sábado, 23 de setembro de 2017

É muita cara de pau!


O golpista Michel Temer - que, juntamente com o então presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha, tramou de maneira covarde e traiçoeira o impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff, escreveu o artigo “Foco no que interessa ao Brasil!” (Diário da Manhã, Caderno Opinião Publica, Capa, 17/09/17). É muita cara de pau! É muita mentira! É muita sem-vergonhice! Para ser verdadeiro, o título do artigo deveria ser “Foco no que interessa aos detentores do poder econômico”. Michel Temer, apoiado por uma corja de políticos corruptos e oportunistas, deve estar pensando que todos os trabalhadores e trabalhadoras são idiotas!
Falando de suas viagens ao exterior, declara: “Buscarei investimentos para o Brasil. Terei encontros com bancos e formadores de opinião para falar sobre as oportunidades econômicas que nosso país oferece, além de reafirmar o compromisso do meu Governo com a agenda de reformas”.
Descaradamente, continua afirmando: “Promover nossa economia no exterior se tornou uma tarefa muito mais simples agora que saímos da recessão e adotamos políticas necessárias para modernizar o país e dar sustentabilidade ao crescimento”.
E ainda: “Desde que meu governo assumiu, há 16 meses, aprovamos projetos essenciais para alavancar mudanças que, há tempos, eram ansiadas: o teto para os gastos públicos, a renegociação de dívidas estaduais, a modernização da reforma trabalhista e a regulamentação do trabalho terceirizado, para citar apenas os de maior impacto econômico. Estamos executando, ainda, um plano robusto de desestatização (leia: venda do Brasil!), que já abarca 146 empreendimentos, entre portos, rodovias, ferrovias, usinas hidrelétricas e estatais. Desse total, 48 projetos já foram concluídos”.
Pergunto: as mudanças de que fala Temer eram ansiadas por quem? A resposta é simples. Eram ansiadas pelos donos do poder financeiro mundial, adoradores do deus dinheiro, que querem aumentar ao máximo a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras até sugarem sua última gota de sangue. É o poder do mal! É o poder do demônio!
No dia 14 de setembro (Dia Nacional de Lutas, Mobilização e Paralização em Defesa do Serviço Público, contra a Reforma da Previdência e pela Revogação da Reforma Trabalhista”), o “Fórum Goiano Contra as Reformas da Previdência e Trabalhista” - como manifestações perversas e iníquas das Reformas, ou melhor, Contrarreformas - destacou::
  • O assalto ao fundo público para garantia dos ganhos dos rentistas que se beneficiam do sistema de dívida pública e da lucratividade do empresariado por meio da Emenda Constitucional 95, que reduz drasticamente os investimentos em saúde, educação, previdência social, mobilidade urbana e demais serviços públicos por 20 anos;
  • A regulamentação da Terceirização irrestrita, que proporciona a demissão e a redução dos salários da grande massa dos trabalhadores/as;
  • A Reforma Trabalhista, que - ao sobrepor o negociado ao legislado - acarretará uma deterioração das condições de trabalho e das relações trabalhistas;
  • E a pretendida aprovação da Reforma da Previdência (PEC 287/16), que - em sendo aprovada - desmontará o sistema de seguridade social vigente e inviabilizará o direito à aposentadoria para a maioria dos trabalhadores/as” (Impresso).
O artigo inteiro de Michel Temer visa enganar o povo com uma enxurrada de mentiras e dados falsos. Todas as Reformas, ou melhor, Contrarreformas que foram aprovadas prejudicam os trabalhadores/as e acabam com os poucos direitos que eles e elas conquistaram a duras penas e com muitas lutas.
O custo da chamada crise do Brasil, que é parte da crise mundial do capitalismo, está sendo jogado nas costas dos trabalhadores e trabalhadoras.
Os atos de corrupção de políticos e governantes inescrupulosos são reflexos ou manifestações de um sistema estruturalmente corrupto, que é o sistema capitalista neoliberal. Michel Temer e seus asseclas são capachos - muito bem remunerados - desse sistema iniquo
Cito só um exemplo para ilustrar a perversidade diabólica do sistema capitalista neoliberal: No Brasil, empresas deixam de pagar cerca de R$ 500 bilhões ao Estado anualmente, mesmo valor gasto na Previdência Social (veja a lista das 500 empresas que mais devem à União - com a Vale, a Carital Brasil LTDA e a Petrobras no 1º, 2º e 3º lugar respectivamente - em: http://www.conjur.com.br/2015-out-14/fazenda-divulga-500-maiores-inscritos-divida-ativa-uniao).
O combate à sonegação e evasão fiscal seria suficiente para cobrir os gastos com a Previdência. Precisamos desmascarar a hipocrisia e as mentiras dos adoradores do deus dinheiro.
Os trabalhadores e trabalhadoras - unidos e organizados - devem lutar contra a prática da corrupção de políticos e governantes, mas devem sobretudo lutar para abrir caminhos novos que levem à mudança do sistema capitalista neoliberal, que é legal e estruturalmente corrupto e perverso.
Contra a Reforma da Previdência! Pela revogação da Reforma Trabalhista! Nenhum direito a menos!
Em tempo: O discurso de Michel Temer - “O compromisso do Brasil com o desenvolvimento” - na ONU (19/09/17) é outra enxurrada de mentiras, a começar pelo título. Pergunto: o desenvolvimento de quem? Só se for dos ricos para se tornarem cada vez mais ricos, à custa do sangue dos trabalhadores/as. Que descaramento! Que farisaísmo! 




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 20 de setembro de 2017 

sábado, 16 de setembro de 2017

Pecado de omissão da Igreja


A respeito do 23º Grito dos Excluídos 2017 - cujo tema é “Vida em primeiro lugar” e lema “Por direitos e democracia, a luta é todo dia” - a CNBB Nacional enviou às Comunidades, Paróquias e Dioceses três Cartas ou Mensagens. A primeira “Apoio ao 23º Grito dos Excluídos” (12 de julho) da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora (Pastorais Sociais) solicita “efetivo apoio” ao 23º Grito dos Excluídos/as 2017.
A segunda “Unidos para servir” (16 de agosto), da Presidência da CNBB, pede que o dia 7 de setembro seja também um dia de oração e jejum pelo Brasil. A terceira “Vida em primeiro lugar” (31 de agosto), também da Presidência da CNBB, pede novamente às Comunidades o apoio ao 23º Grito dos Excluídos/as. “Encorajamos, mais uma vez, as pessoas de boa vontade, particularmente em nossas Comunidades, a se mobilizarem pacificamente na defesa da dignidade e dos direitos do povo brasileiro, propondo ‘a vida em primeiro lugar’”.
Apesar dessas Cartas, muitas Dioceses - como a Arquidiocese de Goiânia - não atenderam ao pedido da CNBB e preferiram o silêncio, a indiferença e o desinteresse, lavando as mãos como Pilatos e traindo Jesus na pessoa dos Excluídos/as como Judas. A Arquidiocese de Goiânia, em seus meios de comunicação, como o “Encontro Semanal” (distribuído em todas as Comunidades e Paróquias) e outros, não publicou uma só palavra sobre o 23º Grito dos Excluídos/as.
É uma falta de comunhão com a CNBB. As Cartas - dizem os defensores desse posicionamento - não têm caráter de obrigatoriedade. Que visão legalista e farisaica! A comunhão constrói-se a partir do compromisso com a promoção da vida e não do que é canonicamente obrigatório.
Para quem (como eu, que fui colaborador direto de Dom Fernando Gomes dos Santos) acompanhou e viveu intensamente a caminhada de renovação pós-conciliar da Igreja de Goiânia na década de setenta e oitenta, tudo o que está acontecendo hoje é muito doido! O Papa são João XXIII abriu as janelas (e as portas) da Igreja para que entrasse ar puro, mas atualmente muitas Igrejas locais (Dioceses) preferem fechar novamente as janelas (e as portas) e ficar com o ar contaminado. É uma provação pela qual a Igreja da Caminhada - como se costumava chamar - está passando. Ela não morreu! Está muito viva, mesmo que seja nas catacumbas! Ela voltará fortalecida e com mais vigor! Tenho certeza, na fé, que Deus vai me dar a graça de ver esse dia!
A desculpa apresentada para tentar justificar a não participação no 23º Grito dos Excluídos/as foi: o Grito defende algumas bandeiras com as quais a Igreja não concorda. Ora, se os seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré são chamados a ser sal da terra, luz do mundo e fermento na massa, podem - eles e elas - escolher o tipo de terra que querem salgar, o tipo de mundo que querem iluminar e o tipo de massa que querem fermentar? Não é isso um absurdo?
Vejam com que simplicidade, respeito e espírito fraterno o Papa Francisco - no meio dos Movimentos Populares - se coloca diante da questão da diversidade e das diferenças. “Nós que hoje estamos aqui, de diferentes origens, credos e ideias, talvez não estejamos de acordo acerca de tudo, certamente pensamos de modo diverso sobre muitas coisas, mas sem dúvida estamos de acordo sobre estes pontos”, ou seja, as três tarefas imprescindíveis para a mudança de estruturas e a construção de uma alternativa humana: “pôr a economia ao serviço dos povos; construir a paz e a justiça e defender a Mãe Terra” (Discurso aos participantes do 3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Roma - Itália, 05/11/16)
Vejam também o que diz o Papa a respeito da participação dos cristãos/ãs nos Movimentos Populares e o convite que ele faz a todos e todas nós. “Soube que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este Encontro” (Discurso aos participantes do 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).
Por que muitos padres e bispos - pastores de Comunidades, Paróquias e Dioceses - não fazem como o Papa e não atendem ao seu convite? Por que a Arquidiocese de Goiânia não publicou uma palavra sequer sobre os três Encontros Mundiais dos Movimentos Populares com o Papa, que são a “marca registrada” do seu ministério pastoral?
Infelizmente, temos hoje na Igreja dois tipos de oposição ao Papa Francisco: a direta - que, mesmo não concordando com ela, devemos respeitar - e a silenciosa, que é uma oposição seletiva e cita do Papa só aquilo que lhe interessa. Essa oposição é hipócrita e farisaica! Não podemos aceita-la!
Apesar do boicote silencioso de muitas Igrejas locais (Dioceses) - que é um grave pecado de omissão, do qual os responsáveis terão que prestar conta a Deus - o Grito dos Excluídos/as aconteceu no Brasil inteiro e alcançou seus objetivos.
Em Goiânia - como foi amplamente divulgado - o Grito aconteceu na Região Noroeste. Participaram mais de 500 pessoas, a maioria líderes de Movimentos Populares e Sindicais, animadores e animadoras de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), agentes das Pastorais socioambientais, da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e (um testemunho que nos edificou a todos e todas) muitas religiosas inseridas, que (com o apoio da CRB Nacional e Regional) vivem a vida do povo e são solidárias com suas lutas (mesmo tendo que enfrentar às vezes - como diz o Papa Francisco - a “peste do clericalismo”. Os Padres éramos três.
Pela gravidade das situações que os nossos irmãos e irmãs vivem - entre os presentes no Grito - merecem um destaque especial e todo nosso apoio o Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) e o Movimento Nacional dos Trabalhadores/as Sem Teto (MTST).
À luz da fé, fizemos a experiência da presença de Jesus de Nazaré. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome (ou seja, por causa de mim e do meu projeto de vida), eu estou no meio deles” (Mt 18, 20).
Lembremos as palavras do Papa Francisco - pronunciadas há poucos dias - que nos animam a todos/as e fortalecem a nossa esperança. “Existem os pecados dos dirigentes da Igreja, carentes de inteligência ou que se deixam manipular. Mas a Igreja não são os bispos, os papas, os padres. A Igreja é o povo” (Dominique Woltom. Francisco - “socialmente um pouco franciscano, intelectualmente um pouco dominicano e politicamente um pouco jesuíta”. Instituto Humanitas Unisinos - IHU, 12/09/2017. Em: http://www.ihu.unisinos.br/571571-voce-sabe-como-um-argentino-se-suicida).
Na medida em que - diz ainda Francisco - nos envolvermos com a vida de nosso povo fiel e sentirmos a profundidade de suas feridas, podemos ver, sem filtros clericais, o rosto de Deus” (Em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/567500-papa-aos-bispos-do-celam-despojar-se-dos-filtros-clericais).
Trata-se de diariamente trabalhar no campo, lá onde vive o Povo de Deus. A missão se faz no corpo a corpo” e - acrescento eu - não morando em palacetes (Em: http://br.radiovaticana.va/news/2017/09/07/papa_aos_bispos_do_celam_a_miss%C3%A3o_se_faz_no_corpo_a_corpo/1335393).
A proposta dos Grupos Bíblicos, das Comunidades Eclesiais de Base e dos Conselhos Pastorais - continua o Papa - se colocam na linha de superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade dos leigos”. (Em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2013/july/documents/papa-francesco_20130728_gmg-celam-rio.html). Meditemos!

A esperança nunca morre! Vamos à luta!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 13 de setembro de 2017 

domingo, 10 de setembro de 2017

16ª Romaria da Terra e das Águas de Goiás


No dia 2 de setembro milhares de romeiros e romeiras, trabalhadores e trabalhadoras de toda a Diocese de Goiás e também de outras Dioceses do Estado se encontraram na cidade de Itapuranga (GO) para a realização da 16ª Romaria da Terra e das Águas (e das Sementes).
O tema escolhido foi "Organização popular e Luta por Direitos" e o lema “Memória, Rebeldia e Esperança.
Com a escolha do tema e do lema, a Romaria quis destacar a necessidade de ampliar e intensificar a organização popular para combater a concentração das terras, a destruição dos biomas brasileiros (de maneira especial, do cerrado), a contaminação das águas e a criminalização dos Movimentos Populares. Quis destacar também a necessidade de ampliar e intensificar a luta por direitos para defender a Mãe Terra, as sementes, a agroecologia familiar e comunitária, a soberania alimentar (direito de todos/as de produzir. distribuir e consumir alimentos saudáveis) e todos os direitos que estão sendo tirados. “Nenhum direito a menos!”.
Quis destacar ainda a necessidade de fazer a memória das lutas populares, dos mártires e da Igreja da Caminhada; a necessidade de rebeldia dos cristãos/ãs - sobretudo jovens - e de todas as pessoas frente ao sistema capitalista neoliberal, que é um sistema de exploração e ganância; e a necessidade de alimentar a esperança de uma boa convivência com o meio ambiente e de um mundo fraterno e justo em Cristo.
No mesmo dia da Romaria - na parte da manhã - a Pastoral da Juventude da Diocese de Goiás realizou o Dia Nacional da Juventude (DNJ), que contou com aproximadamente 500 jovens. O encontro aconteceu na Igreja Nossa Senhora de Fátima - iniciando às 8h e encerrando com o almoço - e foi marcado por momentos orantes, oficinas culturais, danças e muita cantoria. O DNJ teve como tema: “Juventude em defesa da vida, dos povos e da Mãe Terra”. No período da tarde, os jovens continuaram celebrando seu dia participando da Romaria da Terra e das Águas.
A Romaria foi organizada pela Diocese de Goiás, CPT diocesana e CPT Regional Goiás, com o apoio da CNBB Regional Centro Oeste e da Comissão das Pastorais Sociais da CNBB Nacional. Logo na chegada (no início da tarde), os romeiros e as romeiras foram recepcionados por grupos da Paróquia de Itapuranga que davam informações e orientações sobre a Romaria.
Na Feira Coberta da cidade - éramos quase cinco mil pessoas (entre as quais muitos/as jovens) - começou a Romaria com a acolhida das diversas caravanas de romeiros e romeiras que vinham das Paróquias da Diocese de Goiás e também de outras Dioceses do Estado. Da Paróquia Nossa Senhora da Terra do Jardim Curitiba III (Arquidiocese de Goiânia) éramos uma delegação de mais de oitenta pessoas (dois ônibus).
Foram acolhidos também representantes de Movimentos Populares do campo e da cidade, de Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras e alguns políticos (infelizmente, poucos), que apoiam a luta popular.
Ainda na Feira Coberta houve algumas falas concluindo com um momento de oração, presidido por Dom Eugênio Rixem, bispo de Goiás. Logo em seguida a equipe de animação convidou a todos e todas para a caminhada pelas principais ruas do Centro de Itapuranga. Estavam presentes também Dom Messias, bispo da Diocese de Uruaçu e Presidente da CNBB Regional Centro Oeste e Dom Guilherme, bispo da Diocese de Ipameri e Presidente da Comissão das Pastorais Sócias da CNBB Nacional.
Durante a caminhada, foi feita - com uma bonita encenação - a memória dos mártires da luta. Terminada a caminhada, todos e todas nos encontramos às margens do lago da cidade onde houve shows culturais, fala dos Movimentos Populares e lançamento do CD “O Povo Canta sua luta” da Diocese de Goiás.
A Romaria concluiu com a Celebração Eucarística, presidida por Dom Eugênio Rixen e concelebrada por Dom Messias, Dom Guilherme, Pe. Antonio Motta (Vigário Geral), Pe. Celso Carpenedo (Pároco de Itapuranga e Coordenador Diocesano de Pastoral) e alguns padres que estavam no meio do povo. A Celebração - que começou às 19h e terminou depois das 21h - foi um tempo forte de espiritualidade libertadora que nos confirmou a todos e todas na luta. Por ser uma Celebração muito rica em beleza e simbologia, representou - com seus cantos - o ápice do dia.
Em sua homilia Dom Eugênio iniciou saudando a todos os presentes e disse: “Passamos esse dia e foi um dia muito lindo, muito bem preparado onde muita gente se envolveu realmente e nós ficamos felizes de estarmos juntos aqui na mesma luta e no mesmo sonho”. Lembrou ainda que a pior coisa que pode acontecer é matar a esperança do povo e conclui citando a frase do mártir vivo Pe. Francisco Cavazzuti: “Aqui as forças da morte não venceram a vida”.
A Diocese de Ipameri irá acolher a 17ª Romaria da Terra, das Águas e das Sementes (Fonte: http://www.diocesedegoias.org.br/).
Na Romaria da Terra e das Águas fizemos a experiência da presença do Deus dos Oprimidos/as (Excluídos/as, Descartados/as), que caminha com seu povo e é um Deus Libertador. “Vi a miséria do meu povo, ouvi o seu clamor e conheci seu sofrimento, por isso desci para libertá-lo” (Ex 3, 7-8).
Por acreditar nesse Deus Libertador e por ser seguidor de Jesus de Nazaré (o maior revolucionário da história) - com dor no coração, mas com amor à Igreja - quero denunciar e lamentar o desinteresse e a indiferença da Arquidiocese de Goiânia e de outras Dioceses de Goiás (sobretudo de seus pastores: bispos e padres) em relação à Romaria da Terra e das Águas. Esse desinteresse e essa indiferença é um pecado de omissão,
Comunico aos romeiros e romeiras da 14ª Romaria da Arquidiocese de Goiânia - que foram a Aparecida do Norte justamente na data da Romaria da Terra e das Águas de Goiás - que perderam a viagem. Nossa Senhora Aparecida não estava lá, mas tinha ido a Itapuranga (GO) para participar da Romaria da Terra e das Águas. No dia 2 sentimos - de maneira muito forte - sua presença no meio de nós e às 18h (horário da Missa da Romaria da Arquidiocese de Goiânia em Aparecida do Norte), Nossa Senhora Aparecida estava nas margens do lago da cidade de Itapuranga, para participar - junto com todos os trabalhadores e trabalhadoras - da Celebração final da Romaria da Terra e das Águas. Tenho certeza que Nossa Senhora Aparecida teria gostado muito que a Arquidiocese de Goiânia tivesse incentivado os romeiros e as romeiras a irem a Itapuranga, deixando a Romaria a Aparecida do Norte para outra data.

Lutemos por uma Igreja pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres! É o sonho de Jesus de Nazaré! É o sonho do Concílio Vaticano II e de Medellín! É o sonho, hoje, da Igreja das catacumbas!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 06 de setembro de 2017 

sábado, 2 de setembro de 2017

Grito dos Excluídos/as 2017 “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”

Ouso dizer que está nas mãos dos Excluídos/as
o futuro da humanidade” (Papa Francisco)

O tema do 23º Grito dos Excluídos/as é - como sempre foi em todos os Gritos - “Vida em primeiro lugar!” e o lema - que muda a cada ano - é “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”.
No artigo anterior “Grito dos Excluídos/as 2017 - CNBB solicita ‘efetivo apoio’” apresentei, com alguns comentários, o conteúdo da Carta da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da CNBB sobre o 23º Grito (veja o artigo na internet). Neste artigo, abordo a temática e os objetivos (geral e específicos) desse Grito e faço algumas reflexões.
Começo lembrando que “os direitos e os avanços democráticos no Brasil, conquistados nas últimas décadas, são fruto das lutas populares. Exemplo disso foi a significativa participação da sociedade civil no debate para a elaboração e promulgação da Constituição Federal de 1988”, embora “muitas leis que garantiam direitos sociais não tenham sido regulamentadas, e muito menos aplicadas, correndo o risco de serem retiradas”.
Hoje, essas leis, em nome da chamada “modernização” - que na realidade é uma forma mais sutil e mais perversa de aumentar a exploração dos trabalhadores/as, sugando seu sangue - estão sendo retiradas pelo Governo ilegítimo do golpista Michel Temer, que não passa de um fantoche do sistema capitalista neoliberal mundial. Com o ajuste fiscal, esse Governo ilegítimo impõe reformas (ou melhor, antirreformas), que têm o objetivo de “retirar os direitos dos trabalhadores/as para tentar resolver a crise econômica no país”, como “a reforma trabalhista; a previdenciária; o congelamento de investimentos por 20 anos na saúde, educação, seguridade, saneamento; e a terceirização, que representam um retrocesso nos direitos conquistados no Brasil com muitas lutas, nos últimos 30 anos”.
O processo democrático - que garante vez e voz ao povo - não foi consolidado. “O que vivenciamos hoje é uma democracia representativa, profundamente questionada porque não representa a vontade popular. Se de fato ‘todo poder emana do povo’, como está na Constituição Federal, é preciso com urgência regulamentar e por em prática as leis que garantem vez e voz do povo nas decisões políticas do país. Avançar da democracia representativa para a democracia direta e participativa”.
A organização, a participação e a construção da luta de classe (que não é “ódio de classe”) precisa ser uma prática diária. Despertar a solidariedade entre os trabalhadores/as e organizar a resistência são elementos fundamentais nesse processo de democratização e defesa de direitos. Entretanto, o objetivo da nossa luta vai além do direito e da democracia, pois visa à construção de um Projeto Popular para o Brasil e outro mundo possível: justo e solidário, onde a vida esteja em primeiro lugar”.
As reformas desse Governo (assim como muitas medidas do Governo Dilma) “revelam um Estado que se volta contra a sociedade e o próprio ‘estado de direito’ e se curva aos interesses do capital - as grandes empresas, o agronegócio.

A luta é todo dia! Não devemos nos pautar somente em processos eleitorais, mas na possibilidade de reconquistar direitos em um cenário de longo prazo. Porém, com o sonho de construir uma nova sociedade pautada no bem viver.
A era dos retrocessos de direitos conquistados deve nos provocar a solidariedade de classe, a organização popular em rede, o retorno ao trabalho de base, a ressignificação do método Ver-Julgar-Agir e reencontrar estratégias culturais e populares de encantar-se com a luta e a defesa da vida, conquistando direitos e construindo a democracia”.
O objetivo geral do 23º Grito dos Excluídos/as é: “Valorizar a vida e anunciar a esperança de um mundo melhor, construindo ações a fim de fortalecer e mobilizar a classe trabalhadora nas lutas populares. Denunciar a estrutura opressiva e excludente da sociedade e do sistema neoliberal que nega a vida humana e quer nos impedir de sonhar”.
Os objetivos específicos são:
  • “Defender a vida dos Excluídos/as, assegurar os seus direitos, voz e lugar. Construir relações igualitárias que respeitem a diversidade de gênero, cultural, racial, religiosa e sejam esperança para juntas e juntos lutarmos por outro mundo possível;
  • Construir espaços e ações organizadas politicamente a fim de fortalecer e mobilizar o povo a construir um novo projeto de sociedade mais igualitária e fraterna que valorize a vida, a distribuição de terra, renda e bens para todos;
  • Denunciar as estruturas opressoras da sociedade, as injustiças cometidas pelo atual modelo econômico neoliberal, como a concentração de renda, a criminalização dos movimentos, dos defensores e defensoras dos direitos humanos e das lutas populares;
  • Ocupar os espaços públicos e exigir do Estado a garantia do acesso e a universalização dos direitos básicos como educação, segurança pública, saúde, transporte, alimentação saudável, saneamento básico, moradia. Lutar contra a privatização dos recursos naturais e contra as reformas que retiram direitos dos trabalhadores/as;
  • Cobrar dos governantes uma auditoria integral da dívida pública (interna e externa), que consome aproximadamente 45% do nosso dinheiro (orçamento federal) pagando juros e amortizações aos especuladores”.

Os eixos que estão sendo trabalhados neste ano são: democratizar a comunicação, direitos básicos, Estado fomentador de violência, projeto de país que desejamos e Estado que queremos, participação política e emancipação popular, unir generosas/os nas ruas, uma ecologia integral (Fonte: Jornal “Grito dos Excluídos/as”, número 66, ano 23, abril/maio 2017, p. 1-3).
Para os cristãos e cristãs, o Grito dos Excluídos/as (dos Descartados/as) é o Grito de Jesus de Nazaré. Dói muito constatar que na Igreja (falo da Igreja Católica, mas vale também para as Igrejas evangélicas) existem Comunidades, Paróquias e Dioceses que - por omissão ou ação de seus pastores (apesar da Carta da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da CNBB, de 12 de julho de 2017, solicitando “efetivo apoio”) - são indiferentes ou se opõem ao Grito dos Excluídos/as (às vezes, até boicotando-o com certo cinismo). Esses pastores são maus pastores, são os Judas de hoje, que traem Jesus na pessoa dos Excluídos/as. Terão que prestar conta a Deus!
Ai dos pastores que espalham e extraviam as ovelhas do meu rebanho, diz o Senhor. Agora sou eu que vou pedir contas a vocês pelo mal que praticaram, diz o Senhor” (Jr 23, 1-2).
Eu garanto a vocês - diz Jesus de Nazaré - tudo o que fizeram (ou deixaram de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizeram (ou deixaram de fazer)” (Mt 25, 40 e 45).
Irmãos bispos do Conselho Episcopal Pastoral (Consep) e da Presidência da CNBB: não sejam - por medo ou conveniências nem sempre evangélicas - omissos, mas verdadeiros profetas da vida! “Um dia de oração e jejum pelo Brasil” é sempre um tempo forte de graça de Deus, mas não basta. “O jejum que eu quero - diz o Senhor Deus - é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, libertar os oprimidos (os excluídos, os descartados) e despedaçar qualquer jugo, repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu e não se fechar ao seu semelhante (ao seu irmão)” (Is 58, 6-7).
Como Jesus de Nazaré, os bons pastores estão sempre ao lado das ovelhas excluídas (descartadas) e solidários com elas na defesa de seus direitos.
Venham! Juntos e juntas - numa grande mobilização nacional, com manifestações no Brasil inteiro - vamos participar do Grito dos Excluídos/as! Vamos nós mesmos ser o Grito dos Excluídos/as!

Lembrete: Grito dos Excluídos/as 2017 em Goiânia: 07/09, às 16h - Praça do CAIC (ou Praça do CIOP) - Jardim Curitiba I e II - Região Noroeste



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 30 de agosto de 2017 
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos