quarta-feira, 27 de abril de 2011

Espiritualidade pascal

A concepção de espiritualidade está intimamente ligada à concepção de ser humano. Hoje, a antropologia filosófica e a antropologia teológica - que integram os dados das ciências humanas - têm uma concepção unitária (não dualista) de ser humano. Mesmo na diversidade de abordagens e com enfoques diferentes, o ser humano é definido como um ser pluridimensional e um ser plurirrelacional.
            Como ser pluridimensional, o ser humano é corpo, é vida e é espírito. A palavra corpo significa o ser humano todo, enquanto ser corpóreo; a palavra vida significa o ser humano todo, enquanto ser vivente (ser bio-psíquico); a palavra espírito significa o ser humano todo, enquanto ser espiritual (ser pessoal). O sujeito é sempre o ser humano todo e o destaque é dado a uma das dimensões do ser humano. Em outras palavras, o ser humano é totalmente (ou, integralmente) corpo, é totalmente vida e é totalmente espírito (Cf. Mounier, E. O Personalismo. Livraria Morais, Lisboa, 19642, p. 39). Cada uma dessas dimensões - a corporeidade (integrando a sexualidade), a bio-psiquicidade e a espiritualidade (que, por sua vez, se desdobram em outras dimensões) - marca o ser humano todo, ou seja, perpassa o ser humano em sua totalidade, mas não é a totalidade do ser humano.
            Como ser plurirrelacional (ser de relações), o ser humano se relaciona com o mundo (material e vivente), com os outros (semelhantes) e com o Outro absoluto (Deus). As relações são relações sociais (sócio-econômico-político-ecológico-culturais) ou estruturais e relações individuais ou interindividuais. As dimensões e as relações são constitutivas do ser humano, ou, em outras palavras, fazem o ser humano.
            A partir destas considerações de caráter antropológico, podemos dizer que a espiritualidade é o jeito “humano” de ser e de viver do ser humano, enquanto ser espiritual, A espiritualidade envolve o ser humano todo, em todas as suas dimensões e relações. Ela perpassa, impregna e absorve a totalidade do ser humano, a totalidade de sua existência. Como, porém, o ser humano, por ser histórico (situado e datado), é um "vir-a-ser" e um ser de busca permanente, ele pode - ao longo de sua vida no mundo e na sociedade - adquirir uma profundidade e intensidade sempre maior na vivência do "humano", até o fim da vida. Portanto, a espiritualidade é, antes de tudo, espiritualidade humana. Ser espirituais significa ser “humanos”, viver a humanidade em graus crescentes de profundidade e intensidade. Nunca ninguém exagera em ser “humano”, nunca ninguém é “humano” demais.
Para os cristãos, à luz da fé, a espiritualidade humana se torna espiritualidade cristã. Não pode, porém, ser espiritualidade cristã se não for primeiro (não no sentido cronológico, mas lógico) espiritualidade humana. A espiritualidade cristã é uma espiritualidade radicalmente humana. Os cristãos, em nome da fé, não temos o direito de sermos omissos, mas devemos estar sempre na linha de frente em todas as lutas que visam tornar a sociedade e o mundo mais humanos.
“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos seres humanos de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 1). Trata-se de uma solidariedade (compaixão) entranhável dos cristãos com toda a humanidade. Os cristãos deveríamos ser, por assim dizer, especialistas em humanidade. Acreditamos os cristãos que "o mistério do ser humano só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. (…) Cristo manifesta plenamente o ser humano ao próprio ser humano e lhe descobre a sua altíssima vocação" (GS, 22). "Todo aquele que segue Cristo, o Homem perfeito, torna-se ele também mais ser humano" (GS, 41). "A razão principal da dignidade humana consiste na vocação do ser humano para a comunhão com Deus" (GS, 19).
            "A fé esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do ser humano. E por isso orienta a mente para soluções plenamente humanas" (GS, 11). Reparem que o texto não diz “soluções não somente humanas, mas também sobrenaturais” (visão dualista da vida humana), mas diz “soluções plenamente humanas”. Para os cristãos o plenamente humano inclui a dimensão da fé. O cristianismo é um humanismo pleno, um humanismo radical. Pela fé, os cristãos descobrem sempre mais claramente o verdadeiro sentido da vida (na história), até o seu pleno, último e definitivo sentido (na meta-história).
             A espiritualidade cristã é uma espiritualidade pascal: cristológica, pneumatológica e trinitária (comunitária - eclesial). Viver a espiritualidade cristã significa viver como Jesus viveu, morrer como Jesus morreu, ressuscitar como Jesus ressuscitou. Em outras palavras, viver a espiritualidade cristã significa fazer acontecer a Páscoa de Jesus na vida pessoal, na história humana e no mundo todo. A Páscoa (o mistério pascal), que é passagem da morte (e de tudo o que a morte significa) para a vida (vida nova em Cristo, vida segundo o Espírito) é uma realidade dinâmica (processual), que impregna a totalidade da existência humana no mundo. Para os cristãos a vida é uma caminhada pascal. Sempre precisamos os cristãos morrer a tudo o que está errado em nossa vida, sepultando os nossos pecados (o ser humano velho), e sempre precisamos ressuscitar para a vida nova em Cristo (o ser humano novo), até o fim da vida. "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude" (Jo 10,10).
            "A experiência batismal é o ponto de início de toda espiritualidade cristã que se funda na Trindade" (Documento de Aparecida - DA, 240). “Banhados em Cristo, somos uma nova criatura, as coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo” (Canto litúrgico). "A vivência da escuta da Palavra, comunhão fraterna e compromisso com a justiça alimenta e expressa a espiritualidade batismal, que configura o cristão com Cristo, que por amor entrega a sua vida para que todos tenham vida" (Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2008-2010 - DGAE, 87).
            O batismo - e a Crisma confirma, completa, aprofunda e radicaliza a consagração batismal - “nos insere no mistério de Cristo morto e ressuscitado. Cada batizado é chamado a seguir Jesus Cristo e a conformar a própria vida a dele, caminhando sempre na novidade de vida (Cf. Rm 6,4). A experiência íntima com o Cristo pascal, cresce, desenvolve-se e se consolida, participando da Eucaristia, na qual, cada batizado se une com Cristo na oferta da própria vida ao Pai mediante o Espírito. A vida cristã é fundamentalmente vida em Cristo pelo dom do Espírito, fruto da Páscoa. Ser espiritual significa viver segundo o Espírito de Deus. A espiritualidade tem a ver com tudo o que somos e fazemos, segundo o Espírito. O Espírito acende em nós o amor, a paixão por Jesus Cristo e nos leva a pautar toda a nossa vida pela intimidade com ele" (Ir. Veronice Fernandes, pddm - www.cnbbsul1.org.br - 25/03/08)
A espiritualidade cristã, como espiritualidade pascal, é o seguimento de Jesus. “Se alimenta de uma verdadeira paixão por Ele, de uma amizade singular (...) de uma compenetração intimíssima, comunhão mesmo” (Dom Pedro Casaldáliga, Nosso Deus tem um sonho e nós também: Carta espiritual às comunidades. X Encontro Intereclesial, Ilhéus (BA), 11-15 de julho de 2000). No mundo de hoje - cujos desafios são para nós os apelos de Deus - vivamos os cristãos, sempre mais intensamente, a espiritualidade pascal, como caminho de realização humana e de felicidade.

Diário da Manhã, Goiânia, 21/04/11, p.15


Fr. Marcos Sassatelli, Frade Dominicano 
    Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos