sábado, 26 de setembro de 2020

Em defesa dos trabalhadores do serviço público

 


No dia 10 deste mês de setembro de 2020, as Redes Sociais divulgaram a “Nota de Esclarecimento dos servidores públicos concursados à população”. Trata-se de uma Nota que diz toda a verdade a respeito dos servidores públicos, desmascarando as artimanhas do Governo Federal.

A Nota começa lembrando-nos: “a desinformação é o princípio da dominação que os políticos têm sobre a população…”. 

Em seguida, responde às previsões do Governo Federal, na proposta de Reforma Administrativa - ou melhor - Antirreforma Administrativa (PEC 32/20).

O Governo Federal prevê: 

  • Acabar com férias de 60 dias. A Nota responde: “Servidor público não tem férias de 60 dias. Juiz tem. Mas juiz não está incluído na Reforma”.

  • O fim dos super salários. A Nota responde: “Servidor não tem super salário. Pelo contrário. Estamos sem reajuste há 6 anos. Juízes e políticos têm super salários. Mas eles não estão incluídos na Reforma”.

  • O fim da aposentadoria compulsória como forma de punição. A Nota responde: “Servidor, quando erra, não é aposentado. É demitido. Juízes são aposentados como punição. Mas juízes não estão incluídos na Reforma”. 

Depois dessas respostas, a Nota esclarece o sentido da “estabilidade”. “Ela impede que políticos pilantras encham o serviço público de ‘guardiões’, aspones, comissionados e assessores para assuntos alheios ao interesse público. Se o servidor público erra, ele é demitido. Os guardiões e aspones comissionados não. E estes ganham muito mais do que os servidores concursados”.

Fazendo a memória do trabalho dedicado dos servidores/as, a Nota acrescenta: “Quando você sofre um acidente, quem socorre você é um bombeiro, que é um servidor atingido pela Reforma. Quem leva você para o hospital é um motorista, também servidor. Quem opera você é uma equipe de servidores (médicos, enfermeiros, auxiliares, etc.). Quem protege você é um policial militar, civil e federal servidor. Quem educa seu filho é um professor servidor. Quem varre as ruas em que você anda é um gari servidor”.

A Nota continua relatando: “Quando você entra na justiça, quem processa o seu feito é um servidor. Muitas vezes, ele até sentencia no lugar do juiz e você nem sabe disso, porque o juiz tem de 3 a 4 assessores só para redigirem sentenças para ele”.

Por fim, declara: “Todos esses servidores são atingidos pela Reforma. Todos estão sem reajuste há anos. Todos trabalham para o Estado atender você, apesar dos políticos. E é contra eles que você se volta, porque os verdadeiros culpados - que ganham fortunas, empregam parentes, são aposentados quando roubam e tiram férias de 60 dias - convencem você com enorme facilidade de que o problema do Brasil é o servidor”. 

E ainda: “Vários servidores tiveram seus vencimentos congelados desde 2015; o 13° salário dos servidores municipais e estaduais foi parcelado em 2018 e 2019, e muitos ficaram meses sem receber qualquer remuneração. Mas em nenhum momento faltou dinheiro para pagar políticos e seus comissionados, nem pra fazer rachadinha”.

Com muito realismo, a Nota pergunta: “Você quer soluções?”. Responde: “Fácil:

  1. Vote melhor. Pare de reeleger bandidos.

  2. Fiscalize políticos ao invés de endeusá-los.

  3. Estude. Leia. Informe-se. Um cidadão desinformado é um campo fértil para políticos pilantras.

  4. Lute do lado certo. Você é um cidadão que depende de serviços públicos. Se você acha que o servidor concursado não presta bem este serviço, por que pensa que os guardiões apadrinhados fariam melhor?

  5. Já existem alternativas previstas em lei para os maus servidores. Todo ano, centenas são demitidos por errarem. Agora, veja quantos magistrados são demitidos e quantos políticos são cassados e depois se pergunte de novo onde está o problema e quem deveria ser atingido por esta Reforma covarde.

  6. Em todo lugar, há bons e maus profissionais. Ninguém defende mau servidor aqui. Queremos que haja uma Reforma justa. Se, mesmo depois de saber que os verdadeiros marajás e os que têm benesses não serão atingidos pela Reforma, você ainda continuar achando que o problema é o servidor, que estudou e disputou uma vaga em igualdade de condições com os concorrentes, sejam pobres ou ricos, então o problema não está no servidor; está em você” (https://asmetro.org.br/portalsn/2020/09/10/nota-de-esclarecimento-dos-servidores-publicos-concursados-a-populacao/).

Agradecemos aos servidores públicos por essa Nota tão esclarecedora e problematizadora. É uma questão de Direitos Humanos e de Justiça! 

Dia 30 desse mês de setembro é o “Dia Nacional de Lutas em defesa do serviço público e contra a Antirreforma Administrativa”. 

Informe-se sobre a programação do Dia em seu Estado e cidade. Participe!

“A vitória vem da luta, a luta vem da força e a força...da união” (ASMETRO - SN).


  



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Fórum Goiano em Defesa dos Direitos Humanos, da Democracia e da Soberania




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Andes - UFRGS        


Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 22 de setembro de 2020



sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Contra o racismo estrutural e individual ‘religioso’

 

 

Por racismo ou discriminação racial entende-se: “toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou resultado anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício em um mesmo plano (em igualdade de condição) de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública” (ONU. “Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial”. Parte I, art. 1º, 1965. Ratificada pelo Brasil em 1968).

O racismo é a discriminação “que tem por base um conjunto de julgamentos pré-concebidos que avaliam as pessoas de acordo com suas características físicas, em especial a cor da pele. Baseada na preconceituosa ideia de superioridade de certas etnias, tal forma de segregação está impregnada na sociedade brasileira e acontece nas mais diversas situações”.

A genética “comprovou que as diferenças icônicas das chamadas ‘raças’ humanas são características físicas superficiais, que dependem de parcela ínfima dos 35 mil genes estimados do genoma humano. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, expressa apenas quatro a seis genes”.

Segundo o geneticista Sérgio Pena: “O fato assim cientificamente comprovado da inexistência das ‘raças’ deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convicções e atitudes morais. Uma postura coerente e desejável seria a construção de uma sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja valorizada e celebrada. Temos de assimilar a noção de que a única divisão biologicamente coerente da espécie humana é em bilhões de indivíduos, e não em um punhado de ‘raças’” (https://www.altosertao.com.br/index.php/o-racismo-social/).

O racismo é, antes de tudo, estrutural ou sistêmico: social, econômico, político, ecológico (ou ambiental) e cultural. Integra o sistema capitalista neoliberal.

O racismo social - que se revela principalmente na gritante desigualdade entre ricos e pobres (em sua maioria, negros) - é um verdadeiro genocídio: “o extermínio deliberado de pessoas motivado por diferenças étnicas, nacionais, raciais, religiosas e, por vezes, sociopolíticas. No Brasil, ele é, sobretudo, resultado do racismo que estrutura o Estado e a própria sociedade, afeta a polícia, as empresas, as instituições políticas e a população como um todo”.

No Brasil - com mais de 110 milhões de afrodescendentes - “a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado. Cerca de 71% das pessoas assassinadas são negras. Pessoas negras são 2,5 vezes mais vítimas de armas de fogo do que pessoas brancas. Mais de 75% dos mortos pelas polícias brasileiras são negros. Entre 2016 e 2017, o número de quilombolas assassinados cresceu 350%. No Rio de Janeiro, entre 2012 e 2015, 71% dos ataques religiosos registrados foram contra religiões afro-brasileiras”. São dados alarmantes! 

As TVs, rádios, jornais e internet “noticiam o homicídio de pessoas negras como casos pontuais, deixa-se de informar o contexto e a gravidade do que temos vivido coletivamente. Genocídio é uma palavra forte. Utilizá-la é um passo importante para que a sociedade e os órgãos públicos reconheçam a realidade das pessoas negras no Brasil. E defendam que a negritude, em sua humanidade, tem direito à vida” (Plataforma da Campanha “Coalizão Negra por Direitos”, em: https://www.alvosdogenocidio.org/).

O racismo econômico, “se compararmos o capitalismo a um prédio, é parte da estrutura fundamental, que garante sua sustentação. Nessa alegoria, os economistas vistoriam e projetam reformas circunstanciais, passando ao largo de sua estrutura”. 

É preciso entender que “o racismo se liga a tudo o que tange o saber econômico. Da taxa de câmbio à superação do subdesenvolvimento, o debate sobre o racismo não pode mais estar ausente. Os economistas brancos não devem se manifestar só quando explodem tensões raciais. É hora de superar referenciais teóricos insuficientes para compreender o racismo como estrutura do sistema econômico vigente”. 

É preciso também “romper com a herança da escravidão e do colonialismo que os favorecem, com a ideologia de raça da branquitude que se expressa nas teorias e na organização das instituições que lideram” (Marcela Darido e Nathan Santos. Quem tratará o racismo como tema fundamental na economia? Folha de S. Paulo, 03/09/20, p. A3). 

O racismo político revela-se na pequena porcentagem de negros parlamentares (vereadores, deputados e senadores) e no número muito reduzido de negros em cargos de responsabilidade no Judiciário, no Legislativo e no Executivo.

No racismo ecológico ou ambiental - praticado contra a Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum - os negros (e os indígenas) são os mais prejudicados. No racismo cultural, a cultura dos brancos é considerada superior à cultura dos negros (e dos indígenas). 

Nessa estrutura, o racismo é também individual e de grupos ou instituições (racismo institucional). Ele manifesta-se nas atitudes (às vezes silenciosas ou mascaradas em brincadeiras), interesses, pensamentos das pessoas ou instituições e nos estereótipos. Ele é gerado pelo racismo estrutural e, ao mesmo tempo, o fortalece. 

Infelizmente, o racismo estrutural e individual é, pois, racismo ‘religioso’. Por que - num país de maioria negra como o Brasil - há ainda, na Igreja Católica, um número tão reduzido de bispos e padres negros, de ministros e agentes de pastoral negros e negras; e, nas igrejas Evangélicas, de pastores negros e negras? Quantas Comunidades cristãs (católicas ou evangélicas), Pastorais e Movimentos eclesiais - em suas orações, celebrações e manifestações - legitimam e fortalecem, consciente ou inconscientemente, a prática do racismo! 

Entre os muitos que poderiam ser lembrados, cito só um exemplo: a chamada “Quaresma de São Miguel Arcanjo” da Associação Servos de Deus em Goiânia, que está sendo celebrada, diariamente, entre os dias 15 de agosto e 29 de setembro, dia da Festa de São Miguel.  Vejam, no final deste escrito, a capa do folder com a programação da prática religiosa: São Miguel Arcanjo - representado por um homem branco (jovem bonito) - pisa, com a espada levantada, em cima do demônio - representado por um homem negro. Se, na imagem, São Miguel é branco, o demônio também devia ser branco (e vice-versa). Na Oração inicial lemos: “São Miguel Arcanjo (homem branco), defendei-nos no combate, sede nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demônio (homem negro). 

E o ditado “é negro, mas de alma branca”, não é totalmente racista e ofensivo? Quantas expressões racistas que nós usamos sem saber! (Cf. https://www.geledes.org.br/18-expressoes-racistas-que-voce-usa-sem-saber/). 

No Brasil, o racismo é considerado crime desde o ano de 1989, com a promulgação da Lei Nº 7.716, de 05 de janeiro de 1989. 

Contra o racismo estrutural e individual ‘religioso’. Antirracismo sempre! Vidas negras valem! Todas as vidas valem! 



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Faixa com os dizeres: "Não Consigo respirar" pendurada no viaduto do chá em São Paulo

Portal Geledés


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 15 de setembro de 2020


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Todo despejo é injusto!


Todo despejo de pessoas e famílias (muitas vezes, com crianças pequenas) de suas moradias em Ocupações é desumano, injusto e antiético (imoral), mesmo que os mandantes do despejo tenham a liminar da “Justiça” (ou, da “Injustiça”). A própria palavra “despejo” é depreciativa e ofensiva. Pessoas e famílias não se despejam como se fossem um caminhão de lixo.  Ora, os despejos realizados em época de pandemia do novo coronavírus (a Covid 19), são muito mais graves ainda, são de uma perversidade inconcebível. 

O meu juízo ético é, antes de tudo, um juízo racional, um juízo filosófico (todo ser humano - de alguma forma e no seu contexto cultural - é filósofo). É também um juízo racional iluminado pela fé cristã, um juízo teológico (todo ser humano cristão - de alguma forma e no seu contexto cultural - é também teólogo).

Concretamente, trata-se de um juízo ético de um ser humano cristão, seguidor de Jesus de Nazaré, que - além de ter longa experiência no trabalho de base, nas Comunidades Eclesiais, nos Movimentos Populares e nos Fóruns ou Comitês de defesa dos Direitos Humanos e da Justiça e Paz - foi também, por muitos anos, professor de Ética e outras disciplinas filosóficas na Universidade Federal de Goiás - UFG (com doutorado em Filosofia pela USP) e professor de Teologia Moral (ou Ética teológica) em Institutos de Teologia (com doutorado em Teologia Moral pela Pontifícia Faculdade de Teologia da Assunção  de São Paulo).

Na teoria, os juízes não falam de “despejo”, mas de “reintegração de posse”. Na prática, porém, trata-se sempre de verdadeiros “despejos”, na maioria das vezes, acompanhados de muita violência policial e de muita barbárie. As pessoas e famílias são jogadas nas ruas sem saber para onde ir. Quanta crueldade! Quanta desumanidade!

Lembro o caso da Ocupação “Sonho Real” no Parque Oeste Industrial, em Goiânia, que vivi e acompanhei de perto. 

Em 16 de fevereiro de 2005 - depois de assustar, de madrugada e por dez dias, os moradores da Ocupação (as crianças ficaram traumatizadas) com bombas chamadas, hipocritamente, “de efeito moral” (Operação Inquietação) - em pouco mais de uma hora e meia, cerca de 14 mil pessoas foram jogadas na rua da maneira mais perversa possível (resultado: dois mortos, um paraplégico, muitas pessoas feridas e desaparecidas). Uma verdadeira operação de guerra: a pior barbárie de toda a história de Goiânia (Operação Triunfo). 

Depois de tanta maldade, os mandantes e responsáveis da Operação tiveram o despudor de dizer que os militares “combateram o bom combate”. Infelizmente, esses mandantes e responsáveis continuam impunes até hoje, mas - com certeza - não escaparão da Justiça de Deus. Aguardem!

Aos juízes, que em suas injustas liminares, falam em “reintegração de posse”, lembro o que dizia (ainda na Idade Média) o filósofo e teólogo dominicano Santo Tomás de Aquino: a destinação dos bens para o uso (diríamos hoje: para o “bem-viver”) de todos os seres humanos é um Direito primário e a posse, um Direito secundário. Quando o Direito secundário impede o acesso ao Direito primário, ele é injusto e antiético. 

O papa Francisco lembra-nos que os Direitos à Terra, ao Teto (Moradia) e ao Trabalho (os três T) são Direitos fundamentais de todo ser humano, são Direitos sagrados.

No dia 23 de agosto passado, sobretudo tendo presente o despejo de famílias de suas moradias durante a pandemia do novo coronavírus (a Covid 19), um coletivo 

de mais de 40 Entidades, Organizações e Movimentos Sociais Populares - unidos “em ato político e cultural pela proteção à cidadania” - lançaram a “Campanha Despejo Zero - Pela Vida no Campo e na Cidade”.  “Parem os Despejos! Em Defesa das Famílias sem Teto e sem Terra”.

O relator de moradia da ONU pede que o Brasil pare com despejos. Silvio Netto (da direção nacional do MST) ressalta que, diante da pandemia, o despejo é um ato criminoso. "Despejo é um crime de guerra, é um crime contra a humanidade neste momento. Quem praticar, seja juiz, governador, presidente da república, vai entrar para a história como um genocida. Nós não vamos vacilar em momento nenhum em fazer essa denúncia".

A Campanha ressalta que os despejos - quase sempre com uso da força policial - prejudicam diretamente as políticas de isolamento social. “O isolamento social e a higienização constante são as medidas comprovadamente mais eficazes contra o avanço da pandemia, mas estas medidas são negadas a boa parte da população, que não tem garantido o direito à moradia digna".

Alguns casos: “Em Pelotas (RS), despejo deixa 63 famílias desalojadas em plena pandemia da Covid-19”. "Eu me senti um lixo, relata catadora de Comunidade removida no DF em plena pandemia”. “Pandemia atrasa respostas para moradores despejados do ‘Prédio da Caixa’, em Niterói”. No acampamento “Quilombo do Campo Grande”, em Campo do Meio, sul de Minas Gerais, a Polícia Militar chegou com um veículo blindado e policiais passaram a disparar bombas de gás lacrimogêneo contra as 450 famílias que resistiam ao despejo. Quanta barbárie!

A Campanha destaca também que, diante da situação no campo, "se faz necessário avançar na demarcação e respeito aos territórios indígenas e quilombolas, em seus costumes e tradições".

“Além do MST, aderiram à Campanha, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), a Confederação Nacional das Associações de Moradores, a Central dos Movimentos Populares (CMP), a União dos Movimentos de Moradia (UMN) e o Movimento Nacional de Luta por Moradia”.

O meu total apoio à Campanha. Chega de tanta iniquidade!

(Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2020/07/23/movimentos-lancam-campanha-despejo-zero-por-protecao-a-moradia-em-meio-a-pandemia).

(Cf. também: https://www.cut.org.br/noticias/pm-de-zema-avanca-sobre-familias-sem-terra-que-resistem-a-despejo-de49).


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Grito dos Excluídos/as 2020 (Goiás)



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Brasil de Fato



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CUT



Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 08 de setembro de 2020


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Basta de Miséria, Preconceito e Repressão!


O Grito dos Excluídos e Excluídas - desde a sua 1ª edição - tem como tema geral: “Vida em primeiro lugar”. Para perseguir essa meta, o 26º Grito 2020 propõe como tema específico: “Basta de Miséria, Preconceito e Repressão!” e como lema: “Queremos Terra, Trabalho, Teto e Participação!”. O Grito, é uma manifestação nacional, que acontece na primeira semana de setembro e - de acordo com a programação de cada Estado ou cidade - tem o seu ponto alto no dia 7, “dia da pátria”. Pretende ser um espaço aberto para:

  1. Dar voz e vez aos que não têm voz e não têm vez: os Excluídos e Excluídas ou - como diz o papa Francisco - os Descartados e Descartadas da sociedade capitalista ultra neoliberal de hoje.

  2. Dar visibilidade à unidade dos Movimentos Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Centrais Sindicais, Fóruns ou Comitês de Direitos Humanos e de todas as Organizações Populares - inclusive religiosas como CEBs, Pastorais socioambientais e outras - que lutam ao lado dos Excluídos e Excluídas - por um mundo e um Brasil novos.

  3. Fortalecer as lutas específicas de cada Movimento, Sindicato ou Organização Popular. 

Os Objetivos do 26º Grito 2020, são - para todos e todas nós - um programa de vida e de compromisso com os Excluídos e Excluídas. Vejamos: 

- “Discutir com a sociedade o atual momento que vivemos no Brasil e no mundo, denunciando as estruturas opressoras e excludentes e as injustiças cometidas pelo sistema capitalista.

- Refletir coletivamente que este modelo de “desenvolvimento”, baseado no lucro e na acumulação privada, não serve para o povo, porque destrói e mata.

- Promover espaços de diálogo e troca de experiências para construir as lutas e a mudança, através da organização, mobilização e resistência popular. 

- Lutar contra a privatização dos recursos naturais, bens comuns e contra as reformas que retiram direitos dos trabalhadores e trabalhadoras.

- Ocupar os espaços públicos e exigir do Estado a garantia e a universalização dos direitos básicos.

- Promover a vida e anunciar a esperança de um mundo justo, com ações organizadas a fim de construir um novo projeto de sociedade.

- Realizar mutirões em defesa da vida, por terra, teto e trabalho.

- Motivar as Comunidades, Movimentos Populares e Governos locais a se empenharem na construção de um novo pacto econômico, a partir do chamado do Papa para a Economia de Francisco.

- Fortalecer o mutirão da 6ª Semana Social Brasileira” (abril 2020 - julho 2022).

Esses objetivos giram em torno de três eixos: “Miséria, Preconceito e Repressão”. O Brasil “tem mais de 13 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, que sobrevivem com até R$ 145,00 mensais. Esses números vêm crescendo desde 2015, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa miséria é visível em todo país, sobretudo nas grandes cidades, dos centros às periferias, com destaque nas regiões norte e nordeste, atingindo principalmente a população negra e com baixa escolaridade”. 

A situação de miséria “dói não apenas na fome ou na saúde, mas sangra profundamente a alma, o sentimento mais profundo e por vezes invisível, por conta do preconceito racial, territorial e de gênero. Uma cultura que ainda carrega resquícios fortes da escravidão, expressa na população pobre, encarcerada, nas manifestações de conservadorismo da população branca que se posiciona contrário às questões raciais, ou mesmo na violência contra as religiões de matrizes africanas”. 

As pessoas “que moram nas favelas, comunidades, ocupações, periferias e bairros, em que a mídia acentua a violência, são rotuladas com preconceitos destruidores. Jovens que precisam omitir seu endereço em currículos para que sejam chamados/as para entrevistas de emprego; ou mesmo apresentar ‘ficha de antecedentes criminais’ durante os processos seletivos para uma vaga de trabalho”.

O preconceito de gênero - “vai do feminicídio a uma menor remuneração das mulheres” (que são sempre minoria nas funções de direção das organizações) e é “uma das principais causas de assassinato e suicídios de pessoas LGBT(s), sobretudo de transexuais excluídos/as ou com acesso restrito ao mercado de trabalho”. 

Ora, “para conter a reação dos miseráveis, ou daqueles/as que defendem a superação da desigualdade social e do preconceito, a repressão do Estado é avassaladora. Nas periferias do Brasil o sistema repressor, por meio da polícia, é a única presença do Estado”.  

Os fatos falam por si mesmos. Lembremos alguns: “A chacina de Paraisópolis-SP, em que a PM matou nove adolescentes e jovens, entre 14 e 23 anos, que voltavam de um baile funk, na madrugada do 1º de dezembro de 2019. Somente no Rio de Janeiro, Estado com 17 milhões de habitantes, em 2019, houve 1.810 mortes pela polícia do Estado”.

“A repressão às organizações e manifestações populares. Em greves de professores, de estudantes, trabalhadores em geral, a PM tem agido com violência letal, com tiros, bombas, gás lacrimogêneo, sem qualquer respeito ao direito das pessoas de se manifestarem pacificamente”. 

Também “a repressão aos povos do campo: indígenas, comunidades tradicionais, trabalhadores/as sem terras que são despejados, têm suas plantações arrancadas, casas destruídas com retroescavadeiras, armas apontadas para mulheres, crianças, idosos/as, sem a menor consideração à prioridade por lei”. 

Neste ano de 2020, a pandemia do novo coronavírus (COVID-19) expôs e agravou a situação de miséria e desigualdade social: uma imoralidade pública institucionalizada, um verdadeiro pecado estrutural, que clama a Deus por justiça.

 (Fonte: Jornal “Grito dos/as Excluídos/as, Ano 26, Número 73, Maio/Junho 2020).

Leia a “Carta de Apoio ao Grito dos Excluídos e Excluídas” da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotransformadora da CNBB  (em: https://www.gritodosexcluidos.com/cartacnbb). 

Infelizmente - temos que denunciar isso - muitas Comunidades, Paróquias e Dioceses ou Arquidioceses (como a Arquidiocese de Goiânia, que - no passado - foi um exemplo de compromisso com a justiça) nem tomaram conhecimento da Carta da CNBB e nem a divulgaram. Graças a Deus, não foram todas e algumas delas se comprometeram de corpo e alma com os objetivos do Grito.

Na conjuntura atual do Brasil e do mundo, o silêncio é um pecado de omissão muito grave: um crime. Trata-se de conivência - direta ou indireta - com a imoralidade pública institucionalizada: uma verdadeira traição de Jesus na pessoa dos pobres. Os “maus pastores” - responsáveis por tudo isso - terão que prestar conta a Deus

Leia também a Nota - muito esclarecedora -  da “Coordenação do Grito dos Excluídos e Excluídas” em Goiás e do “Fórum Goiano de Defesa dos Direitos, da Democracia e da Soberania”.

(em: https://www.facebook.com/forumgoianoemdefesa/posts/318890732778890).

Leia ainda a Nota de Repúdio conjunta do mesmo “Fórum Goiano” e do “Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduíno” 

(em: https://www.facebook.com/forumgoianoemdefesa/posts/316817809652849). 


Por fim, diante dessa realidade perversa e iníqua, nós - sobretudo cristãos e cristãs - não temos o direito de perder a esperança. A luta continua e a vitória é nossa!

Participe da Live (atividade online) do dia 07/09, a partir das 19 horas, de encerramento do Grito (em: https://www.facebook.com/forumgoianoemdefesa).



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Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)

Professor aposentado de Filosofia da UFG

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Goiânia, 01 de setembro de 2020

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos