quarta-feira, 10 de setembro de 2014

As CEBs: seu jeito de ser Igreja

Em três artigos e sem pretender ser exaustivo, quero fazer algumas reflexões teológico-pastorais sobre três elementos ou traços característicos, que - a meu ver - constituem a espinha dorsal da Eclesiologia (visão de Igreja) das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): o jeito de ser Igreja das CEBs; o lugar das CEBs na estrutura eclesial e a inserção das CEBs no mundo.
            Neste artigo, começo refletindo sobre o primeiro elemento ou traço característico: o jeito de ser Igreja das CEBs. Ele é o jeito de ser Igreja, que - atento aos sinais dos tempos - encarna (mesmo com todas as limitações e fragilidades humanas) o sonho de Jesus de Nazaré, torna presente hoje o seu jeito de ser e faz hoje o caminho que Jesus fez em sua época.
O jeito de ser Igreja das CEBs é, pois, o jeito de ser Igreja “a partir da manjedoura” de Belém (não a partir do palácio do imperador de Roma) e de tudo o que ela representa e/ou significa para nós.
Vejamos! Jesus, antes de Maria (que estava grávida) e José encontrarem abrigo num estábulo, foi - ainda no seio de sua mãe Maria e junto com seu pai José - “morador de rua”, dormindo debaixo das marquises da cidade de Belém. Depois de encontrarem abrigo num estábulo (o dono deve ter ficado com pena de José e de Maria, que estava para dar à luz), Jesus nasceu numa manjedoura como “sem-teto”. “Não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7).
Os que, em primeira mão, receberam a Boa Notícia do nascimento de Jesus foram os pastores, os “sem-terra” da época. “Eu anuncio a vocês a Boa-Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor” (Lc 2,10-11).
Os pastores eram pessoas de má fama, mal vistos pelos poderosos e “pessoas de bem”, porque ocupavam as grandes propriedades de terra com seus rebanhos e - por necessidade de sobrevivência - vendiam seus produtos a preços exorbitantes. Segundo uma antiga lei, um pastor não podia ser juiz ou testemunha no tribunal. Não era considerado uma pessoa idônea.
Depois de ver Jesus, os pastores, louvando e agradecendo a Deus, tornaram-se anunciadores da Boa-Notícia. “Todos os que ouviam os pastores, ficaram maravilhados com aquilo que contaram” (Lc 2,18).
Mas, por que será que Jesus - depois de ter sido “morador de rua”, ainda no seio de sua mãe - nasceu como “sem-teto” e anunciou a Boa-Notícia de seu nascimento aos “sem-terra”? Aos olhos dos poderosos e das “pessoas de bem”, de ontem e de hoje, não foi um comportamento absurdo e de mau gosto? Os critérios de Jesus não são radicalmente diferentes dos nossos? O que Ele quis nos dizer com isso? Pensemos!
Jesus manifestou-se aos reis magos - que representavam todos os povos de todas as culturas - enfrentando a ganância e a obsessão pelo poder de Herodes. Jesus - juntamente com sua mãe e seu pai, Maria e José - fugiu para o Egito e fez-se migrante para escapar à vingança assassina de Herodes.
Ele cresceu, em sabedoria e graça, numa família e, durante muitos anos - vivendo uma vida simples e anônima - trabalhou como operário, como carpinteiro com seu pai José.
Em sua vida pública - anunciando a Boa-Notícia do Reino de Deus a todos e a todas, mas “a partir da manjedoura” - Jesus, como o Profeta e o Enviado do Pai, sempre foi próximo, compassivo e solidário para com o povo: os doentes, os leprosos, os sofredores, os descartados, os pobres e todos aqueles e aquelas que não tinham voz e não tinham vez na sociedade. Jesus nunca morou numa mansão, num palácio episcopal ou qualquer outro palácio. “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8,20).
Pela sua proximidade, compaixão e solidariedade tornou-se defensor intransigente do povo; denunciou, com indignação e firmeza, a hipocrisia dos fariseus e mestres da Lei; pela sua pregação, foi considerado subversivo. “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23,2).
Jesus morreu na Cruz por amor. “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês. Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos. Vocês são meus amigos, se fizerem o que eu estou mandando” (Jo 15,12-14).
Enfim, Jesus ressuscitou, venceu a morte e todos os males. Ele está vivo em nosso meio. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20). “Vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês. Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,19-20).
É esse o caminho que Jesus de Nazaré fez em sua vida terrena e é esse o caminho que as CEBs, com seu “trenzinho”, fazem hoje. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10). “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).
As CEBs, portanto, são “o nosso jeito normal de ser Igreja”; são “o nosso jeito sempre novo e, ao mesmo tempo, sempre antigo de ser Igreja”; são “o nosso jeito de ser Igreja sempre”.
No próximo artigo, refletiremos sobre o segundo elemento ou traço característico da Eclesiologia das CEBs: o lugar das CEBs na estrutura eclesial, à luz, sobretudo, de Medellín, que é o acontecimento fundante da Igreja Latino-Americana e Caribenha, enquanto tal.

No dia 14 deste mês de setembro, teremos a 4ª Romaria das CEBs da Arquidiocese de Goiânia, com a participação de representantes de outras Igrejas do Regional Centro Oeste da CNBB. Às 9h, nos concentraremos no Portal de Entrada do Trevo de Trindade e às 10h, daremos início (no próprio Trevo) à Celebração, caminhando rumo ao Santuário do Divino Pai Eterno e terminando com a Eucaristia. Durante a caminhada faremos quatro paradas, meditando sobre os temas: a Palavra de Deus na Vida do Povo, a Espiritualidade Libertadora, o Compromisso Social e Político e a Continuidade da Caminhada das CEBs. O pano de fundo de toda a nossa meditação será a Campanha da Fraternidade 2014, com o tema Fraternidade e Tráfico Humano e o lema “É para a Liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1). Participe!
Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP),
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
                                                                                       Goiânia, 10 de setembro de 2014

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos