quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Casa da Acolhida Cidadã?

A chamada “Casa da Acolhida Cidadã” - situada à Rua Minas Gerais, esquina com Senador Jaime, Nº 839, Setor Campinas, Goiânia (GO) - não merece ser chamada “da acolhida” e, menos ainda, de “cidadã”.

Uma história - que vivi pessoalmente e que deixa qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade humana indignada - ilustra muito bem a minha afirmação.

Na noite do dia 4 de janeiro deste ano, Maria (nome fictício), uma moça de aproximamente 25 anos, estava esperando a minha chegada, na Rua 242, Nº 100 (Praça S. Judas Tadeu - Setor Coimbra) para pedir socorro.  

Contou sua história de vida: veio de Belém do Pará para trabalhar. Chegando na Rodoviária de Goiânia, a pessoa que ficou de pegá-la não apareceu. Sem saber para onde ir, perambulou pela cidade e foi recebida na Casa da Acolhida Cidadã.

Depois de algum tempo que estava na Casa, um policial - afirmou ela - a pegou pelo braço e, de maneira grosseira, a tirou à força de uma escada onde não podia ficar.

Maria não gostou da maneira como foi tratada e, seguindo o primeiro impulso, pegou suas coisas e saiu. Ponderei com ela que, mesmo tendo o direito de exigir respeito, não podia ter feito aquilo.

Telefonei imediatamente à Casa da Acolhida e a assistente social de turno disse-me que na Casa tem uma norma, segundo a qual, uma pessoa que sai voluntariamente, só pode voltar depois de três meses.  Disse-me também que - mesmo com essa norma - no dia seguinte, de manhã, poderia ir lá e conversar com os responsáveis da Casa.

Consegui, pois, um lugar para que Maria pudesse passar a noite com segurança.

No dia seguinte, de manhã - como não podia ir pessoalmente - pedi a dois Irmãos da minha Comunidade que levassem Maria à Casa da Acolhida e conversassem com os responsáveis. E foi isso que eles fizeram.

Qual não foi a minha surpresa? Poucas horas depois, Maria estava novamente na Praça S. Judas Tadeu. À pessoa que a viu e que já a conhecia da noite anterior, ela disse que a Casa da Acolhida esperou os Religiosos sairem para mandá-la embora. Telefonei novamente à Casa da Acolhida e a pessoa que atendeu disse-me secamente que a Casa tem normas rígidas e que quem desobedece vai para rua mesmo. Que pedagogia é essa?! Que psicologia é essa?! Que serviço social é esse?! 

Diante de tanta insensibilidade e arrogância, só não chamei a imprensa na hora para documentar os fatos, devido a outros compromissos.

Maria passou a noite na casa de uma pessoa amiga, que a acolheu com muita atenção e humanidade. Na manhã seguinte, atendendo a um desejo dela, consegui o dinheiro para comprar a passagem até Belém do Pará e a pessoa que a hospedou, a levou na Rodoviária. Termina aqui a história de Maria em Goiânia. Que Deus a acompanhe e proteja!

Pessoalmente, não tenho motivos para duvidar da história de Maria, que é uma história muito sofrida. Mas - mesmo admitindo a hipótese que a história não seja verdadeira - eu pergunto:
1.    A vida não está acima das normas?
2.    Como um ser humano - homem ou mulher - pode ter a coragem de jogar na rua uma moça, que não sabe para onde ir, só porque desobedeceu a uma norma?
3.    Se ela desobedeceu, não quer dizer que precisa de atenção e de ajuda mais do que os outros?
4.    Que educadores sociais, psicólogos e assistentes sociais são esses que trabalham nas Instituições públicas com tanta frieza e desumanidade?
5.    Que tipo de formação e orientação receberam?
6.    Será que essas pessoas não têm consciência?
7.    E se têm, será que a consciência não dói?

A sociedade, na qual vivemos, é legalista, injusta e hipócrita. Trata os pobres e excluídos como “lixo humano” e “material descartável”.

“O ser humano - diz nosso irmão, o papa Francisco - é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do ‘descartável’, que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenômeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são ‘explorados’, mas resíduos, ‘sobras’” (A Alegria do Evangelho - EG, Nº 53).

A história de Maria é uma história paradigmática. Existem muitas outras histórias parecidas com essa. 

Apesar de tudo isso, canto: “Eu creio num mundo novo, pois Cristo ressuscitou! Eu vejo sua luz no povo, por isso alegre estou!”.

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