocado e com mais alguns cortes no texto. Sempre no mesmo dia - diante da minha indignação - Fabrício pediu desculpa por não me ter avisado antes e me deu a seguinte justificativa: “No grupo de editores surgiu um argumento de que do seu texto derivariam pedidos de respostas reiterados, com réplicas e tréplicas. No esforço de preservarmos a pluralidade de temas nos artigos (que ‘pluralidade’ é essa!), encaminhamos a solução pela seção de cartas”.

Ora, eu pergunto: Por que os defensores e bajuladores dos poderosos - esteios do sistema capitalista neoliberal dominante - têm direito a “pedidos de respostas reiterados, com réplicas e tréplicas” e os porta-vozes dos excluídos/as e descartados/as (que nunca têm voz e nem vez) desse sistema iniquo não podem ter o mesmo direito?

Concretamente, no caso em questão, por que o autor desse escrito não tinha o direito de desmascarar um Secretário de Segurança Pública que despejou de suas moradias (numa hora e 45 minutos) 14 mil pessoas - entre as quais, muitas crianças e idosos - como se fossem ”lixo”?

A minha indignação foi tanta que, num primeiro momento, pensei em mover uma ação judicial contra o Jornal O Popular, que - do ponto de vista legal - não tinha o direito de transformar o artigo numa “cartinha”, trocando o título e fazendo cortes no texto sem a minha autorização.

Depois de refletir melhor, sabendo que uma ação judicial exigiria de minha parte bastante tempo (que não tenho) e sabendo - também e sobretudo -  que as redes sociais têm hoje um alcance muito maior que o Jornal, optei por escrever esse artigo de denúncia, divulgando-o em nível nacional.

Termino com um testemunho: como ser humano e cristão, compartilhar a experiência de vida dos irmãos e irmãs da Ocupação “Sonho Real” - verdadeiros heróis e heroínas na defesa do direito à moradia digna - me edificou muito, e me fortaleceu no desejo de estar sempre ao lado e do lado dos excluídos/as e descartados/as, na construção de um Brasil Novo e de um Mundo Novo.

Lutemos por uma imprensa a serviço da Justiça e da Verdade!

Por fim, quero dizer que a minha denúncia é contra O Popular e seus responsáveis, e não contra os/as jornalistas, que também são trabalhadores/as.

(Leia o artigo "Jonathas Silva esqueceu um 'detalhe': o desejo da Ocupação 'Sonho Real', em http://www.ihu.unisinos.br/606912-jonathas-silva-esqueceu-um-detalhe-o-despejo-da-ocupacao-sonho-real ou em: http://freimarcos.blogspot.com/2021/02/jonathas-silva-esqueceu-um-detalhe-o.html





Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 16 de março de 2021


quarta-feira, 10 de março de 2021

Um apelo dramático: acorda Brasil

 


Em nome do Deus da vida, acorda Brasil! Tiremos imediatamente esse presidente, psicopata e assassino, que todo dia mata - cínica e friamente - milhares de pessoas de Covid-19 por falta de assistência médica adequada e de vagas nos hospitais: enfermarias e UTIs.

“Goiás tem 495 na fila de internação para Covid-19” (O Popular, 09/03/21. Manchete de 1ª página). “Paraná tem 1.071 pessoas à espera de um leito de UTI ou enfermaria para Covid-19”. Márcia Huçulak, Secretária Municipal da Saúde de Curitiba, afirma: "Fizemos do Brasil um covidário, um lugar perfeito para a proliferação do vírus e das suas novas variantes" (https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2021/03/08/covid-19).

Todos os Estados se encontram mais ou menos na mesma situação. Chega de tanta criminalidade! Não dá mais! O povo quer viver! É uma questão de legítima defesa social.

Judiciário e Congresso não sejam omissos e coniventes com o crime, cumpram seu papel e tirem esse psicopata assassino da presidência! Congresso - por estarmos numa situação de emergência - suspenda todos os gastos do país que não sejam estritamente necessários; cobre uma “taxa especial” de todos os que possuem grandes fortunas; exija que o Executivo organize, com a máxima urgência, um plano nacional de socorro médico e hospitalar a todos e todas que precisam de assistência para salvar suas vidas; e cobre imediatamente um plano de vacinação gratuita contra a Covid-19 para toda a população.

Sociedade civil, acorda! Sindicatos de trabalhadores/as, Movimentos Populares, Movimentos estudantis e as mais diversas Organizações sociais unamo-nos, lutemos e derrubemos esse assassino!

Além de ser um homem totalmente antiético, ele viola, impune e permanentemente, a Constituição Federal do Brasil, que - em seu artigo 5º -  depois de declarar que “todos e todas são iguais perante a lei”, destaca “a inviolabilidade do direito à vida” e - no parágrafo 3º - afirma categoricamente que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”.

A longa espera de doentes graves de Covid-19 por falta de vagas nos hospitais - enfermarias e UTIs - e (o que é pior ainda) a morte por asfixia por falta de oxigênio, é realmente um tratamento desumano e degradante: uma verdadeira tortura.

Igrejas - católica e evangélicas - tomem uma posição clara e firme contra essa situação criminosa! Não sejamos - os cristãos e cristãs - Igrejas de Judas, que traem Jesus nos pobres, ou Igrejas de Pilatos, que lavam as mãos! Sejamos Igrejas proféticas! Falemos! Denunciemos! Lutemos pela vida!  “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Lembra-nos o Papa Francisco: “Todos e todas devem ter acesso aos cuidados de saúde, sejam eles quem forem, onde quer que estejam". “A saúde não é um bem de consumo, mas um direito universal: unamos os esforços para que os serviços de saúde sejam acessíveis a todos e todas”.

Continua o Papa: "Quando a pessoa doente não é colocada no centro e considerada em sua dignidade, criam-se atitudes que podem levar até mesmo a especular sobre as desgraças dos outros. E isso é muito grave! É preciso estar vigilantes, especialmente quando os pacientes são idosos com uma saúde severamente comprometida, se eles estão sofrendo de doenças graves e dispendiosas para os seus cuidados ou são particularmente difíceis, tais como pacientes psiquiátricos. O modelo empresarial no setor de saúde, se adotado de forma indiscriminada, ao invés de otimizar os recursos disponíveis, corre o risco de produzir descartes humanos. Otimizar os recursos significa usá-los de maneira ética e solidária e não penalizar os mais frágeis” (https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-10/papa-francisco-saude-direito-universal-tweet.html).

Chega de tanta iniquidade! Um outro Brasil é possível e necessário! Unidos e organizados, lutemos por ele!





Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 09 de março de 2021


sexta-feira, 5 de março de 2021

Ser Igreja-povo

 

“O Vaticano II faz-nos passar de uma Igreja piramidal para uma Igreja-povo” (Dom Aloísio Lorscheider).

A Igreja piramidal, por sua estrutura hierárquica, mais do que uma eclesiologia, é uma hierarquiologia. Na medida em que acontece a passagem para uma Igreja-povo, ela se torna circular, com estrutura comunitária. A palavra-chave da Igreja piramidal é “hierarquia”; da Igreja-povo, é “comunhão”. O próprio termo “Igreja” tem origem no grego “ekklesia”, que quer dizer “assembleia”. Mesmo com diferentes funções e responsabilidades, na “assembleia” todos e todas são iguais e têm o mesmo valor.

Para nós cristãos e cristãs, que acreditamos no Projeto de Jesus de Nazaré - o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo - a comunhão na fé é uma realidade humana muito mais profunda que a democracia, mas a inclui. Sem democracia, a comunhão não existe, é uma enganação do povo.

No contexto desse raciocínio, surgem naturalmente algumas perguntas. Por que a Igreja (refiro-me aqui à Igreja Católica) - que defende a democracia na sociedade civil - não vive essa mesma democracia em suas estruturas internas? Se a democracia é um valor humano, não é também um valor cristão (radicalmente humano)? A Igreja não deveria ser um modelo de instituição democrática? Na realidade, o que acontece é justamente o contrário. No máximo, as “autoridades eclesiásticas” (como os padres nas paróquias e os bispos nas dioceses) se dignam por benevolência ouvir - às vezes até com interesse - o parecer das diversas categorias do Povo de Deus, mas se reservam sempre o direito de decidir. Tudo - dizem - tem caráter consultivo e não deliberativo.

Em muitos casos, nem essa “benevolência” é praticada. Na nomeação dos bispos - por exemplo - que é uma questão fundamental para a vida da Igreja - tudo é “articulado” com diplomacia (que não é um valor evangélico) e da forma mais secreta e sigilosa possível. No final do processo, costuma-se dizer que foi obra do Espírito Santo. Será mesmo!? Lembremos que, nos primeiros séculos do cristianismo, não era assim. Os bispos eram escolhidos pelas Igrejas locais e, às vezes, por aclamação, como aconteceu com Santo Ambrósio. Que diferença!

Hoje - por iniciativa do papa Francisco - fala-se muito em “Sínodo”. Mesmo assim, a “sinodalidade” (o “caminhar juntos”), na melhor das hipóteses, chega até à prática da escuta atenciosa e respeitosa do povo, mas não chega até à tomada das decisões finais, que continuam sendo uma prerrogativa da “hierarquia” (formada só de homens). Ora, para que haja verdadeira comunhão eclesial (uma eclesiologia de comunhão) deve haver a participação democrática plena de todos e de todas não só nas reflexões e discussões, mas também nas decisões. Como na sociedade civil o voto do presidente tem o mesmo valor do de qualquer cidadão/ã, assim também na Igreja o voto do padre, do bispo (ou papa) deveria ter o mesmo valor do de qualquer cristão/ã. Será que chegaremos lá!

A Igreja não ensina que “pelo ‘senso da fé’ (‘sensus fidei’), o conjunto dos cristãos (...) apresenta um consenso universal sobre questões de fé e costumes”? (A Igreja - LG 12); não ensina também que “o Povo de Deus é santo em virtude da unção do Batismo, que o torna infalível ao crer (‘in credendo’)”? (A Alegria do Evangelho - EG 119).  Então, por que a Igreja - consciente ou inconscientemente - tem tanto medo de ser plenamente democrática? Não é falta de fé no Espírito Santo?

Nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) não se usa a palavra Sínodo, mas a palavra Assembleia, mais conhecida e praticada no meio popular. No jeito de ser Igreja das CEBs, todos os ministérios ou serviços são iguais e tem o mesmo valor. Todas as decisões são tomadas democraticamente, na comunhão eclesial de irmãos e irmãs (a chamada “comunhão hierárquica” não existe), com as luzes do Espírito Santo que (diga-se de passagem) não é propriedade das chamadas “autoridades eclesiásticas”.

O Documento da CNBB "Missão e Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas" - 62 (1999) - que infelizmente a própria CNBB logo se encarregou de esquecer - afirma: "Embora o Concílio Vaticano II tenha lançado as bases para uma compreensão da estrutura social da Igreja como comunhão, essa estrutura continua ainda sendo pensada dentro do binômio clássico ‘hierarquia - laicato’”, que “condiciona fortemente o nosso modo de entender e de viver a realidade eclesial e a missão”.

Sugere, pois, que seja repensada toda a estrutura social da Igreja e reelaborada toda a teologia dos ministérios a partir do binômio “comunidade - carismas e ministérios”, que aliás - afirma o próprio Documento - é a perspectiva do Novo Testamento (leia o Documento, sobretudo os números 104, 105 e 106). É esse o caminho para passar de uma Igreja piramidal para uma Igreja-povo. Cabe a nós percorrê-lo. Não sejamos omissos!


Diocese de São Mateus - ES

 

 

 

 

Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 14 de Fevereiro  de 2021

 

 

 

 

O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/2021/02/28/ser-igreja-povo/

 

 


Um presidente e um governo federal genocidas


No dia 26 de fevereiro passado, em visita ao município de Caucaia na Região Metropolitana de Fortaleza (CE), o presidente Bolsonaro afirmou: "A pandemia nos atrapalhou bastante, mas nós venceremos este mal, pode ter certeza. Agora, o que o povo mais pede, e eu tenho visto em especial no Ceará, é para trabalhar. Essa politicalha do 'fica em casa, a economia a gente vê depois' não deu certo e não vai dar certo. Não podemos dissociar a questão do vírus e do desemprego".

E ainda: "São dois problemas que devemos tratar de forma simultânea e com a mesma responsabilidade. E o povo assim o quer. O auxílio emergencial vem por mais alguns meses e, daqui para frente, o governador que fechar seu estado, o governador que destrói emprego, ele é quem deve bancar o auxílio emergencial. Não pode continuar fazendo política e jogar para o colo do Presidente da República essa responsabilidade”.

Com suas palavras e comportamentos, o presidente revela-se um homem de uma insensibilidade e crueldade diabólicas. Não só desrespeita publicamente as medidas básicas de proteção contra a Covid-19, como a máscara, o distanciamento e a higienização das mãos, mas também ridiculariza acintosamente as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e dos cientistas, incentivando o povo a fazer o mesmo. O presidente demostra fria e cinicamente que - para ele - a vida dos pobres, sobretudo idosos/as, não tem valor nenhum. Sua morte - bem representada na charge de Jorge Braga - “vai ser um alívio para a Previdência” (O Popular, 25/02/21, p. 2).

Se o presidente se importasse com a vida dos pobres - por se tratar de calamidade pública - teria cobrado com urgência, através de medida provisória, uma “taxa especial” dos que possuem grandes fortunas para elaborar um projeto político sério e realmente eficaz de combate à pandemia da Covid-19. Infelizmente, para Bolsonaro e seu governo, a única coisa que importa - e que não pode parar de crescer - é o lucro dos ricos, obtido com a exploração e o descarte dos trabalhadores/as.

Um ano após registrar o primeiro caso em seu território, o Brasil é o segundo país do mundo em números absolutos de mortes, com mais de 251.500. No total, o Brasil tem cerca de 10,3 milhões de infectados. Nesses dias, o país atingiu o recorde de 1.726 mortes por Covid-19 em 24 horas.

Segundo o depoimento de pessoas que trabalham na Saúde, a maioria dessas mortes podia ter sido evitada. O principal responsável por elas é o presidente Bolsonaro, um criminoso que - se houvesse justiça - deveria ser preso, processado e condenado.

Infelizmente, essa trágica situação - ao menos por enquanto - torna-se cada vez mais grave por duas razões: em primeiro lugar, pela omissão conivente e criminosa do Legislativo e do Judiciário diante de um governo federal claramente genocida; em segundo lugar, pela “legitimação religiosa” desse mesmo governo por parte dos “anticristos” de hoje (tanto da Igreja Católica como das Igrejas Evangélicas).

Esses “anticristos” andam por aí de batina e colarinho branco ou com a Bíblia debaixo dos braços, pregando um evangelho que não tem nada a ver com a Boa Notícia de Jesus de Nazaré; “abençoando” um governo, que - como diz o papa Francisco - “exclui, degrada e mata”; e até (pasmem!) apoiando a compra de armas pela população.

Para ficar “dentro de casa”, ouvir - por exemplo - a pregação de “padre” Paulo Ricardo e ver o seu comportamento é assustador e deixa qualquer pessoa com um mínimo de bom senso profundamente indignada. É uma vergonha para a Igreja Católica! Pena que a Igreja seja omissa e não tome as providências cabíveis. “Padre” Paulo é um “anticristo” de batina, que - hipócrita e oportunisticamente - “legitima e abençoa” o comportamento dos “diabos” de hoje - comandados por um presidente também diabólico - que se aproveitam de seus cargos públicos para - fria, cínica e sadicamente - matar os pobres, a grande maioria do nosso povo.

No primeiro Domingo da Quaresma deste ano - na alocução que precede a oração mariana do “Angelus” - o Papa Francisco, refletindo sobre o Evangelho do dia (Mc 1,12-15) afirma: “Na sua vida, Jesus nunca teve um diálogo com o diabo, nunca. Ou o afasta dos possuídos ou o condena ou mostra a sua malícia, mas nunca um diálogo (...). Coloquem isso na cabeça e no coração: com o diabo nunca se dialoga, não há diálogo possível. Somente a Palavra de Deus”.

Que Jesus nos dê a graça de nunca dialogarmos com os “diabos” de hoje - e os “anticristos” que os apoiam - mas de combatê-los com toda força e perseverança, certos da vitória. “Neste mundo vocês terão aflições, mas tenham coragem: Eu venci o mundo” (Jo 16,33): o mundo do mal.

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2021/02/26 (reparem: todos sem máscara)


https://midianinja.org/fabiopy/padre-paulo-ricardo-cavaleiro-de-batina-do-apocalipse-pandemico/ 


O Popular, 25/02/21, p. 2


Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 03 de março de 2021

 



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Jônathas Silva esqueceu um "Detalhe": o despejo da Ocupação "Sonho Real"

 

No artigo “Não à politicagem” (O Popular, 03/02/21, p. 3) o professor Jônathas Silva fez um relato de sua atuação no cargo de Secretário de Segurança Pública do Estado de Goiás, no período 2002/2006. Afirma: “Nunca fiz politicagem. Ao contrário, optei por fazer uma autêntica política de segurança pública, como previa o programa do governo, que foi legitimado no processo eleitoral pela maioria absoluta dos votos dos eleitores, que elegeram o governador (Marconi Perillo), no contexto de uma proposta social democrática”.

O artigo é uma auto-exaltação. O professor apresenta-se como um modelo a ser seguido. “Não fiz política com segurança pública, mas uma política de segurança pública”.

Infelizmente, Jônathas Silva esqueceu um “detalhe”: o despejo da Ocupação “Sonho Real” do Parque Oeste Industrial, que foi um verdadeiro massacre.  No dia 16 do mês corrente completam-se 16 anos desse lamentável acontecimento: a pior barbárie praticada em toda a história de Goiânia e uma das piores do Brasil. Cada ano fazemos a memória da data - lembrada também pelo Livro-Agenda Latino-americana Mundial - para que nunca mais se repita uma iniquidade humana como essa.

O despejo da Ocupação “Sonho Real” do Parque Oeste Industrial, foi uma operação militar de guerra do governo Marconi Perillo - comandada pelo então Secretário de Segurança Pública Jônathas Silva - chamada, fria e cinicamente, “Operação triunfo”. Como se não bastasse, para que o requinte da brutalidade e da crueldade humana fosse ainda maior, ela foi precedida da “Operação inquietação”: 10 dias - de 0 a 6 horas - assustando os moradores e provocando traumas nas crianças com as chamadas bombas de efeito moral (que de “moral” não tem nada).

Em resumo, a história da “Operação Triunfo” consistiu no seguinte: em uma hora e quarenta e cinco minutos, cerca de 14 mil pessoas (reparem: 14 mil pessoas) foram despejadas de suas moradias de maneira violenta, truculenta, sem nenhum respeito pela dignidade da pessoa humana e jogadas na rua. A Operação produziu duas vítimas fatais (Pedro e Vagner), 16 feridos à bala, tornando-se um desses paraplégico (Marcelo Henrique) e 800 pessoas detidas (suspeita-se com razão que o número dos mortos e feridos seja bem maior).

Essa história, professor Jônathas, o senhor não conta no seu artigo. Trata-se de um crime cruel, perverso e totalmente desumano cometido pelo senhor - então Secretário de Segurança Pública - e por Marconi Perillo - então governador do Estado de Goiás, com a conivência de Iris Rezende - então prefeito de Goiânia. Infelizmente, o crime - que clama por justiça - continua impune até hoje. Lembre-se, professor Jônathas, que a (In)Justiça humana falha, mas a Justiça de Deus nunca falha.

O governo estadual da época foi totalmente subserviente e submisso aos interesses especulativos dos “coronéis urbanos” (leia: donos das grandes imobiliárias). Só os adoradores do deus dinheiro - que consideram a propriedade privada um direito absoluto - são capazes de uma barbárie como essa.

No caso da Ocupação “Sonho Real” do Parque Oeste Industrial, mesmo do ponto de vista meramente jurídico - sem precisar recorrer à questão da justiça e da ética - existiam todos os argumentos legais e constitucionais para a desapropriação da área. Inclusive, o governador Marconi Perillo - poucos dias antes do despejo - afirmou em entrevista coletiva que estava decidida a desapropriação. Lembro que o povo fez até festa.

Poucos dias depois, cedendo à pressão dos “coronéis urbanos” - que não queriam dar a vitória ao povo para não criar um precedente - o governador, covardemente e demostrando ser um homem sem palavra, voltou atrás e aconteceu o que todos nós sabemos.

Termino com as palavras do papa Francisco: “A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu quero voltar a unir a minha voz à voz de vocês: terra, teto e trabalho (os três “T”) para todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a terra” (2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, julho de 2015).

Que a voz dos Movimentos Populares e do nosso irmão o papa Francisco seja também a nossa voz! 










Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 16 de fevereiro de 2021




A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos