quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Os “donos” do mundo

No dia 30 de setembro passado - numa operação previamente estudada e cuidadosamente planejada pela Cia e pelos militares, como se fosse uma caçada a um animal feroz - os EUA mataram, no Iêmen, Anwar al Awlaki, 40, nascido nos EUA, Estado do Novo México, filho de iemenitas e de dupla cidadania iemenita-americana. Ele foi apontado como um dos líderes da Al Qaeda na Península Arábica e uma inspiração para muitos terroristas. “Era considerado um dos mais perigosos propagandistas da franquia iemenita da rede Al Qaeda. Seus sermões na internet, que o tornaram uma espécie de celebridade entre terroristas, são alvo de diversas investigações internacionais” (Folha de S. Paulo. 01/10/11, p. A16).
Tido como mentor de atentados recentes aos EUA, incluindo o ataque á base militar de Fort Hood, no Texas, em 2009, Anwar al Awlaki - que havia escapado de um ataque semelhante em maio passado - foi morto por um avião não tripulado americano (os chamados “drones”). No ataque morreu também o americano Samir Khan, editor de uma revista on-line, ligada à Al Qaeda. A notícia, amplamente divulgada pela imprensa nacional e internacional, correu o mundo inteiro.
O presidente dos EUA, Barack Obama, querendo justificar o assassinato de Anwar al Awlaki, afirmou que ele “convocava indivíduos nos EUA e ao redor do globo a matar homens, mulheres e crianças inocentes”.
            A American Civil Liberties Union (união de liberdades civis) criticou o assassinato e, em comunicado oficial, afirmou que a ação “viola tanto as leis americanas quanto as internacionais”, ao assassinar cidadãos “sem processo judicial”. “A autoridade do governo - continua a entidade - de usar força letal contra seus próprios cidadãos deveria ser limitada a circunstâncias em que a ameaça à vida é concreta, específica e imediata”.
            A execução sumária, sem investigação ou julgamento, de Anwar al Awlaki “reacende o debate sobre liberdades civis e terrorismo” (Ib,). Para os defensores das liberdades civis, o governo dos EUA (como qualquer outro governo) não tem o direito de tirar a vida de um cidadão, americano ou não.
No caso do assassinato de Anwar al Awlaki - e também em outros casos - os EUA agiram como se fossem os donos do mundo, com poderes absolutos sobre a vida e a morte de cidadãos de seu próprio país e de outros países.
Por que - diante dessa arrogância e autossuficiência - os países, que se dizem democráticos, não manifestam publica e veementemente o seu repúdio para com a prática terrorista e ditatorial dos EUA? Por que a ONU não intervém, condenando a forma como os EUA atacam e assassinam?
“A ‘Guerra contra o Terrorismo’ vem utilizando-se amplamente do terrorismo como arma”. “Terrorismo gera terrorismo. Eis o principal motivo a nos levar a desconfiar - e desconfiar muito! - de uma guerra liderada pela maior e mais poderosa nação terrorista do mundo contra o terrorismo” (Lázaro Curvêlo Chaves. O Terrorismo dos EUA. Em: www.culturalbrasil.org - 11/09/03). Muitas vezes o lobo se apresenta em pele de cordeiro. Quem acredita que com Barack Obama os EUA se transformaram está equivocado. Os EUA continuam combatendo o terrorismo com terrorismo.
“Nós, o resto do mundo, recebemos uma representação bastante distorcida dos EUA. De um lado, eles são os (muito questionável) salvadores e samaritanos, eles nos protegeram e salvaram dos nazistas, do comunismo (que era – a meu ver - um capitalismo de Estado) e de muitos ditadores. Por outro lado, eles instauraram um regime absolutista, apóiam publicamente corruptos, Estados totalitários e levam em consideração tantos regimes hostis ao ser humano, caso estes atendam seus interesses. Eles compram Governos e Estados, tornando-os dependentes, sugam-nos sem consideração à população. Os EUA são aquilo que se combate oficialmente, eles são os terroristas que, com seu violento arsenal e maior exército do mundo, querem impor a este sua vontade. Sem se preocupar com perdas, sem consideração à população. Tudo em prol de um Governo inescrupuloso e absolutista, que é controlado por conglomerados e bancos!” (Johannes. EUA são o terrorista mais perigoso do mundo. Em: www.inacreditavel.com.br – 08/06/10).
Podemos concluir afirmando que o terrorismo não se combate com terrorismo. É preciso mudar as relações internacionais, ou seja, as relações entre os povos. Estas relações devem ser baseadas na igualdade (nenhum país é superior ao outro), no respeito mútuo, no diálogo sincero, no reconhecimento das diferentes culturas e religiões, na busca de valores comuns, na promoção dos direitos humanos, na colaboração recíproca e no empenho de todos com a construção de “um outro mundo possível”, um mundo de paz, de harmonia, de solidariedade, de justiça social e, sobretudo, de amor, que dá sentido à vida e faz a todos/as ser felizes.

Para que isso aconteça, precisa, antes de tudo, que os governantes de todos os países tenham vontade política. Precisa também que a ONU seja reestruturada e fortalecida, como organismo internacional, para que - quando se fizer necessário - tenha a “autoridade” de intervir, na solução de conflitos entre países, no mundo inteiro.
           Diário da Manhã,  Opinião Pública,  Goiânia, 19/10/11, p. 3



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos