sexta-feira, 8 de maio de 2020

Sobre a “Carta aos Movimentos Populares” (2ª Parte)


“Essa atitude de vocês  
me ajuda, questiona e ensina muito”
(Francisco)

    O segundo ponto, que destaco na Carta-Mensagem de Francisco, é: “Essa atitude de vocês (de não ficar só na denúncia, mas de arregaçar as mangas e continuar trabalhando para suas famílias, seus bairros e para o bem comum) me ajuda, questiona e ensina muito”. Quanta humildade e sinceridade nas palavras do papa!
     Se hoje os cristãos e cristãs (inclusive padres e bispos) não estão - em sua maioria - do lado dos Movimentos e Organizações Populares e não participam de suas lutas (por não ser - dizem - papel da Igreja fazer isso), como poderiam dizer: “Essa atitude de vocês nos ajuda, questiona e ensina muito”? Além do mais, lhes faltaria a humildade necessária para tanto!
    O papa, que conhece muito bem a realidade dos Movimentos e Organizações Populares, continua dizendo: “Penso nas pessoas, especialmente mulheres, que multiplicam o pão nos refeitórios comunitários, cozinhando com duas cebolas e um pacote de arroz um delicioso guisado para centenas de crianças, penso nos doentes, penso nos idosos. Elas nunca aparecem na mídia convencional. Tampouco os camponeses e os agricultores familiares, que continuam a trabalhar para produzir alimentos saudáveis, sem destruir a natureza, sem monopolizá-los ou especular com a necessidade do povo. Quero que saibam que nosso Pai Celestial olha para vocês, vos valoriza, reconhece e fortalece em sua escolha”.
E ainda: “Quão difícil é ficar em casa para quem mora em uma pequena casa precária ou para quem de fato não tem teto. Quão difícil é para os migrantes, as pessoas privadas de liberdade ou para aqueles que realizam um processo de cura para dependências. Vocês estão lá, colocando seu corpo ao lado deles (reparem: “ao lado deles”!), para tornar as coisas menos difíceis, menos dolorosas”. 
Por isso, Francisco declara: “Congratulo a vocês e agradeço do fundo do meu coração. Espero que os governos entendam que os paradigmas tecnocráticos (sejam centrados no estado, sejam centrados no mercado) não são suficientes para enfrentar esta crise e nem os outros problemas importantes da humanidade. Agora, mais do que nunca, são as pessoas, as comunidades, os povos que devem estar no centro, unidos para curar, cuidar, compartilhar”.
E reconhece: “Eu sei que vocês foram excluídos dos benefícios da globalização. Não desfrutam daqueles prazeres superficiais que anestesiam tantas consciências. Apesar disso, vocês sempre sofrem os danos dessa globalização. Os males que afligem a todos, a vocês atingem duplamente. Muitos de vocês vivem o dia a dia sem nenhum tipo de garantias legais que os protejam. Os vendedores ambulantes, os recicladores, os feirantes, os pequenos agricultores, os pedreiros, as costureiras, os que realizam diferentes tarefas de cuidado”.
Diz também: “Vocês, trabalhadores informais, independentes ou da economia popular, não têm um salário estável para resistir a esse momento... e as quarentenas são insuportáveis para vocês. Talvez seja a hora de pensar em um salário universal (reparem novamente: “um salário universal”!), que reconheça e dignifique as tarefas nobres e insubstituíveis que vocês realizam; um salário capaz de garantir e tornar realidade esse slogan tão humano e cristão: nenhum trabalhador sem direitos”.
O papa convida, pois, os participantes dos Movimentos e Organizações Populares “a pensar no ‘depois’, porque esta tempestade vai acabar e suas sérias consequências já estão sendo sentidas. Vocês não são uns improvisados, têm a cultura, a metodologia, mas principalmente a sabedoria que é amassada com o fermento de sentir a dor do outro como sua (reparem mais uma vez: “sentir a dor do outro como sua”!)”.
E faz um apelo: “Quero que pensemos no projeto de desenvolvimento humano integral que ansiamos, focado no protagonismo dos Povos em toda a sua diversidade e no acesso universal aos três T que vocês defendem: terra e comida, teto e trabalho”.
Com convicção e confiança, afirma: “Espero que esse momento de perigo nos tire do piloto automático, sacuda nossas consciências adormecidas e permita uma conversão humanística e ecológica que termine com a idolatria do dinheiro e coloque a dignidade e a vida no centro. Nossa civilização, tão competitiva e individualista, com suas taxas frenéticas de produção e consumo, seus luxos excessivos e lucros desmedidos para poucos, precisa mudar, se repensar, se regenerar”.
E conclui: “Vocês são construtores indispensáveis dessa mudança urgente; além disso, vocês possuem uma voz autorizada para testemunhar que isso é possível. Vocês conhecem crises e privações ... que com modéstia, dignidade, comprometimento, esforço e solidariedade, conseguem transformar em uma promessa de vida para suas famílias e comunidades”.
Com a ternura e o carinho de irmão, termina pedindo: “Mantenham sua luta e cuidem-se como irmãos. Oro por vocês, oro com vocês e quero pedir ao nosso Deus Pai que os abençoe, encha vocês com o seu amor e os defenda ao longo do caminho, dando-lhes a força que nos mantém vivos e não desaponta: a esperança. Por favor, orem por mim que eu também preciso”.
Que testemunho bonito nos dá o nosso irmão Francisco! Peçamos ao Espírito Santo - o Amor de Deus - que nos conceda a graça de seguir o seu exemplo! O mundo espera isso de nós, seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré!


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 06 de maio de 2020


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Sobre a “Carta aos Movimentos Populares” (1ª Parte)


“A memória dos nossos Encontros
                  me faz bem, me aproxima de vocês.
(...) Quero estar perto de vocês”
(Francisco)

No dia de Páscoa deste ano, o papa Francisco enviou uma Carta-Mensagem “aos irmãos e irmãs dos Movimentos e Organizações Populares”, chamando-os de “queridos/as amigos/as”. 
Vivenciar a ternura, o carinho, a amizade, a estima e a confiança que Francisco - um verdadeiro irmão -  tem para com os participantes dos Movimentos e Organizações Populares é realmente emocionante e - ao mesmo tempo - edificante. 
A Carta-Mensagem é de uma profundidade humana e evangélica que impressiona e nos mostra claramente qual é o modelo de Igreja que Jesus de Nazaré quer e o papa sonha, hoje.  
Em consciência, mas com dor no coração, denuncio o silêncio e a indiferença da maioria de nossas Igrejas em relação a essa Carta-Mensagem. Quais são os bispos e padres que atualmente - seguindo o exemplo do nosso irmão Francisco - se colocam realmente do lado dos Movimentos Populares (dos Trabalhadores/as, sobretudo, dos mais pobres)? Que confiam neles e que lutam com eles por um mundo novo, que é o Reino de Deus na história do ser humano e da Mãe Terra, nossa Casa Comum? Talvez possam ser contados nos dedos de uma mão!
Pessoalmente, enviei - por e-mail - a Carta-Mensagem à Secretaria da Cúria da Arquidiocese de Goiânia, sugerindo que fosse enviada aos Padres e às Paróquias; e que fosse divulgada nas Comunidades, no Jornal “Encontro Semanal” e nas redes sociais. Por incrível que pareça, não recebi nenhum retorno, acusando - ao menos - o recebimento do documento. 
Embora a Carta-Mensagem precise ser meditada e vivida integralmente, no meu artigo (dividido em duas partes) destaco dois pontos que - de maneira toda especial - são luz para a nossa missão de seguidores/as de Jesus e para a vivência dos ministérios (serviços), que Deus nos confiou.
Primeiro ponto: Francisco - lembrando com frequência dos Encontros (que carinhosamente chama de “nossos Encontros”) com os Movimentos e Organizações Populares (dois no Vaticano e um em Santa Cruz de la Sierra - Bolívia), afirma: “Confesso que essa ‘memória’ me faz bem, me aproxima de vocês, me faz repensar em tantos diálogos durante esses Encontros e em tantas esperanças que ali nasceram e cresceram e muitas delas se tornaram realidade. Agora, no meio dessa pandemia, eu me lembro de vocês de uma maneira especial e quero estar perto de vocês” (reparem: “quero estar perto de vocês”!).
Servindo-se da metáfora bélica da guerra - usada por muitos para se referir à pandemia do novo coronavírus, que causa tanta angústia e tanto sofrimento - Francisco acrescenta: “Se a luta contra a COVID-19 é uma guerra, vocês são um verdadeiro exército invisível que luta nas trincheiras mais perigosas. Um exército sem outra arma senão a solidariedade, a esperança e o sentido da comunidade que reverdecem (se tornam verdes, se revitalizam) nos dias de hoje, em que ninguém se salva sozinho. Vocês são para mim, como lhes disse em nossas reuniões, verdadeiros poetas sociais, que desde as periferias esquecidas criam soluções dignas para os problemas mais prementes dos excluídos”.
Conhecendo a realidade, o papa continua dizendo: “Eu sei que muitas vezes vocês não são reconhecidos adequadamente porque, para este sistema, são verdadeiramente invisíveis. As soluções do mercado não chegam às periferias e a presença protetora do Estado é escassa. Nem vocês têm os recursos para realizar as funções próprias do Estado”. 
E ainda: “Vocês são vistos com suspeita por superarem a mera filantropia por meio da organização comunitária ou por reivindicarem seus direitos, em vez de ficarem resignados à espera de ver se alguma migalha cai daqueles que detêm o poder econômico. Muitas vezes mastigam raiva e impotência quando veem as desigualdades que persistem mesmo quando terminam todas as desculpas para sustentar privilégios. No entanto, vocês não ficam só na denúncia: arregaçam as mangas e continuam a trabalhar para suas famílias, seus bairros, para o bem comum”.
Infelizmente, a grande maioria dos cristãos e cristãs de hoje - inclusive, padres e bispos - nunca participaram de Encontros com Movimentos e Organizações Populares e - o que é pior - acham que isso não é papel da Igreja. Parece que, para eles e para elas, ser cristãos e cristãs (que deveria nos tornar cidadãos e cidadãs mais conscientes e mais comprometidos) significa deixar de ser cidadãos e cidadãs Que pena! 
Esses nossos irmãos e irmãs perdem a oportunidade - que é uma graça de Deus - de crescerem como pessoas humanas e como cristãos e cristãs (crescimento na fé). Por isso, eles e elas não podem dizer (como Francisco): “a memória dos nossos Encontros me faz bem e me aproxima de vocês. (...) Quero estar perto de vocês”.
O amor-serviço aos trabalhadores/as, sobretudo aos mais pobres, é o que dá sentido ao testemunho evangélico tão bonito que o irmão Francisco nos dá. Meditemos!
(Na 2ª parte do artigo, falarei do segundo ponto da Carta-Mensagem que pretendo destacar)

Encontros entre o Papa Francisco e movimentos populares tiveram início em 2013

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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 29 de abril de 2020


segunda-feira, 27 de abril de 2020

Credo da Juventude das CEBs - Uma luz na pandemia do coronavírus



O 10ª Encontro Continental das Comunidades Eclesiais de Base - CEBs, que aconteceu de 13 a 17 de setembro de 2016, na cidade de Luque - Paraguai, com o Lema “As CEBs Caminhando e o Reino Proclamando” - divulgou o “Credo da Juventude das CEBs”: uma verdadeira profissão de Fé dos Jovens - e nossa também - na Sociedade do Bem Viver e do Bem Conviver: o Reino de Deus acontecendo na história do ser humano e da Mãe Terra, nossa Casa Comum. Parabéns Juventude!
O Creio da Juventude das CEBs é uma luz no nosso caminho para que - juntas e juntos - possamos enfrentar e superar a pandemia do coronavírus (a Covid-19) e mudar totalmente a maneira de viver e conviver entre nós e com a Mãe Terra, nossa Casa Comum. 
Oremos o Credo:
  • “Não cremos que tenhamos que estar à espera. 
CREMOS que as/os jovens somos sujeitos transformadoras/as da realidade, lutando por espaços e construindo alternativas.
  • Não cremos nas fronteiras. 
CREMOS que somos filhas e filhos de uma Pátria Grande sem racismo, sem normas para amar, incluindo toda a diversidade sexual, mulheres, juventudes, povos originários, negras/os, minorias e todos os de baixo.
  • Não cremos em uma Igreja estática, patriarcal, clerical e hierárquica. 
CREMOS em uma comunidade integradora, inter-geracional, com voz própria. Cremos nesta Igreja em luta, ‘lançando sua sorte com os pobres da terra’, frente a um sistema capitalista dominante.
  • Não cremos em individualismos, em salvadores, ditadores nem golpistas.
CREMOS na construção comunitária e coletiva de lutas na conjuntura que acontece em Nossa América hoje.
  • Não cremos em um Deus castigador, que pune seu povo com a pobreza.
CREMOS em um Deus/Deusa que está presente nas diferentes experiências das comunidades: um Deus próximo, um Deus libertador e revolucionário, um Deus que é membro das CEBs, que trabalha e luta como Jesus de Nazaré”. 
A pandemia do coronavírus “nos revela que o modo como habitamos a Casa Comum é nocivo à sua natureza. A lição que nos transmite soa: é imperioso reformatar a nossa forma de viver sobre ela, enquanto planeta vivo. Ela está nos alertando que assim como estamos nos comportando não podemos continuar. Caso contrário a própria Terra irá se livrar de nós, seres excessivamente agressivos e maléficos ao sistema-vida” ((http://www.ihu.unisinos.br/597421-a-terra-se-defende-artigo-de-leonardo-boff).
Mesmo sendo Terra, uma porção da Terra, “começamos a saquear suas riquezas no solo, no subsolo, no ar, no mar e em todas as partes”. Buscamos “realizar um projeto ousado de acumular o mais possível bens materiais para o desfrute humano, na verdade, para a subporção poderosa e já rica da humanidade” (L. Boff, Ib.).
No Brasil, por exemplo, “cerca de 5% da população mais rica aufere 95% da renda nacional. Apenas 0,1% dos brasileiros mais ricos possuem 48% da riqueza do país” (Folha de S. Paulo, 20/03/20, p. A3).
Os nossos irmãos e irmãs indígenas afirmam: “Os danos à natureza preocupam-nos, de maneira muito direta e palpável, porque ‘somos água, ar, terra e vida do meio ambiente criado por Deus. Por conseguinte, pedimos que cessem os maus-tratos e o extermínio da Mãe Terra. A terra tem sangue e está sangrando, as multinacionais cortaram as veias da nossa Mãe Terra” (Papa Francisco. Querida Amazônia, 42).
Esquecemos que “atacando a Terra, atacamos a nós mesmos que somos Terra pensante” (L. Boff, Ib.). Ora, se somos Terra pensante, somos (ou, deveríamos ser) seres racionais, autoconscientes, responsáveis e amantes. 
A Terra é (ou, deveria ser) um Jardim. No processo da evolução, a “presença criadora” (“presença ontológica”) de Deus quis e quer o ser humano como parte da Terra-Jardim e, ao mesmo tempo, como Jardineiro, que cuida dela (e dele mesmo) com amor. Infelizmente, o ser humano não está cumprindo o seu papel de Jardineiro! A pandemia do coronavírus é uma alerta. Quem sabe, o ser humano reflita e se torne um bom Jardineiro! 
Precisamos mudar radicalmente (revolucionar) todos os critérios da convivência dos seres humanos entre si e com a nossa Mãe Terra. Precisamos criar um sistema de relações individuais e sociais (sócio-econômico-político-ecológico-culturais) alternativo ao sistema capitalista ultraneoliberal, estruturalmente iníquo, perverso, cruel, desumano, antiético e anticristão.
    “Seremos capazes de captar o sinal que o coronavírus nos está passando ou continuaremos fazendo mais do mesmo, ferindo a Terra e nos autoferindo no afã de enriquecer?” (L. Boff, Ib.). Sigamos a luz que o “Credo da Juventude das CEBs” nos oferece! Para os cristãos e cristãs, a esperança nunca morre!

Um homem entrega comida em um bairro isolado na cidade chinesa de Wuhan, epicentro do surto, em 23 de fevereiro.


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 22 de abril de 2020

sábado, 18 de abril de 2020

11º Encontro Continental das CEBs - Mensagem final



“Assumimos o objetivo de ressoar os clamores dos Pobres e da Terra, 
para recriar ministérios desafiadores no cuidado, proteção e defesa 
da vida digna e da Casa Comum” (Mensagem final)

A Mensagem começa dizendo: “Um legado transmitido por 40 anos (de articulação continental) nos reuniu em Guayaquil, Equador, de 9 a 12 de março de 2020, 225 mulheres e homens - que vivemos nossa fé nas Comunidades Eclesiais de Base - de 16 países da América Latina, Caribe e Estados Unidos. Somos animadores e animadoras de CEBs, que assumem diferentes ministérios em nossa Igreja, sempre querendo ser a pequena Igreja de Jesus, para estar lá onde os povos arriscam suas vidas”.  
Neste Encontro - continua - “assumimos o objetivo de ressoar os clamores dos Pobres e da Terra, para recriar ministérios desafiadores no cuidado, proteção e defesa da vida digna e da Casa Comum. Motivados pelo Papa Francisco e impulsionados por ‘Querida Amazônia’, fomos chamados a sonhar e profetizar, ser pessoas capazes de dar a vida pelo que amam, buscar novas maneiras de responder aos desafios atuais“.
Reconhecendo o clamor dos povos, a Mensagem afirma: “A América Latina clama em seus povos e territórios, saqueados, vítimas da pobreza estrutural, corrupção, desemprego, violência e migração; clama diante de uma estrutura eclesial que exclui mulheres, jovens e povos indígenas dos espaços de decisão; clama por uma Igreja Povo de Deus, para recuperar sua identidade comunitária original; clama pela ausência de cuidado ecológico”.
Declara também: “Hoje os trabalhadores mal conseguem se organizar a partir do andar mais baixo dos direitos, que é comer. Como CEBs, precisamos transformar a cultura da morte em uma cultura da vida, a cultura do descarte em uma cultura do encontro. As CEBs, sempre ligadas à história dos pobres, enfrentam obstáculos e desafios. Isso nos leva a assumir a sinodalidade, superando práticas autoritárias e modelos fechados, para ser uma Igreja que se apaixona, principalmente os jovens, por ter como método ver, julgar e agir, apostar no impulso de processos”.
Anuncia ainda: “O Sínodo da Amazônia é um compromisso do Papa Francisco de realizar uma conversão social, cultural, ecológica e eclesial. O ponto de partida é a escuta, falar com parrhesia, a presença e incidência decisiva de mulheres e povos indígenas, cuidar da Casa Comum, somar todas as experiências, adotar novas lógicas e linguagens, cuidar da vida, entender que os problemas são globais, que é indispensável anunciar e ter ardor missionário”.
Lembra-nos, pois: “Somos chamados a apostar em outros modelos de teologia, a partir da narrativa, ressoando a beleza desafiadora da fé de nossas Comunidades, em novas estratégias de comunicação que vão do pequeno e local ao universal e conseguem informar, influenciar, inspirar, impactar e influenciar”.
E continua: “Proclamamos com os jovens a necessidade de escutar uns aos outros a partir do diálogo intergeracional, caminhar juntos, criar empatia mútua, desaprender para aprender, um relacionamento circular, uma mudança de linguagem, valorizar os jovens, rever olhares e gerar espaços de participação.
Por fim, faz um apelo: “Reconheçamos que eu sou a Amazônia, que é necessária uma conversão ecológica e integral, que devemos potencializar, criar e expandir redes, articular a solidariedade e as lutas em uma só voz. Que devemos reapropriar o processo do Sínodo, conhecer, discernir e disseminar os documentos para aplicá-los à realidade social, mudar práticas concretas em nossa vida cotidiana e comunitária”. 
E um pedido: “Pedimos novos ministérios e práticas, e reconhecer aqueles que já estão presentes, que em nome de Deus ajudam a cuidar da Casa Comum, a economia popular, a saúde alternativa, a participação e a formação sociopolítica”.
Conclui, reafirmando a identidade das CEBs: “Somos CEBs para transformar o mundo no Reino de Deus, para saber o que nos permite viver, o que aprendemos através do sofrimento, viver o presente histórico, estar dispostos a aprender com o futuro. Como CEBs, no seguimento de Jesus, que escutamos, ressoamos, agimos, cuidamos, protegemos e defendemos, inspirados pelo Espírito que sopra dentro de nós, filhos e filhas do Único Pai-Mãe, continuemos, na companhia de Maria, nossa caminhada para o Reino”.
A Mensagem é tão clara e seu conteúdo é tão atual que não precisa de muitos comentários. Basta lê-la, meditá-la e vivê-la. Feliz Páscoa a todos e todas!

    Em tempo: Leia a Mensagem de Páscoa que o papa Francisco enviou aos Movimentos Populares, em: www.ihu.unisinos.br/597974-um-salario-universal-para-os-trabalhadores-mais-pobres-pede-o-papa-francisco-voces-sao-os-verdadeiros-poetas-sociais. (Voltarei sobre o assunto).
   
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http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2020/03/10_03_encontro_continental_cebs_1_foto_luis_miguel_modino.jpg
http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2020/03/10_03_encontro_continental_cebs_2_foto_luis_miguel_modino.jpg


Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 15 de abril de 2020




A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos