sábado, 30 de junho de 2018

Medellín em gotas: 10ª- Luzes para a ação evangelizadora

               
  Nossa missão pastoral - afirmam os participantes da II Conferência Episcopal -
“é essencialmente serviço de inspiração e de educação das consciências dos fiéis para ajudar-lhes a perceberem as exigências e responsabilidades de sua fé na vida pessoal e social”. Dentro dessa perspectiva, a Conferência “quer evidenciar as mais importantes para os países de nosso continente, tendo em conta o juízo de valor que, sobre a situação econômica e social do mundo de hoje, emitiram os últimos documentos do magistério da Igreja e que no continente latino-americano têm plena vigência”.
    O documento “Justiça” oferece luzes para a ação evangelizadora que liberta e que - abrindo caminhos novos - faz acontecer a Sociedade do Bem Viver: o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo.
1. A Igreja latino-americana “julga dever orientar-se para a formação de comunidades nacionais, que refletem uma organização global, onde toda a população, porém, especialmente as classes populares, tenha, através de estruturas territoriais e funcionais, uma participação receptiva e ativa, criadora e decisiva, na construção de uma nova sociedade”.
   2. As estruturas intermediárias entre a pessoa e o Estado “devem ser organizadas livremente, sem uma intervenção indevida da autoridade ou de grupos dominantes, no seu desenvolvimento e na sua participação concreta na realização do bem comum total. Constituem a trama vital da sociedade. São também a expressão real da liberdade e da solidariedade dos cidadãos”.
3. A família - sem desconhecer seu caráter insubstituível como grupo natural - é uma estrutura intermediária. “O conjunto das famílias deve assumir sua função no processo de transformação social. As famílias latino-americanas deverão organizar seu potencial econômico e cultural para que suas legítimas necessidades e aspirações sejam levadas em conta, dentro dos setores onde se tomam as decisões fundamentais, que podem promovê-las ou prejudicá-las. Deste modo, assumirão um papel representativo e de participação eficiente na vida de comunidade global. Além da dinâmica que lhes cabe desencadear no conjunto de famílias de cada país, é necessário que os governos estabeleçam uma legislação e uma sadia e atualizada política familiar”.
          4. O trabalho - sem desconhecer a totalidade de seu significado humano - é também (como já disse na 7ª Gota “Situação de Injustiça”) uma estrutura intermediária “enquanto constitui a função que dá origem à organização profissional no campo da produção”. Reparem: “Por isso, na estrutura intermediária profissional, a organização sindical rural e operária, deverá adquirir a força e a presença suficientes a que os trabalhadores têm direito. Suas associações deverão ter uma força de solidariedade e responsabilidade capaz de fazer valer o direito de sua representação e participação nos meios de produção e no comércio nacional, continental e internacional”. A II Conferência Episcopal “dirige-se a todos aqueles que, com o esforço diário, vão criando os bens e serviços que permitem a existência e o desenvolvimento da vida humana”. De modo muito especial pensa “nos milhões de homens e mulheres latino-americanos, que constituem o setor camponês e operário. Eles, na sua maioria, sofrem, esperam e se esforçam por uma mudança que humanize e dignifique seu trabalho”. Embora considerando “a diversidade de situações e recursos em países diferentes, não há dúvida de que existe um denominador comum em todas elas: a necessidade de uma promoção humana para as populações camponesas e indígenas. Esta promoção não será viável se não for realizada uma autêntica e urgente reforma das estruturas e da política agrárias. Esta transformação estrutural e suas políticas correspondentes não podem limitar-se a uma simples distribuição de terras. Torna-se necessário fazer um estudo profundo das mesmas, segundo determinadas condições que legitimam sua ocupação e seu rendimento, tanto para as famílias camponesas como para sua contribuição à economia do país”. Isso exigirá “a organização dos camponeses em estruturas intermediárias eficazes, principalmente em forma de cooperativas e estímulo para a criação de centros urbanos nos meios rurais, que permitam o acesso da população camponesa aos bens de sua cultura, da saúde, desenvolvimento espiritual e de sua participação nas decisões locais e naquelas que incidam sobre a economia e a política nacional”.
  5. A industrialização é um processo “irreversível e necessário à independência econômica e para que possamos nos integrar na moderna economia mundial”. Se for a serviço do bem comum - de todos e todas, principalmente dos trabalhadores e trabalhadoras - ela “será um fator decisivo à elevação dos níveis de vida de nossos povos e para que se possa proporcionar-lhes melhores condições para o desenvolvimento integral”. Para isso “é indispensável que se revejam os planos e as macroeconomias nacionais, salvando-se a legítima autonomia de nossos países, as justas reivindicações das nações mais fracas e a almejada integração econômica do continente, respeitando-se sempre os inalienáveis direitos das pessoas e das estruturas intermediárias, como protagonistas deste processo”. 
          6. A reforma política é um requisito indispensável “em face da necessidade de uma transformação global nas estruturas latino-americanas”. “O exercício da autoridade política e suas decisões têm como única finalidade o bem comum”. Reparem mais uma vez: “Na América Latina tal exercício e decisões frequentemente aparecem favorecendo sistemas que atentam contra o bem comum ou favorecem grupos privilegiados”.
7. A informação e a conscientização são também indispensáveis. “Desejamos afirmar que é indispensável a formação da consciência social e a percepção realista dos problemas da comunidade e das estruturas sociais. Devemos despertar a consciência social e hábitos comunitários em todos os meios e grupos profissionais, seja no que se refere ao diálogo e à vivência comunitária dentro do mesmo grupo, seja no que se refere a suas relações com grupos sociais maiores” (operários, camponeses, profissionais liberais e outros). Reparem outra vez: “A tarefa de conscientizar e educar socialmente, deverá ser parte integrante dos Planos de Pastoral de Conjunto, em seus diversos níveis”. Nossas Igrejas têm hoje essa preocupação? Reparem novamente: “É necessário que as pequenas comunidades sociológicas de base se desenvolvam para o estabelecimento de um equilíbrio diante dos grupos minoritários, que são grupos que detêm o poder”. Por fim, “a Comissão de Justiça e Paz deverá ser promovida em todos os países, pelo menos em nível nacional”. As Conferências Episcopais - numa autêntica atitude de serviço - “constituirão sua Comissão de Ação ou Pastoral Social”. “O mesmo vale para os níveis diocesanos”. Que estas luzes nos ajudem a entender - melhor e mais profundamente - a realidade na qual vivemos e a encontrar estratégias eficazes para mudá-la.
(Comunico aos prezados leitores e leitoras que - se Deus quiser - voltarei a escrever em agosto)


Descrição: Resultado de imagem para Fotos da II Conferência Episcopal da América Latina e Caribe em Medellín, 1968



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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 27 de junho de 2018



sexta-feira, 22 de junho de 2018

Medellín em gotas: 9ª- Igreja servidora



A Igreja “é-no-mundo”, é mundo e serve ao mundo. No processo de socialização - “como processo sociocultural de personalização e solidariedade crescente” - a Igreja, cumprindo sua missão de servidora, contribui na construção da Sociedade do Bem Viver ou, à luz da Fé, do Reino de Deus - “Reino de Justiça, de Amor e de Paz” - que é a Boa Notícia de Jesus de Nazaré.
O documento “Justiça” afirma: “A Igreja Latino-Americana tem uma mensagem para todos os seres humanos que neste continente têm ‘fome e sede de justiça’. O mesmo Deus que criou o ser humano à sua imagem e semelhança, criou a terra e tudo o que nela existe para uso (e - acrescento eu - cuidado) de todos os seres humanos, e de todos os povos, de modo que os bens criados possam bastar a todos de maneira mais justa (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS 69), e dá poder ao ser humano para que solidariamente transforme e aperfeiçoe o mundo (Gn 1,29). É o mesmo Deus que, na plenitude dos tempos envia seu Filho para que feito carne, venha libertar (reparem: libertar) todos os seres humanos, de todas as escravidões a que o pecado os sujeita: a fome, a miséria, a opressão e a ignorância, numa palavra, a injustiça que tem sua origem no egoísmo humano (Jo 8,32-34)”.
Continua reconhecendo: “Por isso, para nossa verdadeira libertação (reparem novamente: verdadeira libertação), todos os seres humanos necessitam de profunda conversão para que chegue a nós o ‘Reino de Justiça, de Amor e de Paz’. A origem de todo desprezo ao ser humano, de toda injustiça, deve ser procurada no desequilíbrio interior da liberdade humana, que necessita sempre, na história, de um permanente esforço de retificação”.
E ainda: “A originalidade da mensagem cristã não consiste tanto na afirmação da necessidade de uma mudança de estruturas, quanto na insistência que devemos por na conversão do ser humano. Não teremos um continente novo sem novas e renovadas estruturas, mas sobretudo não haverá continente novo sem seres humanos novos, que à luz do Evangelho saibam ser verdadeiramente livres e responsáveis”.
Lembra, pois: “Somente a luz de Cristo esclarece o mistério do ser humano. Sob essa luz, toda a obra divina, na história da salvação é uma ação de promoção e de libertação humana (reparem mais uma vez: de promoção e de libertação humana) que tem como único objeto o amor. O ser humano é ‘criado em Cristo Jesus’, feito nele ‘criatura nova’ (2Cor 5,17). Pela fé e pelo batismo, o ser humano é transformado, cheio do dom do Espírito, com um dinamismo novo, não de egoísmo, mas de amor que o leva a buscar uma nova relação mais profunda com Deus, com os seres humanos seus irmãos e com as coisas. O amor, ‘a lei fundamental da perfeição humana, e portanto da transformação do mundo’ (GS 32), não é somente o mandamento supremo do Senhor, é também o dinamismo que deve mover os cristãos a realizarem a justiça no mundo, tendo como fundamento a verdade e como sinal a liberdade”.
E declara: “É assim que a Igreja quer servir ao mundo, irradiando sobre ele uma luz e uma vida que cura e eleva a dignidade da pessoa humana (GS 41), consolida a unidade da sociedade (GS 42) e dá um sentido e um significado mais profundo a toda a atividade dos seres humanos”.
Com toda firmeza, destaca: “Certamente, para a Igreja, a plenitude e a perfeição da vocação humana se alcança com a inserção definitiva de cada ser humano na Páscoa ou triunfo de Cristo, porém a esperança de tal realização definitiva, antes de adormecer, deve ‘avivar a preocupação de aperfeiçoar esta terra onde cresce o corpo da nova família humana, o que pode, de certa maneira, antecipar a visão do novo século’. Não confundimos progresso temporal com Reino de Cristo; entretanto, o primeiro, ‘enquanto pode contribuir a ordenar melhor a sociedade humana, interessa em grande medida o Reino de Deus’ (GS 39)’.
E conclui: “A busca cristã da justiça é uma exigência do ensinamento bíblico. Todos os seres humanos, somos apenas humildes administradores dos bens”.
Termina com uma afirmação que é fundamental para a nossa missão de cristãos e cristãs: “Na busca da salvação devemos evitar o dualismo que separa as tarefas temporais da santificação. Apesar de estarmos rodeados de imperfeições, somos seres humanos de esperança. Cremos que o amor a Cristo e a nossos irmãos será não somente a grande força libertadora (reparem outra vez: a grande força libertadora)  da injustiça e da opressão, mas também e principalmente a inspiradora da justiça social, entendida como concepção de vida e como impulso para o desenvolvimento integral de nossos povos”.
O presente texto é verdadeira Teologia da Libertação. Infelizmente, na Igreja, muitos e muitas esqueceram-no ou fizeram questão de esquecê-lo.  O texto é tão claro que não precisa de maiores explicações. Para todos e todas nós, cristãos e cristãs, deve ser um texto de cabeceira. Ele é uma luz que ilumina toda nossa ação evangelizadora. Meditemos!



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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 20 de junho de 2018

sábado, 16 de junho de 2018

Papa Francisco parabeniza Gustavo Gutiérrez



Gustavo Gutiérrez Merino, Frade Dominicano, nasceu em Lima, no Peru, no dia 8 de junho de 1928. É considerado o “Pai da Teologia da Libertação”. Hoje, ele reside no Convento dos Dominicanos de Lima. Dedica-se ao trabalho pastoral, à pregação de Retiros, à administração de Cursos de Teologia na Universidade de Notre Dame (Indiana, EUA) e no “Studium” Dominicano de Lille (França), e de Conferências em Cursos e Encontros.
Com todo carinho e apreço - como um irmão que de coração aberto escreve a outro irmão - o Papa Francisco envia uma Carta ao teólogo Gustavo Gutiérrez Merino, parabenizando-o pelo seu aniversário de 90 anos (8 de junho de 2018) e agradecendo o seu serviço teológico e o seu amor aos pobres. Por fim, encoraja-o a seguir adiante.
   Vejam que carta bonita e singela: “Estimado irmão: Por ocasião do seu 90º aniversário, escrevo para parabenizá-lo e assegurá-lo de minha oração neste momento significativo de sua vida.
  Uno-me à sua ação de graças a Deus, e agradeço-lhe pela sua contribuição à Igreja e à humanidade através do seu serviço teológico e o seu amor preferencial pelos pobres e descartados da sociedade. Obrigado por todos os seus esforços e pela sua maneira de interpretar a consciência de cada um, para que ninguém seja indiferente ao drama da pobreza e da exclusão”.
Conclui o Papa: “Com esses sentimentos encorajo você a continuar a sua oração e o seu serviço aos outros, dando testemunho da alegria do Evangelho. E por favor, peço-lhe que reze por mim. Que Jesus te abençoe e que a Virgem Santa te cuide!. Fraternalmente, Francisco”.
    Por ser uma pessoa despojada de qualquer formalismo, o que nos toca mais profundamente nas palavras do Papa é sua simplicidade e sua sinceridade.
Francisco já tinha recebido Gustavo Gutiérrez no Vaticano em 14 de setembro de 2013 e também em 22 de novembro de 2014, por ocasião da audiência aos missionários italianos que participaram do 4º Encontro Missionário Nacional em Roma, no qual Gutierrez foi um dos conferencistas.
    A manifestação de um carinho e de uma gratidão toda especial do Papa Francisco ao teólogo Gustavo Gutiérrez “foi celebrada como um gesto de reconhecimento do Santo Padre em relação à Teologia da Libertação por uma série de teólogos, intelectuais e lideranças ligadas a esta tradição que nasceu na América Latina”. Frei Betto declarou: “Ao felicitar nosso confrade e meu dileto amigo Gustavo Gutiérrez por seus 90 anos, o Papa Francisco reconhece o valor da Teologia da Libertação e reforça na Igreja a Opção pelos Pobres” (http://franciscanos.org.br/?p=162244).
     Na verdade, toda Teologia é da Libertação. Se não for da Libertação, não é verdadeira Teologia. “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e proclamar o ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). “Eu vim para que todos e todas tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
     A expressão “da Libertação” - de alguma forma - é uma redundância, mas serve de lembrete. Convida-nos a “fazer teologia” sempre a partir da realidade (da práxis: prática e teoria) e à luz da Palavra, para que o a reflexão teológica nos ajude a entender - melhor e mais profundamente - o sentido da vida e nos comprometa - cada vez mais conscientemente - na luta pela libertação de tudo aquilo que impede a construção de outro mundo possível, que é a sociedade do Bem Viver, que é o Reino de Deus. A Teologia da Libertação é - podemos dizer - o “jeito bíblico” e, de maneira especial, “evangélico” de fazer toda a Teologia.
Uma das críticas que se faz à Teologia da Libertação é a de que - ao menos até agora - ela tratou, quase que exclusivamente, da realidade social e política. Ora, como o ser humano é histórico (um “vir-a-ser”, um ser em construção), seus conhecimentos - meramente racionais (científicos e filosóficos) ou racionais à luz da Fé (teológicos) - são também históricos, situados (no espaço) e datados (no tempo).  
Aconteceu (e poderá sempre acontecer) que - em determinadas situações, para dar sua contribuição na resposta aos prementes desafios apresentados - a Teologia da Libertação aprofundou mais alguns aspectos da realidade (como o social e o político) e deixou na sombra, outros aspectos (como o cultural). Com isso, a Teologia da Libertação deu a impressão que tratava somente de temas sociais e políticos.
Isso é humano e compreensivo quando “se faz teologia” a partir de situações concretas. Aspectos da realidade, que ficaram aparentemente esquecidos, poderão ser aprofundados em outros momentos. Só não se deve apresentar uma parte da verdade como se fosse toda verdade.
Por ser, pois, a história do ser humano no mundo um processo dialético (contraditório) entre libertação e opressão, entre vida e morte (não-vida), infelizmente - além da Teologia da Libertação (a verdadeira Teologia) - temos também a Teologia da Opressão (a falsa Teologia), que procura justificar e legitimar o mal, o pecado - social e pessoal - que existe no mundo, não só racionalmente, mas também em nome de Deus. É a hipocrisia religiosa, que - lamentavelmente - continua presente em nossas Igrejas hoje.
Como seguidores e seguidoras de Jesus - que vivem em Comunidades (Igrejas) - devemos estar sempre inseridos e inseridas (encarnados e incarnadas) na vida do povo, entranhadamente solidários e solidárias com todos e todas que sofrem e organicamente unidos e unidas a todos e todas que lutam pela Vida Humana e por todas as formas de Vida.
    "Como Cristo, por sua Encarnação ligou-se às condições sociais e culturais dos seres humanos com quem conviveu; assim também deve (reparem “deve” e não “pode”) a Igreja inserir-se nas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus” (Concílio Vaticano II. A atividade missionária da Igreja - AG, 10).
Os cristãos e cristãs têm, portanto, o dever de participar (ser militantes) dos Movimentos Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares, Fóruns de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos, Conselhos de Direitos e outras Organizações Populares, comprometidas na construção de “outro mundo possível”, que é a sociedade do Bem Viver, que é o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo.
Parabéns, meu Irmão Dominicano, Frei Gustavo Gutiérrez. Continue a “fazer Teóloga da Libertação”, oferecendo-nos “novas luzes” para entender o mundo no qual vivemos e cumprir nossa missão de seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. Unidos na oração.


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 13 de junho de 2018

sexta-feira, 8 de junho de 2018

“Outra” Celebração do Corpo de Cristo


Jesus de Nazaré foi “morador de rua” antes de nascer. No seio de sua mãe Maria e com seu pai José, perambulou nas ruas de Belém até encontrar um estábulo que abriu as portas para que sua mãe pudesse dá-Lo à luz. Nasceu como “sem-teto” numa manjedoura: “não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7). Anunciou a Boa Notícia do seu nascimento aos pastores, os “sem-terra” da época: “eu anuncio a vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo” (Lc 2,10). Foi migrante no Egito, fugindo de Herodes, um rei ganancioso e assassino. Foi operário (marceneiro) na oficina de seu pai José.
Em sua vida pública, Jesus de Nazaré “andou por toda parte fazendo o bem” (At 10,18). Esteve sempre ao lado dos pobres e “descartados” da sociedade: os leprosos, os mendigos e outros. Nunca morou em palácios ou mansões. Nunca sentou numa cátedra, a não ser a “cátedra” na qual recebeu a “coroa de espinhos”. Sua presença na casa de Zaqueu e seu encontro com o jovem rico provocaram neles uma tomada de posição: Zaqueu se converteu e mudou radicalmente de vida; o jovem rico - diante das exigências da proposta de Jesus - não teve a coragem de segui-lo e “foi embora triste” (Mt 19,22). Foi acusado de ser “subversivo”: “achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23,2). Foi preso, torturado e morto na cruz: “Pai em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Venceu a morte e ressuscitou: “Ele não está aqui, ressuscitou!” (Lc 24,6).
Por fim, Jesus de Nazaré enviou o Espírito Santo, o Amor de Deus, aos discípulos: “assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês, recebam o Espírito Santo” (Jo 20,21-22). Eles perderam o medo, abriram as portas do lugar onde se encontravam e saíram anunciando a Boa Notícia de Jesus (o Reino de Deus) e denunciando tudo o que é contrário a essa Boa Notícia, até sofrerem o martírio.
     É esse Jesus que continua presente hoje, que vive entre nós e caminha conosco: “eis que eu estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28, 20); “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20).
É esse Jesus que - no dia 25 de maio passado, no Jardim Europa, em Goiânia - na pessoa de 9 irmãos nossos adolescentes (todos pobres e a maioria negros) - morreu carbonizado e seu nome era: Daniel, Douglas Matheus, Elias, Elizeu, Gabriel, Johny, Lucas, Lucas Ranyel e Wallace. É esse Jesus que - no dia 30 do mesmo mês - vivo e ressuscitado, estava presente no Ato Público (em frente ao 7º Batalhão da Polícia Militar, onde se encontra o Centro de Internação Provisória), em memória dos adolescentes mortos, denunciando o Estado de Goiás como o responsável pela barbárie praticada e partilhando a dor das mães e familiares.
     “Eles prenderam meu filho vivo e me devolveram um pedaço de carvão” (uma mãe). “Meu filho foi preso por 157 (roubo) e sabe qual foi a pena dele? A morte. Isso de internação é uma mentira” (outra mãe)
No Ato, éramos muitas pessoas presentes: crianças, adolescentes, jovens adultos e idosos. Estávamos lá não só em nome pessoal, mas também em nome das Entidades que representávamos: Associações e Conselhos de Profissionais, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Movimentos Sociais Populares, Foruns de Defesa e Promoção de Direitos Humanos, Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB-GO), Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil e outras.
Em círculo, ao redor de ramalhetes de flores e mensagens escritas, “cheios e cheias de Ira e tristeza” - como Jesus quando, com seu olhar, fixava os fariseus e partidários de Herodes (cf. Mc 2,5) - expressamos, do mais profundo do coração, os nossos sinceros sentimentos de solidariedade às mães e familiares dos adolescentes mortos, partilhando sua dor e seu sofrimento, com falas, cantos e orações (muitas pessoas choravam). Gritávamos o nome dos adolescentes mortos e todos e todas em coro respondíamos: “presente”.
Em Jesus, os adolescentes completaram sua Páscoa - passagem da Morte à Ressurreição - e celebramos sua presença no meio de nós. Foi uma verdadeira experiência de Fé na Vida. Foi “outra” Celebração do Corpo de Cristo, no corpo dos adolescentes mortos e ressuscitados. Éramos uma Comunidade de verdadeiros Irmãos e Irmãs, seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. Fizemos o que Jesus teria feito e o que nosso irmão, o Papa Francisco - estando em Goiânia -  faria.
      Pessoalmente - sem nunca perder a esperança - nessa trágica história, a exemplo de Jesus de Nazaré, dois fatos deixaram-me “cheio de ira e tristeza”. Primeiro fato: constatar que no Ato Público, eu era o único Padre presente (sei que alguns Padres - embora poucos - queriam participar, mas não puderam por motivo justo). Constatar também que não havia ninguém representando oficialmente a Paróquia local e ninguém (nem bispo, nem padre, nem outro agente de pastoral) representando oficialmente a Arquidiocese de Goiânia.
     Segundo fato: constatar que a Arquidiocese - além de não ter feito nenhuma Nota Oficial de denúncia dos responsáveis por essa barbárie e de solidariedade às famílias dos adolescentes mortos - na Missa Solene da Festa do Corpo de Cristo (Praça Cívica - Setor Central), não fez nenhuma referência à tragédia acontecida e nenhuma oração no momento das preces. Deve ter sido para não “desagradar” ou “ofender” as autoridades presentes! Que hipocrisia! Que farisaísmo!
         Não é esse um comportamento que trai Jesus na pessoa dos adolescentes queimados e dos pobres, como fez Judas? Não é esse um comportamento de conivência com os Herodes e Pilatos de hoje?
    Um livro, publicado depois do Concílio Vaticano II, pergunta: “será que os católicos são ainda cristãos?”. Felizmente, baseado na minha longa experiência de convivência com o povo, posso afirmar que - entre os católicos e católicas pobres - existem muitos verdadeiros cristãos e cristãs, seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré, santos e santas de Deus. De qualquer forma, vale a pena refletirmos!
    Termino com o testemunho da avó (70 anos) do adolescente D.P.C. (15 anos), único sobrevivente do incêndio, que teve o braço esquerdo amputado em consequência das queimaduras sofridas e que ainda se encontra em grave estado de saúde. O testemunho é mais uma prova de que os menores infratores precisam de políticas públicas e de programas socioeducativos que suscitem neles a autoestima, a responsabilidade e o desejo de buscar - cada vez mais - o verdadeiro sentido da vida. Eles não precisam de Centros de Internação, que são verdadeiras cadeias ou, pior, depósitos de “lixo humano”.
Diz a avó: “D.P.C. (que na escola tinha notas boas, gostava de tocar violino e, antes da internação, vinha praticando aulas) mandou uma cartinha para mim falando que estava rezando todos os dias para voltar para casa logo, para voltar para as aulas dele, para as coisinhas dele” (O Popular, 05/06/18, p. 13). Meditemos!
(Leia também o artigo “Adolescentes queimados vivos”, em: http://freimarcos.blogspot.com/2018/06/adolescentes-queimados-vivos.html)


A imagem pode conter: 6 pessoas, incluindo Cida Alves, pessoas em pé, multidão e atividades ao ar livre




ato em memoria de menores que morreram em frente ao 7bpm.jpg

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 06 de maio de 2018

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos