sábado, 30 de março de 2019

Uma “Reforma” da Previdência maquiavélica



Dia 22 do mês de março deste ano foi um Dia Nacional de Luta contra a “Reforma” (na realidade, a Antirreforma) da Previdência: uma prévia em preparação à Greve Geral - de resistência e de enfrentamento nacional - de todos os Trabalhadores e Trabalhadoras.
Em Goiânia - como no Brasil inteiro -  foram realizadas várias atividades. A principal foi uma grande carreata que iniciou às 8:30 horas em frente ao Estádio Serra Dourada, lugar de concentração de lideranças e outros representantes de Movimentos Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares, Comitês ou Fóruns de Defesa de Direitos Humanos. Conselhos de Direitos, Comunidades e Instituições Religiosas (como CRB, CEBs, CEBI, CPT) e outras Organizações Populares. A carreata - gritando palavras de ordem - passou ao lado do Paço Municipal, seguiu até a Praça Cívica, movimentou o Centro da cidade e encerrou em frente ao Centro Administrativo com muitas falas de denúncia, de indignação e de protesto contra a “Reforma”, que - com mentiras maldosas e interesseiras - pretende acabar com os poucos direitos que os trabalhadores e trabalhadoras conquistaram a duras penas e com muita luta.     
Tudo isso para que os ricos - banqueiros e grandes empresários capitalistas - fiquem cada vez mais ricos às custas dos pobres cada vez mais pobres. No Brasil, 5% da população detém a mesma riqueza dos demais 95% e 6 pessoas, a mesma riqueza dos 100 milhões mais pobres. Verdadeiro absurdo! Imperdoável pecado social!
A repercussão do Dia Nacional de Luta na mídia mostrou a força que os trabalhadores e trabalhadoras - unidos e organizados - têm (mesmo reconhecendo e respeitando suas diferenças).
“A Proposta de Emenda à Constituição (PEC 06/2019) que o Governo de Jair Bolsonaro (PSL) entregou ao Congresso Nacional é muito pior do que a de Temer (MDB), derrubada pelos trabalhadores e trabalhadoras por meio da Greve Geral de abril de 2017. O discurso do Governo, de que esse projeto de ‘Reforma’ tem por objetivo acabar com privilégios, é propaganda mentirosa. Ele não altera, por exemplo, os supersalários da Previdência, do Judiciário, do Legislativo e das Forças Armadas. Mas pretende reduzir de um salário mínimo para apenas R$ 400,00 o Benefício de Prestação Continuado (BPC).
Essa ‘Reforma’ quer retirar da Constituição Federal de 1988 o sistema de Seguridade Social, voltado para garantir Previdência, Saúde e Assistência Social aos trabalhadores e trabalhadoras. Todos e todas serão prejudicados: os que já estão aposentados; os que estão prestes a aposentar; e os que vão entrar no mercado de trabalho. Essa ‘extinção do direito à aposentadoria’, apresentada como ‘Reforma’, afetará os trabalhadores e trabalhadoras, seus filhos e netos” (Fórum Goiano Contra as Reformas da Previdência e Trabalhista. Jornal da Classe Trabalhadora - Ano 3 - Número 5 - Abril de 2019, p. 2).
Em outras palavras, a PEC 06/2019 quer a desconstitucionalização dos direitos e garantias da Seguridade Social e sua regulamentação por legislação complementar, mais fácil de ser manipulada e mudada de acordo com os interesses dos poderosos.
Dizem ainda que a Previdência é inviável. É mais uma mentira deslavada! Vejam - além do dinheiro desviado para pagar juros aos banqueiros - a dívida que as maiores empresas têm para com a Previdência e que ninguém cobra: “JBS: R$ 1,8 bilhão; Caixa Econômica Federal: R$ 549 milhões Bradesco: R$ 465 milhões; Mendes Júnior Engenharia: R$ 393 milhões; Vale: R$ 275 milhões; Viação Itapemirim: R$ 255 milhões; Banco do Brasil: R$ 208 milhões; Lojas Americanas: R$ 166 milhões; Ford: R$ 141 milhões; Pirelli: R$ 135 milhões; Oi: R$ 126 milhões; Banco Rural: R$ 124 milhões; ItalSpeed: R$ 122 milhões; Unimed Paulistana: R$ 119 milhões; Volkswagen: R$ 111 milhões. Total: R$ 4.989 bilhões” (Ib. p. 4).
A “Reforma” da Previdência é tão cruel, tão perversa e tão iníqua, que chega a ser diabólica e maquiavélica.  A PEC 06/2019 - por ser estruturalmente desumana e antiética - não tem condições de ser emendada, mas deve ser rejeitada no seu todo. É uma injustiça que clama diante de Deus.
O presidente - um mito-fantoche criado pela grande mídia para iludir o povo - está totalmente submisso aos interesses do sistema financeiro internacional. Quando hipocritamente afirma: “o Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”, na realidade ele quer dizer: o “Brasil dos ricos” acima de tudo e o “deus dinheiro” acima de todos. A vida dos trabalhadores e trabalhadoras é sacrificada ao “deus dinheiro”.
Diante desse total descaramento do Governo - que os trata como idiotas - os trabalhadores e trabalhadoras precisam com urgência se mobilizar, lutar e construir a Greve Geral (indicada para o mês de maio). A Greve Geral a ser construída é justa e Deus está do lado dos trabalhadores e trabalhadoras. “Eu vi a aflição do meu povo... Ouvi o seu clamor contra seus opressores e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-los...” (Ex 3,7-8).
Como cristão e religioso dominicano - seguidor de Jesus de Nazaré - termino o meu escrito com duas advertências. Ai dos deputados federais e senadores que se dizem católicos ou evangélicos e que - usando, de maneira oportunista e interesseira, o nome de Deus e do Evangelho para legitimar a injustiça - pretendem votar a favor da “Reforma” da Previdência! Eles são os Judas de hoje, que traem Jesus na pessoa dos trabalhadores e trabalhadoras, sobretudo dos mais pobres! Terão de prestar conta a Deus! Ai das Igrejas - Católica (Comunidades, Paróquias e Dioceses) ou Evangélicas - que, por omissão ou ação, são a favor da “Reforma” da Previdência! Elas são hoje “Igrejas de Pilatos”, que lavam as mãos, ou “Igrejas de Judas”, que (como os deputados federais e senadores acima mencionados) traem Jesus de Nazaré na pessoa dos trabalhadores e trabalhadoras, sobretudo dos mais pobres! Também, terão de prestar conta a Deus!
Pela revogação da “Reforma” trabalhista! Contra a “Reforma” da Previdência! Terra para quem nela vive e trabalha! Uma “outra” Política é possível e necessária! Lutemos por ela!

Dia Nacional de luta em defesa da Previdência – Acompanhe a cobertura em tempo real

2019 03 25 giro sintego

Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 28 de março de 2019

sábado, 23 de março de 2019

Total apoio e irrestrita solidariedade às heroínas do MST e MCP

     Na manhã do dia 13 do mês corrente cerca de 800 mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Movimento Camponês Popular (MCP) ocuparam a fazenda Agropastoril Dom Inácio, um dos latifúndios de João de “Deus”, em Anápolis - GO
     As manifestantes chegaram ao local em 13 ônibus. Vieram de Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A Ocupação conta com mulheres de toda a Região Centro-Oeste, mas apenas famílias do Estado de Goiás ficarão no Acampamento. “Nosso objetivo - dizem as mulheres - é ficar por tempo indeterminado. O local já está tenso por conta da chegada da polícia, mas vamos resistir. Nossa luta é pela vida de todas as mulheres”.
     As Trabalhadoras Sem Terra - verdadeiras heroínas - penduraram no pescoço placas com os nomes das vítimas e alegam que o território ocupado é fruto “do abuso, do estupro e da violência” do médium João Teixeira de Faria - conhecido como João de “Deus” - que está preso há quase três meses.
     A Ação faz parte da Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra, em comemoração do Dia Internacional da Mulher (8 de março).
     No dia 14, no Acampamento, denominado “Ocupação Marielle”, aconteceu, um Ato Público - com a presença de Movimentos Populares, Sindicatos, Partidos Políticos, Comitês ou Fóruns de defesa dos Direitos Humanos e outras Organizações Sociais Populares - em total apoio e irrestrita solidariedade às 800 mulheres do MST e do MCP, que denunciam as violências contra as mulheres e exigem que haja Reforma Agrária nas terras do médium abusador. 
     Eu, Frei Marcos (o autor destas linhas), Frei Carlinhos, Flávio e Edilene participamos do Ato em nome da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil.
     O Ato lembrou também o aniversário de um ano do assassinato da vereadora  Marielle Franco. A mística de abertura questionou: “quem mandou matar Marielle?”; e reafirmou: “seremos resistência nesse período que fere a vida das mulheres!". 
     Segundo uma das coordenadoras do Ato, o Movimento cobra respeito e seguranças às mulheres. “A cada duas horas uma mulher é vítima de feminicídio e outras tantas são violentadas e agredidas no Brasil. Mais de 500 mulheres já denunciaram assédio e estupro praticado por João de ‘Deus’ e o Estado vem fazendo pouco caso. A prova disso é que ele teve Habeas Corpus concedido ontem (dia 12 deste mês). Nós exigimos respeito e vamos resistir para conseguir nossos direitos”. 
     A Ação pede ainda que as vítimas do médium sejam indenizadas. “Esse e outros locais, dos quais ele (João de ‘Deus’) é dono, são fruto da violência. Essas terras têm de ser destinadas às vítimas que já passaram por tanto sofrimento”.    
     Além disso, o Movimento manifesta também contra a paralisação da Reforma Agrária, pede que o assassinato da vereadora Marielle Franco seja elucidado e reforça a luta contra a Reforma (ou melhor: Antirreforma) da Previdência.
     Trabalhadoras heroínas do MST e do MCP - como disse no Ato Público - a luta de vocês pela Terra - como também a luta de vocês pelo Trabalho e pelo Teto (moradia) - é um direito fundamental e sagrado. Faz parte dos 3 T de que fala o Papa Francisco: Terra, Trabalho e Teto (Moradia): direitos fundamentais de todo ser humano (e não somente de alguns). 
     Portanto, a luta de vocês é legítima, justa, ética e cristã. Todos os verdadeiros seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré estão do lado de vocês. A Igreja Católica (Comunidades, Paróquias e Dioceses) e as Igrejas Evangélicas que - por um grave pecado de omissão - não manifestam, em nome de sua consciência cidadã e do próprio Evangelho, seu apoio e sua solidariedade à luta de vocês, são Igrejas que traem Jesus de Nazaré na pessoa das trabalhadoras e trabalhadores e dos pobres em geral. São - podemos dizer - Igrejas de Judas e não Igrejas de Jesus de Nazaré.   
     Trabalhadoras heroínas, Deus está do lado de vocês, Deus luta com vocês! A vitória é de vocês! 
     As Liminares de reintegração de posse podem ser legais, mas são ilegítimas, injustas, antiéticas e anticristãs. Os juízes que expedem essas Liminares terão que prestar conta a Deus, que é o Juiz dos juízes.
     Chega de feminicídios! Chega de violências contra as mulheres! Não à Antirreforma da Previdência! Reforma Agrária Popular já! Viva as Trabalhadoras Sem Terra do MST e do MCP unidas! Estamos com vocês!
     (Logo que for possível, retomarei o assunto do artigo anterior - 4ª. parte)


Ocupação em latifúndio de João de “Deus” - Foto: Janelson Ferreira



Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
Goiânia, 20 de março de 2019





sábado, 16 de março de 2019

“A Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da convivência comum” (3ª parte)



Ahmad Al-Tayyeb e Francisco - em sua Declaração - continuam dizendo: “Nós, crentes em Deus, no encontro final com Ele e no Seu Julgamento - a partir da nossa responsabilidade religiosa e moral e através deste Documento - rogamos a nós mesmos e aos líderes do mundo inteiro, aos artífices da política internacional e da economia mundial, para se comprometer seriamente na difusão da tolerância, da convivência e da paz; para intervir, o mais breve possível, a fim de se impedir o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degradação ambiental e o declínio cultural e moral que o mundo vive atualmente”.
Os dois líderes religiosos fazem, pois, um apelo: “Dirigimo-nos aos intelectuais, aos filósofos, aos homens (e mulheres) de religião, aos artistas, aos operadores dos mass-media e aos homens (e mulheres) de cultura em todo o mundo, para que redescubram os valores da paz, da justiça, do bem, da beleza, da fraternidade humana e da convivência comum, para confirmar a importância destes valores como âncora de salvação para todos (e todas)  e procurar difundi-los por toda a parte”.
Acrescentam também: “Partindo de uma reflexão profunda sobre a nossa realidade contemporânea, apreciando os seus êxitos e vivendo as suas dores, os seus dramas e calamidades, esta Declaração acredita firmemente que, entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno, se contam uma consciência humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos, bem como o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas que divinizam o ser humano e colocam os valores mundanos e materiais no lugar dos princípios supremos e transcendentes”.
Declaram ainda: “Nós, embora reconhecendo os passos positivos que a nossa civilização moderna tem feito nos campos da ciência, da tecnologia, da medicina, da indústria e do bem-estar, particularmente nos países desenvolvidos, ressaltamos que,
juntamente com tais progressos históricos, grandes e apreciados, se verifica (reparem!) uma deterioração da ética, que condiciona a atividade internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade”.
     Quanta profundidade de análise, quanta clareza de ideias e quanta sensibilidade humana encontramos neste Documento!
Por fim, Ahmad Al-Tayyeb e Francisco fazem algumas constatações:
Primeira: “Tudo isto contribui para disseminar uma sensação geral de frustração, solidão e desespero, levando muitos a cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico ou então no integralismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego, arrastando assim outras pessoas a render-se a formas de dependência e autodestruição individual e coletiva”.
Segunda: “A história afirma que o extremismo religioso e nacional e a intolerância geraram no mundo, quer no Ocidente quer no Oriente, aquilo que se poderia chamar os sinais duma ‘terceira guerra mundial aos pedaços’; sinais que, em várias partes do mundo e em diferentes condições trágicas, começaram a mostrar o seu rosto cruel; situações de que não se sabe exatamente quantas vítimas, viúvas e órfãos produziram”.
Terceira: “Além disso, existem outras áreas que estão se tornando palco de novos conflitos, onde nascem focos de tensão e se acumulam armas e munições, numa situação mundial dominada pela incerteza, pela decepção e pelo medo do futuro e controlada por míopes interesses económicos”.
Quarta: “Afirmamos igualmente que as graves crises políticas, a injustiça e a falta duma distribuição equitativa dos recursos naturais - dos quais beneficia apenas uma minoria de ricos, em detrimento da maioria dos povos da terra - geraram, e continuam a fazê-lo, enormes quantidades de doentes, necessitados e mortos, causando crises letais de que são vítimas vários países, não obstante as riquezas naturais e os recursos das gerações jovens que os caracterizam. A respeito de tais crises que fazem morrer de fome milhões de crianças, já reduzidas a esqueletos humanos por causa da pobreza e da fome, reina (reparem novamente!) um inaceitável silêncio internacional”,
Esse “inaceitável silêncio internacional” não é um crime e um pecado de omissão gravíssimo? Pensemos!


Resultado de imagem para Imagens sobre o Documento da Fraternidade humana de Francisco e


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 13 de março de 2019

sexta-feira, 8 de março de 2019

Campanha da Fraternidade 2019 - As Políticas Públicas no modelo de sociedade capitalista neoliberal



     Para os que somos cristãos e cristãs, a Quaresma é um tempo de conversão e mudança de vida; um tempo forte de graças de Deus, que nos impele a viver - sempre mais intensa e radicalmente - a “vida nova” em Cristo na sociedade e no mundo de hoje.
    A Campanha da Fraternidade lembra-nos que todos e todas somos irmãos e irmãs em Cristo, filhos e filhas do mesmo Pai-Mãe. Por isso, todos e todas - na diversidade dos dons (carismas) e serviços (ministérios) - temos a mesma dignidade e o mesmo valor. Esse é o ideal de Jesus de Nazaré, esse é o nosso ideal.
     Ora, sem igualdade e sem justiça, a Fraternidade (ou Irmandade) é uma mentira e uma hipocrisia. Segundo a organização não-governamental britânica Oxfam, no mundo, 1% da população detém a mesma riqueza dos 99% restantes; 62 pessoas acumulam o equivalente à riqueza dos 50% mais pobres da população. No Brasil, 5% da população detém a mesma riqueza dos demais 95%; 6 pessoas concentram a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres (cerca metade da população do país).
Nessa realidade tão cruel e tão iniqua - que é o pecado social ou estrutural - como podemos dizer que somos de fato irmãos e irmãs? A única coisa que podemos dizer é que acreditamos no ideal de Jesus de Nazaré, que é um projeto de vida de Fraternidade (o Reino de Deus) e que estamos comprometidos com ele, lutando para que esse ideal se realize - cada vez mais - na história do ser humano e do mundo
    A Campanha da Fraternidade deste ano (CF19) tem como tema Fraternidade e Políticas Públicas e como lema, “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27).
     O objetivo da Campanha é: “Estimular a participação em Políticas Públicas, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja para fortalecer a cidadania e o bem comum, sinais de Fraternidade” (CF19. Texto-Base, p. 18).
     As Políticas Públicas - de Governo e de Estado - são “um conjunto de ações (ou programas de ações) a serem implementadas pelos gestores públicos, para promover o bem comum, na perspectiva dos mais pobres da sociedade” e “colocar em prática direitos que são previstos na Constituição Federal e em outras leis” (Ib. p. 19): leis municipais, estaduais e federais.
      Na Democracia Representativa e, sobretudo, na Democracia Participativa, os atores sociais das Políticas Públicas “podem ser indivíduos, grupos, movimentos sociais, partidos políticos, instituições religiosas, organizações públicas e privadas (a sociedade civil organizada). É na esfera pública (bem comum) que acontece a interação entre eles, mas também é onde ocorre os conflitos, as disputas, a cooperação e a negociação para confrontar ou apoiar a implementação de determinada Política Pública” (Ib. p. 37).
    Falar, pois, na implementação de Políticas Públicas sem falar do “chão” no qual essas Políticas Públicas são implementadas, é ter uma consciência ingênua (não crítica) da realidade. O “chão” das Políticas Públicas no Brasil (como em muitos outros países) é o modelo de sociedade capitalista neoliberal dominante, no qual vivemos. Nesse modelo de sociedade - estruturalmente desigual, injusto, desumano e anticristão (embora se fale muito o nome de Deus em vão para “naturalizar” e “legitimar” a perversidade desse modelo), as Políticas Públicas - sempre necessárias - são medidas “paliativas” e, ao mesmo tempo, “contraditórias”. Elas não resolvem os problemas sociais na raiz e em caráter permanente, mudando as estruturas (é por isso, que são “paliativas”). Mesmo assim, as Políticas Públicas, de um lado (o que é positivo) servem para “amenizar” e “aliviar” situações “pontuais” e “conjunturais” de injustiça e de violação dos Direitos Humanos; de outro lado (o que é negativo) são “concessões” (muitas vezes demagógicas, oportunistas e interesseiras) do Governo, que visam “agradar” o Povo (trabalhadores e trabalhadoras, e pobres em geral) para mantê-lo “alienado” da vida pública, para que não se revolte contra o Governo e para que continue votando nos políticos e governantes que defendem a manutenção e o fortalecimento do modelo de sociedade capitalista neoliberal dominante (é por isso, que são “contraditórias”).
     Diante dessa realidade, os Movimentos Sociais Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares, Conselhos de Direitos, Comitês ou Fóruns de defesa e promoção dos Direitos Humanos e outras Organizações Populares - juntamente com todos os e as que queremos um modelo de sociedade diferente e estruturalmente novo: a Sociedade do Bem Viver ou, à luz da fé, o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo - precisamos nos unir e nos organizar para lutar por Políticas Públicas que não somente aliviem situações “pontuais” e “conjunturais” de injustiça e violação dos Direitos Humanos, mas que também e sobretudo (a médio e longo prazo) abram caminhos para a mudança de estruturas e para a implantação do novo modelo de sociedade que tanto almejamos. Que assim seja!

https://i2.wp.com/portalkairos.org/wp-content/uploads/2019/02/cf2019-texto-base.png?resize=400%2C373&quality=100&strip=all&ssl=1




Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 06 de março de 2019

domingo, 3 de março de 2019

Em solidariedade aos Sem-Teto e em repúdio ao Governo do Estado de Goiás



   
Conforme foi amplamente divulgado nas redes sociais, na noite do dia 21 deste mês, por volta das 23:45 horas, a Polícia Militar do Estado de Goiás fez uma incursão no Acampamento Fidel Castro do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Setor Vera Cruz II, Goiânia - GO, causando terror e fazendo ameaças aos moradores e ao coordenador da Ocupação.
Quando um dos membros da Ocupação (líder do MTST) perguntou se a PM tinha um mandado judicial, o sargento e outro policial, foram à viatura, empunharam fuzis H47, voltaram e - em tom de ameaça - disseram: “aqui está o nosso mandado, fala alguma coisa de novo”. Que absurdo! Que desrespeito!
Pergunto: Por que uma ofensiva policial noturna (reparem: noturna!) tão arrogante e tão violenta? É um crime - um comportamento ilegal e antiético - que clama a Deus por justiça. O Governo do Estado de Goiás e os responsáveis diretos dessa operação militar devem ser processados e julgados. Chega de impunidade!
Muitos Movimentos Populares e outras Entidades da sociedade civil manifestaram - presencialmente ou por escrito - sua solidariedade aos Sem-Teto. O Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduíno - composto por mais de 90 Organizações - divulgou uma “Moção de Apoio” aos acampados, em condições extremamente vulneráveis, exigindo do Poder Público que cumpra sua função constitucional de garantir a todos/as segurança e proteção, além dos direitos básicos à saúde, educação, cultura, trabalho e moradia.
A Igreja (que somos todos os cristãos e cristãs) - através de seus maiores responsáveis - não pode deixar de denunciar profeticamente um fato como esse, tomando o lado dos pobres na defesa de seus direitos. Se não o fizer, com seu silêncio cometerá um grave pecado de omissão, deixará de ser a Igreja de Jesus de Nazaré e tornar-se-á a “Igreja de Pilatos”, que lava as mãos, ou a “Igreja de Judas”, que trai Jesus nos pobres. Pensemos!
O que aconteceu no Acampamento dos Sem-Teto do Setor Vera Cruz II e muitos outros fatos mostram claramente que o Governo do Estado de Goiás e o Governo Federal estão a serviço dos interesses financeiros do sistema capitalista neoliberal, que é um "sistema econômico iníquo" (CELAM. Documento de Aparecida - DA, 385) ou - em outras palavras - um "sistema nefasto", porque considera "o lucro como o motivo essencial do progresso econômico, a concorrência como lei suprema da economia, a propriedade privada dos bens de produção como um direito absoluto, sem limites nem obrigações correspondentes" (São Paulo VI. Desenvolvimento dos Povos - PP, 26). “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24).
“Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos... E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco”. Esse sistema “exclui, degrada e mata!”.
“Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que atinja também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença” (Papa Francisco. 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).
Lutemos por “outro mundo possível! Não tenhamos medo! Deus está do lado dos pobres! Unidos e organizados somos fortes! A vitória é nossa!
(No próximo artigo apresentarei o Tema da Campanha da Fraternidade 2019 com algumas reflexões. Em seguida, retomarei o conteúdo do Documento sobre “A Fraternidade Universal...”, com pequenos comentários. Devido ao tamanho menor dos artigos, as partes serão 6 e não 3 - como foi anunciado.  Depois disso, retomarei  também - embora não sempre na sequência -  a “Gotas de Medellín”).


https://i1.wp.com/tribunadoplanalto.com.br/wp-content/uploads/2017/03/P7-1-2.jpg?resize=696%2C392

P7-5 Família da Marinalva



Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 27 de fevereiro de 2019

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos