domingo, 15 de março de 2026

A Luta das Mulheres Sem Terra

 


De 8 a 12 deste mês de março/26, aconteceu a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra (MST) de 2026. O lema “Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar!” sintetiza o papel fundamental das Mulheres Sem Terra na luta pelo Projeto da Reforma Agrária Popular.

Lizandra Guedes, coordenadora nacional do setor de Gênero do MST, explica que o caráter da Jornada é de formação, organização e denúncia. São realizadas atividades nos acampamentos e assentamentos de todo o país: “ações simbólicas que possibilitem o diálogo com a sociedade brasileira sobre a necessidade da Reforma Agrária Popular como pauta central”.

Na madrugada de 9 de março, “cerca de 500 Mulheres Sem Terra ocuparam uma área de 400 hectares da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (FEPAGRO) em São Gabriel (RS). No mesmo dia, outras Mulheres Sem Terra ocuparam uma fazenda com histórico de trabalho escravo Estado do Tocantins (TO).

Essas ações - e muitas outras - integram a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, com atividades que mobilizam as Sem Terra dos acampamentos e assentamentos de todo o país”.

A Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra deste ano “tem como foco, a denúncia da paralisação da Reforma Agrária pelo Estado brasileiro, que, ao invés de garantir os direitos das trabalhadoras e trabalhadores à terra e condições de nela produzirem alimentos saudáveis para a população, apoia o agronegócio, com investimentos em financiamentos para a produção de commodities. Modelo este que implica em mais crimes ambientais, concentração de terras, além de aprofundar a violência no campo brasileiro, as desigualdades sociais, a fome e a pobreza no campo e na cidade”.

Como é comum em todos os anos, no dia 8 de março, as Mulheres Sem Terra se somam a um conjunto de atividades unitárias com as mulheres trabalhadoras de Movimentos Sociais Populares e Sindicatos de Trabalhadoras/es em várias cidades do país. Segundo Lizandra, a construção dessa Jornada de Lutas das Mulheres é orientada por três frentes de luta.

Primeira: “a urgente necessidade de enfrentamento às violências nas mais variadas formas, entendendo que a sociedade emancipada pela qual se luta exige territórios livres de exploração e opressão”.

Segunda: “a luta pela terra como motor da organização, que massifica e materializa o projeto de vida digna que quer para o campo”.

Terceira: “a necessidade (como elemento determinante) de organização permanente para o fortalecimento dos territórios e a soberania dos povos, nos assentamentos, acampamentos, cooperativas, associações, escolas, coletivos de mulheres, jovens, pessoas LGBTI+ e grupos culturais”.

Infelizmente, temos ainda muitos despejos de trabalhadoras/es de suas moradias truculentos, perversos, cruéis, desumanos e antiéticos. Reafirmo: todo despejo é injusto e – se tiver liminar de juiz – é mais injusto ainda, porque é uma injustiça legalizada e institucionalizada. Pessoa humana não se despeja! (Veja, por exemplo: https://mst.org.br/2026/03/09/policia-militar-de-tacisio-realiza-despejo-truculento-contra-trabalhadoras-sem-terra/).      

A Jornada programa também a pauta da participação na luta internacional contra as violências às mulheres e ataques de países imperialistas à soberania dos povos. “Nossa Jornada não poderia deixar de mencionar a luta e solidariedade internacional. As Mulheres Sem Terra defendem também a soberania popular dos povos do mundo, exigindo o fim do sequestro do presidente da Venezuela Nicolas Maduro e Cília Flores, o fim do bloqueio criminoso a Cuba (e outros), reafirmando que a luta por justiça social no campo brasileiro se conecta com as lutas de todos os povos da América Latina e do mundo”, denuncia Margarida da Silva, da coordenação nacional do MST.

Destacamos ainda que “a luta das mulheres faz parte da origem e história do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Desde as primeiras Ocupações, há mais de quatro décadas, a participação das mulheres foi - e continua sendo sempre mais - fundamental para a construção do Programa de Reforma Agrária Popular e para a resistência no campo. E o 8 de março, para as Mulheres Sem Terra, nunca é apenas uma data celebrativa, mas sim um marco de denúncia e mobilização em torno da luta por direitos”.

É nesse contexto que surge a Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra: “um potente processo de construção coletiva que transforma os territórios em espaços de formação, organização e luta, no combate às diversas formas de opressões existentes, e no enfrentamento ao capital no campo, materializado no agronegócio, reafirmando o protagonismo das mulheres na construção de um Projeto Popular para o Brasil”.

As pautas históricas que mobilizam as Mulheres Sem Terra continuam atuais e urgentes. “A luta é pela defesa da Reforma Agrária Popular, com a desapropriação de terras públicas ou que não cumprem sua função social, pelo acesso a políticas públicas como crédito, assistência técnica, comercialização e pela garantia de políticas para a produção de alimentos saudáveis, mas também pelo fim das violências, em particular contra mulheres e meninas”.

As Mulheres Sem Terra também “denunciam as violências estruturais do sistema capitalista, patriarcal e racista em que vivemos, que tem se aprofundado no último período e se manifestando através dos alarmantes índices de feminicídio, da discriminação, da LGBTfobia, que mata ou fere corpos e subjetividades. O projeto de Reforma Agrária Popular, que o MST defende, é mais do que uma alternativa concreta para esses problemas. Ele é o caminho rumo à emancipação humana, superando a crise climática e ambiental, acabando com a fome - através da produção de comida de verdade - e construindo um país livre das violências”.

Na Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra - o MST convocou todas as mulheres do campo e da cidade para somarem suas forças.

Parabéns, Mulheres Sem Terra, nossas companheiras e irmãs, pelo testemunho de vida que - com suas lutas heroicas - estão nos dando. Todas e todos nós das CEBs, das Pastorais Sociais Populares, dos Movimentos Sociais Populares, dos Sindicatos de Trabalhadoras e Trabalhadores, dos Grupos Populares de Mulheres, das Entidades de Estudantes, dos Fóruns de Direitos Humanos, das Comissões de Justiça e Paz (e outras), estamos com vocês. Contem conosco. A vitória é e será de vocês e - com vocês - de todas e todos nós.

(Fonte: https://mst.org.br/2026/02/27/mulheres-sem-terra-realizam-jornada-nacional-de-lutas-em-defesa-da-reforma-agraria-e-contra-as-violencias/).  


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 99792282

https://freimarcos.blogspot.com/ - Goiânia, 12 de março de 2026

                  


Mulheres Sem Terra protestam por Reforma Agrária Popular nas rodovias do Rio Grande do Norte (RN)
MST pelo Nordeste - 09/03/26



Mulheres Sem Terra ocupam fazenda com histórico de trabalho escravo no Tocantins (TO)
MST pelo Tocantins - 09/03/26



Nenhum comentário:

Postar um comentário

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos