terça-feira, 5 de maio de 2015

Dom Tomás: sua memória, profecia e esperança continuam


           No dia 2 de maio faz um ano que o nosso irmão Dom Tomás Balduino ““completou a sua Páscoa”, passando para “a vida além da morte” e mergulhando para toda a eternidade no mistério da Santíssima Trindade, que é o mistério do amor infinito de Deus para conosco.  
Como escrevi à época (cf. na internet o artigo “Dom Tomás vive entre nós!”), as Celebrações de corpo presente, em Goiânia e na Cidade de Goiás, foram Celebrações de ação de graças pela vida do nosso irmão Tomás, profundamente encarnadas na realidade do povo, sobretudo dos trabalhadores do campo e dos indígenas.
            Nessas Celebrações, o grito que mais se ouvia era: Tomás vive entre nós! A mensagem da CNBB dizia: “Dom Tomás frequentou a escola dos indígenas, dos posseiros, dos ribeirinhos, dos quilombolas, dos agricultores, dos sem-terra e soube aprender com eles a gramática do Evangelho e da simplicidade. Como um verdadeiro discípulo, se fez missionário de Jesus Cristo e o testemunhou junto ao mundo dos pobres, como o Divino Mestre da justiça e da paz”.
            No final de 2012, por ocasião dos seus 90 anos de idade, num breve escrito, eu destacava quatro qualidades de Tomás: sua profunda sensibilidade humana; sua extraordinária perspicácia na escuta dos sinais dos tempos; sua prática radicalmente profética; e sua fé inabalável na utopia do Reino de Deus, que é a Boa-Notícia de Jesus de Nazaré. Essas qualidades marcaram a história de vida do nosso irmão.
            Tomás, sua memória (que para nós é presença), sua profecia e sua esperança continuam hoje na vida e na luta de tantos irmãos e irmãs nossos do campo e da cidade.
            Mesmo não tendo participado do Concílio Ecumênico Vaticano II, Tomás foi pioneiro na aplicação e na vivência de seus ensinamentos, que desencadearam, no mundo inteiro, um movimento de volta às fontes e de profunda renovação da Igreja.         
A Igreja, pela qual Tomás doou a sua vida, é a Igreja do Concílio e de Medellín (que encarna o Concílio na América Latina e Caribe, e é o documento fundante da Igreja latino-americana e caribenha enquanto tal): uma Igreja igualitária, de irmãos e irmãs, comunitária (Igreja-comunidade, Igreja-comunhão); uma Igreja Povo de Deus e toda ministerial; uma Igreja que busca sempre o consenso, reconhecendo e valorizando o “senso da fé” do povo cristão; uma Igreja que, a todo momento, perscruta os sinais dos tempos, interpretando-os à luz do Evangelho; uma Igreja pobre, que faz a Opção pelos Pobres (a “Igreja dos Pobres”); uma Igreja que reconhece e valoriza o diferente (uma Igreja ecumênica e macroecumênica); enfim, uma Igreja que se alia aos Movimentos Populares, a outras Organizações Sociais (na vida d
e dom Tomás destacamos o Movimento Indígena e o Movimento dos Sem-Terra) e a todos aqueles e aquelas que lutam por um Mundo Novo de justiça e paz, onde todos os Direitos Humanos são respeitados e valorizados.
É o mundo e a sociedade do “bem-viver”, ou - à luz da Fé - a utopia do Reino de Deus, acontecendo na história humana e cósmica (cf. na internet o artigo “Dom Tomás, um pastor-profeta do nosso tempo”). A vida de Dom Tomás foi realmente “uma vida a serviço da humanidade” e do mundo.
A voz do nosso irmão Tomás foi:
“uma voz que nunca quis ser sozinha,
sabia, desde os anos de chumbo:
uma voz solitária não suspende a manhã.
Quis ser uma voz entre vozes,
ergueu sua voz dentro do vasto coro dos oprimidos:
os índios, os posseiros, os lavradores,
os retirantes da seca e da cerca
e os que se levantam contra elas,
as mulheres, os negros, os migrantes, os peregrinos
para forçar claridades, para ensinar amanhecer”
(Pedro Tierra. Do poema “Dom Tomás Balduino”, 03/05/14).
Tomás - fortalecidos e fortalecidas pelo testemunho de vida que você nos deixou - suas causas (as causas dos pobres, dos indígenas, dos camponeses, dos sem-terra, dos quilombolas, dos ribeirinhos, da “mãe terra”) e seus sonhos, são também nossas causas e nossos sonhos.  

Irmão Tomás, roga por nós!





Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP),
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 29 de abril de 2015

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos