terça-feira, 31 de março de 2026

Campanha de Irmãos e Irmãs pela Moradia digna

 



Páscoa é Mundo Novo acontecendo

A Campanha da Fraternidade 2026 tem como tema Fraternidade e Moradia e como lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).

Somente no Brasil “6 milhões de famílias necessitam hoje de uma moradia digna, por estarem em habitação precária, em coabitação ou com aluguel excessivamente caro, o que representa 8,3% dos domicílios existentes no País. Somam-se a elas outras 26 milhões de famílias que moram em situação inadequada: em áreas de risco, sem infraestrutura ou com infraestrutura insuficiente, segregação social, longe de equipamentos públicos e sem as políticas públicas básicas, com forte influência do crime organizado, entre outros. Além disso, existem mais de 300 mil pessoas vivendo na rua, número que cresceu expressivamente nos últimos dez anos” (CF2026. Texto-Base, 30).

Precisamos também “perceber a casa para além das paredes e do teto, ampliando o conceito de moradia e de casa. Ter moradia, mas não ter um lar onde a pessoa possa se sentir segura e, verdadeiramente, ‘em casa’, viola os direitos humanos, impedindo de viver com dignidade, segurança, liberdade e oportunidades. Falar de moradia é também falar de vida, de pertencimento, de afetos, relações, segurança e de esperança” (Religiosos/as Brasileiros/as em Roma - RBR. Mensagem em apoio à CF 2026, 29 de março de 2026).

Precisamos ainda assumir “o desafio de sermos presença solidária onde a vida é ameaçada, especialmente junto às populações em situação de rua, aos moradores de periferias, migrantes e todos aqueles/as mais vulneráveis que lutam diariamente pelo direito de viver com dignidade” (Ib.).

A respeito do direito à moradia digna, a Campanha lembra-nos que “é tarefa da Igreja, como parte de sua missão evangelizadora, denunciar como injustiça e como pecado que clama ao céu a negação e precarização desse direito fundamental e apoiar e fortalecer os Movimentos Populares que lutam por moradia digna” (Texto Base. 163).

Pergunto: será que hoje a Igreja - sobretudo os Padres e os chamados Religiosos/as, que se comprometeram publicamente a viver um projeto de vida cristã radical - está preocupada em assumir essa tarefa como parte de sua missão? Meditemos!

Atualmente, a maioria dos que participam das Paróquias da Igreja gastam 90% do seu tempo para organizar bem a Paróquia internamente e 10% para fazer alguma obra de caridade a fim de ganhar o céu. Para esses cristãos e cristãs, o mundo não existe. Trata-se de “egoísmo religioso” (mesmo que seja em boa fé e com boas intenções).

" Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo aquele e aquela que Nele crê não morra, mas tenha a Vida eterna" (Jo 3,16)

Pergunto: a Igreja, inclusive nós como cristãos e cristãs, não devemos amar o mundo? Não devemos ser sal da terra, luz do mundo e fermento na massa? Não é isso que Jesus nos pede?

Ele veio morar entre nós” - o lema da Campanha - recorda-nos que Jesus se encarnou por obra do Espírito Santo. Sua mãe Maria era uma mulher simples, do povo e seu pai José era um trabalhador, um carpinteiro. Jesus veio ao mundo para anunciar a Boa Notícia do Reino de Deus aos Pobres.

Qual é o caminho que Jesus escolheu para “morar entre nós”? Ele nasceu como sem-teto na manjedoura de um estábulo. Não havia lugar para José e Maria, grávida de Jesus, dentro de casa. Com seus pais, Maria e José, Jesus foi migrante no Egito para fugir de Herodes que queria matá-lo. Posteriormente, trabalhou por muito tempo como carpinteiro com seu pai José.

Em sua vida pública, Jesus sempre esteve ao lado dos pobres (marginalizados, oprimidos, excluídos e descartados) e dos doentes. Foi preso e condenado como subversivo e malfeitor, morreu na cruz, mas ressuscitou. Ele está vivo e caminha conosco. Todos e todas - embora diferentes - somos irmãos e irmãs em Cristo, iguais em dignidade e valor.

Em nossa realidade de hoje - na diversidade dos dons e serviços - somos chamados e chamadas a seguir Jesus e - neste ano de 2026 - a lutar de maneira especial pelo direito à moradia digna para todos e todas.

Páscoa é vida nova em Cristo,

é vida de ressuscitados e ressuscitadas.

Páscoa é Mundo Novo acontecendo.

Concluo com um esclarecimento: hoje, na prática, a palavra “Fraternidade”, refere-se aos Irmãos e às Irmãs, mas - etimologicamente falando - não deixa de revelar uma cultura machista (“fraternidade” vem do latim “frater”, que quer dizer: irmão; “sororidade” vem do latim “soror”, que quer dizer: irmã). Logicamente falando, deveríamos dizer “Campanha da Fraternidade e Sororidade” ou “Campanha da Irmandade” (Irmãos e Irmãs).

Como irmão e companheiro de caminhada e de luta pelos direitos humanos e de maneira especial - neste ano de 2026 - pelo direito à moradia digna, desejo aos membros do Movimento Mundo Novo e a todos e todas uma Feliz Páscoa. Abraços.


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 29 de março de 2026






 


terça-feira, 24 de março de 2026

O Ser Humano como Ser de Práxis (3)

 


Continua o tema do artigo-coluna anterior - parte 3) 

Vimos que a Práxis - por ser “o modo de ser no mundo conscienemente” do Ser humano - é Práxis Histórica e Práxis meta-histórica.

A Práxis histórica é, pois, Práxis social e Práxis individual

A Práxis social (socioeconômico-político-ecológico-cultural-religiosa) ou estrutural (infraestrutural e superestrutural) é "o modo de ser-no-mundo socialmente ou estruturalmente” do Ser humano histórico.

A Práxis individual é "o modo de ser-no-mundo individualmente” do Ser humano histórico: como Opção fundamental (projeto de vida), como Atitudes (hábitos, costumes) e como Atos (ações).

Ora, como ser-no-mundo individualmente significa - para o Ser humano individual - ser-no-mundo corpórea, biopsíquica e espiritualmente ou pessoalmente, a Práxis individual é Práxis corpórea, biopsíquica e espiritual ou pessoal.

A Práxis corpórea é "o modo de ser-no-mundo corporeamente” do Ser humano individual. A Práxis biopsíquica é "o modo de ser-no-mundo biopsiquicamente” do Ser humano individual. A Práxis espiritual ou pessoal é "o modo de ser-no-mundo espiritualmente ou pessoalmente” do Ser humano individual.

A Práxis meta-histórica (meta-social e meta-individual) é "o modo” de ser-no-mundo meta-historicamente (meta-social e meta-individualmente: meta-corpórea, meta-biopsíquica e meta-espiritualmente ou meta-pessoalmente) do Ser humano.

Na Práxis e pela Práxis - que é "projeto" e "processo" histórico permanente - o Ser humano meta-históriciza-se (transcende-se) permanentemente até à plena meta-historicização após a morte.

A Práxis - como "o modo de ser-no-mundo histórica e meta-historicamente” - é, pois, para o Ser humano - Práxis prático-teórica (Prática, Ação) e, ao mesmo tempo, Práxis teórico-prática (Teoria, Conhecimento). Na realidade humana não existe a Prática em si e a Teoria em si. O ser (a identidade) da Prática (praticidade), para ser, depende - em seu ser - do ser da Teoria (teoricidade), e o ser da Teoria, para ser, depende - em seu ser - do ser da Prática (cf. BORNHEIM, A. Gerd. Dialética Teoria Práxis. Ensaio para uma crítica da fundamentação ontológica da Dialética. Globo, Porto Alegre - Rio de Janeiro, 19832, p. 326-327).

Na relação Prática-Teoria, a categoria da causalidade não se aplica de maneira mecanicista, linear e unilateral (a Prática causa a Teoria ou vice-versa), mas de maneira dialética. Todas as determinações reais da Prática e da Teoria desembocam na Práxis, que é como o leito final de um grande rio, que cresce pela afluência e confluência dos riachos e arroios, para desembocar pujante no mar que é o mundo (cf. DUSSEL, E. Para uma Ética da Libertação latino-americana: I- Acesso ao ponto de partida da Ética, p. 88).

Na verdade, a Práxis é atividade prático-teórica e teórico-prática, ou seja, tem um lado prático (material) e um lado teórico (ideal) dialeticamente articulados entre si. É tão unilateral reduzir a Práxis ao elemento prático, como reduzi-la ao elemento teórico (cf. VÁSQUEZ, A. Sánchez. Filosofia da Práxis. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977², p. 241).

No Ser humano, a relação de unidade dialética entre a Prática e a Teoria pressupõe sua mútua dependência. Isso, todavia, não impede que haja uma certa autonomia (autonomia relativa) entre a Prática e a Teoria, como, aliás, entre todas as suas manifestações concretas.

A Prática e a Teoria, portanto, são "duas formas de comportamento do Ser humano em face da realidade, que se desenvolvem, em estreita unidade, ao longo da história humana" (ib., p. 240-241). Só por um processo de abstração (artificialmente) podemos distinguir (não separar) o momento prático (atividade prática) do momento teórico (atividade teórica). Isso para um maior aprofundamento e compreensão do significado de cada momento e de seu relacionamento mútuo.

É o que faremos em seguida.

(No próximo artigo-coluna, continua o mesmo tema: parte 4)

Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 17 de fevereiro de 2026





O artigo foi publicado originalmente em:

https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano-como-ser-de-praxis-3/ (18/03/26)


domingo, 15 de março de 2026

A Luta das Mulheres Sem Terra

 


De 8 a 12 deste mês de março/26, aconteceu a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra (MST) de 2026. O lema “Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar!” sintetiza o papel fundamental das Mulheres Sem Terra na luta pelo Projeto da Reforma Agrária Popular.

Lizandra Guedes, coordenadora nacional do setor de Gênero do MST, explica que o caráter da Jornada é de formação, organização e denúncia. São realizadas atividades nos acampamentos e assentamentos de todo o país: “ações simbólicas que possibilitem o diálogo com a sociedade brasileira sobre a necessidade da Reforma Agrária Popular como pauta central”.

Na madrugada de 9 de março, “cerca de 500 Mulheres Sem Terra ocuparam uma área de 400 hectares da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (FEPAGRO) em São Gabriel (RS). No mesmo dia, outras Mulheres Sem Terra ocuparam uma fazenda com histórico de trabalho escravo Estado do Tocantins (TO).

Essas ações - e muitas outras - integram a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, com atividades que mobilizam as Sem Terra dos acampamentos e assentamentos de todo o país”.

A Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra deste ano “tem como foco, a denúncia da paralisação da Reforma Agrária pelo Estado brasileiro, que, ao invés de garantir os direitos das trabalhadoras e trabalhadores à terra e condições de nela produzirem alimentos saudáveis para a população, apoia o agronegócio, com investimentos em financiamentos para a produção de commodities. Modelo este que implica em mais crimes ambientais, concentração de terras, além de aprofundar a violência no campo brasileiro, as desigualdades sociais, a fome e a pobreza no campo e na cidade”.

Como é comum em todos os anos, no dia 8 de março, as Mulheres Sem Terra se somam a um conjunto de atividades unitárias com as mulheres trabalhadoras de Movimentos Sociais Populares e Sindicatos de Trabalhadoras/es em várias cidades do país. Segundo Lizandra, a construção dessa Jornada de Lutas das Mulheres é orientada por três frentes de luta.

Primeira: “a urgente necessidade de enfrentamento às violências nas mais variadas formas, entendendo que a sociedade emancipada pela qual se luta exige territórios livres de exploração e opressão”.

Segunda: “a luta pela terra como motor da organização, que massifica e materializa o projeto de vida digna que quer para o campo”.

Terceira: “a necessidade (como elemento determinante) de organização permanente para o fortalecimento dos territórios e a soberania dos povos, nos assentamentos, acampamentos, cooperativas, associações, escolas, coletivos de mulheres, jovens, pessoas LGBTI+ e grupos culturais”.

Infelizmente, temos ainda muitos despejos de trabalhadoras/es de suas moradias truculentos, perversos, cruéis, desumanos e antiéticos. Reafirmo: todo despejo é injusto e – se tiver liminar de juiz – é mais injusto ainda, porque é uma injustiça legalizada e institucionalizada. Pessoa humana não se despeja! (Veja, por exemplo: https://mst.org.br/2026/03/09/policia-militar-de-tacisio-realiza-despejo-truculento-contra-trabalhadoras-sem-terra/).      

A Jornada programa também a pauta da participação na luta internacional contra as violências às mulheres e ataques de países imperialistas à soberania dos povos. “Nossa Jornada não poderia deixar de mencionar a luta e solidariedade internacional. As Mulheres Sem Terra defendem também a soberania popular dos povos do mundo, exigindo o fim do sequestro do presidente da Venezuela Nicolas Maduro e Cília Flores, o fim do bloqueio criminoso a Cuba (e outros), reafirmando que a luta por justiça social no campo brasileiro se conecta com as lutas de todos os povos da América Latina e do mundo”, denuncia Margarida da Silva, da coordenação nacional do MST.

Destacamos ainda que “a luta das mulheres faz parte da origem e história do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Desde as primeiras Ocupações, há mais de quatro décadas, a participação das mulheres foi - e continua sendo sempre mais - fundamental para a construção do Programa de Reforma Agrária Popular e para a resistência no campo. E o 8 de março, para as Mulheres Sem Terra, nunca é apenas uma data celebrativa, mas sim um marco de denúncia e mobilização em torno da luta por direitos”.

É nesse contexto que surge a Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra: “um potente processo de construção coletiva que transforma os territórios em espaços de formação, organização e luta, no combate às diversas formas de opressões existentes, e no enfrentamento ao capital no campo, materializado no agronegócio, reafirmando o protagonismo das mulheres na construção de um Projeto Popular para o Brasil”.

As pautas históricas que mobilizam as Mulheres Sem Terra continuam atuais e urgentes. “A luta é pela defesa da Reforma Agrária Popular, com a desapropriação de terras públicas ou que não cumprem sua função social, pelo acesso a políticas públicas como crédito, assistência técnica, comercialização e pela garantia de políticas para a produção de alimentos saudáveis, mas também pelo fim das violências, em particular contra mulheres e meninas”.

As Mulheres Sem Terra também “denunciam as violências estruturais do sistema capitalista, patriarcal e racista em que vivemos, que tem se aprofundado no último período e se manifestando através dos alarmantes índices de feminicídio, da discriminação, da LGBTfobia, que mata ou fere corpos e subjetividades. O projeto de Reforma Agrária Popular, que o MST defende, é mais do que uma alternativa concreta para esses problemas. Ele é o caminho rumo à emancipação humana, superando a crise climática e ambiental, acabando com a fome - através da produção de comida de verdade - e construindo um país livre das violências”.

Na Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra - o MST convocou todas as mulheres do campo e da cidade para somarem suas forças.

Parabéns, Mulheres Sem Terra, nossas companheiras e irmãs, pelo testemunho de vida que - com suas lutas heroicas - estão nos dando. Todas e todos nós das CEBs, das Pastorais Sociais Populares, dos Movimentos Sociais Populares, dos Sindicatos de Trabalhadoras e Trabalhadores, dos Grupos Populares de Mulheres, das Entidades de Estudantes, dos Fóruns de Direitos Humanos, das Comissões de Justiça e Paz (e outras), estamos com vocês. Contem conosco. A vitória é e será de vocês e - com vocês - de todas e todos nós.

(Fonte: https://mst.org.br/2026/02/27/mulheres-sem-terra-realizam-jornada-nacional-de-lutas-em-defesa-da-reforma-agraria-e-contra-as-violencias/).  


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 99792282

https://freimarcos.blogspot.com/ - Goiânia, 12 de março de 2026

                  


Mulheres Sem Terra protestam por Reforma Agrária Popular nas rodovias do Rio Grande do Norte (RN)
MST pelo Nordeste - 09/03/26



Mulheres Sem Terra ocupam fazenda com histórico de trabalho escravo no Tocantins (TO)
MST pelo Tocantins - 09/03/26



terça-feira, 10 de março de 2026

A guerra no Oriente Médio - Uma iniquidade diabolicamente planejada



O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu - com o apoio direto ou indireto de outros países - são os principais responsáveis pela guerra no Oriente Medio. Em nome do deus dinheiro, eles são - no mundo de hoje - verdadeiros demônios.

Não dá para entender como um ser humano - chamado Trump - possa ser tão mal e tão cruel de chegar a afirmar que a guerra foi um sucesso e que está muito satisfeito com o desenrolar da guerra no Irã.

Entre muitos, basta lembrar dois fatos recentes, que foram amplamente divulgados na imprensa e nas redes sociais.

Primeiro: o ataque dos Estados Unidos ao Irã do dia 28 de fevereiro passado em Minab, na Província de Hormozgan, no sul do país, contra uma escola para meninas que - segundo o embaixador do Irã da ONU, Amir-Saeid Iravani - deixou mais de 100 crianças mortas.

Segundo: o ataque com submarino do dia 4 deste mês de março pelos Estados Unidos, na costa do Sri Lanka, afunda um navio do Irã e mata ao menos 87 pessoas.

Quanta maldade e quanta crueldade! Trata-se de uma iniquidade diabólica sócio-estrutural e pessoal gravíssima, que na ètica filosófico-teológica chamamos pecado social ou estrural e pecado pessoal mortal. Não dá para entender!

A Rede Brasileira Justiça e Paz - organismo ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) - emitiu um posicionamento oficial em resposta aos ataques militares ocorridos no Irã na madrugada do dia 28 de fevereiro e outros.

“Nós da Rede Brasileira Justiça e Paz, reunidos em Brasília, conclamamos a todos os povos e governos a se manifestarem pela paz e pela solução negociada para os conflitos”.

Continua: “Trump e Netanyahu enfrentam acusações sérias tanto no plano interno quanto perante a comunidade internacional - investigações sobre corrupção, abusos de poder e violações de direitos humanos que corroem sua legitimidade. Para agradar os setores mais radicais de suas bases políticas, ambos recorrem à guerra não como estratégia de paz, mas como instrumento de reafirmação autoritária: um gesto de força que silencia críticas, mobiliza o nacionalismo extremista e projeta uma imagem de controle, características que marcam seus estilos de governo”.

E ainda: “Mais uma vez, como em Gaza, os senhores da guerra cometem crimes, violando a soberania das nações e as leis da ordem internacional expressas na Carta das Nações Unidas. Não podemos aceitar a linguagem das armas, que só causa destruição, como forma de solução dos conflitos. Portanto, pedimos pelo cessar-fogo imediato e que a ONU se encarregue de mediar o conflito na busca de uma solução justa e pacífica”.

(https://www.brasildefato.com.br/2026/03/02/em-comunicado-rede-brasileira-justica-e-paz-entidade-ligada-a-cnbb-pede-fim-dos-ataques-militares-ao-ira/)

Por fim, a nota afirma que tais ações desrespeitam a soberania das nações e as normas estabele- cidas na Carta das Nações Unidas.

Concordo integralmente com os pedidos da Rede Brasileira Justiça e Paz, mas acho que - antes de dizer o que deve ser feito - a Igreja Cristã Católica, as outras Igrejas Cristãs e todas as Religiões deveriam cumprir (como Jesus de Nazaré) sua missão profética, denunciando e condenando a perversidade diabólica dos que promovem a guerra, em nome do deus dinheiro. Por quê as Igrejas Cristãs (e não só alguns cristãos individualmente) não retomam - fazendo-as suas - as palavras proféticas de Jesus aos mestres da Lei e fariseus hipócritas:

“Raça de cobras venenosas! Se vocês são maus, como podem dizer coisas boas? Pois a boca fala aquilo de que o coração está cheio. O homem bom tira coisas boas do seu bom tesouro, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro. Eu digo a vocês: no dia do julgamento, todos devem prestar contas de cada palavra inútil que tiverem falado. Porque você será justificado por suas próprias palavras e será condenado por suas próprias palavras” (Mt. 12,33-37; cf. 23,33).

Concluo o meu texto, fazendo dois pedidos:

1º. Que a Igreja Cristã Católica, as outras Igrejas Cristãs e todas as Religiões cumpram - pública e oficialmente - sua missão profética, condenando clara e firmemente toda guerra como desumana, antiética, injusta, iniqua, cruel e diabólica.

2º. Que o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), que é o órgão principal da ONU com a responsabilidade primordial de manter a paz e a segurança internacionais, se posicione de maneira firme contra todo tipo de guerra, promovendo a solução dos problemas através do diálogo entre os países, em clima de igualdade e corresponsabilidade.

Um Mundo Novo é possível! Que assim seja! 08 de março: Feliz Dia Internacional da Mulher!


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 08 de março de 2026




A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos