De
8 a 12 deste mês de março/26, aconteceu a Jornada Nacional de Luta das
Mulheres Sem Terra (MST) de 2026. O lema “Reforma Agrária Popular:
enfrentar as violências, ocupar e organizar!” sintetiza o papel fundamental
das Mulheres Sem Terra na luta pelo Projeto da Reforma Agrária Popular.
Lizandra
Guedes, coordenadora nacional do setor de Gênero do MST, explica que o
caráter da Jornada é de formação, organização e denúncia. São realizadas atividades
nos acampamentos e assentamentos de todo o país: “ações simbólicas que
possibilitem o diálogo com a sociedade brasileira sobre a necessidade da
Reforma Agrária Popular como pauta central”.
Na madrugada de 9 de março, “cerca de 500 Mulheres
Sem Terra ocuparam uma área de 400 hectares da Fundação Estadual de Pesquisa
Agropecuária (FEPAGRO) em São Gabriel (RS). No mesmo dia, outras Mulheres Sem
Terra ocuparam uma fazenda com histórico de trabalho escravo Estado do Tocantins (TO).
Essas ações - e muitas outras - integram a Jornada
Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, com atividades que mobilizam as
Sem Terra dos acampamentos e assentamentos de todo o país”.
A Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem
Terra deste ano “tem como foco, a denúncia da paralisação da Reforma
Agrária pelo Estado brasileiro, que, ao invés de garantir os direitos das
trabalhadoras e trabalhadores à terra e condições de nela produzirem alimentos
saudáveis para a população, apoia o agronegócio,
com investimentos em financiamentos para a produção de commodities. Modelo este
que implica em mais crimes ambientais, concentração de terras, além de
aprofundar a violência no campo brasileiro, as desigualdades sociais, a fome e
a pobreza no campo e na cidade”.
Como é comum em todos os anos, no dia 8 de
março, as Mulheres Sem Terra se somam a um conjunto de atividades unitárias com
as mulheres trabalhadoras de Movimentos Sociais Populares e Sindicatos de
Trabalhadoras/es em várias cidades do país. Segundo Lizandra, a construção
dessa Jornada de Lutas das Mulheres é orientada por três frentes de luta.
Primeira: “a urgente necessidade de
enfrentamento às violências nas mais variadas formas, entendendo que a
sociedade emancipada pela qual se luta exige territórios livres de exploração e
opressão”.
Segunda: “a
luta pela terra como motor da organização, que massifica e materializa o
projeto de vida digna que quer para o campo”.
Terceira: “a
necessidade (como elemento determinante) de organização permanente para o
fortalecimento dos territórios e a soberania dos povos, nos assentamentos,
acampamentos, cooperativas, associações, escolas, coletivos de mulheres,
jovens, pessoas LGBTI+ e grupos culturais”.
Infelizmente, temos ainda muitos despejos de
trabalhadoras/es de suas moradias truculentos, perversos, cruéis, desumanos e
antiéticos. Reafirmo: todo despejo é injusto e –
se tiver liminar de juiz – é mais injusto ainda, porque é uma injustiça legalizada
e institucionalizada. Pessoa humana não se despeja! (Veja,
por exemplo: https://mst.org.br/2026/03/09/policia-militar-de-tacisio-realiza-despejo-truculento-contra-trabalhadoras-sem-terra/).
A
Jornada programa também a pauta da participação na luta internacional contra
as violências às mulheres e ataques de países imperialistas à soberania dos
povos. “Nossa Jornada não poderia deixar de mencionar a luta e
solidariedade internacional. As Mulheres Sem Terra defendem também a soberania
popular dos povos do mundo, exigindo o fim do sequestro do presidente da
Venezuela Nicolas Maduro e Cília Flores, o fim do bloqueio criminoso a Cuba (e
outros), reafirmando que a luta por justiça social no campo brasileiro se
conecta com as lutas de todos os povos da América Latina e do mundo”, denuncia
Margarida da Silva, da coordenação nacional do MST.
Destacamos
ainda que “a luta das mulheres faz parte da origem e história do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Desde as primeiras Ocupações, há mais de
quatro décadas, a participação das mulheres foi - e continua sendo sempre mais
- fundamental para a construção do Programa de Reforma Agrária Popular e para a
resistência no campo. E o 8 de março, para as Mulheres Sem Terra, nunca é apenas
uma data celebrativa, mas sim um marco de denúncia e mobilização em torno da
luta por direitos”.
É
nesse contexto que surge a Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra:
“um potente processo de construção coletiva que transforma os territórios em
espaços de formação, organização e luta, no combate às diversas formas de
opressões existentes, e no enfrentamento ao capital no campo, materializado no
agronegócio, reafirmando o protagonismo das mulheres na construção de um Projeto
Popular para o Brasil”.
As
pautas históricas que mobilizam as Mulheres Sem Terra continuam atuais e
urgentes. “A luta é pela defesa da Reforma Agrária Popular, com a
desapropriação de terras públicas ou que não cumprem sua função social, pelo
acesso a políticas públicas como crédito, assistência técnica, comercialização
e pela garantia de políticas para a produção de alimentos saudáveis, mas também
pelo fim das violências, em particular contra mulheres e meninas”.
As
Mulheres Sem Terra também “denunciam as violências estruturais do
sistema capitalista, patriarcal e racista em que vivemos, que tem se
aprofundado no último período e se manifestando através dos alarmantes índices
de feminicídio, da discriminação, da LGBTfobia, que mata ou fere corpos e
subjetividades. O projeto de Reforma Agrária Popular, que o MST defende,
é mais do que uma alternativa concreta para esses problemas. Ele é o caminho
rumo à emancipação humana, superando a crise climática e ambiental, acabando
com a fome - através da produção de comida de verdade - e construindo um país
livre das violências”.
Na
Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra - o MST convocou todas
as mulheres do campo e da cidade para somarem suas forças.
Parabéns,
Mulheres Sem Terra, nossas companheiras e irmãs, pelo testemunho de vida
que - com suas lutas heroicas - estão nos dando. Todas e todos nós das CEBs,
das Pastorais Sociais Populares, dos Movimentos Sociais Populares, dos
Sindicatos de Trabalhadoras e Trabalhadores, dos Grupos Populares de Mulheres,
das Entidades de Estudantes, dos Fóruns de Direitos Humanos, das Comissões de
Justiça e Paz (e outras), estamos com vocês. Contem conosco. A vitória é
e será de vocês e - com vocês - de todas e todos nós.
Marcos Sassatelli, frade dominicanoDoutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)Professor aposentado de Filosofia da UFG
https://freimarcos.blogspot.com/ - Goiânia, 12 de março de 2026


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