quinta-feira, 25 de setembro de 2014

As CEBs: sua inserção no mundo

Neste artigo - dando continuidade aos dois anteriores - reflito sobre o terceiro elemento ou traço característico da Eclesiologia (visão de Igreja) das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): a inserção das CEBs no mundo.
Como Igreja Povo de Deus e toda ministerial (servidora), as CEBs - com suas limitações humanas - são Comunidades de discípulos missionários e discípulas missionárias (seguidores e seguidoras) de Jesus de Nazaré, que fazem a experiência (conhecimento em sentido bíblico) do Projeto de Deus sobre o ser humano e o mundo (a utopia do Reino de Deus); que aderem, vivencial e conscientemente, a este Projeto; e que se comprometem com a realização do mesmo na história humana e cósmica.
Ora, para as CEBs, comprometer-se com a realização do Projeto de Deus na história humana e cósmica significa assumir três atitudes concretas.
Primeira: inserir-se na realidade (“estar por dentro”). "Como Cristo, por sua encarnação ligou-se às condições sociais e culturais dos seres humanos com quem conviveu; assim também deve a Igreja inserir-se nas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus” (Concílio Vaticano II. A atividade missionária da Igreja - AG, 10).
Segunda: interpretar a realidade (os acontecimentos) à luz do Evangelho e, ao mesmo tempo, o Evangelho à luz da realidade, ou seja, escutar os sinais dos tempos. "Para desempenhar sua missão, a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre os significados da vida presente e futura e de suas relações mútuas. É necessário, por conseguinte, conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática" (Concílio Vaticano II, A Igreja no mundo de hoje - GS, 4).
“Como discípulos de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados a discernir os 'sinais dos tempos', à luz do Espírito Santo, para nos colocar a serviço do Reino, anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e 'para que a tenham em plenitude' (Jo 10,10)" (Documento de Aparecida - DA, 33).
Terceira: transformar a realidade, fazendo acontecer um mundo novo, que, à luz da Fé, é a utopia do Reino de Deus.
“O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: ‘está aqui’ ou: ‘está ali’, porque o Reino de Deus está no meio de vocês” (Lc 17,20-21). "Nem todo aquele que me diz 'Senhor, Senhor' entrará no Reino do Céu (o mesmo que ‘Reino de Deus’). Só entrará aquele que põe em prática a vontade de meu Pai, que está no céu” (Mt 7,21). O Reino de Deus “já” está presente, mas “ainda não” está presente.
 O nosso irmão, papa Francisco - falando da Igreja “em saída” - anima-nos e desafia-nos a perder todo tipo de medo, afirmando com ênfase: “saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo!”.
E ainda: “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos” (A Alegria do Evangelho - EG, 49).
Francisco lembra-nos também que todos nós, cristãos e cristãs, somos chamados a “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (ib., 20).
“Vocês são a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha, e sim para colocá-la no candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa. Assim também: que a luz de vocês brilhe diante das pessoas, para que elas vejam as boas obras que vocês fazem e louvem o Pai de vocês que está no céu” (Mt 5,14-16).
As CEBs - com sua opção pelos empobrecidos, oprimidos e excluídos - são uma Igreja “em saída”. Elas anunciam a Boa Notícia do Reino de Deus no mundo de hoje e denunciam profeticamente tudo aquilo que - do ponto de vista estrutural e individual - é contrário ao Reino de Deus.
Nas CEBs, os cristãos e cristãs participam das Pastorais Sociais e Ambientais e - através dessas - dos Movimentos Sociais Populares, dos Sindicatos autênticos de Trabalhadores/as, dos Partidos Políticos Populares e de todas as Organizações que lutam pela Justiça e Paz, pelos Direitos Humanos e por um mundo novo, a utopia do Reino de Deus.
Para os cristãos e cristãs, que sabem o que significa seguir Jesus de Nazaré hoje e acreditam no seu Projeto, essa participação é uma exigência não só de sua cidadania, mas também e sobretudo, de sua fé. Sentem-se impelidos pela força do Espírito de Deus a serem profetas e profetisas da vida.
Dom Aloísio Lorscheider - numa síntese muito bem formulada - oferece-nos uma fotografia nítida da Igreja que o Concílio sonhou e que as CEBs também sonham. “O Vaticano II - diz ele - faz-nos passar: de uma Igreja-instituição ou de uma Igreja-sociedade perfeita para uma Igreja-comunidade, inserida no mundo, a serviço do Reino de Deus; de uma Igreja-poder para uma Igreja pobre, despojada, peregrina; de uma Igreja-autoridade para uma Igreja serva, servidora, ministerial; de uma Igreja piramidal para uma Igreja-povo; de uma Igreja pura e sem mancha para uma Igreja santa e pecadora, sempre necessitada de conversão, de reforma; de uma Igreja-cristandade para uma Igreja-missão, uma Igreja toda ela missionária” (Texto citado por Dom Geraldo Majella Agnelo na contra-capa da Liturgia Diária, novembro de 2012).
Enfim, as CEBs, inseridas no mundo, são como árvores que se tornam tanto mais bonitas, quanto mais profundas forem suas raízes na terra. E as raízes dessas árvores - as CEBs - tão diferentes umas das outras, são os Grupos de Rua (de vizinhos), que fazem da Palavra de Deus a luz de sua vida.
Leia também os artigos:
“As CEBs: seu jeito de ser Igreja”, em:
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=82425&langref=PT&cat=24 e “As CEBs: seu lugar na estrutura eclesial”, em:



Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP),
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
                                                                                       Goiânia, 24 de setembro de 2014  

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos