sábado, 21 de dezembro de 2019

O Natal de Jesus tem lado


O Natal - e toda a vida de Jesus - tem lado, o dos pobres: os oprimidos, os excluídos, os descartados e todos aqueles e aquelas que - na sociedade - não têm voz e vez. Desde o nascimento até a morte na cruz. Jesus sempre se identificou e solidarizou com os pobres. 
Ainda no seio de sua mãe Maria, Jesus foi “morador de rua”. Para cumprir o decreto de recenseamento, ordenado pelo imperador Augusto, “José, que era da família e descendência de Davi, subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida” (Lc 2,4-5). Maria - antes de encontrar um estábulo para dar à luz - deve ter perambulado e dormido, com seu esposo José, nas ruas de Belém.
    Jesus nasceu como “sem-teto”. Enquanto Maria e José estavam em Belém, “completaram-se os dias para o parto. Ela deu à luz seu filho primogênito. Envolveu-o em panos e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles dentro da casa” (Ib. 2,6-7).
     Jesus anunciou a Boa Notícia do seu nascimento aos “sem-terra”, os pastores de ovelhas da época, malvistos e desprezados pelos poderosos, porque ocupavam os campos com seus rebanhos. O mensageiro de Deus disse aos pastores: “Não tenhais medo! Porque eis que lhes anuncio a Boa Notícia, uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias e Senhor” (Ib. 2,10-11).
     Jesus foi “migrante e refugiado” no Egito por causa da ganância de Herodes que queria matá-lo. O mensageiro de Deus falou em sonho a José: “Levante-se, pegue o menino e a mãe dele, e fuja para o Egito. Fique aí até que eu lhe avise, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo. Ele se levantou, e de noite pegou o menino e a mãe dele, e foi para o Egito. E aí ficou até a morte de Herodes” (Mt. 2,13-15).
    Jesus foi “carpinteiro” com seu pai José. A respeito de Jesus, as pessoas diziam: “De onde vêm essa sabedoria e esses milagres? Esse homem não é o filho do carpinteiro?” (Ib. 13,54-55). “Esse homem não é o carpinteiro?” (Mc 6,3).
Em sua vida pública - anunciando a Boa Notícia do Reino de Deus - Jesus foi sempre próximo e entranhadamente solidário com os pobres. Entre os muitos exemplos que poderíamos lembrar, cito o do homem com a mão direita seca. “Jesus disse ao homem: ‘Levante-se e fique no meio’. ‘Estenda a mão’. O homem assim o fez e sua mão ficou boa” (Lc 6,8.10).
Jesus denunciou - cheio de indignação - a hipocrisia dos fariseus e doutores da Lei. “Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão! Assim também vocês: por fora parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça” (Mt 23,27-28).
Depois de celebrar a última Ceia com os discípulos e lavar seus pés, Jesus foi preso e acusado de “subverter” o povo. “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23,2). Em seguida, foi morto na cruz como criminoso. “Jesus deu um forte grito: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’. Dizendo isso, espirou” (Ib. 23,46).
Jesus - o Libertador, o Salvador, o Filho de Deus - ressuscitou dos mortos. Às mulheres, angustiadas por não ter encontrado o corpo de Jesus no túmulo, os mensageiros de Deus disseram: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui! Ressuscitou!’” (Ib. 24,5-6).
Jesus Ressuscitado enviou o Espírito Santo aos discípulos. “Ele lhes disse: ‘A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês’. Tendo falado isso, soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo’” (Jo 20,21-22).
Jesus Ressuscitado continua vivo na Comunidade dos seus seguidores e seguidoras. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20). “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Ib. 28,20).
Por fim, pergunto: hoje, onde vai ser o Natal de Jesus? Com certeza, ele não vai ser nos palácios dos poderosos - opressores do povo - e nem nas Igrejas luxuosas e cheias de ouro. O Natal de Jesus vai ser nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), nos Movimentos Populares, Sindicais e Políticos (entre outros), que - com garra, coragem e muita fé - lutam pela vida. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Neste ano, um dos lugares do Natal de Jesus é, sem dúvida nenhuma, a “Ocupação Alto da Boa Vista” em Aparecida de Goiânia - GO, cujos moradores - que lutam unidos pelo direito à moradia - são ameaçados de despejo iminente. Juízes e juízas, cuidado! Não deem liminares de reintegração de posse injustas, iníquas e cruéis, mesmo que sejam legais! Com essas liminares, vocês mandam despejar Jesus na pessoa dos pobres! Lembrem-se: a justiça de Deus demora, mas não falha!
Que o Natal 2019 seja feliz e renove a nossa esperança! Que o lado de Jesus seja sempre o nosso lado! E que o Ano 2020 seja de muita luta por um Mundo Novo. (Se Deus quiser, voltarei a escrever em fevereiro próximo) 

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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 17 de dezembro de 2019

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Alerta de Tsunami iminente - A revolução digital que vem Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2020


O “Livro-Agenda Latino-americana Mundial” é “o livro latino-americano mais difundido, cada ano, dentro e fora do Continente”. Ele é “sinal de comunhão continental e mundial entre as pessoas e as comunidades que vibram e se comprometem com as Grandes Causas da Pátria Grande, como resposta aos desafios da Pátria Maior” (pág. 1).
Este Livro-Agenda, “além do uso pessoal, pretende ser um instrumento pedagógico para comunicadores, educadores populares, agentes de pastoral, animadores de grupos, militantes...”.
Ele “é regido por um ‘ecumenismo (e macro ecumenismo) de soma’ e não ‘de subtração’” (pág. 9).
O tema do “Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2020” é: Alerta de Tsunami iminente - A revolução digital que vem. O método (caminho) seguido é sempre “ver-discernir-agir” (“analisar-interpretar-libertar”).
Para nos ajudar no estudo e aprofundamento do tema, o Livro-Agenda disponibiliza 46 bons textos: 16 no Ver, 14 no Discernir e 16 no Agir (cf. pág. 6 - Índice). Leiamos! Vale muito a pena!
Na “Introdução fraternal”, José Maria Vigil e Pedro Casaldáliga afirmam: “Sim, é um aviso para navegadores: um tsunami está se aproximando e já estamos entrando em sua revolução. Não foi decidido por ninguém. É como a tempestade, que surge por si mesma do seio dessas águas agitadas do oceano, que vinham se carregando perigosamente com energia; são muitas forças, juntando-se que encontraram uma saída, e já não vai ser possível detê-las”.
E ainda: “Estamos diante da Revolução 4.0, que não é, tecnicamente, algo radicalmente novo, ou totalmente desconhecido”, mas é “uma convergência múltipla crescente de ciências e tecnologias”, que “vem arrasando com todo seu poder desdobrado. O vigia do barco não pode dizer muito mais. O seu papel é apenas avisar. Ele diz o que vê e é urgente que todos se preparem”.
Diante dessa revolução, “há aqueles que só veem negatividade: um aprofundamento do neoliberalismo; um novo ataque colonial do Ocidente (...); uma degradação ainda maior da raça humana, perdida pela tecnologia e pelo cientificismo”.
Outros - sobretudo jovens deslumbrados com a tecnologia - “ficam simplesmente absorvidos por suas redes sociais, suas fotos, suas listas de canções... reféns ‘dentro da caixa’, sem memória histórica e sem consciência de seu povo, apátridas e sem destino, carne de canhão para a construção de um novo mundo velho mais desigual e com mais parias de descarte que nunca”. 
O vigia deste Livro-Agenda, entre uns e outros, “urge a todos a tomar seriamente esta revolução inédita na história do mundo. Talvez, tampouco nunca tivemos tantas informações como agora sobre o que se avizinha... Nem nunca tivemos tantas formas de comunicação, de organização, de tornar potentes nossos movimentos sociais (populares), de unificar nossa voz e de fazê-la ouvir mundialmente... É a hora da ação, da ação coordenada, do sentido crítico, de possibilidades tecnológicas inéditas a nosso alcance, como nunca antes!” (pág. 10).
Por fim, na Apresentação do Livro-Agenda, José Maria Vigil e Mauro Kano fazem a todos e a todas nós um caloroso convite: “Assumamos o debate, teórico e prático, e participemos, no controle dessa Revolução Digital 4.0 que vem... É urgente pôr mãos à obra, porque neste mesmo ano de 2020, antes que termine, vai desembarcar com seus navios em nossas praias... Tsunami à vista!” (pág. 9).
A Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil é a responsável pela edição brasileira do Livro-Agenda Latino-americana Mundial (justpaz@dominicanos.org.br). 
O Livro-Agenda 2020 - pelo grande interesse que suscitou - esgotou rapidamente. Brevemente - como aconteceu com as edições anteriores -  a versão online poderá ser lida, acessando: Latino-americana Mundial 2020 (https://latinoamericana.org/digital/2020AgendaLatino-americana.pdf). 


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 10 de dezembro de 2019


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A Garantia da Lei e da Desordem


No campo, a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) é, na realidade, a Garantia da Lei e da Desordem (GLD). A estrutura fundiária do Brasil, ou seja, a forma como são distribuídas as propriedades rurais - além de ser extremamente conservadora - é uma “desordem legalizada e institucionalizada”, uma das faces mais perversas e iníquas do pecado estrutural: pecado sócio-econômico-político-ecológico-cultural.
Os grandes latifúndios - 1% dos donos de terras - ocupam 44,4% das terras do Brasil. A maior concentração fundiária ocorre nas Regiões Centro-Oeste e Nordeste. Os Trabalhadores Rurais - em sua maioria - não tem sequer um pedaço de terra para produzir (produção familiar e comunitária agroecológica) e viver com dignidade.
Segundo o pensamento de Santo Tomás de Aquino - que posteriormente foi assumido pelo Ensino Social da Igreja - a destinação dos bens (no nosso caso aqui, da terra) para o uso (com o cuidado necessário) de todos os seres humanos, é um direito primário e a posse (ou propriedade), um direito secundário (nunca absoluto), que deve ter sempre uma função social. Quando o direito secundário se sobrepõe ao direito primário (prejudicando ou impedindo sua realização: o acesso aos bens - inclusive à terra - de todos/as) é injusto e antiético. Portanto, lutar pela Reforma Agrária Popular é um direito humano urgente e inadiável.
Hoje, a GLO (ou, melhor, GLD) é uma operação de segurança autorizada pelo Poder Executivo que pode durar meses e inclui a participação de agentes civis e militares, como das Forças Armadas e da Polícia Federal. É papel dos Governos Estaduais acionar forças de segurança locais para fazer cumprir decisões judiciais.
Depois do “massacre de Eldorado do Carajás” em 1996 (19 trabalhadores rurais mortos) - que teve uma repercussão negativa não só no Brasil, mas também no exterior - Governos Estaduais, para evitar novas tragédias, têm adotado uma postura de cautela, protelando o cumprimento de decisões judiciais.
Jair Bolsonaro, que - como já demostrou várias vezes - pouco se importa com a vida e os direitos dos Trabalhadores/as Sem Terra (para ele são “sobras”, “material descartável”), sentiu-se incomodado com essa postura. Por isso, no dia 25 de novembro último, afirmou que pretende enviar ao Congresso um Projeto de Lei que autoriza o Governo Federal a empregar a GLO (ou, melhor, GLD) para as chamadas operações de reintegração de posse. 
O presidente - totalmente submisso aos interesses dos Ruralistas (grileiros, fazendeiros, madeireiros) e atendendo ao acordo feito com eles - não só defende a criminalização das Ocupações (que ele chama de “Invasões”) dos Sem-Terra (um direito dos trabalhadores/as), mas quer também a “intervenção federal” (com o uso das Forças Armadas e da Polícia Federal) nas operações da chamada reintegração de posse (verdadeiras operações de guerra).
A linguagem que Jair Bolsonaro usa para se referir aos Trabalhadores/as que lutam pelo direito à terra dá nojo e provoca vômito em qualquer pessoa que tem um mínimo de sensibilidade humana. “Quando marginais (reparem: “marginais”!) invadem propriedades rurais e o juiz determina a reintegração de posse, como é quase uma regra que Governadores protelem sua execução, poderia ter - pelo nosso Projeto - uma GLO do campo para chegar a tirar os caras”. E ainda: “tem de ser algo urgente. E, você dando uma resposta urgente, inibe outros de fazer isso”. “A GLO - continua o presidente -  não é uma ação social, chegar com flores na mão; é chegar preparados para acabar com a bagunça (reparem mais uma vez: “acabar com a bagunça”!)”. Presidente, chamando os Trabalhadores/as Sem Terra de “marginais e bagunceiros”, o senhor torna-se o “maior marginal e o maior bagunceiro”.
Vejam o absurdo: Jair Bolsonaro ao mesmo tempo que defende a intervenção federal nas Ocupações dos Sem-Terra, incentiva as Invasões (essas sim verdadeiras Invasões) de terras indígenas. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no ano de 2018 foram registrados 111 casos de Invasões em 76 terras indígenas. De janeiro a setembro deste ano, o número subiu para 160 Invasões em 153 terras indígenas. 
(Fonte: Gustavo Uribe. Bolsonaro quer aval do Congresso para expulsar invasor de terras nos Estados. Folha de São Paulo, 26/11/19, p. A10. Vejam também: CPT. Nota Pública - Governo cede aos Ruralistas e ameaça vida no campo. Goiânia, 25/11/19). 
Por fim, pergunto: por que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não denuncia profeticamente tamanhas barbaridades políticas e não se posiciona - clara e inequivocamente - a favor dos Movimentos dos Trabalhadores/as Sem Terra? O silêncio não é um pecado de omissão?


Resultado de imagem para Fotos de Bolsonaro, anunciando a GLO do campo


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 03 de dezembro de 2019

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos