quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O Sonho Real vive! 15 anos de memória, resistência e luta



    16 de fevereiro de 2005: “14 mil pessoas são brutalmente despejadas da Ocupação Sonho Real, em Goiânia - GO, através da Operação Noturna Criminosa da Polícia Militar, provocando inclusive o assassinato de Pedro e Vagner” (Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2020). 
A data - por representar uma das piores barbáries humanas não só da história de Goiânia, mas também do Brasil e do mundo - entrou, há anos, no calendário latino-americano mundial, para que sua memória não seja esquecida e nunca mais se repita uma barbárie como essa. Fazer sua memória - ou seja, torna-la presente - fortalece a resistência e a luta do povo por seus direitos.
A desocupação ocorreu através da cinicamente chamada Operação Triunfo, que contou com a mobilização de 1,8 mil militares. A ação policial durou cerca de uma hora e trinta minutos e - pelo seu nível de maldade e crueldade - foi uma verdadeira operação de guerra nazista contra os pobres, que lutavam pelo direito sagrado à moradia digna. Durante o massacre, Pedro Nascimento da Silva, de 27 anos, e Wagner da Silva, de 20 anos, foram mortos a tiros. 40 pessoas foram feridas a bala (ficando uma paraplégica) e 800 foram detidas. Várias pessoas desapareceram e, por isso, levantou-se a suspeita de mais vítimas fatais não identificadas.
Antes da Operação Triunfo, a Polícia Militar realizou - de noite e por 10 dias - a também cinicamente chamada Operação Inquietação com o intuito de assustar os moradores (muitas crianças ficaram traumatizadas) e desmobilizá-los. Foram duas Operações diabólicas. Os responsáveis pela Operação Triunfo tiveram o descaramento de dizer - citando São Paulo - que os militares “combateram o bom combate”: uma verdadeira blasfêmia.
Após o despejo, durante a permanência dos Sem-Teto nos Ginásios e no Acampamento provisório, várias pessoas morreram por causa das condições insalubres de vida.
Não dá para entender como tamanha barbárie humana possa ser até hoje impune! Os assassinos não são somente os militares que atiraram em Pedro e Wagner, mas são - também e sobretudo - os responsáveis da Operação: o Governador do Estado, o Secretário da Segurança Pública e o Comandante da Polícia Militar da época.                    Lembrem-se: a justiça humana pode falhar, mas a divina nunca falha.
    A reportagem de O Popular “Desocupação completa 15 anos” (do dia 15 e 16 de fevereiro, p. 17-19) mostra claramente - apesar de reconhecer a boa vontade da jornalista - de que lado o Jornal está. No lugar de defender o direito humano à moradia digna para todos e para todas, dá um destaque especial aos que dizem que a Operação Triunfo reestabeleceu a justiça. Que justiça é essa!? Só pode ser a justiça dos demônios de hoje, dos quais os “coronéis urbanos” - que se enriquecem cada vez mais com a especulação imobiliária - fazem parte.
    Manchetes do Jornal: “Senti que a justiça foi feita” (Semy Hungria, advogado da família dos pretensos donos, que só de impostos territoriais deviam R$ 2.3 milhões). “Parque homenageia dono original da área”. “No ano passado, foi lançado pela Prefeitura de Goiânia o Parque Sebastião Julho de Aguiar, em homenagem ao proprietário original e situado na área em que antes houve a Ocupação”.  
Mesmo com o lançamento do Parque, a maior parte da área da ex-Ocupação Sonho Real continua sendo um matagal. Que vergonha para a cidade de Goiânia!
Renovo o meu pedido à população de Goiânia (ou que pretende morar em Goiânia): não comprem apartamentos na área da ex-Ocupação Sonho Real. É uma terra ensopada de sangue inocente, que - como já disse - só poderá ser resgatada da maldição divina se for utilizada em benefício dos pobres. 
Anália, viúva de Sebastião Júlio de Aguiar, morreu há três anos com 90 anos de idade; os três filhos também morreram. Que Deus tenha misericórdia! 
Parabéns ao “Instituto Memória e Resistência” e sua Equipe de Coordenação (Eronilde, Edna Maria, Vandete, Luis, David Lucas, Celina, Marília, Kênia) pelo caloroso Encontro de irmãos e irmãs realizado na Escola Municipal Renascer do Real Conquista, pela primeira exibição do “Cineclube 16 de fevereiro” (sobre o despejo da Ocupação Sonho Real e as atuais lutas do Real Conquista) e pelo Informativo “A periferia tem voz”.
Termino com palavras do Informativo: “O dia 16 de fevereiro será sempre lembrado e vivido como um dia de luto e de luta pelo Povo de Goiás. O Sonho Real vive!”.

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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 25 de fevereiro de 2020


sábado, 22 de fevereiro de 2020

Campanha da Fraternidade 2020: seu sentido



    A Campanha da Fraternidade “é um modo privilegiado pelo qual a Igreja no Brasil vivencia a Quaresma. Há mais de cinco décadas, ela anuncia a importância de não separar a conversão do serviço aos irmãos e irmãs, à sociedade e ao planeta, nossa Casa Comum. A cada ano um tema é destacado como sinal de que realmente necessitamos de conversão” (Texto-Base, Apresentação).  
O tema da Campanha da Fraternidade 2020 é: “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso”, e o lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34). 
A Campanha nos convida “a olhar de modo mais atento e detalhado para a vida” (Texto-Base, Ib.). Ora, “olhando transversalmente as diversas realidades”, a Campanha “nos interpela a respeito do sentido que estamos atribuindo à vida em suas diferentes dimensões: pessoal, comunitária, social e ecológica” (Ib.).
Pela Palavra de Deus “tudo foi criado e no faça-se! (Gn 1,3), quando tudo passou a existir, a vida divina foi irresistivelmente comunicada como um transbordamento do Amor Trinitário. Todos os seres animados e inanimados, como efusão do amor de Deus, foram criados por amor. Nada escapa ou está fora desse amor. Assim, Deus vem ao nosso encontro, pois quer ‘comunicar a sua própria vida divina aos seres humanos, criados livremente por ele, para fazer deles, no seu Filho único, filhos adotivos’ (Catecismo da Igreja Cat., 52). Essa comunicação de Deus nos permite conhecê-lo e amá-lo e, assim, participarmos da glória amorosa da Trindade Santa” (Texto-Base. 22). 
A vida “é um dom que recebemos de Deus e que somos chamados a partilhar em busca da plenitude” (Ib. 23). Que no tempo da Quaresma “possamos nos dispor a uma profunda conversão da cultura da morte para a cultura da vida” (Ib. 25). 
O objetivo geral da CF 2020 é: “Conscientizar, à luz da Palavra de Deus, para o sentido da vida como Dom e Compromisso, que se traduz em relações de mútuo cuidado entre as pessoas, na família, na comunidade, na sociedade e no planeta, nossa Casa Comum”. 
Os objetivos específicos são:
  • Apresentar o sentido de vida proposto por Jesus nos Evangelhos.
  • Propor a compaixão, a ternura e o cuidado como exigências fundamentais da vida para relações sociais mais humanas.
  • Fortalecer a cultura do encontro, da fraternidade e a revolução do cuidado como caminhos de superação da indiferença e da violência.
  • Promover e defender a vida, desde a fecundação até o seu fim natural, rumo à plenitude.
  • Despertar as famílias para a beleza do amor que gera continuamente vida nova.
  • Preparar os cristãos e as comunidades para anunciar, com o testemunho e as ações de mútuo cuidado, a vida plena do Reino de Deus.
  • Criar espaços nas comunidades para que, pelo Batismo, pela Crisma e pela Eucaristia, todos percebam, na fraternidade, a vida como Dom e Compromisso.
  • Despertar os jovens para o dom e a beleza da vida, motivando-lhes o engajamento em ações de cuidado mútuo, especialmente de outros jovens em situação de sofrimento e desesperança.
  • Valorizar, divulgar e fortalecer as inúmeras iniciativas já existentes em favor da vida.
  • Cuidar do planeta (a Mãe-Terra), nossa Casa Comum, comprometendo-se com a ecologia integral” (Ib. 25).
Acrescento - e destaco como sendo fundamental - mais um objetivo específico, que não se encontra no Texto-Base:   
  • Participar das lutas dos Movimentos Populares, Sindicatos de Trabalhadores, Partidos Políticos Populares e outras Organizações, para que - juntos e juntas - possamos dar passos concretos no caminho que leva à superação e à mudança do sistema capitalista neoliberal (ultraliberal): desordem estabelecida (institucionalizada, legalizada), sistema econômico iníquo, pecado social ou estrutural, pecado ecológico, pecado do mundo, reino do mal, antirreino de Deus.   
Hoje - que, graças ao desenvolvimento das ciências sociais, temos a possibilidade de conhecer “cientificamente” como funciona a sociedade - precisamos “ver, sentir compaixão e cuidar” dos irmãos e irmãs - caídos nas mãos de assaltantes - não somente nas relações pessoais ou interpessoais, mas - também e sobretudo - nas relações sociais ou estruturais, combatendo as causas da situação de injustiça, exclusão e descarte em que se encontra a maioria do nosso povo. 
Como exemplo de irmãos e irmãs caídos nas mãos do maior e mais perverso assaltante dos pobres, que é o sistema capitalista neoliberal - representado pelo Governo de Goiás - cito o despejo, em 16 de fevereiro de 2005, de 14 mil pessoas da Ocupação “Sonho Real” do Parque Oeste Industrial, em Goiânia.
(Retomarei o assunto no artigo - o próximo - sobre os 15 anos do despejo citado e - posteriormente - no artigo sobre a mensagem da CF2020).






Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 18 de fevereiro de 2020

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Frades Dominicanos no Brasil: uma tomada de posição profética

No dia 31 de janeiro deste ano - em Assembleia anual - os Frades Dominicanos no Brasil (Ordem dos Pregadores - Província Frei Bartolomeu de las Casas) divulgaram a Mensagem: “É assassino quem tira a vida dos pobres” (Eclo 34, 21-22).
     Diante da realidade sócio-econômico-político-ecológico-cultural do Brasil hoje, os Frades Dominicanos, comprometidos com a Verdade, tomam conjuntamente uma posição profética, colocando-se clara e destemidamente do lado dos pobres - excluídos e descartados - em sua defesa.
A Mensagem começa dizendo: “Hoje no Brasil, os Direitos Humanos vêm sendo violados, não como exceção, mas como rotina. Povos indígenas são ameaçados em seus direitos e seus territórios: várias lideranças indígenas foram assassinadas nos últimos meses, como os guajajaras Paulo, Firmino e Raimundo, no Maranhão. A Amazônia sofre violência, queimadas e devastação por mineradoras, garimpeiros, madeireiros e latifundiários. Neste chão, hoje entregue à ganância dos poderosos, posseiros e sem-terra, lideranças populares e defensores de direitos são equiparados a delinquentes e vilipendiados por um Estado que abriu mão de suas responsabilidades na efetivação das reformas agrária e urbana, e de políticas sociais inclusivas”. 
Continua afirmando: “Enquanto isso, permanecem impunes ecocídios mortíferos como em Mariana e Brumadinho, a reforma trabalhista estanca as possibilidades de se exigir condições dignas de trabalho, ao desarticular a legislação e dificultar o acesso à Justiça. Abre-se cada vez mais espaço para o trabalho precarizado, o desemprego e subemprego, e até a tolerância para o trabalho escravo”. 
Denuncia com firmeza: “Movidos por nefasta ideologia ultraliberal, os poderes públicos se omitem, entregando os indefesos à sua sorte e deixando os poderosos aos seus lucros. A cada minuto quatro mulheres em nosso país são agredidas. A esperança de vida para transexuais no Brasil não ultrapassa 35 anos. Mais de 100 mil pessoas vivem ao relento, pois se encontram em situação de rua. Metade da população brasileira não dispõe de saneamento, sendo exposta a muitas enfermidades, enquanto o sistema público de saúde se encontra sucateado. Crianças, jovens, adultos são mortos por balas ‘perdidas’”.  
E ainda: “Embora mais da metade da população brasileira seja formada por negros e pardos, fazendo de nosso país a segunda nação com maior contingente de negros do mundo, aqui esses nossos irmãos e irmãs - mais de 130 anos após a abolição da escravatura - sofrem preconceitos e discriminações em dose dupla: por serem negros e pobres”. 
Lembrando que “são muitas as pessoas caídas à beira da estrada”, a Mensagem nos desafia a todos e todas. “Como na parábola do ‘bom samaritano’ (Lc 10, 30-37), cada um de nós é desafiado a abrir o olho e tomar atitudes”. 
Levanta, pois, alguns questionamentos, que nos tocam profundamente: “Nós mesmos, como reagimos? Com aquela indiferença denunciada pelo Papa Francisco? Ou com aquela agressividade - para não dizer ódio - de quem destrata Direitos Humanos como ‘coisa de bandido’? Estaríamos dispostos a interromper a nossa rotina, desviar nosso caminho e nos colocarmos a serviço das vítimas de tantas injustiças? Afinal, a quem pretendemos ‘salvar’: a nós mesmos ou àqueles e àquelas que têm sido violentados, despejados, e assassinados, muitas vezes a mando ou com a anuência do Estado e do poder econômico, seu aliado?”. 
E conclui reafirmando o compromisso - uma verdadeira missão - dos Frades Dominicanos: “O compromisso com a defesa da vida e da promoção dos Direitos Humanos é prioridade para nós Frades Dominicanos no Brasil, consoante com nossas Constituições e as decisões dos nossos Capítulos, e coerente com o exemplo do padroeiro que identifica nossa Província: Frei Bartolomeu de las Casas. Como ele, levamos a sério essa advertência bíblica: ‘Quem tira a vida dos pobres é assassino. Mata o próximo quem lhe tira seus meios de vida, e derrama sangue quem priva o operário de seu salário’ (Eclo 34, 21-22)”.
Por fim, reafirma: “Discípulos de Jesus, a exemplo dos discípulos de Emaús, não queremos nos deixar abater e não pretendemos caminhar sozinhos. Daqui, de nossa Assembleia anual, impelidos pela urgência frente a tantas violações do direito, da dignidade e da justiça, lançamos um apelo a todas as pessoas de boa vontade: é hora de assumir destemidamente nosso compromisso com a defesa intransigente da vida, da diversidade e do planeta, nossa Casa Comum. Discípulos de um profeta assassinado, porém ressuscitado, proclamamos nossa fé na promessa de uma terra sem males e reafirmamos nosso compromisso de colocar nossa vida religiosa consagrada a serviço do Reino por Ele inaugurado”.
Como Frades Dominicanos, cuja utopia é o seguimento radical de Jesus de Nazaré - o maior revolucionário - nas pegadas de São Domingos, temos o direito de sonhar.  Ah, se toda a Igreja no Brasil assumisse - sem medo e sem ambiguidade - a posição profética dessa Mensagem, que é uma exigência do Evangelho! Com certeza, o Brasil seria outro!


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 11 de fevereiro de 2020
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sábado, 8 de fevereiro de 2020

Formandos 2019 da ESALQ/USP: um exemplo a ser seguido


   
Com seu testemunho - destemido e contundente - vocês renovam a nossa esperança e nos mostram que outra agricultura, outra sociedade e outro mundo são possíveis e necessários. 
Costuma-se dizer que hoje os jovens são acomodados e conservadores. Em parte, é verdade! Em cada momento histórico os jovens e as jovens vivem suas contradições.
Quero, porém, destacar nos jovens - sobretudo trabalhadores e estudantes - duas grandes qualidades. Primeira: sua presença marcante, aguerrida e organizada nas lutas dos Movimentos Sociais Populares (sobretudo Movimentos Estudantis), Sindicatos de Trabalhadores e Partidos Políticos Populares. Segunda: a perspicácia, a criatividade e a rapidez com que tomam suas decisões. 
Neste escrito, apresento - com breves comentários -  o caso dos formandos e formandas 2019 da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP), em Piracicaba - SP, amplamente divulgado nas redes sociais: um exemplo a ser seguido. 
Durval Dourado Neto é diretor da Escola desde 17 de janeiro de 2019. Por sua intromissão e pressão sobre os formandos e formandas, Tereza Cristina, Ministra da Agricultura, foi praticamente imposta como Paraninfa. 
    Ora, se os estudantes tivessem boicotado o evento, certamente teriam tido muitos problemas com sua formatura. Foram tão expertos que deram o troco no diretor e desbancaram a ministra-paraninfa no lugar e no momento certo. 
Em 14 de janeiro, Nara Perobelli (formanda em Gestão Ambiental) leu a Carta dos Formandos. Depois de saudar as pessoas presentes, começa dizendo: “Aqui na ESALQ nós passamos de 4 a 7 anos de nossas formações ouvindo, independentemente do curso que fazemos, sobre o agronegócio. Desde a administração, passando por ciência dos alimentos e engenharia florestal, todos entram em contato com esse universo”.
Sem medo e com objetividade, afirma: “De um agro que é pop, que é tech, que é tudo. Temos a certeza de que a senhora, ministra, e o governo Bolsonaro como um todo, representam, geram e reproduzem em seu projeto de país esse modelo. Um modelo que é a cara da bancada ruralista. Um projeto de governo fundamentado e sustentado no capital e na desigualdade”. Do ponto de vista ético - acrescento eu - trata-se de um projeto injusto, perverso e iníquo.
Nara continua: “(De um agro) que em 2019 gerou incêndios de proporções assustadoras; que prendeu e matou ambientalistas, indígenas, quilombolas, agricultores, mulheres, negros, lgbtqi+; que buscou silenciar cientistas, pesquisadores, professores e todos que com dados escancaravam os problemas trazidos pelo tipo de agricultura que vocês incentivam com palavras e dinheiro. Nós passamos de 4 a 7 anos aqui dentro ouvindo de muitos que essa era a única maneira possível de acabar com a fome no Brasil e no mundo. Ouvimos de muitos, mas não de todos”.
Declara, pois: “Hoje, segurando este microfone tenho o orgulho de representar quem entende, por meio da ciência, da ética, e do amor sem rótulos, que uma outra agricultura e modelo de sociedade são possíveis. Esse grupo de pessoas é formado por estudantes, professores e funcionários que fazem pesquisa e extensão”. 
Com clareza e firmeza denuncia: “Fundamentados na agroecologia nesta universidade, que é pública e que deve ser de todos e todas. Para este grupo do qual eu faço parte, é intragável que esta Escola, que se diz gloriosa, seja conivente com uma forma de produção e um projeto de país que se baseia no lucro, excluindo as pessoas do campo e as múltiplas funções da agricultura. Um governo que cerceia a ciência e a autonomia das universidades, que distorce informações, que não se propõe a ouvir as nossas vozes nas ruas, mas que suporta nos escutar por dois minutos em troca de publicidade e uma placa de homenagem”.
Por fim, conclui: “Não, não representa a nenhuma ou nenhum de nós uma paraninfa ou paraninfo que do alto cargo de liderança que possui, escolha fazer política dessa forma. Acreditamos, trabalhamos para isso e seguiremos na luta em direção a um sistema, que, como diz nossa sempre presente Ana Maria Primavesi, ‘não é para vender adubos e defensivos, mas para produzir bem e barato’”. 
Formandos e formandas, parabéns! É de jovens como vocês que o Brasil e o mundo precisam! (Fonte: https://www.viomundo.com.br/politica/formandos-da-usp-dao-o-troco-em-diretor-e-desbancam-ministra-paraninfa-nao-nos-representa-video.html

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Mensagem de estudantes da Esalq viraliza: carta lida diante de ministra de Bolsonaro repudia agronegócio que envenena o Brasil
Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 04 de fevereiro de 2020

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos