segunda-feira, 25 de março de 2013

A espiritualidade pascal como “espiritualidade do seguimento de Jesus”

A espiritualidade pascal - sobre a qual refletimos no artigo anterior - é espiritualidade do seguimento de Jesus. "Todo aquele que segue Cristo, o Homem perfeito, torna-se ele também mais ser humano" (Concílio Vaticano II, A Igreja no mundo de hoje - GS, 41).
A espiritualidade do seguimento de Jesus “se alimenta de uma verdadeira paixão por Ele, de uma amizade singular, (...) de uma compenetração intimíssima, comunhão mesmo” (Dom Pedro Casaldáliga, Nosso Deus tem um sonho e nós também: Carta espiritual às Comunidades. X Encontro Intereclesial, Ilhéus (BA), 11-15 de julho de 2000). Encara os desafios do mundo de hoje como apelos de Deus e é um caminho de libertação, de realização humana e de felicidade.
“O seguimento de Jesus é fruto de uma fascinação que responde ao desejo de realização humana, ao desejo de vida plena. O discípulo é alguém apaixonado por Cristo, a quem reconhece como mestre, que o conduz e acompanha" (Documento de Aparecida - DA, 277).
“No seguimento de Jesus Cristo, aprendemos e praticamos as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão entranhável frente à dor humana, sua proximidade aos pobres e aos pequenos, sua fidelidade à missão encomendada, seu amor serviçal até à doação de sua vida. Hoje, contemplamos a Jesus Cristo tal como os Evangelhos nos transmitem para conhecermos o que Ele fez e para discernirmos o que nós devemos fazer nas atuais circunstâncias” (DA. 139).
Os cristãos/ãs são chamados a viver a espiritualidade do seguimento de Jesus a partir da opção pelos empobrecidos, oprimidos e excluídos da sociedade, sendo “profetas da vida” nas situações concretas da realidade humana e cósmica. “Como profetas da vida, queremos insistir que, nas intervenções sobre os recursos naturais, não predominem os interesses de grupos econômicos que arrasam irracionalmente as fontes da vida, em prejuízo de nações inteiras e da própria humanidade” (DA, 471).
Os religiosos/as e outras pessoas - que, por vocação, assumem o compromisso de uma especial consagração a Deus - são chamados a viver a espiritualidade do seguimento de Jesus como “projeto de vida cristã radical”, dando a vida por amor - numa entrega que, dentro das possibilidades humanas, deve ser total e exclusiva - a serviço do Reino de Deus. “Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).
A vida religiosa “é chamada a ser uma vida missionária, apaixonada pelo anúncio de Jesus-verdade do Pai, por isso mesmo radicalmente profética, capaz de mostrar, à luz de Cristo, as sombras do mundo atual e os caminhos de uma vida nova” (DA, 220).
Hoje, “é absolutamente necessário desejar que o resgate da responsabilidade ética motive e faça convergir ações de cunho social até de alcance planetário, visando o cuidado deste imenso ser vivo chamado planeta Terra. (…) A opção pela vida é o grande referencial. Assim tem sido e esta opção precisa ser reafirmada, recolocando no centro da pauta da humanidade o cuidado com o mundo vital” (CF11. Texto-Base, 94).
“O universo inteiro possui uma dimensão crística. A encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo possuem um significado cósmico, totalmente universal. A libertação da natureza, manipulada abusivamente pelo ser humano, está incluída na libertação do pecado humano para a vivência da liberdade concretizada no amor-serviço. Inclui as relações responsáveis e solidárias com as outras criaturas. Hoje, fica cada vez mais claro que a salvação do ser humano é inseparável da salvação da criação toda (Rm 8, 19-23). O destino de ambos está intimamente ligado” (Ib., 183).
“A criação toda geme e sofre dores de parto até agora. E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no íntimo, esperando a adoção, a libertação para o nosso corpo. Na esperança, nós já fomos salvos” (Rm 8, 22-24).
Em poucas palavras, viver a espiritualidade do seguimento de Jesus, de maneira sempre mais envolvente e sempre mais intensa, significa: conhecer experiencialmente o projeto de Deus sobre o ser humano e o mundo, que é o Reino de Deus; aderir vivencial e conscientemente a esse projeto; e comprometer-se com a construção do mesmo dentro do processo histórico (fazer acontecer o projeto do Reino de Deus na história humana e cósmica).
Comprometer-se, pois, com a construção do projeto de Deus sobre o ser humano e o mundo dentro do processo histórico, significa: inserir-se na realidade, interpretá-la e transformá-la.
"Como Cristo, por sua Encarnação ligou-se às condições sociais e culturais dos seres humanos com quem conviveu; assim também deve a Igreja inserir-se nas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus” (Concílio Vaticano II. A atividade missionária da Igreja - AG, 10).
"Para desempenhar sua missão, a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre os significados da vida presente e futura e de suas relações mútuas. É necessário, por conseguinte, conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática" (GS, 4)..
“Como discípulos de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados a discernir os 'sinais dos tempos', à luz do Espírito Santos, para nos colocar a serviço do Reino, anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e 'para que a tenham em plenitude' (Jo, 10,10)" (DA, 33).
Que a nossa espiritualidade seja, de verdade e sempre mais, espiritualidade do seguimento de Jesus de Nazaré!

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano,
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP),
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 13 de março de 2013
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br



“Comprometer-se, pois, com a construção do projeto de Deus sobre o ser humano e o mundo dentro do processo histórico, significa: inserir-se na realidade, interpretá-la e transformá-la”

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos