segunda-feira, 27 de abril de 2020

Credo da Juventude das CEBs - Uma luz na pandemia do coronavírus



O 10ª Encontro Continental das Comunidades Eclesiais de Base - CEBs, que aconteceu de 13 a 17 de setembro de 2016, na cidade de Luque - Paraguai, com o Lema “As CEBs Caminhando e o Reino Proclamando” - divulgou o “Credo da Juventude das CEBs”: uma verdadeira profissão de Fé dos Jovens - e nossa também - na Sociedade do Bem Viver e do Bem Conviver: o Reino de Deus acontecendo na história do ser humano e da Mãe Terra, nossa Casa Comum. Parabéns Juventude!
O Creio da Juventude das CEBs é uma luz no nosso caminho para que - juntas e juntos - possamos enfrentar e superar a pandemia do coronavírus (a Covid-19) e mudar totalmente a maneira de viver e conviver entre nós e com a Mãe Terra, nossa Casa Comum. 
Oremos o Credo:
  • “Não cremos que tenhamos que estar à espera. 
CREMOS que as/os jovens somos sujeitos transformadoras/as da realidade, lutando por espaços e construindo alternativas.
  • Não cremos nas fronteiras. 
CREMOS que somos filhas e filhos de uma Pátria Grande sem racismo, sem normas para amar, incluindo toda a diversidade sexual, mulheres, juventudes, povos originários, negras/os, minorias e todos os de baixo.
  • Não cremos em uma Igreja estática, patriarcal, clerical e hierárquica. 
CREMOS em uma comunidade integradora, inter-geracional, com voz própria. Cremos nesta Igreja em luta, ‘lançando sua sorte com os pobres da terra’, frente a um sistema capitalista dominante.
  • Não cremos em individualismos, em salvadores, ditadores nem golpistas.
CREMOS na construção comunitária e coletiva de lutas na conjuntura que acontece em Nossa América hoje.
  • Não cremos em um Deus castigador, que pune seu povo com a pobreza.
CREMOS em um Deus/Deusa que está presente nas diferentes experiências das comunidades: um Deus próximo, um Deus libertador e revolucionário, um Deus que é membro das CEBs, que trabalha e luta como Jesus de Nazaré”. 
A pandemia do coronavírus “nos revela que o modo como habitamos a Casa Comum é nocivo à sua natureza. A lição que nos transmite soa: é imperioso reformatar a nossa forma de viver sobre ela, enquanto planeta vivo. Ela está nos alertando que assim como estamos nos comportando não podemos continuar. Caso contrário a própria Terra irá se livrar de nós, seres excessivamente agressivos e maléficos ao sistema-vida” ((http://www.ihu.unisinos.br/597421-a-terra-se-defende-artigo-de-leonardo-boff).
Mesmo sendo Terra, uma porção da Terra, “começamos a saquear suas riquezas no solo, no subsolo, no ar, no mar e em todas as partes”. Buscamos “realizar um projeto ousado de acumular o mais possível bens materiais para o desfrute humano, na verdade, para a subporção poderosa e já rica da humanidade” (L. Boff, Ib.).
No Brasil, por exemplo, “cerca de 5% da população mais rica aufere 95% da renda nacional. Apenas 0,1% dos brasileiros mais ricos possuem 48% da riqueza do país” (Folha de S. Paulo, 20/03/20, p. A3).
Os nossos irmãos e irmãs indígenas afirmam: “Os danos à natureza preocupam-nos, de maneira muito direta e palpável, porque ‘somos água, ar, terra e vida do meio ambiente criado por Deus. Por conseguinte, pedimos que cessem os maus-tratos e o extermínio da Mãe Terra. A terra tem sangue e está sangrando, as multinacionais cortaram as veias da nossa Mãe Terra” (Papa Francisco. Querida Amazônia, 42).
Esquecemos que “atacando a Terra, atacamos a nós mesmos que somos Terra pensante” (L. Boff, Ib.). Ora, se somos Terra pensante, somos (ou, deveríamos ser) seres racionais, autoconscientes, responsáveis e amantes. 
A Terra é (ou, deveria ser) um Jardim. No processo da evolução, a “presença criadora” (“presença ontológica”) de Deus quis e quer o ser humano como parte da Terra-Jardim e, ao mesmo tempo, como Jardineiro, que cuida dela (e dele mesmo) com amor. Infelizmente, o ser humano não está cumprindo o seu papel de Jardineiro! A pandemia do coronavírus é uma alerta. Quem sabe, o ser humano reflita e se torne um bom Jardineiro! 
Precisamos mudar radicalmente (revolucionar) todos os critérios da convivência dos seres humanos entre si e com a nossa Mãe Terra. Precisamos criar um sistema de relações individuais e sociais (sócio-econômico-político-ecológico-culturais) alternativo ao sistema capitalista ultraneoliberal, estruturalmente iníquo, perverso, cruel, desumano, antiético e anticristão.
    “Seremos capazes de captar o sinal que o coronavírus nos está passando ou continuaremos fazendo mais do mesmo, ferindo a Terra e nos autoferindo no afã de enriquecer?” (L. Boff, Ib.). Sigamos a luz que o “Credo da Juventude das CEBs” nos oferece! Para os cristãos e cristãs, a esperança nunca morre!

Um homem entrega comida em um bairro isolado na cidade chinesa de Wuhan, epicentro do surto, em 23 de fevereiro.


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 22 de abril de 2020

sábado, 18 de abril de 2020

11º Encontro Continental das CEBs - Mensagem final



“Assumimos o objetivo de ressoar os clamores dos Pobres e da Terra, 
para recriar ministérios desafiadores no cuidado, proteção e defesa 
da vida digna e da Casa Comum” (Mensagem final)

A Mensagem começa dizendo: “Um legado transmitido por 40 anos (de articulação continental) nos reuniu em Guayaquil, Equador, de 9 a 12 de março de 2020, 225 mulheres e homens - que vivemos nossa fé nas Comunidades Eclesiais de Base - de 16 países da América Latina, Caribe e Estados Unidos. Somos animadores e animadoras de CEBs, que assumem diferentes ministérios em nossa Igreja, sempre querendo ser a pequena Igreja de Jesus, para estar lá onde os povos arriscam suas vidas”.  
Neste Encontro - continua - “assumimos o objetivo de ressoar os clamores dos Pobres e da Terra, para recriar ministérios desafiadores no cuidado, proteção e defesa da vida digna e da Casa Comum. Motivados pelo Papa Francisco e impulsionados por ‘Querida Amazônia’, fomos chamados a sonhar e profetizar, ser pessoas capazes de dar a vida pelo que amam, buscar novas maneiras de responder aos desafios atuais“.
Reconhecendo o clamor dos povos, a Mensagem afirma: “A América Latina clama em seus povos e territórios, saqueados, vítimas da pobreza estrutural, corrupção, desemprego, violência e migração; clama diante de uma estrutura eclesial que exclui mulheres, jovens e povos indígenas dos espaços de decisão; clama por uma Igreja Povo de Deus, para recuperar sua identidade comunitária original; clama pela ausência de cuidado ecológico”.
Declara também: “Hoje os trabalhadores mal conseguem se organizar a partir do andar mais baixo dos direitos, que é comer. Como CEBs, precisamos transformar a cultura da morte em uma cultura da vida, a cultura do descarte em uma cultura do encontro. As CEBs, sempre ligadas à história dos pobres, enfrentam obstáculos e desafios. Isso nos leva a assumir a sinodalidade, superando práticas autoritárias e modelos fechados, para ser uma Igreja que se apaixona, principalmente os jovens, por ter como método ver, julgar e agir, apostar no impulso de processos”.
Anuncia ainda: “O Sínodo da Amazônia é um compromisso do Papa Francisco de realizar uma conversão social, cultural, ecológica e eclesial. O ponto de partida é a escuta, falar com parrhesia, a presença e incidência decisiva de mulheres e povos indígenas, cuidar da Casa Comum, somar todas as experiências, adotar novas lógicas e linguagens, cuidar da vida, entender que os problemas são globais, que é indispensável anunciar e ter ardor missionário”.
Lembra-nos, pois: “Somos chamados a apostar em outros modelos de teologia, a partir da narrativa, ressoando a beleza desafiadora da fé de nossas Comunidades, em novas estratégias de comunicação que vão do pequeno e local ao universal e conseguem informar, influenciar, inspirar, impactar e influenciar”.
E continua: “Proclamamos com os jovens a necessidade de escutar uns aos outros a partir do diálogo intergeracional, caminhar juntos, criar empatia mútua, desaprender para aprender, um relacionamento circular, uma mudança de linguagem, valorizar os jovens, rever olhares e gerar espaços de participação.
Por fim, faz um apelo: “Reconheçamos que eu sou a Amazônia, que é necessária uma conversão ecológica e integral, que devemos potencializar, criar e expandir redes, articular a solidariedade e as lutas em uma só voz. Que devemos reapropriar o processo do Sínodo, conhecer, discernir e disseminar os documentos para aplicá-los à realidade social, mudar práticas concretas em nossa vida cotidiana e comunitária”. 
E um pedido: “Pedimos novos ministérios e práticas, e reconhecer aqueles que já estão presentes, que em nome de Deus ajudam a cuidar da Casa Comum, a economia popular, a saúde alternativa, a participação e a formação sociopolítica”.
Conclui, reafirmando a identidade das CEBs: “Somos CEBs para transformar o mundo no Reino de Deus, para saber o que nos permite viver, o que aprendemos através do sofrimento, viver o presente histórico, estar dispostos a aprender com o futuro. Como CEBs, no seguimento de Jesus, que escutamos, ressoamos, agimos, cuidamos, protegemos e defendemos, inspirados pelo Espírito que sopra dentro de nós, filhos e filhas do Único Pai-Mãe, continuemos, na companhia de Maria, nossa caminhada para o Reino”.
A Mensagem é tão clara e seu conteúdo é tão atual que não precisa de muitos comentários. Basta lê-la, meditá-la e vivê-la. Feliz Páscoa a todos e todas!

    Em tempo: Leia a Mensagem de Páscoa que o papa Francisco enviou aos Movimentos Populares, em: www.ihu.unisinos.br/597974-um-salario-universal-para-os-trabalhadores-mais-pobres-pede-o-papa-francisco-voces-sao-os-verdadeiros-poetas-sociais. (Voltarei sobre o assunto).
   
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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 15 de abril de 2020




quinta-feira, 2 de abril de 2020

1° Encontro Latino-americano de Juventudes das CEBs



“Qual é a Igreja e a sociedade que sonhamos?
O que precisamos fazer para tornar os sonhos realidade?”
(Jovens das CEBs)

Nos dias 7 e 8 de março deste ano de 2020, aconteceu o 1° Encontro Latino-americano de Juventudes das CEBs, na cidade de Guayaquil, Equador. Participaram 40 Jovens de 11 países.
O Encontro - uma novidade neste ano em que comemoramos 40 anos de caminhada continental das CEBs - foi considerado o primeiro passo do 11º Encontro Continental das CEBs, acontecido logo em seguida - 9 a12 de março - no mesmo lugar.
Para fazermos a memória desse 1ª Encontro, a jovem Gabriela Silva - do Regional Sul 2 da CNBB (Estado do Paraná) - vai nos guiar. Seguimos o seu apaixonante relato.
 O 1º dia de Encontro “começou com uma dinâmica que propunha em nós os despertares de todos os sentidos e a tomada de consciência dos corpos, dos contos e dos cantos como lugares de partilha da fé e da vida”.
Ao longo do dia, “as Juventudes de cada país presente apresentaram, através de um ‘stand’ as ações concretas que realizam em suas Comunidades por todo o Continente. Para nós, Juventude brasileira - à qual pertence também a Pastoral da Juventude - foi um espaço que nos permitiu partilhar a Campanha Nacional de Enfrentamento aos Ciclos de Violência Contra a Mulher: a nossa forma de agir concretamente frente à realidade patriarcal que gera opressão e morte para tantas mulheres”.
Em seguida, “fomos provocadas e provocados à olhar para essas realidades e ‘sentipensar’ juntas e juntos a partir de quatro lentes que nos propõe o Papa Francisco em sua encíclica ‘A Alegria do Evangelho’: 
  1. A unidade prevalece sobre o conflito. Somos chamadas e chamados a encarar os conflitos de frente e a superá-los através da unidade. Mas não uma unidade a qualquer custo, e sim uma unidade pluriforme que respeita toda a nossa diversidade.
  2. A realidade é mais importante que a ideia. É preciso olhar além do culto às ideias e permitir que a realidade agregue força e sentido aos nossos sonhos e ideais.
  3. O todo é superior à parte. O desafio se dá em lutar cotidianamente mantendo um olhar global, e saber equilibrar a nossa militância próxima e diária com o horizonte que se mostra ao longe.
  4. O tempo é superior ao espaço. É necessário gerar processos duradouros que ultrapassem a volatilidade de eventos e ações imediatas”.
Por fim, “as atividades oficiais do dia terminaram com o reconhecimento de jogos e atividades lúdicas como ferramentas de resistência e fé em nossa América e uma noite cultural que nos confirma que as artes de todos os países presentes são caminhos que geram unidade na pluralidade de idiomas, formas e culturas de nossa América Latina”. “Soy esta tierra, Soy esta gente, Soy mi memória, Y soy esta história”.
O 2º dia “começou com a canção: ‘Tece, tecedora, tua história e teu lutar’. Nesse dia 8 de março, dia de luta pela vida das mulheres, companheiras e companheiros jovens das CEBs de toda a América Latina deram juntas e juntos as mãos e dançaram uma ciranda, a nossa ciranda, pela vida de tantas mulheres que são diariamente violentadas e mortas sob o sistema patriarcal”. 
O caminho (método) desse segundo dia - levando em conta todos os clamores juvenis de nossa América levantados no dia anterior - “foi atrever-nos a sonhar. Qual é a Igreja e a sociedade que sonhamos? Cremos em uma Igreja acolhedora, inter-geracional? Uma Igreja missionária, libertadora, que seja pobre para os pobres? Uma Igreja comprometida com a luta do seu povo? Uma igreja-sociedade interligadas em vista do bem comum? (em quéchua: “Shuk shunkulla, shuk makilla, shuk yuyalla” - uma só força, um só pensamento, um só coração). Quais são os obstáculos que ainda impedem esse sonho? O fascismo, o capitalismo, o patriarcado, o individualismo? Os sistemas que só geram morte e dor? O clericalismo, o tradicionalismo, a hierarquia que
subjugam e deslegitimam o serviço missionário dos animadores, lideranças e membros de nossas Comunidades? A indiferença e a falta de empatia? A negligência com nossa Casa Comum e com os povos que primeiro habitaram a nossa ‘Abya Yala’?”.
    As/os Jovens sonham e buscam saídas - pistas concretas - para realizar os seus sonhos. Perguntam: “O que precisamos fazer para - finalmente - tornar os sonhos realidade?”. 
Respondem: “É necessário abraçarmos a fidelidade criativa para com o Projeto de Jesus. O Projeto de um Reino de justiça, de amor e de solidariedade, onde todas as
pessoas tem lugar. Não há tarefa mais urgente que tecer, junto ao nosso povo, as redes da justiça que nos sustentam, alinhavando a utopia com os fios dos nossos sonhos”.
    Concluem: “Para findar esse fim de semana intenso e com sabor de Comunidade, celebramos juntas e juntos a Missa Dominical ao redor do painel de sonhos que construímos como Juventudes das CEBs de nossa América. O coração canta a alegria de nos sabermos arte e parte do Novo Céu e da Nova Terra”.
    Parabéns, Jovens das CEBs, pelo seu testemunho! A fé e a garra de vocês renovam a nossa esperança e nos dão - desde já - a certeza da vitória!

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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 01 de abril de 2020
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos