domingo, 23 de junho de 2019

Greve Geral: “outro Brasil é possível”



 
    A Greve Geral do dia 15 último mostrou aos trabalhadores e trabalhadoras - sobretudo aos mais pobres - e a todos e todas nós que “outro Brasil é possível”. Renovou nossa esperança, fortaleceu nossa luta e nos fez experimentar - desde já - a certeza da vitória.
    A Greve - com o lema “é Greve porque é Grave” - envolveu cerca de 45 milhões de trabalhadores e trabalhadoras de mais de 200 categorias no Brasil inteiro. Cerca de 400 cidades em todos os Estados registraram protestos: contra o desmonte da Previdência Pública, os cortes na Educação, o desemprego e as privatizações; em defesa da Saúde Pública e dos Direitos que os trabalhadores e trabalhadoras conquistaram com muita luta e a duras penas. “Nenhum Direito a menos”!  Muitas dessas cidades paralisaram, total ou parcialmente, o transporte público.
     Em Goiânia, houve uma grande Manifestação Pública, que mobilizou cerca de 20 mil pessoas. Iniciou às 10 horas na Praça Cívica e - depois de uma longa caminhada com cartazes, faixas e muitas falas - encerrou por volta das 13 horas na Praça do Trabalhador. 
No Estado de Goiás - além de Goiânia - mais 12 cidades registraram Atos Públicos (Anápolis, Catalão, Cidade de Goiás, Formosa, Itapuranga, Itumbiara, Jataí, Mambaí, Orizona, Quirinópolis, Silvânia e Simolândia). Em vários outros Municípios pararam bancos e rede de Educação. 
    Em Goiás (como em outros Estados), a Greve Geral foi unificada. Apesar das diferenças, participaram ativamente da Greve as Centrais Sindicais: CUT, CSP Conlutas, Força Sindical, Intersindical, CSB e UGT; as Frentes (de Movimentos Populares): Brasil Popular e Povo Sem Medo; o Fórum Goiano contra as Reformas da Previdência e Trabalhista, o Comitê de Direitos Humanos Dom Tomás Balduino, a Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil e muitos outros Coletivos de Trabalhadores e Trabalhadoras. “Povo unido (de maneira organizada) jamais será vencido! A Greve unificada foi um sinal de maturidade! Parabéns!
Lutando por seus Direitos, as Organizações Populares combatem também os atos de corrupção praticados por governantes e políticos e, sobretudo, a corrupção estrutural, legalizada e institucionalizada (o sistema corrupto).
     Para ilustrar isso - entre os muitos que poderiam ser lembrados - cito só um exemplo. Com o auxílio-alimentação, o auxílio-pré-escola e o auxílio-transporte dos servidores do alto escalão dos três Poderes, o Governo gasta “legalmente” 3,8 bilhões anuais. Para economizar 1 trilhão, bastaria cortar “legalmente” os privilégios do alto escalão dos três Poderes. Chega de enganação do povo! (Fonte: Redes Sociais e Fórum Goiano contra as Reformas da Previdência e Trabalhista).  
     Por fim, a Greve Geral do dia 15 último, além de legítima e justa, foi profundamente humana e cristã. “Eu vim para que todos/as tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10).  
Com muita indignação e dor no coração, denuncio a omissão da Igreja - da minha Igreja - que, se fosse realmente uma “Igreja em saída”, teria declarado publicamente apoio à Greve.
“A Doutrina Social da Igreja reconhece a legitimidade da Greve ‘quando se apresenta como recurso inevitável, e mesmo necessário, em vista de um benefício proporcionado’, depois de se terem revelado ineficazes todos os outros recursos para a composição dos conflitos. A greve, uma das conquistas mais penosas do associacionismo sindical, pode ser definida como a recusa coletiva e concertada, por parte dos trabalhadores, de prestar o seu trabalho, com o objetivo de obter, por meio da pressão assim exercida sobre os empregadores, sobre o Estado e sobre a opinião pública, melhores condições de trabalho e da sua situação social. Também a Greve, conquanto se perfile ‘como … uma espécie de ultimato’, deve ser sempre um método pacífico de reivindicação e de luta pelos próprios direitos; torna-se ‘moralmente inaceitável quando é acompanhada de violências ou ainda quando se lhe atribuem objetivos não diretamente ligados às condições de trabalho ou contrários ao bem comum’”.

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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 19 de junho de 2019


sábado, 15 de junho de 2019

Não posso me calar!


    Como humanista cristão - seguidor de Jesus de Nazaré - e como frade da Ordem dos Pregadores (Dominicanos), que tem como lema “veritas” (verdade), não posso me calar. A minha consciência não permite!
     A denúncia que vou fazer foi motivada pela reportagem do Jornal “Encontro Semanal” da Arquidiocese de Goiânia do último dia 9, que tem como título: “Igreja marcha em defesa da vida” (a reportagem refere-se somente à vida humana).
A Arquidiocese de Goiânia é a Igreja da qual faço parte, que - numa bonita caminhada de renovação pós-conciliar - ajudei a construir e que amo muito.
     Li a reportagem com interesse e - ao mesmo tempo - com indignação. “Com interesse”, porque concordo com o seu conteúdo; com indignação”, porque dá a impressão que defender a vida significa somente ser contra o aborto. É verdade que a reportagem afirma: “O evento contou com o apoio de numerosos segmentos da sociedade civil, todos unidos pelo ideal de defender a vida desde a concepção até a morte natural, contra o aborto”. Ora, ser contra o aborto não significa “defender a vida até a morte natural”. Trata-se de um sofisma (raciocínio falso, que simula a verdade e induz ao erro).
     O útero materno é a primeira situação na qual a vida se encontra. Com muita compreensão e misericórdia (que é o amor acontecendo) para com as mulheres que praticam o aborto por desespero para não ver mais um filho passando fome, devemos - como Igreja - “marchar em defesa da vida (no útero materno), contra o aborto”, mas devemos também - sempre como Igreja - “marchar (com a mesma disposição e garra) em defesa da vida nas outras situações nas quais se encontra.
A vida é “ameaçada” e “assassinada” não só no útero materno (“aborto biológico”), mas também em muitas outras situações (“aborto social”). Aliás, o “aborto social” é, na prática (mesmo que não o seja na teoria), a “pena de morte” institucionalizada e legalizada.
    Como exemplos, cito duas situações. Primeira: a situação das pessoas - sobretudo crianças - que, por viverem em condições subumanas e sem recursos financeiros, são - cruel e friamente - mortas pela nossa sociedade capitalista neoliberal, hipócrita e injusta, como se fosse uma coisa natural e normal
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), cerca de 6,3 milhões de crianças com menos de 15 anos morreram em 2017 (uma a cada 5 segundos). A maioria das mortes - 5,4 milhões - foi de meninos e meninas com até 5 anos de idade.
De 1990 a 2015 o mundo perdeu 236 milhões de vidas de 0 a 5 anos de idade (mais do que toda a população brasileira). 16 mil crianças com menos de 5 anos de idade morrem todos os dias. Que maldade!
Segunda: a situação das pessoas - sobretudo crianças e idosos - que, no Brasil (e certamente em muitos outros países) a nossa sociedade capitalista neoliberal mata todo dia na fila de espera por atendimento médico ou por vaga em UTI. A precariedade da Saúde Pública é um crime contra a humanidade!
Muitas das pessoas que defendem e sustentam esse modelo de sociedade iníqua e perversa, que - como diz o Papa Francisco - exclui, degrada e mata, se dizem cristãos, comungam toda semana e (pasmem!) participam da “Marcha em defesa da vida, contra o aborto”. Quanta hipocrisia!
Por fim, pergunto: Por que a Arquidiocese de Goiânia (“representada - diz a reportagem -  por padres, seminaristas, membros de Pastorais Arquidiocesanas, como a Pastoral Familiar e fiéis de diversas Paróquias”), além de participar da “Marcha em defesa da vida, contra o aborto” (tomando muito cuidado para não ser - talvez ingenuamente - conivente com os fariseus hipócritas de hoje), não participa também das “Marchas em defesa da vida” - e vida de qualidade - nas “outras situações” nas quais se encontra (e não somente no útero materno)?
Por que o bispo auxiliar - coordenador arquidiocesano de Pastoral - e o próprio arcebispo não participam pessoalmente ou não se fazem representar (como fizeram na “Marcha em defesa da vida, contra o aborto”) nas “Marchas em defesa da vida” em outras situações? Infelizmente, a omissão é total!
Por exemplo, no mesmo dia da “Marcha em defesa da vida, contra o aborto” (dia 30 último), aconteceu também a “Marcha em defesa da Educação Pública de qualidade para todos e todas” (contra o corte de verbas) - que também faz parte da defesa da vida - com a participação de aproximadamente 30 mil pessoas, sobretudo estudantes e professores. Sobre essa Marcha, a reportagem do “Encontro Semanal” não falou sequer uma palavra! E a luta é mais do que justa! Como se explica isso? É essa uma Igreja “em saída”? Não dá para entender!
Em outros tempos - vivendo intensamente a renovação do Concílio Vaticano II - a Arquidiocese de Goiânia estava sempre - em nome do Evangelho - na linha de frente de todas as lutas por um mundo e um Brasil melhores! Que saudade! Não percamos a esperança! A Igreja da caminhada (como se dizia) não morreu, está muito viva, mesmo que seja nas catacumbas! Lutemos por ela!
Uma última pergunta: qual seria o comportamento de Jesus de Nazaré em situações como essas? Meditemos!


Igreja marcha em defesa da vida
(Encontro Semanal, 09/06/19)


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 12 de junho de 2019

quinta-feira, 6 de junho de 2019

O verdadeiro “Pacto pelo Brasil”


    No café da manhã do último dia 28 - em reunião com os presidentes do Legislativo e do Judiciário (Rodrigo Maia - Câmara, Davi Alcolumbre - Senado, Dias Toffoli - Supremo Tribunal Federal) e Ministros - Jair Bolsonaro pediu união em torno das medidas que o Governo está tomando para tirar o País do “fundo do poço”. Quanta hipocrisia! Quanta mentira! O descaramento não tem limite!
Os participantes da reunião definiram as linhas gerais de um documento chamado “Pacto pelo Brasil”. Leia: “Pacto pelo Brasil dos ricos” (1% da população): os banqueiros, os donos das multinacionais e os latifundiários, que - por serem detentores do poder econômico e adoradores do deus dinheiro - se tornam cada vez mais ricos às custas dos pobres cada vez mais pobres (explorados e descartados como lixo humano).
Diante de um Governo que - a toda hora - fala o nome de Deus em vão com a conivência de falsos líderes religiosos e que - de maneira covarde e oportunista - está totalmente submisso aos interesses financeiros do sistema capitalista neoliberal (um sistema perverso, iniquo e diabólico), o que fazer? Só há um caminho que pode desencadear um processo de mudanças estruturais, dando passos concretos para fazer acontecer - mesmo no meio de ambiguidades e contradições - um novo Projeto de Brasil, que é o Projeto Popular ou - à luz da Fé - o Reino de Deus na história: a união e organização dos Movimentos Sociais Populares, Entidades Sindicais de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares e outras Organizações. É esse o verdadeiro “Pacto pelo Brasil”!
Deus está do lado do seu Povo e de todos aqueles e aquelas que lutam por outro Brasil possível. “Eu vi muito bem a miséria do meu Povo (...). Ouvi o seu clamor contra seus opressores e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo (...)” (Ex 3,7-8).
Os cristãos e cristãs e suas Igrejas - por conhecerem o Projeto de Jesus de Nazaré, que é o Reino de Deus acontecendo na história do ser humano e do mundo - deveriam estar sempre na linha de frente de todas as lutas dos Movimentos Populares por um Brasil Novo, por um Mundo Novo
Vejam o que diz o Papa Francisco sobre o protagonismo dos Movimentos Populares (incluindo também Entidades Sindicais de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares e outras Organizações), que o Governo quer criminalizar.
“Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas mãos de vocês, em sua capacidade de organização e promoção de alternativas criativas na busca diária dos três T (trabalho, teto, terra), e também em sua participação como protagonistas nos grandes processos de mudança, mudanças nacionais, mudanças regionais e mudanças mundiais” (Papa Francisco. 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).
E ainda: “Pudemos falar (no 2º Encontro) da necessidade de uma mudança para que a vida seja digna, uma transformação de estruturas; além disso, do modo como vocês, Movimentos Populares, são semeadores de mudança, promotores de um processo para o qual convergem milhões de pequenas e grandes ações interligadas de modo criativo, como numa poesia; foi por isso que quis chamar vocês ‘poetas sociais’” (Papa Francisco. 3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Roma - Itália, 05/11/16).  
Vejam também o que o Papa Francisco diz a respeito da relação da Igreja com os Movimentos Populares. Antes de tudo, com muita alegria, constata: “Soube que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares”.
Por fim, faz um caloroso convite: “Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (Papa Francisco. 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Ib.).
Ouçamos o convite do nosso irmão o Papa Francisco! Não sejamos omissos! A omissão - que, infelizmente, é muito comum na Igreja - torna-se conivência criminosa com o sistema dominante.
Dia 14 de junho vamos ocupar as ruas e construir a maior greve geral da história do País! Vamos lutar contra a Reforma (ou melhor, Antirreforma) da Previdência! Vamos exigir que o Governo taxe os lucros mirabolantes dos bancos e as grandes fortunas! Viva os Trabalhadores e Trabalhadoras! Outro Brasil é possível e necessário! Lutemos por ele! A vitória é nossa!
Em tempo: No dia 14 de junho, em Goiânia, haverá uma grande manifestação, com concentração às 10 horas, na Praça Cívica, em frente ao Coreto. Participe!

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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 05 de junho de 2019

domingo, 26 de maio de 2019

“A Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da convivência comum” (6ª e última parte)



Ao destacar a importância do papel das religiões na construção da Paz Mundial, o Documento do Grão Imame Ahmad Al-Tayyeb e do Papa Francisco ainda continua reflexionando sobre:
  1. Os direitos da mulher: “É uma necessidade indispensável reconhecer o direito da mulher à instrução, ao trabalho, ao exercício dos seus direitos políticos. Além disso, deve-se trabalhar para libertá-la das pressões históricas e sociais contrárias aos princípios da própria fé e da própria dignidade. Também é necessário protegê-la da exploração sexual e de a tratar como mercadoria ou meio de prazer ou de ganho económico. Por isso, devem-se interromper todas as práticas desumanas e os costumes triviais que humilham a dignidade da mulher e trabalhar para modificar as leis que impedem as mulheres de gozarem plenamente dos seus direitos”.
  2. Os direitos das crianças: “A tutela dos direitos fundamentais das crianças a crescer num ambiente familiar, à alimentação, à educação e à assistência é um dever da família e da sociedade. Tais direitos devem ser garantidos e tutelados para que não faltem e não sejam negados a nenhuma criança em nenhuma parte do mundo. É preciso condenar qualquer prática que viole a dignidade das crianças ou os seus direitos. Igualmente importante é velar contra os perigos a que estão expostas - especialmente no ambiente digital - e considerar como crime o tráfico da sua inocência e qualquer violação da sua infância”.
  3. Os direitos dos idosos: “A proteção dos direitos dos idosos, dos vulneráveis, dos portadores de deficiência e dos oprimidos é uma exigência religiosa e social que deve ser garantida e protegida através de legislações rigorosas e da aplicação das convenções internacionais a este respeito”.  
No final, o Grão Imame e o Papa assumem um compromisso, declarando: “Através  da cooperação conjunta, a Igreja Católica e Al-Azhar anunciam e prometem levar este Documento às Autoridades, aos Líderes influentes, aos homens de religião do mundo inteiro, às organizações regionais e internacionais competentes, às organizações da sociedade civil, às instituições religiosas e aos líderes do pensamento; e empenhar-se na divulgação dos princípios desta Declaração em todos os níveis regionais e internacionais, solicitando que se traduzam em políticas, decisões, textos legislativos, programas de estudo e materiais de comunicação. Al-Azhar e a Igreja Católica pedem que este Documento se torne objeto de pesquisa e reflexão em todas as escolas, nas universidades e nos institutos de educação e formação, a fim de contribuir para criar novas gerações que levem o bem e a paz e defendam por todo o lado o direito dos oprimidos e dos marginalizados”.
Concluem, pois, manifestando um desejo: “Almejamos que esta Declaração seja: um convite à reconciliação e à fraternidade entre todos os crentes, mais ainda, entre os crentes e os não-crentes, e entre todas as pessoas de boa vontade; um apelo a toda consciência viva, que repudia a violência aberrante e o extremismo cego, e a quem ama os valores da tolerância e da fraternidade, promovidos e encorajados pelas religiões; um testemunho da grandeza da fé em Deus, que une os corações divididos e eleva a alma humana; um símbolo do abraço entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte e o Sul e entre todos aqueles que acreditam que Deus nos criou para nos conhecermos, cooperarmos entre nós e vivermos como irmãos que se amam. Isto é o que esperamos e tentaremos realizar a fim de alcançar uma paz universal de que gozem todos os homens nesta vida”.
Quanta sabedoria de vida encontramos nesse Documento! Ele precisa ser estudado e aprofundado nos países do mundo inteiro. Ele é um luz para a ação política dos governantes, para o trabalho dos que prestam algum serviço público e para o compromisso social de todos e todas nós. Ele aponta o caminho da felicidade, o caminho de um Mundo Novo. Meditemos!   



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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 22 de maio de 2019

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Quem são os “idiotas úteis”?

Na tarde do último dia 15 (Dia Nacional de Luta da Educação), estudantes e educadores ocuparam a Praça Universitária, em Goiânia, durante manifestação de protesto contra os cortes na área da Educação, contra a Reforma da Previdência e por uma Educação Pública de qualidade para todos e todas. Os organizadores estimam que mais de 20 mil pessoas participaram do ato.
Pela manhã, com o apoio do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego), foram realizadas manifestações em 40 municípios goianos. No Brasil inteiro, mais de 500 cidades foram mobilizadas.
Em Goiânia, entre gritos de "não vai ter corte, vai ter luta", os manifestantes - em sua maioria jovens estudantes (da UFG, IFG, IF Goiano, UEG e outros) e muitos professores e professoras - seguiram em caminhada, ocupando toda a  Rua 10, até a Praça Cívica, em frente ao Centro Administrativo, onde - depois de muitas falas - o ato foi encerrado, por volta das 18 horas.
As Centrais Sindicais e Movimentos Populares presentes informaram que a manifestação era apenas um preparativo para o dia 14 de junho, data da Greve Geral de todos os Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil.
Jair Bolsonaro, em Dallas nos Estados Unidos, chamou os organizadores dos protestos desse dia de “idiotas úteis” e “massa de manobra”.
     “São uns idiotas úteis que estão sendo usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona, que compõe o núcleo das Universidades Federais”. Como cidadão e professor de filosofia (sublinho: filosofia) aposentado da UFG, sinto-me desrespeitado e ofendido! Trata-se de um doente mental que precisa - com urgência - ser internado e tratado. Tenho vergonha de chamar um desequilibrado como esse - que se tornou motivo de chacota no mundo inteiro - de presidente do Brasil.
     Bolsonaro afirma também que não gostaria que houvesse cortes na Educação, mas que não teve outra saída. “O que houve é um problema que a gente pegou o Brasil destruído economicamente, com baixa nas arrecadações, afetando a previsão de quem faz o orçamento”. O descaramento não tem limite! É uma afronta a todos e a todas que têm o uso da razão e um mínimo de capacidade de discernimento! Os grandes ricos (1% da população) - que também são o Brasil - não estão “destruídos economicamente”! O dinheiro do Brasil - roubado “legalmente” e, às vezes, até “ilegalmente” - está com eles, que se enriqueceram cada vez mais às custas da exploração e do sangue dos trabalhadoras e das trabalhadoras. A solução humana, ética e cristã é uma só: taxar as grandes fortunas, obrigando os ladrões a devolver o dinheiro roubado “legal e ilegalmente”.
Os bens são bons e são um dom de Deus para todos e todas, mas a riqueza indica um relacionamento para com os bens desordenado, perverso, iníquo, desumano, antiético e anticristão, contrário ao projeto de Deus.
Outra afirmação de Bolsonaro é essa: “A maioria ali (ou seja, nos protestos) é militante”, como se “ser militante” fosse algo de negativo e pejorativo. É muita ignorância e estupidez! O ser humano - já dizia Aristóteles - é um “ser político”. Por isso, senhor Bolsonaro, “ser militante” é parte integrante do “ser político”, ou seja, da vocação “ontológica” do ser humano! O estudo de um pouco de filosofia, poderia - talvez - diminuir sua ignorância e sua estupidez! Como ganha muito bem, contrate um professor de Filosofia. Quem sabe!?
Por fim, lembro a Jair Bolsonaro e à sua equipe que os “Idiotas úteis”, usados como “massa de manobra” são eles, que - por adorarem o “deus dinheiro” - tornaram-se “obedientes serviçais” do sistema capitalista neoliberal, que é estruturalmente perverso, iníquo, antiético, desumano e anticristão e que - como diz o Papa Francisco - “ninguém aguenta mais”. Ele destrói a natureza, explora, descarta e mata os pobres com uma frieza diabólica.
Parabéns ao Movimento Estudantil unido e organizado, que - com entusiasmo juvenil e a certeza da vitória - !utam por uma Educação Pública de qualidade; parabéns aos educadores e educadoras (professores/as e funcionários/as), que - com sua garra e perseverança - sustentam e fortalecem a luta dos estudantes; e parabéns a todos os trabalhadores e trabalhadoras, que - com constância e firmeza - defendem seus direitos!
A causa é justa! Jesus está do nosso lado e caminha conosco! Até à Greve Geral (no próximo dia 14)! Vamos parar o país e - com coragem profética - dizer qual é o Projeto de Brasil que nós queremos e lutar por ele!

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manifestacao


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 17 de maio de 2019

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos