quarta-feira, 5 de maio de 2010

Arnaldo Jabor: um atirador enlouquecido


O Jornal O Popular do dia 20 de abril/10, o Jornal O Globo e outros Jornais de circulação nacional e regional publicaram a matéria "Só os anjos não têm sexo" do jornalista Arnaldo Jabor. Trata-se de um texto que deixa qualquer pessoa de bom senso profundamente indignada. As afirmações do jornalista são uma verdadeira enxurrada de besteiras e desrespeitam a dignidade de qualquer ser humano, seja ele santo ou pecador. São afirmações cínicas, levianas e superficiais que enxovalham tudo. Revelam uma personalidade psicologicamente desequilibrada e intelectualmente desonesta. Como um louco, Arnaldo Jabor atira em todas as direções, sem provar e/ou documentar nada. A autossuficiência e a arrogância do jornalista são tamanhas que suas afirmações se desqualificam por si mesmas. Graças a Deus, os leitores não são imbecis.
Em primeiro lugar, Arnaldo Jabor fala da pedofilia como se fosse um problema só da Igreja Católica. A pedofilia - todos nós sabemos - é um problema da humanidade e, como a Igreja Católica faz parte da humanidade, é também um problema da Igreja Católica.
Em segundo lugar, o jornalista fala da pedofilia na Igreja Católica como se fosse uma obsessão, como se fosse um clima ou um ar que se respira diariamente em todas as casas de padres e religiosos/as, envolvendo fatalmente a todos/as num ambiente lúgubre e demoníaco.           
Diz Arnaldo Jabor: "Pedofilia e homossexualismo pairam no ar de qualquer internato religioso". "No velho colégio de padres onde estudei, a entrada dos alunos já era um desfile de velada pedofilia". "No colégio, tudo era sexo dissimulado". E ainda (pasmem!): "A própria escolha da vida religiosa já é uma negação alucinada da sexualidade - se a força  máxima da vida é esmagada, a Igreja vira uma máquina de perversões" (O Popular, Caderno Magazine, p. 3). Toda a matéria do Jornal é um elenco interminável de afirmações absurdas, que nem merecem ser tomadas em consideração.
A Igreja Católica é uma Instituição religiosa que tem como ideal compreender e viver a vida humana numa dimensão de fé cristã. "A fé esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do ser humano. E por isso orienta a mente para soluções plenamente humanas" (Concílio Vaticano II, A Igreja no mundo de hoje - GS, 11). "O mistério do ser humano só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. (…) Cristo manifesta plenamente o ser humano ao próprio ser humano e lhe descobre a sua altíssima vocação" (Ib., 22).
A Igreja Católica, mesmo sendo uma Instituição religiosa, é uma Instituição humana, isto é, histórica, situada e datada, com as limitações, erros e acertos inerentes a cada situação e a cada tempo. Em outras palavras, é uma Instituição de seres humanos e todo ser humano é um "vir-a-ser", um ser em construção. Onde existe o ser humano, existem também crimes e pecados, seja pessoais, seja estruturais ou institucionais. Esta é a condição do ser humano no mundo. A Igreja não foge a isso.
Por exemplo, se é verdade que a Igreja, em seus colégios e internatos, usou no passado métodos de formação e pedagogias que hoje consideramos superadas, é verdade também que estes métodos de formação e pedagogias eram então comuns.
Hoje, com a valiosa contribuição de pessoas ligadas à Igreja Católica, como o grande filósofo da educação Paulo Freire e outros inúmeros cientistas, filósofos e teólogos, surgiram novos métodos de formação e novas pedagogias numa linha libertadora e humanizadora. As ciências humanas - como todas as ciências - evoluem sempre. 
Não quero aqui justificar erros e aberrações que a Igreja Católica ou pessoas da Igreja Católica cometeram ou cometem. A História da Igreja Católica - como toda a história humana - é um processo dialético, feito de contradições e ambiguidades, e é nestas contradições e ambiguidades que a Igreja Católica procura ser sempre mais fiel ao projeto de Jesus Cristo, que é um projeto radicalmente humano e que, à luz da fé, chamamos de Reino de Deus.
Quantos exemplos de radicalismo humano temos, hoje também, na Igreja Católica. Basta lembrar o testemunho de vida de Dom Oscar Romero, de Pe. Josimo, da irmã Dorothy, da madre Teresa de Calcutá, de Dom Helder Câmara e de tantos outros/as. E ainda: quantas pessoas que, depois de conversar e conviver com padres e religiosos/as, voltam para suas casas edificadas e dando testemunho do equilíbrio, da serenidade, da paz, da sensibilidade e da profundidade humana que encontraram nos padres e religiosos/as. Quantos padres e religiosos/as sentem-se realizados como seres humanos e transmitem sua realização numa vivência alegre e feliz. Será que isso não conta nada para Arnaldo Jabor?
Qualquer humanista, à luz do pensamento filosófico (racional) e/ou teológico, sabe que a sexualidade é uma dimensão e, ao mesmo tempo, um valor que marca a totalidade da vida e da existência humana. Todas as opções, atitudes e atos do ser humano são "sexuados"
A sexualidade (que não se reduz à genitalidade, mas a inclui) é constitutiva do ser humano, que existe como homem (vir) e mulher (mulier). Para o ser humano (homo), o significado "humano" de ser homem (macho, vir) e mulher (fêmea, mulier) está precisamente e essencialmente na relação entre pessoas; em outras palavras, está na reciprocidade do encontro entre seres humanos. Torna-se homem e mulher na reciprocidade, isto é, no face a face do homem e da mulher. Um ser humano é verdadeiramente homem (vir) - em sentido humano - diante da mulher (mulier), e a mulher é verdadeiramente mulher (mulier) - em sentido humano - diante do homem (vir). A sexualidade é o fato de o ser humano (homo) ser dois (vir e mulier) e se manifestar na reciprocidade (na relação, no encontro intersubjetivo). Ora, reciprocidade se dá unicamente onde se dá alteridade, ou seja, onde dois seres humanos existem plenamente. Quando o ser humano (homo) se torna relação (ser-para-um-outro), ele revela-se a si mesmo como homem (vir) ou mulher (mulier) no face a face. É, pois, neste face a face que se reconhece como ser humano (vir ou mulier) e é reconhecido como tal. Não é, portanto, a sexualidade que nos faz inventar o amor, mas é o amor que nos revela a natureza da sexualidade. Neste contexto do encontro interpessoal manifestam-se todas as possibilidades de linguagem e de reconhecimento do outro como outro, isto é, todas as possibilidades "humanas" das componentes do homem e da mulher, como as diferenças fisiológicas, o erotismo, as caracterizações psicológicas, as elaborações culturais, etc.
À sexualidade pertence a fecundidade. Ela é predisposta pela estrutura biológica e fisiológica do homem e da mulher, e se reveste de uma dimensão interpessoal na vivência do reconhecimento mútuo como homem e como mulher, e na instauração de um novo diálogo com um novo ser. A estrutura homem-mulher é, podemos dizer, a estrutura que mais profundamente manifesta (exprime), no ser humano, sua natureza interpessoal e é o caminho normal para realizá-la (Cf. Gevaert, J. Il problema dell'uomo. Introduzione all'Antropologia Filosofica.  Elle Di Ci, Torino, 1981,  p. 88-89)
Portanto, ninguém renuncia à sexualidade humana ou ninguém "esmaga" a sexualidade humana (como afirma Arnaldo Jabor).. Quando o diácono, antes de sua ordenação presbiteral (de Padre), assume - livre e conscientemente - o compromisso do celibato ou quando o religioso/a faz o voto de castidade renuncia ao exercício da sexualidade em sua expressão genital, ao casamento (que a Igreja considera um sacramento, um caminho de santidade) e a uma família biológica por um amor maior ou, podemos dizer, por excesso de amor (não por falta de amor ), dedicando-se, de maneira radical e integral à causa do Reino de Deus. "Amem-se  uns aos outros, assim como eu amei vocês. Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos" (Jo 15, 12-13).
A vida de qualquer ser humano (homem  ou mulher) neste mundo é cheia de renúncias, mas toda renúncia só tem sentido se for por amor ou por excesso de amor. Só à luz da fé podemos compreender plenamente o sentido da opção de vida dos padres e dos religiosos/as. Todos, porém, que amamos a vida humana e lutamos por ela, podemos valorizar e, sobretudo, respeitar esta opção de vida. É isso que gostaríamos de pedir ao jornalista Arnaldo Jabor. "Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundancia" (Jo 10,10).

Fr. Marcos Sassatelli, Frade Dominicano 
    Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

Goiânia, 05 de maio de 2010

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