sábado, 24 de fevereiro de 2018

16 de fevereiro: uma data símbolo da barbárie humana



No dia 16 de fevereiro ultimo completaram 13 anos da pior barbárie que aconteceu em toda a história de Goiânia: o massacre do Parque Oeste Industrial, na Ocupação “Sonho Real”. Essa data é lembrada também a cada ano pelo Livro-Agenda Latino-americana Mundial. O despejo foi uma verdadeira operação militar de guerra do governo Marconi Perillo do Estado de Goiás, chamada - fria e cinicamente - “Operação triunfo”. Como se isso não bastasse, para que o requinte da brutalidade e da crueldade fosse ainda maior, ela foi precedida da “Operação inquietação”: 10 dias - de 0 a 6 horas - assustando os moradores e provocando traumas nas crianças com as chamadas bombas de efeito moral (que nada têm de “moral”). Só os adoradores do deus dinheiro são capazes de tamanha iniquidade!
À época, o governo estadual foi totalmente subserviente e submisso aos interesses especulativos dos “coronéis urbanos” (leia: donos das grandes imobiliárias).
Em resumo, a história do massacre foi essa: em uma hora e quarenta e cinco minutos, cerca de 14 mil pessoas foram despejadas de suas moradias de maneira violenta, truculenta, sem nenhum respeito pela dignidade da pessoa humana e jogadas na rua. A Operação Militar produziu duas vítimas fatais (Pedro e Vagner), 16 feridos à bala, tornando-se um desses paraplégico (Marcelo Henrique) e 800 pessoas detidas (suspeita-se com razão que o número dos mortos e feridos seja maior).
Eronilde Nascimento - cujo esposo Pedro foi assassinado à queima-roupa durante a operação de despejo - no dia 16 deste mês, fazendo a memória dos 13 anos do massacre, enviou aos companheiros e companheiras uma bonita mensagem, na qual - com muito otimismo e esperança - destaca as vitórias e conquistas do povo (mesmo que parciais) e afirma que foram fruto de muita luta, mas também de muito sofrimento. “Hoje - diz Eronilde - quero lembrar a todas/os aquilo que devemos lembrar sempre. Todos os dias quando caminho pelas ruas de nosso bairro asfaltado, recordo-me das ruas de terra do “Sonho Real”. Lá, sonhamos com tudo isso. Com nossas casas, nosso posto de saúde, nossa creche, nossa escola, nossos espaços de lazer. Tudo o que trabalhadoras e trabalhadores tem direito na cidade. É maravilhoso ver nosso bairro e esses espaços concretizados e saber que tudo isso é fruto de muita luta. Infelizmente é fruto também de muito sofrimento e nossas conquistas ainda são parciais”.
Continua a mensagem: “Amo viver no Real Conquista e sei que temos direito a muito mais. Temos direito a atendimento médico durante o dia todo em nosso Centro de Saúde; temos direito a praças com parquinhos para nossas crianças brincar, a uma quadra pública com alambrado e piso, e não apenas cercada por pneus e forrada com pó de brita; temos direito a uma segurança pública que cuide de nossa juventude, que cuide de nós moradores e não que venha aqui para exterminar os mais marginalizados pela exclusão; temos direito a projetos por parte do poder publico que acolham as nossas crianças, nossos jovens, nossos idosos, nossas famílias; temos direito a educação pública para todas as nossas crianças e jovens, e não apenas para os primeiros da fila”.
Lembra ainda a mensagem: “Muitos não chegaram até aqui para desfrutar de nossas conquistas. Traumas, corrupção, mortes. Esses são alguns elementos que desagregaram parte dessa comunidade lutadora. Nós, que sofremos fortes atentados do Estado, temos que comemorar a cada dia por estamos vivas/os e podermos ainda sonhar com nossos ideais. Enquanto tivermos nossas vidas, lembraremos, Goiânia, do que aconteceu dia 16 de fevereiro de 2005. O Massacre do Parque Oeste Industrial jamais pode ser esquecido, a luta por memória e justiça deve continuar, não porque guardamos ódio e rancor, mas porque cultivamos a esperança de um mundo melhor onde outras atrocidades como aquela não irão mais acontecer. Um povo sem memória é um povo sem história”.
Eronilde Nascimento é uma mulher forte, que sofreu muito, mas que nunca perdeu a esperança. Ela mesma se apresenta como “ativista das lutas populares (eu acrescento: uma grande ativista), diretora do Instituto Memória e Resistência. Moradora do Bairro Real Conquista e sobrevivente do Massacre do Parque Oeste Industrial”. Parabéns Eronilde pela sua garra e sua coragem! Continue assim! Estamos com você!
Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo, até que não sobre mais espaço e sejam os únicos a morarem no meio da terra! (Is 5,8).
Denuncio mais uma vez: por ser a área da antiga Ocupação “Sonho Real” no Parque Oeste Industrial uma área ensopada de sangue inocente, ai daqueles que pretendem utilizá-la - ou a estão utilizando - para fins de especulação imobiliária! Essa área só será resgatada da maldição que pesa sobre ela e abençoada por Deus se for desapropriada e utilizada em benefício dos pobres (casas, escola, hospital, parque ecológico de lazer para crianças, etc.).
É uma questão de Justiça. E Deus é justo.




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 21 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Campanha da Fraternidade 2018 A utopia de Jesus: “vocês são todos e todas irmãos e irmãs”




A Campanha da Fraternidade 2018 tem como tema “Fraternidade e superação da violência” e como lema “Vocês são todos e todas irmãos e irmãs” (Mt 23,8).
Começo o meu escrito fazendo um esclarecimento sobre a diferença que existe entre a pessoa idealista e a pessoa realista. A pessoa idealista - por ter uma consciência ingênua - aponta a utopia (o ideal), mas não indica o caminho a ser seguido para que essa utopia se torne uma realidade histórica. A pessoa realista - por ter uma consciência crítica - aponta a utopia, mas indica também o caminho a ser seguido e os passos concretos a serem dados para que essa utopia se torne, cada vez mais, uma realidade história.
Ora - mesmo sabendo que a vida é dinâmica e as pessoas mudam - a respeito do tema da Campanha da Fraternidade, podemos ter uma consciência ingênua, que leva a uma visão idealista da questão da violência ou uma consciência crítica, que leva - com todas as nuances possíveis - a uma visão realista, da mesma questão.
Falando de visão idealista, quantas vezes, por exemplo, nas nossas reuniões e encontros - sobretudo em ambientes religiosos - ficamos satisfeitos com a apresentação de uma longa lista de “boas intenções”, sem fazer uma análise mais crítica e mais profunda do tema tratado. Não seria o caso de lembrar o ditado “de boas intenções o inferno está cheio”?
Sobre o tema da Campanha “Fraternidade e superação da violência”, precisamos ter claro o que é a violência e como ela se manifesta hoje em nossa sociedade e em nossas Igrejas ou Instituições Religiosas (que são parte integrante da sociedade).
Fundamentalmente, temos dois tipos de violência: a violência estrutural (institucionalizada e legalizada, às vezes, em nome de Deus) e a violência pessoal (interpessoal, familiar e grupal).
Para intendermos o que é a violência estrutural, basta citar um dado da nossa realidade. “Estudos apontam que apenas 62 pessoas detém o mesmo dinheiro que a metade mais pobre da humanidade. Essa desigualdade se torna ainda mais impressionante quando se considera que os mais ricos correspondem a 1% da humanidade, mas detêm 99% das riquezas” (CF 2018. Texto-Base, 71).
Ora, a desigualdade não gera a violência (como se costuma dizer), ela é a violência, a maior e a mais brutal violência; é a violência estrutural; é - em linguagem teológica - o pecado social (sócio- econômico-político-ecológico-cultural) ou estrutural, o reino do mal, o anti-Reino de Deus.
“As transnacionais, sujeitos principais da acumulação capitalista mundial, não só produzem mercadorias e prestam serviços, mediante a exploração da força de trabalho, como também desigualdade, pobreza, desemprego, precariedade, exclusão, destruição da natureza, fome e morte. Por conseguinte, o capitalismo é um sistema criminoso para a maior parte da população mundial” (http://www.ihu.unisinos.br/575943-a-explicacao-da-fome-em-uma-sociedade-capitalista-globalizada).
Os que, mesmo na Igreja - consciente ou inconscientemente, ingênua ou hipocritamente - acham que a questão da desigualdade pode ser resolvida ou, ao menos, amenizada, multiplicando as obras sociais - que, muitas vezes, consideram os pobres como meros “objetos de caridade” para que “as pessoas de bem” (do alto de suas mansões ou palacetes, civis ou eclesiásticos) possam “ganhar o céu” - deveriam lembrar o que diz o Documento de Aparecida: “A misericórdia sempre será necessária, mas não deve contribuir para criar círculos viciosos que sejam funcionais a um sistema econômico iníquo (repito: sistema econômico iníquo”). Requer-se que as obras de misericórdia estejam acompanhadas pela busca de uma verdadeira justiça social” (385).
Na teologia moral da libertação, o pecado social ou estrutural era um tema central. Infelizmente, hoje a maioria dos teólogos da moral - e também dos agentes de pastoral - não falam mais sobre isso. Suas preocupações são outras. É esse um dos graves pecados de omissão da Igreja.
Para superar - em nome de nossa cidadania e de nossa fé - a violência estrutural, precisamos lutar, de maneira organizada, unidos e unidas a todas as forças sociais populares (movimentos, sindicatos, partidos e outras instituições) e abrir caminhos novos que levem à mudança do sistema. Querer superar a violência sem mudar o sistema, é ingenuidade ou hipocrisia.
Pergunto-me - diz o Papa Francisco - se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social e nem na destruição da natureza? Se é assim, digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos... E nem sequer o suporta a Terra, a Irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco”.
Com palavras muito claras, o Papa afirma: “Os seres humanos e a natureza não devem estar a serviço do dinheiro. Digamos não a uma economia de exclusão e desigualdade, na qual o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra” (Discurso aos Movimentos Populares. Bolívia , 9 de julho de 2015)
Diante de situações de injustiça legalizadas, Jesus de Nazaré se posicionou claramente a favor dos excluídos e excluídas, e praticou a desobediência civil e religiosa. Entre os muitos exemplos, que poderíamos citar, lembro a cura de um leproso, narrada pelo Evangelista Marcos (cf. Mc 1,40-45). E nós, os seguidores e seguidoras de Jesus, temos a coragem de fazer o que Ele fez? Pensemos!
A violência estrutural se manifesta de muitas maneiras e tem diversos rostos na sociedade e também nas igrejas. Na sociedade: violência contra os pobres, violência contra os moradores de rua, violência racial, violência contra os jovens negros, violência contra as mulheres, violência contra os trabalhadores rurais e urbanos, violência contra os povos tradicionais (indígenas, quilombolas), criminalização dos movimentos populares, corrupção, machismo, exploração sexual, tráfico humano, narcotráfico e muitos outros.
Nas Igrejas: clericalismo (que o Papa Francisco definiu como “uma peste na Igreja” e “o pior mal da Igreja na América Latina”), triunfalismo, funcionalismo sagrado, busca de poder, celebrações pomposas e teatrais, pouca atenção à Igreja dos Pobres e seu descarte silencioso (exemplo recente: Igrejas que não falaram nada ou quase nada do 14º Intereclesial das CEBs em Londrina e nem publicar a Carta final do Encontro e a Mensagem do Papa Francisco) e muitos outros.
Temos também muitas formas de violência pessoal (interpessoal, familiar e grupal). Não nego a responsabilidade humana e ética - embora sempre “situada e datada” - das pessoas (famílias e grupos), mas essas formas de violência, na maioria das vezes, são consequência da violência estrutural.
Lembremos: sem justiça, a fraternidade é mentira, é hipocrisia. Estamos na Quaresma, que é tempo de conversão e mudança de vida. Nossa missão de cidadãos e cidadãs, cristãos e cristãs é: construir, desde já, espaços de superação da violência estrutural e pessoal, espaços de justiça e paz, espaços de partilha e fraternidade, e espaços de uma nova educação e cultura, certos de que “outro mundo é possível e necessário”
Vocês são todos e todas irmãos e irmãs” (Mt 23,8). É a utopia (o projeto) de Jesus de Nazaré. É a nossa utopia, que é, ao mesmo tempo, histórica e meta-histórica.


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 15 de fevereiro de 2018

Prof. Geraldo: “a alegria do Evangelho” em pessoa



Na madrugada do dia 12 de janeiro último, faleceu (“completou sua Páscoa”) aos 80 anos o professor emérito da UFG Geraldo Faria Campos (Geraldo “Alemão”), que - depois de velado pelos familiares e por muitas outras pessoas que tinham por ele uma grande admiração - foi sepultado às 19 horas no Cemitério Jardim das Palmeiras, em Goiânia.
Por diversas razões, nestes últimos anos tive poucas oportunidades de encontrar o professor Geraldo e - devido a uma falta de atenção minha involuntária - não estive presente no dia de sua partida para a casa do Pai. Sinto muito! Geraldo, me perdoe! Certamente, o dia do seu velório foi de muita dor, mas também de muita esperança para os familiares, os amigos e amigas e todos aqueles e aquelas que tiveram a graça de conhecer e conviver com você.
Manifesto agora publicamente (logo que for possível, o farei também pessoalmente) a minha mais profunda e sincera solidariedade de irmão e amigo à esposa Aparecida Curado Faria Campos (também professora), aos três filhos e aos cinco netos. Peço a Deus que todos e todas vocês - mesmo sofrendo (o que humano) - experimentem muita paz e serenidade, acreditando na vida. “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim, nunca morrerá (Jo 11, 25-26).
Geraldo - sempre sorridente, brincalhão e otimista - era um homem de fé autêntica, um educador cristão (que respeitava e valorizava o diferente), um agente de pastoral, um verdadeiro seguidor de Jesus de Nazaré. Com as palavras do Papa Francisco, podemos dizer que Geraldo era “a alegria do Evangelho” em pessoa e - não tenho dúvidas - um esposo e pai de família santo (a santidade é a perfeição humana dentro do Plano de Deus).
Como afirma a poetiza Cora Coralina, “ninguém pode acrescentar dias a sua vida, mas pode acrescentar vida aos seus dias”. Foi isso o que Geraldo fez: acrescentou vida e sempre mais vida aos seus dias. O testemunho de Geraldo nos edificou - e continua nos edificando - a todos e a todas.
A UFG - em Nota na qual decretou luto oficial pelo falecimento do professor Geraldo - recorda-nos: “Professor de diversas gerações, Geraldo Faria é reconhecido como um verdadeiro mestre focado não só nos progressos acadêmicos, mas na formação integral dos seus alunos, oportunizando e buscando desenvolver neles habilidades como o gosto literário, o estilo de escrita e, sobretudo, a análise, o espírito crítico, a capacidade de reformular o pensamento e de criar novas ideias. A dedicação incansável aos educandos - sempre muito exigidos na produção de textos e leituras - acabava por extrair-lhes o melhor”. E continua: “Dono de uma trajetória marcante, tanto para os ex-alunos quanto para os colegas e todos que com ele conviveram, impulsionado por um tipo de inquietude, sobretudo para despertar a conscientização sobre as injustiças sociais, o lugar em que estamos inseridos nesse contexto e sobre as possibilidades de fazer diferente. Tudo isso, muito conectado à realidade do aluno”.
Geraldo foi educador e filósofo da educação não só no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae) da UFG (antigo Colégio de Aplicação), como professor de língua portuguesa por 30 anos, mas em todas as situações históricas concretas de sua vida.
No dia 15 de março de 2013, na solenidade de entrega do título de Professor Emérito, o seu colega aposentado, professor Paulo Marcelino, expôs os motivos pelos quais Geraldo Faria foi homenageado. “Mesmo sem títulos de pós-graduação, tão importantes para a academia, mostrou a diversos professores e estudantes uma nova forma de ensinar a língua portuguesa. Ele mostrou que a educação acontece quando atua o educador e não a instrução” (https://www.jornalufgonline.ufg.br/n/45430-professor-emerito-ao-mestre-geraldo-faria).
Para o jornalista Elder Dias, Geraldo era “o professor que fazia o mundo da leitura virar leitura de mundo. ‘Pensar dói’, costumava dizer. Sua forma de ensinar português e sua atitude humanizadora na relação com seus alunos o fizeram mestre inesquecível de gerações”.
Para a jornalista Ana Cláudia Rocha (ex-aluna), “há 80 anos, Deus enviou um anjo para tentar melhorar a Terra. Geraldo Faria Campos foi muito mais do que professor de português, foi um mestre de vida, um ser iluminado que transformou a vida de todos com quem conviveu”.
Para o assessor jurídico (MP-GO) Carlos Stuart Palma (ex-aluno), “Geraldo foi o mestre despretensioso que, mais do que ensinar, plantava em nós o germe da rebeldia, do questionamento. (…) Foi ele quem nos infectou com a incurável doença de amor aos livros e, sobretudo, nos transformou em contempladores de ideias” (https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/o-professor-que-fazia-o-mundo-da-leitura-virar-leitura-de-mundo-114705/). Poderíamos continuar citando inúmeros testemunhos de ex-alunos e ex-alunas, mas o nosso espaço não permite.
Termino com um depoimento pessoal. Além de termos sido colegas na UFG em áreas de ensino diferentes, mas complementares (ele, em educação e eu, em filosofia), de 1970 - quando nos conhecemos e nos tornamos amigos - até 1985 (ano da morte do arcebispo de Goiânia Dom Fernando Gomes dos Santos) trabalhamos juntos na pastoral da Arquidiocese de Goiânia (que - à época - era considerada por muitos e muitas uma referência em todo o Brasil na caminhada de renovação pós-conciliar) com o nosso amigo comum Dom Fernando, pastor e profeta, “pai da Pátria Grande”.
Quantas vezes participamos de reuniões e encontros pastorais juntos! No meu serviço de coordenador da pastoral, quantas vezes convidei o Gerando para dar palestras e conversar com o povo nas comunidades e, sobretudo, nos encontros da pastoral da juventude, da pastoral familiar e das pastorais sociais. Pela autenticidade de via, sua palavra e testemunho edificavam a todos e todas, deixando marcas profundas na vida das pessoas.
Geraldo está presente! Ele vive entre nós! “Creio na comunhão dos santos e santas”! Geraldo, ore por nós!






Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 08 de fevereiro de 2018

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

CEBs: uma Igreja mais viva do que nunca

“As CEBs continuam sendo um ‘sinal da vitalidade da Igreja’ (Redemptoris Missio - RM 51). Os discípulos e as discípulas de Cristo nelas se reúnem na escuta e na partilha da Palavra de Deus. Buscam relações mais fraternas, igualitárias e inclusivas. Superam a cultura machista e o clericalismo. Celebram os mistérios cristãos e assumem o compromisso de transformação da sociedade e a defesa da criação, a nossa casa comum” (Carta do 14º Intereclesial das CEBs)

        Do dia 23 a 27 de janeiro do corrente ano, participei do 14º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), em Londrina (PR). Do Estado de Goiás e Distrito Federal (Regional Centro-Oeste da CNBB) éramos cerca de 150 delegados e delegadas, dos quais 35 da Arquidiocese de Goiânia. No total - vindos de todos os cantos do Brasil - éramos 3.300 delegados e delegadas. Havia também uma boa representação dos povos indígenas e quilombolas. Participaram ainda do Encontro 60 bispos, diversos padres e diáconos, religiosos e religiosas, representantes de outras Igrejas cristãs e de outras Religiões, convidados de países da América Latina e da Europa (Argentina, Paraguai, México, Alemanha, França e Itália) e membros de Movimentos Populares.
      O tema do 14º Intereclesial foi: “CEBs e os desafios do mundo urbano” e o lema: “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3, 7).
        O Encontro foi um verdadeiro Pentecostes. Todos e todas que o vivenciamos, ouvimos - como um apelo muito forte - as palavras de Jesus, atualizadas para nós hoje: Fiquem em Londrina. O Espírito Santo descerá sobre vocês e dele receberão força para serem minhas testemunhas em Londrina, no Paraná, no Brasil e até os extremos da terra (cf. At 1, 4 e 8).
        Os dias do Intereclesial foram de muita partilha, reflexão e celebração. Partilhamos, refletimos e celebramos a vida à luz do mistério pascal e o mistério pascal à luz da vida. Um destaque especial merece a Celebração dos Mártires do Brasil e da América Latina, que foi realmente emocionante. Todos e todas, fortalecidos e fortalecidas com a experiência vivida, na “alegria do Evangelho” fomos enviados e enviadas - como discípulos missionários e discípulas missionarias - para continuar a missão de Jesus de Nazaré, fazendo acontecer - com a nossa palavra e, sobretudo, com o nosso testemunho - a sociedade do bem-viver e do bem-conviver, que - à luz da fé - é a Boa Notícia do Reino de Deus na história do ser humano e do mundo.
        Escutamos os sinais dos tempos e - discernindo-os à luz da Palavra - ouvimos os apelos de Deus para nós hoje. .
        “As mudanças culturais, os desafios e clamores da sociedade globalizada e da cultura urbana, o desmonte das estruturas democráticas em nosso País, a perda dos direitos civis e sociais e a degradação da dignidade humana e da criação levam as CEBs a assumirem os seguintes compromissos:

  • transmitir às novas gerações as experiências e os valores das gerações anteriores;
  • promover a cultura da vida;
  • tornar-se uma Igreja de Comunidades em rede, com novos ministérios, que inclua a mulher em sua plena dignidade eclesial;
  • incentivar o protagonismo das juventudes e combater o seu extermínio;
  • apoiar as lutas dos povos indígenas, da população negra e quilombola, dos pescadores artesanais, da população em situação de rua, dos migrantes e refugiados, da população encarcerada, das crianças e dos idosos por cidadania plena;
  • cobrar políticas públicas de inclusão social, participar dos conselhos de cidadania, promover a democracia direta e participativa e a autodeterminação dos povos;
  • promover práticas de economia popular, solidária e sustentável;
  • reafirmar a vocação política dos cristãos e cristãs;
  • fortalecer a campanha pela auditoria da dívida pública, da reforma política e do controle sobre o poder judiciário.
        Nunca podemos nos esquecer de que as comunidades cristãs nasceram no meio dos pobres como um grito de esperança e lugar de relações igualitárias e inclusivas” (Carta do 14º Intereclesial das CEBs).
        Atualmente - apesar da falta de apoio, da indiferença, do desinteresse, de muitas Igrejas, apesar de serem, às vezes, simplesmente toleradas ou até descartadas por essas mesmas Igrejas e obrigadas a viverem nas catacumbas - as CEBs são uma Igreja mais viva do que nunca. Como acontecia com as primeiras comunidades cristãs, quando perseguidas, elas tornam-se mais fortes. Na diversidade de ministérios (serviços) e de carismas (dons), na variedade de suas expressões (mas com elementos eclesiológicos característicos comuns), as CEBs são “Igreja que nasce do Povo pela força do Espírito Santo”, são “Igreja pobre, para os pobres, dos pobres e com os pobres”, são “Igreja em permanente saída”.
        Na organização da Igreja, as CEBs não são um grupo ou movimento entre muitos outros. Elas são “o primeiro e fundamental núcleo eclesial” ou “a célula inicial da estrutura eclesial” (Medellín XV, 10), e a Paróquia - renovada e libertadora - é “um conjunto pastoral unificador das Comunidades de Base” (ib. XV, 13). Lutemos para que esse ideal seja vivido e se torne, cada vez mais, realidade!
        O Encontro foi uma experiência de intereclesialidade e de irmandade inesquecível. Para melhorar ainda mais os próximos Intereclesiais das CEBs, permito-me dar duas sugestões. Primeira: que - na programação dos Intereclesiais - haja mais espaço e mais tempo para a escuta do povo, aprendendo com sua sabedoria de vida e com sua vivência da fé.
        “Em todos os batizados/as, desde o primeiro ao último, atua a força santificadora do Espírito que impele a evangelizar. O povo de Deus é santo em virtude desta unção, que o torna infalível ao crer (‘in credendo’), não pode enganar-se, ainda que não encontre palavras para explicar a sua fé. O Espírito o guia na verdade e o conduz à salvação. Como parte do seu mistério de amor pela humanidade, Deus concede a todos os fiéis o instinto da fé (o ‘sensus fidei’) que os ajuda a discernir o que vem realmente de Deus. A presença do Espírito confere aos cristãos/ãs uma certa conaturalidade com as realidades divinas e uma sabedoria que lhes permite captá-las intuitivamente, embora não possuam os meios adequados para expressá-las com precisão. Em virtude do Batismo recebido, cada membro do Povo de Deus tornou-se discípulo missionário (cf. Mt 28, 19). Cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é sujeito ativo de evangelização” (Papa Francisco. A Alegria do Evangelho - EG, 119-120).
        Segunda sugestão: que, à luz do que Francisco nos ensina, os assessores e assessoras sejam sempre pessoas que participam integralmente do Intereclesial, que partilham sua vida com o povo, que aprendem com ele e que - a partir dessa experiência vivencial - contribuem com seus conhecimentos na busca comunitária de novos caminhos.
        Por fim, comunicamos que a cidade de Rondonópolis, no Estado de Mato Grosso (Regional Oeste II da CNBB), assumiu o compromisso de sediar, em 2022, o 15º Intereclesial das CEBs. “Vem pra cá, vem pra cá, 15º Mato Grosso acolherá”.
        “Lá vem, lá vem o trem das CEBs. Fazendo nossa história sempre a evangelizar. O trem traz nossas lutas, nosso canto e nossa força. E a próxima parada desse trem é o Mato Grosso”.
        Somos Igreja de Jesus de Nazaré! Somos Povo de Deus! Somos CEBs!

       (Leiam, em www.cebsdobrasil.com.br, a íntegra da “Mensagem do Papa Francisco ao 14º Intereclesial das CEBs”, a “Carta dos bispos presentes no 14º Intereclesial das CEBs”, a “Carta do 14º Intereclesial das CEBs” e outros escritos muito interessantes sobre as CEBs).






Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 01 de fevereiro de 2018 

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos