domingo, 3 de julho de 2011

A festa do Divino Pai Eterno Uma reflexão teológico-pastoral

Celebramos no domingo depois da festa de Pentecostes, em comunhão com a Igreja universal (católica), a festa da Santíssima Trindade, que é - podemos dizer - a síntese de todas as festas. Na Arquidiocese de Goiânia, devido ao santuário de Trindade (GO), temos o privilégio - que é uma graça - de celebrarmos mais uma vez a festa da Trindade - com destaque especial ao Divino Pai Eterno - no primeiro domingo de julho, precedida da solene novena, com grande participação do povo de Goiás e do Brasil todo. A festa está se tornando cada vez mais conhecida,
Estamos também no terceiro ano de preparação do Sínodo Arquidiocesano, que tem como tema a Caridade, o Amor. Por isso - para a Igreja de Goiânia - a festa do Divino Pai Eterno se reveste, neste ano, de um sentido particular. Ela nos lembra que Deus é Amor, que Deus é Comunidade de Amor, Pai, Filho e Espírito Santo. Como proclamou o sexto Encontro Intereclesial das CEBs em Trindade (GO) há 25 anos, em julho de 1986, “a Trindade é a melhor Comunidade”.
Quando afirmamos que Deus é Amor, afirmamos, em primeiro lugar, que Deus é. “Deus disse a Moisés: ‘Eu sou Aquele que sou’. E continuou: ‘Você falará assim aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou até vocês’” (Ex 3, 14). E ainda: “Eu garanto a vocês: antes que Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8, 58). Deus é. Deus é a plenitude do Ser. O ser humano (homem e mulher) - como tudo o que existe - é, porque Deus é. Deus é a fonte do ser nos seres. “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At, 17, 28).
Cada um de nós pode dizer: Eu sou "eu" antes que alguém possa entrar em contato comigo, mas eu não sou "eu" (no sentido estrito do verbo ser) sem a "presença ontológica" (em linguagem filosófica) ou a “presença criadora” (em linguagem teológica) de Deus que me "põe" no ser, como "põe" no ser tudo o que existe. Neste sentido, Deus é mais íntimo a mim do que eu mesmo (cf. Santo Agostinho, Confissões, III, 6, 11). "Quando eu me torno presente, 'íntimo', a mim mesmo, Deus, de certo modo, 'já' está em mim: presente em mim antes de mim mesmo" (L. Podeur. Imagem moderna do mundo e Fé cristã. Paulinas, São Paulo, 1977, p. 127). A "presença ontológica" de Deus atinge o real por dentro e não por fora; é nisso que se funda toda relação para com Deus. Pela "presença ontológica", "Deus está no mais profundo da realidade; ele é o fundo, porque é o fundamento transcendente (absoluto) de tudo" (Ib. p. 128).
            Em segundo lugar (no sentido lógico e não cronológico), depois de afirmar que Deus é, afirmamos que Deus é Amor (cf. 1Jo 4, 8). O amor é a natureza de Deus, é o ser de Deus. O ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus. “Deus disse: ‘façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança’” (Gn 1, 26). O ser humano é criado por amor, porque Deus é Amor. Portanto, o ser humano é amor. O amor - que é a natureza de Deus - é também a natureza do ser humano, é o ser do ser humano. “O amor é o meu peso. Para qualquer parte que vá, é ele quem me leva” (S. Agostinho. Confissões, XIII, 9).
O que significa para o ser humano ser amor? O amor define e envolve a totalidade do ser humano no mundo, a totalidade de sua existência, em todas as suas dimensões e relações, para com o mundo (material e vivente), para com os outros (semelhantes) e para com o Outro absoluto (Deus). Essas dimensões e relações são históricas, situadas (no espaço) e datadas (no tempo). Por sua vez, essas dimensões e relações históricas são dimensões e relações estruturais (sociais, econômicas, políticas, ecológicas, culturais) e relações individuais ou interindividuais (corpóreas - incluindo a sexualidade, bio-psíquicas, espirituais ou pessoais). Toda dimensão e relação do ser humano marca o ser humano todo, mas não é a totalidade do ser humano. O amor é, portanto, o jeito “humano” (não “desumano”) de ser e viver em todas as dimensões e relações do ser humano.
Ora, se o ser humano é criado por amor, é criado também para amar. O ser humano existe para amar, é a sua condição existencial. “Somos o que amamos” (S. Agostinho. Cidade de Deus, XIV, 28), isto é, nossa essência está definida pelo que amamos.
Mas o que é realmente amar? Amar é a vocação ontológica do ser humano, ou seja, a vocação do ser humano enquanto ser humano. Amando, o ser humano encontra o verdadeiro sentido da vida; amando, ele é feliz, realizado. “Ama e faze o que quiseres. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas em tom alto, fala por amor; se corriges, corrige por amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor: dessa raiz não pode sair senão o bem!“ (S. Agostinho. Comentário à Primeira Carta de João, VII, 8).
E o que significa para o ser humano amar? Se amar é a vocação ontológica do ser humano, amar significa “ser mais”, significa ser sempre mais ser humano e viver sempre mais intensamente (profundamente) sua humanidade, em todas as dimensões e relações. O ser humano, ser pluridimensional e pluri-relacional, é um “vir-a-ser”, um ser de busca permanente.
A vocação ontológica (a vocação do ser humano enquanto ser humano) se constitui (se realiza) e acontece na história (no tempo e no espaço). Há uma dialeticidade, ou, em outras palavras, uma interdependência entre o ontológico e o histórico. Podemos dizer que o ser humano é enquanto histórico e é histórico enquanto é. A vocação ontológica do ser humano torna-se vocação histórica. O ser humano é chamado - permito-me criar uma palavra - a “amorizar” o mundo e a sociedade na qual ele vive, isto é, a impregnar esse mundo e essa sociedade de amor.
Por ser racional e por ter a possibilidade histórica de ser livre (liberdade situada e datada), o ser humano tem também a possibilidade histórica de não-amar. O não-amar (o desamor, o egoísmo) é, porém, uma distorção da vocação ontológica do ser humano. Não-amando, o ser humano perde o sentido da vida; não-amando, ele é infeliz, frustrado.
 A vocação ontológica do ser humano, que se torna vocação histórica, torna-se também vocação meta-histórica. O ser humano histórico meta-historiciza-se (transcende-se) constantemente até à plena meta-historicização (plena transcendência), além do tempo e do espaço, além da morte.
Essa meta-historicização, até à plena meta-historicização alem da morte, acontece e se constitui para a vida (Reino de Deus, Vida eterna) ou para a morte (anti-Reino de Deus, Morte eterna).
A vida eterna, que é o Reino de Deus, começa aqui na terra e acontece em todas as dimensões e relações humanas. “Todo amor quer eternidade - o amor de Deus não só a deseja, como a realiza e é” (J. Ratzinger. Introdução ao cristianismo: preleções sobre o símbolo apostólico. Herder, São Paulo, 1970, p. 302. Citado por: J. B. Libanio, sj. Só se salva e ganha a vida eterna quem aceita Jesus? Nesse caso, só os cristãos serão salvos? Em: Vida Pastoral, julho-agosto de 2011, p. 3). “O amor promete infinito, eternidade - uma realidade maior e totalmente diferente do dia a dia da nossa existência” (Bento XVI. Encíclica “Deus caritas est”, 5). “O amor (...) visa o definitivo: o amor visa a eternidade” (Ib. 6).
Em outras palavras, “a eternidade não se ganha nem se perde, mas é o amor que vivemos aqui e ultrapassa o tempo e espaço para dentro da infinitude de Deus. Então toda pessoa que ama não ganha o céu, é já a eternidade feliz iniciada” (J. B. Libanio, o.c., ib,).
Podemos agora fazer duas perguntas. A primeira é: “Alguém que foi radicalmente egoísta, que não amou seu irmão, poderá salvar-se, quer seja cristão de batismo, quer não? A resposta soa: não. Não porque Deus o condene, mas porque ele se constituiu um ser sem amor. E ser-sem-amor é idêntico a inferno” (Ib.).
A segunda pergunta é: “Quem saiu de si, amou os irmãos, foi fundamentalmente próximo aos demais, se salva, quer seja cristão, quer não? Sim. Mais: ele já é céu aqui na terra e, depois da morte, revelar-se-á plenamente a verdade de tal vida” (Ib., p. 3-4).
Podemos então dizer: “Cristão que não ama não estabelece nenhuma relação de amor e de eternidade com Deus. Portanto, não pode conviver com um Deus que é amor, porque não quer amar. Um não cristão que ama está em íntima relação com o Deus que é amor e, por conseguinte, já começou a ser céu e o será eternamente. Mais correto é dizer que somos céu e não que vamos ao céu. E só se é céu pelo amor. E o contrário. Não perdemos a vida eterna, não vamos para o inferno, como se fosse um lugar, mas nos tornamos inferno, porque não amamos” (Ib.,p. 4). “Se amamos os irmãos, somos comunidade de amor. E a vida eterna não é nada mais que comunidade de amor entre nós na força do amor de Deus que nos sustenta no ser para sempre” (Ib.).
E Jesus de Nazaré? Ele é o Cristo, o Ungido, o Messias, o Salvador, o Filho de Deus, o Enviado do Divino Pai Eterno. Nele, nos tornamos filhos/as de Deus, filhos/as do Divino Pai Eterno, “A prova de que vocês são filhos é o fato de que Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: Abba, Pai!” (Gl 4, 6). Jesus de Nazaré é Aquele que viveu o amor em grau máximo e nos possibilitou vivê-lo. Retomando as palavras do profeta Isaías, e fazendo delas o seu programa de vida, Jesus afirmou: “O espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa-Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor”. Depois Jesus declarou: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir” (Lc 4, 18-19.21). O “hoje” de que fala Jesus, não é só o “hoje” do tempo dele, mas é também o nosso “hoje”. Os cristãos/ãs, como discípulos/as, somos chamados a continuar a missão de Jesus “hoje”, no mundo e na sociedade em que vivemos.
Jesus de Nazaré veio ao mundo para anunciar a Boa-Notícia do Reino de Deus, denunciando tudo aquilo que é contrário à sua realização. O Reino de Deus “é a grande utopia (seu horizonte ideal e final), que permeia toda a Bíblia. O reconhecimento do único Deus vivo e libertador leva o povo a promover relações de partilha e fraternidade, dirigindo a sociedade e a história para a sua meta final: liberdade e vida em plenitude. Longamente preparado no Antigo Testamento, o Reino de Deus tornou-se o centro do anúncio de Jesus”. A utopia do Reino de Deus “acontece historicamente toda vez que há triunfo da justiça sobre a injustiça” (Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. Pequeno Vocabulário: Verbetes “Reino de Deus” e “Utopia”. Edições Paulinas, 1990).
Como Deus é Amor, todos os que amam fazem acontecer o Reino de Deus, mesmo que não conheçam Jesus e não tenham com ele uma relação explícita. “Desconhecendo Jesus, mas amando, alguém participa da fé nele. E por isso já vive incoativamente a eternidade (o Reino de Deus) na medida do amor” (J.B. Libanio, o.c., p. 3).
Celebrar, pois, a festa do Divino Pai Eterno significa celebrar o Amor de Deus em nossa vida e nossa comunhão de amor para com Ele; significa amar e assumir - como romeiros do Divino Pai Eterno - o compromisso de fazer acontecer o Reino de Deus no mundo de hoje. As romarias (realizadas sobretudo durante a novena em preparação à festa, mas também durante o ano todo) devem ser um sinal do desejo que os cristãos católicos - com abertura ecumênica e respeito às diferenças - temos de caminhar juntos como discípulos missionários de Jesus Cristo para que Nele todos os povos tenham vida.
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo. 10, 10). “Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho de Deus, não tem a vida” (1Jo 5, 11-12). “Jesus, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo, 13, 1). Depois de lavar os pés dos discípulos, Ele disse: “Eu lhes dei um exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13, 15). “Amem-se uns aos outros assim como eu amei vocês. Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15, 12-13).
A imagem, conhecida como sendo do Divino Pai Eterno, do Santuário de Trindade (GO) é, na realidade, a imagem da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, coroando Maria, que é, ao mesmo tempo, a mãe de Jesus e a discípula mais perfeita Dele. Maria na imagem da Trindade, sendo coroada, tem uma densidade teológica particular e significa a glória: a meta para a qual tende toda a humanidade. Significa o mergulho completo da humanidade no mistério do Amor de Deus, que é a plenitude do mistério pascal: a vida nova em Cristo, a vida segundo o Espírito, a vida eterna. Significa, enfim, a plenitude do Reino de Deus: a plena humanização de Deus e a plena divinização do ser humano (homem e mulher) na mais perfeita Comunidade de Amor. 
Termino a minha reflexão teológico-pastoral com um alerta, muito atual, para os que somos discípulos missionários de Jesus Cristo, para os que somos Igreja. A Boa Notícia do Reino de Deus (o Evangelho) “não se prega com ostensão e brilho, mas com loucura e fraqueza (cf. 1Cor 2, 1-5). O verdadeiro brilho da verdade (cf. a Oração do 13º domingo do Tempo Comum) está em nossa fraqueza, quando não mais escurecemos a luz de Deus em nós e, por nossa fraqueza, nos tornamos um convite à generosidade mais profunda do nosso semelhante. Quanta insensatez é pensar que abriremos os corações com eventos sensacionais e organizações poderosas, que quase inevitavelmente estragam as pessoas que nelas ‘funcionam’” (Pe. Johan Konings, sj. Em:  Vida Pastoral, Roteiros homiléticos, 13º domingo do Tempo Comum, maio-junho de 2011, p. 62-63).

Enfim, sejamos os cristãos/ãs - unidos a todos/as que lutam por um outro mundo possível - “profetas da vida” (Documento de Aparecida – DA, 471), em todas as dimensões e relações humanas. Este é o sentido da festa do Divino Pai Eterno!
Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 02/07/11, p. 4 


 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra


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