terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Carta de Santa Cruz, do 2º EMMP (2ª parte)



         Neste artigo dou continuidade ao anterior, destacando, com alguns comentários e questionamentos, os pontos da Carta de Santa Cruz, do 2º EMMP.
  1. Melhorar nossos bairros e construir moradias dignas. Denunciamos a especulação e a mercantilização dos terrenos e bens urbanos. Rechaçamos os despejos forçados, o êxodo e o crescimento dos bairros marginalizados. Rechaçamos qualquer tipo de perseguição judicial contra aqueles que lutam por uma casa para sua família, porque entendemos a moradia como um direito humano básico, o qual deve ter caráter universal. Exigimos políticas públicas participativas que garantam o direito à moradia, a integração urbana de bairros marginalizados e o acesso integral ao habitat para edificar casas com segurança e dignidade”.
Será que nós e as Pastorais Sociais e Ambientais da Igreja estamos assumindo - em nome de nossa cidadania e de nossa fé - essas bandeiras de luta como prioridades? Pensemos!
  1. Defender a Terra e a soberania alimentar. Promovemos a reforma agrária integral para distribuir a terra de maneira justa e equitativa. Chamamos a atenção dos povos para o surgimento de novas formas de acumulação e especulação da terra e do território como mercadorias, vinculadas ao agronegócio, que promove a monocultura destruindo a biodiversidade, consumindo e contaminando a água, deslocando populações camponesas e utilizando agrotóxicos que contaminam os alimentos. Reafirmamos nossa luta pela eliminação definitiva da fome, pela defesa da soberania alimentar e pela produção de alimentos saudáveis. Rechaçamos também enfaticamente a propriedade privada de sementes por grandes grupos agroindustriais, assim como a introdução de produtos transgênicos substituindo aos nativos, pois destroem a reprodução da vida e da biodiversidade, criam dependência alimentar e causam efeitos irreversíveis sobre a saúde humana e o meio ambiente. Reafirmamos, nesse sentido, a defesa dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas em relação à agricultura sustentável”.
Quanta clareza e quanta objetividade nessas palavras! Qual é o nosso posicionamento diante da realidade apresentada? As Pastorais Sociais e Ambientais da Igreja estão realmente preocupadas com essa realidade? Será que não está na hora de fazermos uma profunda revisão de vida?
  1. Construir a paz e a cultura do encontro. Comprometemo-nos, a partir da vocação pacífica de nossos povos, a intensificar as ações coletivas que garantam a paz entre todas as pessoas, povos, religiões, etnias e culturas. Reafirmamos a pluralidade de nossas identidades culturais e tradicionais, que devem conviver harmoniosamente sem que umas se sobreponham a outras. Levantamo-nos contra a descriminação de nossa luta, pois estão criminalizando nossos costumes. Condenamos qualquer tipo de agressão militar e nos mobilizamos pelo cessar imediato de todas as guerras e ações desestabilizadoras ou golpes de Estado, que atentam contra a democracia e a vontade dos povos livres. Rechaçamos o imperialismo e as novas formas de colonialismo, sejam militares, financeiras ou midiáticas. Pronunciamo-nos contra a impunidade dos poderosos e a favor da liberdade dos lutadores sociais”.
Companheiros e companheiras, irmãos e irmãs, essas palavras nos questionam e nos fazem refletir! Não sejamos, mais uma vez, indiferentes ou omissos! Está na hora de sairmos do nosso comodismo e - unidos e organizados - assumirmos a luta pelos direitos humanos e por uma sociedade mais igualitária, mais justa e mais evangélica, enfrentando com firmeza os desafios da nossa realidade, que - para nós - são os apelos de Deus.
(Continua no próximo artigo). 

 Fr Marcos Sassatelli Frade Dominicano
Doutor em filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção-SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
Goiânia,25 de novembro de 2015

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos