sexta-feira, 7 de junho de 2013

“Dia do meu corpo. Corpo que sente”

Em verdade eu declaro a vocês: todas as vezes que fizeram isso (deram de comer aos que tinham fome, deram de beber aos que tinham sede, receberam em casa os estrangeiros, vestiram os que estavam sem roupa, cuidaram dos doentes, visitaram os presos) a um desses meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizeram” (Mt 25, 40)

                No dia 30 de maio deste ano, nós cristãos católicos - em comunhão com a natureza e com toda a humanidade - celebramos a Solenidade do Corpo de Cristo. Por coincidência providencial, no mesmo dia, eu recebi, via e-mail, enviado pela coordenadora nacional da Pastoral do Povo de Rua, Cristina Bove, o poema de Roberval Freire sobre Corpus Christi, que reproduzo abaixo. Era de noite. Lendo o poema, fiquei chocado e, ao mesmo tempo, desafiado pela radicalidade humana e evangélica que ele transmite. Perdi o sono e mergulhei em profunda meditação.
De fato, trata-se de um poema que precisamos ler e meditar não com preocupação doutrinária e legalista, mas com coração aberto e livre, para que, à luz do Espírito Santo, sua mensagem revolucionária irradie por todo lado, penetre a totalidade do nosso ser e, num processo de conversão contínua, nos leve a viver de verdade a opção pelos Pobres, dando a vida por amor. “Jesus, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Em clima de recolhimento e fazendo a leitura silenciosa do poema, coloquemo-nos em estado de meditação.
                “Corpus Christi.
Hoje, dizem, é dia do meu corpo. Hoje é feriado. Quantos corpos cansados de trabalhadores e trabalhadoras esgotados que estão dando graças a mim por este descanso. Mas outros trabalham hoje: seus corpos não podem parar.
Hoje, meu dia, decidi deixar meu corpo gritar. Não vou estar nas paróquias, procissões, sacrários. Decidi hoje deixar de ser hóstia.
Não vá lá! Não estou nestas concentrações. Não me adore!
Vou te dizer onde estou hoje neste dia frio!
Estou lá nas praças, mal vestido, mal cheiroso - como você vai me adorar assim?
Estou fumando crack, furtando nos faróis, xingando.
Estou abrindo sacos de lixo, sujando calçadas.
Estou acendendo fogueira sobre o cimento da praça.
Estou entre as grades de uma prisão.
Estou no 15º programa mecânico de um sexo pago.
Estou do lado de fora do shopping.
Estou do lado de fora do mundo.
Sou a cruz e a dor - hoje é meu dia, dia do meu corpo.
Corpo que sente - por isso hoje não vou ser hóstia que não sente.
Hoje poderei ser tua missa, tua causa, tua inquietação.
Hoje eu sou teu pão e teu vinho!”
(Roberval  Freire, 30/05/2013).
A Eucaristia nos questiona visceralmente sobre a nossa fé de seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. “A fé, sem as obras, está completamente morta” (Tg 2, 17). Pe. Arrupe afirma: “Se em alguma parte do mundo existe fome, nossa celebração eucarística está de alguma maneira incompleta. Na Eucaristia recebemos Cristo que tem fome no mundo. Ele vem ao nosso encontro junto com os pobres, os oprimidos, os famintos da terra, que através dele nos olham esperando ajuda, justiça, amor expresso em ações. Não podemos receber plenamente o pão da vida, se não damos ao mesmo tempo pão para a vida daqueles que se encontram em necessidade onde quer que estejam” (Citado por: Rádio Vaticano. Reflexão sobre “Por que a Pobreza?”, 29/11/12).
                Enfim, perguntamo-nos: O que significa para nós, hoje, celebrar a Eucaristia? Receber a Eucaristia (comungar)? Adorar a Eucaristia? E, sobretudo, viver a Eucaristia?
                Será que acreditamos realmente no verdadeiro sentido da Eucaristia? Será que estamos dispostos a cantar de coração: “É Jesus este Pão de igualdade, viemos pra comungar, com a luta sofrida de um povo que quer, ter voz, ter vez, lugar. Comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar, com a fé e a união nossos passos um dia vão chegar” (Canto de Comunhão: Se calarem a voz dos Profetas. Refrão). Que a Eucaristia seja, para todos e para todas nós, vida nova em Cristo, vida segundo o Espírito, o Amor de Deus.
  


            (Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano,
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP),
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 05 de junho de 2013

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