sexta-feira, 5 de março de 2021

Ser Igreja-povo

 

"O Vaticano II faz-nos passar de uma Igreja piramidal para uma Igreja-povo" (Dom Aloísio Lorscheider).

A Igreja piramidal, por sua estrutura hierárquica, mais do que uma eclesiologia, é uma hierarquiologia. Na medida em que acontece a passagem para uma Igreja-povo, ela se torna circular, com estrutura comunitária. a palavra-chave da Igreja piramidal é "hierarquia"; da Igreja-povo, é "comunhão". O próprio termo "Igreja" tem origem no grego "ekklesia", que quer dizer "assembleia". Mesmo com diferentes funções e responsabilidades, na  "assembleia". Mesmo com diferentes funções e responsabilidades, na "assembleia" todos e todas são iguais e têm o mesmo valor.

Para nós cristãos e cristãs, que acreditamos no Projeto de Jesus de Nazaré - o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo - a comunhão na fé é uma realidade humana muito mais profunda que a democracia, mas a inclui. Sem democracia, a comunhão não existe, é uma enganação do povo.

No contexto desse raciocínio, surgem naturalmente algumas perguntas. Por que a Igreja (refiro-me à Igreja Católica) - que defende a democracia na sociedade civil - não vive essa mesma democracia em sua estruturas internas? Se a democracia é um valor humano, não é também um valor cristão (radicalmente humano)?A Igreja não deveria ser um modelo de instituição democrática? Na realidade, o que acontece é justamente o contrário. No máximo, as "autoridades eclesiásticas" ( como os padres nas paróquias e os bispos nas dioceses) se dignam por benevolência ouvir - às vezes até com interesse - o parecer das diversas categorias do povo de Deus, mas se reservam sempre o direito de decidir. Tudo - dizem - tem caráter consultivo e não deliberativo.

Em muitos casos, nem essa "benevolência" é praticada. Na nomeação dos bispos - por exemplo- que é uma questão fundamental para a vida da Igreja - tudo é "articulado" com diplomacia (que não é um valor evangélico) e da forma mais secreta e sigilosa possível. No final do processo, costuma-se dizer que foi obra do Espírito Santo. Será mesmo!? Lembremos que, nos primeiros séculos do cristianismo, não era assim. os Bispos eram escolhidos pelas Igrejas locais e, às vezes, por aclamação, como aconteceu com Santo Ambrósio. Que diferença!

Hoje - por iniciativa do papa Francisco - fala-se muito em "Sínodo". Mesmo assim, a "sinodalidade" ( o "caminhar juntos"), na melhor das hipóteses, chega até à prática da escuta atenciosa e respeitosa do povo, mas não chega até à tomada das decisões finais, que continuam sendo uma prerrogativa da "hierarquia" (formada só de homens). Ora, para que haja verdadeira comunhão eclesial (uma eclesiologia de comunhão) deve haver a participação democrática plena de todos e de todas não só nas reflexões e discursões, mas também nas decisões. Como na sociedade civil o voto do presidente tem o mesmo valor do de qualquer cidadão/ã, assim também na Igreja o voto do padres, do bispo (ou papa) deveria ter o mesmo valor do de qualquer cristão/ã. Será que chegaremos lá!

A Igreja não ensina que "pelo 'senso da fé' ('sensus fidei'), o conjunto dos cristão (...) apresenta um consenso universal sobre questões de fé e costumes"? (A Igreja - LG 12m); não ensina também que "o Povo de Deus é santo em virtude da unção do Batismo, que o torna infalível ao crer ('in credendo')"?( A Alegria do Evangelho - EG 119). Então, por que a Igreja - consciente ou inconscientemente - tem tanto medo de ser plenamente democrática? Não é falta de fé no Espírito Santo?

Nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) não se usa a palavra Sínodo, mas a palavra Assembleia, mais conhecida e praticada no meio popular. No jeito de ser Igreja das CEBs, todos os ministérios ou serviços são iguais e tem o mesmo valor. Todas as decisões são tomadas democraticamente, na comunhão eclesial de irmãos e irmãs (a chamada "comunhão hierárquica" não existe), com as luzes do Espírito Santo que (diga-se de passagem) não é propriedade das chamadas "autoridades eclesiásticas".

O Documento da CNBB "Missão e Ministério dos Cristãos Leigos e Leigas" - 62 (1999) - que infelizmente a própria  CNBB logo se encarregou de esquecer - afirma: " Embora o Concílio Vaticano II tenha lançado as bases para uma compreensão da estrutura social da Igreja como comunhão, essa estrutura continua ainda sendo pensada dentro do binômio Clássico 'hierarquia - laicato'", que "condiciona fortemente o nosso modo de entender e de viver a realidade eclesial e a missão".

Sugere, pois, que seja repensada toda a estrutura social da Igreja e reelaborada toda a teologia dos ministérios a partir do binômio "comunidade - carismas e ministérios", que aliás - afirma o próprio Documento - é a perspectiva do Novo Testamento (leia o Documento, sobretudo os números 104, 105 e 106). É esse o caminho para passar de uma Igreja piramidal para uma Igreja-povo. Cabe a nós percorrê-lo Não sejamos omissos!


Diocese de São Mateus - ES

 

 

 

 

Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 14 de janeiro de 2021

 

 

 

 

O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/2021/02/28/ser-igreja-povo/

 

 


Um presidente e um governo federal genocidas

 

No dia 26 de fevereiro passado, em visita ao município de Caucaia na Região Metropolitana de Fortaleza (CE), o presidente Bolsonaro afirmou: "A pandemia nos atrapalhou bastante, mas nós venceremos este mal, pode ter certeza. Agora, o que o povo mais pede, e eu tenho visto em especial no Ceará, é para trabalhar. Essa politicalha do 'fica em casa, a economia a gente vê depois' não deu certo e não vai dar certo. Não podemos dissociar a questão do vírus e do desemprego".

E ainda: "São dois problemas que devemos tratar de forma simultânea e com a mesma responsabilidade. E o povo assim o quer. O auxílio emergencial vem por mais alguns meses e, daqui para frente, o governador que fechar seu estado, o governador que destrói emprego, ele é quem deve bancar o auxílio emergencial. Não poder continuar fazendo política e jogar para o colo do presidente da República essa responsabilidade".

com as palavras e comportamentos, o presidente revela-se um homem de uma insensibilidade e crueldade diabólicas. Não só desrespeita publicamente as medidas básicas de proteção contra a Covid-19, como a máscara, o distanciamento e a higienização das mãos, mas também ridicualriza acintosamente as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e dos cientistas, incentivando o povo a fazer o mesmo. O presidente demostra fira e cinicamente que - para ele - a vida dos pobres, sobretudo idosos/as, não tem valor nenhum. Sua morte - bem representada na charge de Jorge Braga - "vai ser um alívio para a Previdência" (O Popular, 25/02/21, p.2).

Se o presidente se importasse com a vida dos pobres - por se tratar de calamidade pública - teria cobrado com urgência, através de medida provisória, uma "taxa especial" dos que possuem grandes fortunas para elaborar um projeto político "taxa especial" dos que possuem grandes fortunas para elaborar um projeto político sério e realmente eficaz de combate à pandemia da Covid - 19. Infelizmente, para Bolsonaro e seu governo, a única coisa que importa - e que não pode parar de crescer - é o lucro dos ricos, obtido com a exploração e o descarte dos trabalhadores/as.

Um ano após registrar o primeiro caso em seu território,  o Brasil é o segundo país do mundo em números absolutos de mortes, com amis de 251.500. No total, o Brasil tem cerca de 10,3 milhões de infectados. Nesses dias, o país atingiu o recorde de 1.726 mote por Covid-19 em 24 horas.

Segundo o depoimento de pessoas que trabalham na Saúde, a maioria dessas mortes podia ter sido evitada. O principal responsável por elas é o presidente Bolsonaro, um criminoso que - se houvesse justiça - deveria ser preso, processado e condenado.

Infelizmente, essa trágica situação - ao menos por enquanto - torna-se cada vez mais grave por duas razões: em primeiro lugar, pela omissão conivente e criminosa do Legislativo e do Judiciário diante de um governo federal claramente genocida; em segundo lugar, pela "legitimação religiosa" desse  mesmo governo por parte dos "anticristos" de hoje (tanto a Igreja Católica como as Igrejas Evangélicas).

Esses "anticristos" andam por aí de batina e colarinho branco ou com a Bíblia debaixo dos braços, pregando um evangelho que não tem nada a ver com a Boa Notícia de Jesus de Nazaré; "abençoando" um governo, que - como diz o papa Francisco - "exclui, degrada e mata"; e até (pasmem!) apoiando a compra de armas pela população.

Para ficar "dentro de casa", ouvir - por exemplo - a pregação de "padre" Paulo Ricardo e ver o seu comportamento é assustador e deixa qualquer pessoa com um mínimo de bom senso profundamente indignada. É uma vergonha para a Igreja Católica! Pena que a Igreja seja omissa e não tome as providência cabíveis. "Padre" Paulo é um "anticristo" de batina, que - hipócrita e oportunisticamente - "legitima e abençoa" o comportamento dos "diabos" de hoje - comandados por um presidente também diabólico - que se aproveitam de seus cargos públicos para - fria, cínica e sadicamente - matar os pobres, a grande maioria do nosso povo.

No primeiro Domingo da Quaresma deste ano - na alocução que precede a oração mariana do "Angelus" - o Papa Francisco, refletindo sobre o Evangelho do dia (Mc 1,12-15) afirma: "Na sua vida, Jesus nunca teve um diálogo com o diabo, nunca. Ou o afasta dos possuídos ou o condena ou mostra a sua malícia, mas nunca um diálogo (...). Coloquem isso na cabeça e no coração: com o diabo nunca se dialoga, não há diálogo possível. Somente a Palavra de Deus". 

Que Jesus nos dê a graça de nunca dialogarmos com os "diabos" de hoje - e os "anticristos" que os apoiam - mas de combatê-los com toda força e perseverança, certos da vitória. "Neste mundo vocês terão aflições, mas tenham coragem: Eu venci o mundo" (Jo 16,33): o mundo do mal.

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2021/02/26 (reparem: todos sem máscara)


https://midianinja.org/fabiopy/padre-paulo-ricardo-cavaleiro-de-batina-do-apocalipse-pandemico/ 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Jônathas Silva esqueceu um "Detalhe": o despejo da Ocupação "Sonho Real"

 

No artigo “Não à politicagem” (O Popular, 03/02/21, p. 3) o professor Jônathas Silva fez um relato de sua atuação no cargo de Secretário de Segurança Pública do Estado de Goiás, no período 2002/2006. Afirma: “Nunca fiz politicagem. Ao contrário, optei por fazer uma autêntica política de segurança pública, como previa o programa do governo, que foi legitimado no processo eleitoral pela maioria absoluta dos votos dos eleitores, que elegeram o governador (Marconi Perillo), no contexto de uma proposta social democrática”.

O artigo é uma auto - exaltação. O professor apresenta-se como modelo a ser seguido. "Não fiz política com segurança pública, mas uma política de segurança pública".

Infelizmente, Jônathas Silva esqueceu um "Detalhe": o despejo da Ocupação "Sonho Real" do Parque Oeste Industrial, que foi um verdadeira massacre. No dia 16 do mês corrente completam-se 16 anos desse lamentável acontecimento: a pior barbárie praticada em toda a história de Goiânia e uma das piores do Brasil. Cada ano fazemos a memória da data - lembrada também pelo Livro-Agenda Latino-americana - Mundial - para que nunca mais se repita uma iniquidade humana como essa.

O despejo da Ocupação "Sonho Real" do Parque Oeste Industrial, foi uma operação militar de guerra do governo Marconi Perillo - comandada pelo então Secretário de Segurança Pública Jônathas Silva - chamada, fria e cinicamente, "Operação triunfo". Como se não bastasse, para que o requinte de brutalidade e da crueldade humana fosse ainda maior, ela foi precedida da " Operação inquietação": 10 dia - de 0 a 6 horas - assustando os moradores e provocando traumas nas crianças com as chamadas bombas de efeito moral (que de "moral" não tem nada).

Em resumo, a história da "Operação Triunfo" consistiu no seguinte: em uma hora e quarenta e cinco minutos, cerca de 14 mil pessoas (reparem: 14 mil pessoas) foram despejadas de suas moradias de maneira violenta, truculenta, sem nenhum respeito pela dignidade da pessoa humana e jogadas na rua. A Operação produziu duas vítima fatais (Pedro e Vagner), 16 feridas à bala, tornando-se um desses paraplégico (Marcelo Henrique) e 800 pessoas detidas (suspeita-se com ração que o número de mortos e feridos seja bem maior).

Essa historia, professor Jônathas, o senhor não conta no seu artigo. Trata-se de um crime cruel, perverso e totalmente desumano cometido pelo senhor - então Secretário de Segurança Pública - e por Marconi Perillo - então governador do Estado de Goiás, como a conivência de Iris Rezende - então prefeito de Goiânia. Infelizmente, o crime - que clama por justiça - continua impune até hoje. Lembre-se, professor Jônathas, que a (In)Justiça humana falha, mas a Justiça de Deus nunca falha.

O governo estadual da época foi totalmente subserviente e submisso aos interesses especulativos dos "coronéis urbanos" (lei: donos das grandes imobiliárias). Só os adoradores do deus dinheiro - que consideram a propriedade privada um direito absoluto - são capazes de uma barbárie como essa.

No caso da Ocupação "Sonho Real" do Parque Oeste Industrial, mesmo do ponto de vista meramente jurídico - sem precisar recorrer à questão da justiça e da ética - existiam todos os argumentos legais e constitucionais para a desapropriação da área. Inclusive, o governador Marconi Perillo - poucos dias antes do despejo - afirmou em entrevista coletiva que estava decidida a desapropriação. Lembro que o povo fez até festa.

Poucos dias depois, cedendo à pressão dos "coronéis urbanos" - que não queriam dar a vitória ao povo para não criar um precedente - o governador, covardemente e demostrando ser um homem sem palavra, voltou atrás e aconteceu o que todos nós sabemos.

Termino com as palavras do papa Francisco: "A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu quero voltar a unir a minha voz à voz de vocês: terra, teto e trabalho (os três "T") para todos os nossos irmãos e irmãs. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a terra" (2º Encontro Mundial dos excluídos dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolivia, Julho de 2015).

Que a voz dos Movimentos Populares e do nosso irmão o papa Francisco seja também a nossa voz!










Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 16 de fevereiro de 2021




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

CFE 2021: Unidade na diversidade

 

No dia 17 do mês corrente - quarta-feira de Cinzas - inicia a Quaresma, um tempo de preparação para a Páscoa. “Quaresma, na tradição cristã, é período de conversão e autorreflexão. São 40 dias dedicados à oração, ao jejum, à partilha do pão e à conversão pela revisão de nossas práticas e posturas diante da vida, do Planeta e das pessoas”.

É a prática da contrição, “resultado da graça de Deus, que nos permite o reconhecimento dos nossos pecados e o sincero arrependimento. Deus nos perdoa porque é amor misericordioso” (V Campanha da Fraternidade Ecumênica - CFE 2021. Texto-Base, p. 14)

Durante a Quaresma (embora continue depois o ano todo) realizamos a CFE 2021, promovida pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), que tem como tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” e como lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14a).

O objetivo geral da CFE 2021 é: “Convidar as Comunidades de fé e pessoas de boa vontade a pensarem, avaliarem e identificarem caminhos para superar as polarizações e violências através do diálogo amoroso, testemunhando a unidade na diversidade”.

Os objetivos específicos - para alcançar o objetivo geral - são:

  • Redescobrir a força e a beleza do diálogo como caminho de relações mais amorosas;
  • Denunciar as diferentes violências praticadas e legitimadas indevidamente em nome de Jeus";
  • Comprometer-nos com as causas que defendem a casa comum, denunciando a instrumentalização de fé de Jesus Cristo que legitima a exploração e a destruição socioambiental;
  • Contribuir para superar as desigualdades;
  • animar o engajamento em ações concretas de amor ao próximo;
  • Promover a conversão para a cultura do amor, como forma de superar a cultura do ódio;
  • Estimular o diálogo e a convivência fraterna como experiências humanas irrenunciáveis, em meio a crenças, ideologias e concepções, em um mundo cada vez mais plural;
  • compartilhar experiências concretas de diálogo e convívio fraterno" (Ib. p.11)

Falando de "unidade na diversidade", nos referimos a todos aqueles/as que - embora diversos ou diferentes - estão comprometidos/as com o Projeto de Libertação e Vida (Projeto de um Mundo Novo), que à luz da fé, é o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo. Não nos referimos aos que são comprometidos/as com o Projeto de Opressão e de Morte, que é o Antirreino de Deus. Esses são nossos inimigos e a única maneira de amá-los é ser contra o seu Projeto de Opressão e Morte.

Jesus pede ao Pai pelos seus discípulos "para que todos sejam um" (Jo 17, 21), mas não pede para todos sejam um com Herodes e Pilatos. Aos discípulos, porém, que estavam "enciumados" por encontrarem pessoas que realizavam as mesma ovras deles sem serem do grupo, Jesus - com muita naturalidade - diz: " Quem não está contra nós, está a nosso favor" (Mc 9, 40).

Como de costume, a CFE 2021 vivencia o Método (Caminho) " ver, julgar, agir"  ("analisar, interpretar, libertar") e "celebrar". Ele "nos permite articular, de modo sistemático, a perspectiva cristã de ver a realidade; a assunção de critérios que provêm da fé e da razão ( ou seja, da razão iluminada pela fé) para seu discernimento e valorização com sentido crítico; e, em consequência, a projeção do agir como discípulos/as missionários/as de Jesus Cristo" (Documento de Aparecida - DA 19).

A CFE 2021 convida as Comunidades de fé a viverem a espiritualidade quaresmal, realizando o caminho de Emaús em quatro paradas:

  • Primeira: VER - "conversar sobre os acontecimentos mais recentes (fazendo, sobretudo, uma análise contextualizada e crítica da pandemia da Covid - 19) que marcam nossa história e observar se as alternativas e saídas que identificamos são opções coerentes com a Boa Nova do Evangelho".
  • Segunda: JUGAR - " a partir da inspiração bíblica, lançar luzes sobre o contexto histórico vivido por nós".
  • Terceira: AGIR - "as partir de experiências de boas práticas realizadas pelo CONIC, indicar exemplos que podem contribuir para derrubar os muros das divisões".
  • Quarta: CELEBRAR - "afirmar que a diversidade presente na Criação não é negativa, mas é a revelação da imensa e irrestrita amorosidade de Deus para com a humanidade" (Ib. p. 16-17. Leia e medite o Texto-Base).

Termino com as palavras da Oração da CFE - 2021: "Deus da vida, da justiça e do amor, nós Te bendizemos pelo dom da fraternidade e por concederes a graça de vivermos a comunhão na diversidade" (Ib, p. 82)






 

Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 10 de fevereiro de 2021


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Ser Igreja ministerial

    

"O Vaticano II faz-nos passar de uma Igreja-autoridade para uma Igreja serva, servidora, ministerial" (Dom Aloísio Lorscheider).

A passagem que o Concílio sonhou está acontecendo. A Igreja - sempre com avanços e recuos - já deu diversos passos nesse sentido, mas ainda tem um longo percurso a fazer para ser - no mundo de hoje - a Igreja que Jesus quis

A proposta de vida de Jesus de Nazaré é revolucionária. É uma proposta de amor radical. A igualdade, a justiça (a partilha) e a fraternidade (a vida de irmãos e irmãs) são os pilares dessa proposta. Não podemos permitir que ela seja farisaicamente deturpada, amenizada e instrumentalizada para defender os interesses dos poderosos.

Do ponto de vista histórico, surpreende e impressiona ver com que facilidade a Igreja consegue se adaptar às exigências de sistemas sociais desumanos e anticristãos, convivendo com eles e dando seu apoio pela ação ou pela omissão.

Como exemplo, basta lembrar o caso da escravidão no Brasil do século 19. A Igreja aceita e legitima - na sociedade e em suas estruturas internas - a instituição da escravidão. “Acaba confiando praticamente a catequese do negro ao próprio senhor de escravos e este paradoxo marcará a posição da Igreja no Brasil perante o escravo. Sua pastoral vai se orientar mais para o senhor do que para o escravo” (CEHILA. História da Igreja no Brasil, tomo II/2, Vocês, Petrópolis, 1980, p. 264).

A Igreja prega a submissão como sendo a virtude do escravo e a benevolência, a virtude do senhor. Que aberração! É essa a “opção pelos pobres”? A Igreja trai - total e radicalmente - o Evangelho de Jesus de Nazaré. Sem dúvidas, trata-se de uma das faces mais perversas e hipócritas do pecado estrutural da Igreja: uma verdadeira “situação de pecado” eclesial e, sobretudo, eclesiástica.

“Na história, não faltaram exemplos de padres (os profetas da época) que se insurgiram contra a legitimidade mesma da escravidão, mas estes foram implacavelmente afastados pelo poder religioso e temporal” (Ib. p. 265).


A Igreja na qual acreditamos - e que por ela lutamos - é a Igreja-comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus: Igreja pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres. Essa Igreja é - toda ela - servidora, ministerial.

Tradicionalmente, "na reflexão teológica e pastoral, têm-se distinguido (sem serem exclusivos) os seguintes grupos de ministérios: a) ministérios simplesmente 'reconhecidos' (às vezes, impropriamente, chamados ministérios 'de fato'), quando ligados a um serviço significativo para a comunidade, mas considerado não tão permanente, podendo vir a desaparecer, quando variarem as circunstâncias; b) ministérios 'confiados', quando conferidos ao seu portador por algum gesto litúrgico simples ou alguma forma canônica; c) ministérios 'instituídos' (leitores, acólitos), quando a função é conferida pela Igreja através de um rito chamado 'instituição'; d) ministérios 'ordenados' (também chamados apostólicos ou pastorais), quando os carisma é, ao mesmo tempo, reconhecido e conferido ao seu portador através de um sacramento específico, o sacramento da Ordem (diáconos, presbíteros ou padres, bispos), que visa a constituir os ministros da unidade da Igreja na fé e na caridade de modo que a Igreja se mantenha na tradição dos Apóstolos e, através deles, fiel a Jesus, ao seu Evangelho e à sua missão. O ministério ordenado, numa eclesiologia de totalidade e numa Igreja toda ministerial, não detém o monopólio (reparem: não detém o monopólio!) da ministerialidade da Igreja. Não é, pode-se dizer, a 'síntese dos ministérios', mas o 'ministério da síntese'" (CNBB. Missão e Ministérios dos cristãos Leigos e Leigas - 62m 1999, n. 87).

O ministério ordenado é o da coordenação (presidência) da Comunidade, na animação da vida fraterna (de irmãos e irmãs), no discernimento dos sinais dos tempos e no cumprimento de sua missão no mundo.

Para responder humana e cristãmente aos desafios da realidade, os ministérios poderão ser reformulados e - muitos deles - mudados, criando novos ministérios. Esperamos que, no chamado e no exercício de todos os ministérios, venham a ser reconhecidos - o quanto antes - direitos iguais aos homens e às mulheres, como aconteceu recentemente com os ministérios de leitores e acólitos.

Por fim, os ministérios - embora diferentes e de maior ou menor responsabilidade - têm o mesmo valor e a mesma importância. O que confere “qualidade” aos ministérios é o amor, a profundidade do amor. Meditemos o texto do Lava-pés: Jo 13,1-17.


Papa Francisco na Quinta-Feira Santa no cárcere “Regina Coeli” (2018)



Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 01 de janeiro de 2021

 

  O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/2021/01/27/ser-igreja-ministerial/

domingo, 31 de janeiro de 2021

Um Governo que mata por asfixia Fora Bolsonaro!

 

            

           

O caso de Manaus representa o mais alto grau da irresponsabilidade do Governo Bolsonaro: um Governo que deixa faltar oxigênio e mata as pessoas por asfixia, morrendo sufocadas. Não dá para acreditar que, em pleno século XXI, possa acontecer tamanha barbárie! Trata-se de uma perversidade e iniquidade diabólicas! Se o Governo Bolsonaro fosse minimamente sério, humano e ético - numa situação dramática como a de Manaus (que seria muito difícil acontecer) - imediatamente tudo passaria em segundo plano, a fim de garantir com urgência o oxigênio necessário para as pessoas puderem respirar e continuar vivendo

Diante da tragédia de Manaus - anunciada - e das que ainda poderão acontecer em outras regiões do Brasil - também anunciadas - o Governo mostra-se totalmente insensível e não toma nenhuma providência. É um descaso total!

“A rede pública de Saúde de Goiás - por exemplo - não entrou em colapso na primeira onda da pandemia de coronavírus em 2020 por conta da grande abertura de novos leitos em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e enfermaria. No entanto - alerta a rede - essa quantidade alta de novas vagas para a internação de pacientes com Covid-19 pode não se repetir na segunda onda em 2021” (O Popular, 22/01/21, p. 14)

Mesmo sabendo dessa realidade tão desumana, o Judiciário e o Legislativo - Câmara Federal e Senado - tornam-se coniventes com a criminalidade do Executivo. O Judiciário, pela inércia: nem fede e nem cheira; o Legislativo, pela ação ou omissão publicamente declaradas. É deplorável!

Reparem: “Parlamentares não veem motivo para o impeachment” (O Popular, 23 e 24/01/21, p. 4 - manchete). Dos senadores e deputados “a grande maioria não concorda que Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade ou acredita que não seja o momento para a ação” (Ib.).

O deputado Francisco Junior (PSD), por exemplo - que se diz cristão católico - afirma que o impeachment neste momento “não colabora em nada para o País” (Ib.). Pergunto: o que é que colabora para o País? Será que é a covardia e a conivência com a imoralidade pública dos deputados federais? Que absurdo!

Brasil tem mais de 215 mil mortes por Covid-19 (Goiás, mais de 7 mil). Isso não diz nada aos nossos parlamentares e aos nossos juízes?

Bolsonaro - só no que diz respeito à pandemia - cometeu, e continua cometendo; três grandes crimes:

  1. O crime de deboche. Desde o início da pandemia da Covid-19, Bolsonaro debochou - e continua debochando - com uma frieza incrível e um cinismo sádico - da gravidade da pandemia, contrariando o parecer dos cientistas e da Organização Mundial de Saúde (OMS).
  2. O crime de falta de planejamento. Bolsonaro não fez - e continua não fazendo - nenhum planejamento sério, com a assessoria de cientistas, de combate à pandemia e de distribuição da vacina. Tudo foi feito - e continua sendo feito - na base do “toma-lá-dá-cá”.
  3.  O crime de responsabilidade. Bolsonaro é responsável por milhares de mortes - todas as mortes por asfixia (falta de oxigênio) e muitas outras - que poderiam ter sido evitadas com um planejamento de enfrentamento da pandemia que seguisse as orientações dos cientistas e da OMS. Ora, Bolsonaro fez - e continua fazendo - “corpo mole”, demostrando total indiferença e matando pessoas humanas por asfixia
O próprio reitor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Sylvio Puga Ferreira - diante da trágica situação de Manaus - enviou um ofício à Justiça Federal pedindo que a União seja obrigada - por decisão judicial - a fornecer com urgência o oxigênio.

Felizmente, no Brasil inteiro e até fora do Brasil - mesmo diante da surdez dos deputados e senadores e da inércia dos juízes - nas manifestações e carreatas dos povo ecoa cada dia mais forte o grito: Fora Bolsonaro! Impeachment já! Vacinação já!

"Atrevo-me a dizer - declara o papa Francisco aos Movimentos Populares - que o futuro da  humanidade está, em grande medida, nas mãos de vocês, na capacidade de vocês se organizarem e promoverem alternativas criativas na busca diária dos '3 T' (trabalho, teto, terra), e também na participação de vocês como protagonistas nos grandes processos de mudança, regionais, nacionais e mundiais" (2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).

Que as palavras do nosso irmão Francisco nos animem, renovem a nossa esperança e nos fortaleçam na luta! Unidos e organizados, já somos vencedores!
      
       

                                                  https://jornalistaslivres.org/fora/

Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 25 de janeiro de 2021

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Uma fala irresponsável!

 


Depois de refletir muito sobre o assunto, senti a necessidade de manifestar publicamente a minha indignação - profundamente doída - de cidadão e de cristão católico diante da fala do padre Elenildo Pereira (da Canção Nova, na homilia da Missa do último dia 1º) contra o uso da vacina para combater a pandemia da Covid-19. 


Diz o padre: "Tá vindo aí revestido de coisa boa, chamada de vacina contra o coronavírus. Vindo revestido de uma coisa belíssima: proteção, saúde, salvar vidas. Cuidado que é só a capa, só a capa". Depois, percebendo (talvez) que poderia ser criminalizado - para amenizar sua fala - acrescenta: "Não tô dizendo que sou contra a vacina, não sou, sendo bem claro. Desde que passe por todos os testes possíveis e imagináveis. Todas as fases necessárias. Uma comprovação científica. Aí eu tomarei. Enquanto não houver comprovação científica, padre Elenildo não tomará vacina".


Pede, pois, uma resposta sobre o uso do medicamento ao Governo Federal. “Ministério da Saúde, que já comprou essa vacina me responda. Como eu compro um produto, sem comprovação científica, sem passar por todas as fases científicas e depois eu corro atrás da legalização? Dê um jeito. Mande um e-mail ou ligue para mim. Como se coloca em risco a vida das pessoas?”.


A fala de padre Elenildo é de uma irresponsabilidade inacreditável e inaceitável. Objetivamente falando (a consciência das pessoas só Deus julga), o padre cometeu duas faltas gravíssimas:


  1. Do ponto de vista social, a fala é criminosa por contribuir - e muito - com o aumento diário do número de doentes e de mortes por causa da pandemia do coronavírus.
  2. Do ponto de vista eclesial, é uma fala contra a comunhão, por “confrontar direta e desrespeitosamente” toda a Igreja, Povo de Deus (não: “toda a hierarquia”, como foi dito). Cidadãos e cidadãs, irmãos e irmãs, estamos pleiteando - e o mais rápido possível - a vacina contra a Covid - 19 como um direito de todos e de todas, a partir dos mais vulneráveis.

“Eu acredito que eticamente todo mundo deveria tomar a vacina. É uma opção ética  porque você aposta na saúde, na sua vida, mas também na vida dos outros” (Papa Francisco, 09/01/21). O papa foi vacinado contra a Covid-19 no dia 13 desse mês.


“Agora cabe a nós garantir que a vacina esteja disponível para todos, especialmente os mais vulneráveis. É uma questão de justiça. Devemos mostrar, de uma vez por todas, que somos uma única família humana” (Cardeal Peter Turkson, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral do Vaticano, 04/01/21).


“Não podemos nos render à indiferença de alguns, negacionismos de outros ou à tentação de nos aglomerarmos, permitindo que nos contaminemos e nos tornemos instrumentos de contaminação, sofrimento e morte de outras pessoas. Não deixemos que o cansaço e a desinformação nos levem a atitudes irresponsáveis. Sejamos fortes! Permaneçamos firmes” e que "a vacina seja para todos" (CNBB. 1º de janeiro/21).


“Prezado Povo de Deus, essa (a do padre Renildo) não é a posição da igreja no Brasil, dada pela CNBB. Procurem ler o pronunciamento da igreja, com as devidas orientações. Essas posições pessoais dividem, é um desserviço. Paz e vacina autorizada pelas autoridades sanitárias para todos” (Dom Joaquim Mol, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte - MG, e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB). 


Cristãos católicos e cristãs católicas sejamos uma Igreja em comunhão entre nós, em comunhão ecumênica com todos e todas que creem em Cristo e em comunhão macro ecumênica com todos os seres humanos e a Irmã Mãe Terra, nossa Casa Comum.


Meditemos! Unidos e unidas como família humana de irmãos e irmãs, exijamos nossos direitos! A vacina contra a Covid-19, pública e gratuita, é nosso direito!



Médico dando vacina a criança usando luvas Foto gratuita



Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 17 de janeiro de 2021


A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos