segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Recado aos Senadores e Senadoras



A Esperança continua nos iluminando e nos levando à ação”

A Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) - vinculada à Comissão Pontifícia Justiça e Paz (Roma) e relacionada com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - em Nota Pública, “frente à grave situação político-econômica brasileira, conclama ao diálogo e à busca de soluções democráticas que preservem as conquistas e os direitos do nosso povo”.
Senadores/as do Brasil, dirijo-me a vocês. É notório que a maioria de vocês não está preocupada em “dialogar”, em “buscar soluções democráticas” e em “preservar as conquistas e os direitos do nosso povo”. Comecem a fazer o exame de consciência!
Diz a CBJP: “Democracia é respeito à vontade do povo; as recentes pesquisas expressam com clareza a vontade dos brasileiros/as diante das perplexidades que afligem a nossa grande Nação”.
Senadores/as do Brasil, vocês têm demonstrado não serem convictos que “democracia é respeito à vontade do povo”. Continuem a fazer o exame de consciência!
O processo de impeachment - afirma a CBJP - contra a presidenta democraticamente eleita foi instaurado com argumentos jurídicos que veem sendo refutados por técnicos do Senado Federal, por parecer do Ministério Público Federal (MPF) e especialistas internacionais em recente evento realizado no Rio de Janeiro (Tribunal Internacional pela Democracia no Brasil)”. A CBJP pergunta: “para onde vamos?”.
Senadores/as do Brasil, suas atitudes revelam que vocês não têm conhecimento desses fatos. Continuem a fazer o exame de consciência!
Segundo a CBJP, “estamos diante do conflito de dois projetos de sociedade: os que defendem a continuidade da presidenta eleita, superando o impeachment e os que defendem que o vice-presidente assuma de modo definitivo a direção do Brasil”.
Pergunta ainda a CBJP: “O que incluem os dois projetos, para além das pessoas que se dispõem a assumi-los? Quais as prioridades na perspectiva da atenção à maioria da população, sobretudo os mais pobres?”.
E responde: “O governo interino, assumido pelo vice e sua equipe, anuncia medidas, em várias esferas da vida da população, que apontam para o retrocesso nos direitos arduamente conquistados: educação, saúde, cultura, previdência social, direitos humanos, comunidade negra, populações indígenas, mulheres, a liberdade de expressão e de organização”.
Senadores/as do Brasil, vocês concordam com essas medidas? Continuem a fazer o exame de consciência!
Em tom de desabafo, a CBJP reconhece: “Mais uma vez na história brasileira a conta da crise é depositada nos ombros dos mais necessitados, das maiorias desprotegidas”.
E declara: “Estamos vivendo momento de angústia e tristeza. Sentimo-nos em sintonia com o Papa Francisco que já tem manifestado preocupação com o processo político brasileiro. No entanto, a Esperança continua nos iluminando e nos levando à ação”.
Senadores/as do Brasil, vocês têm conhecimento dessa realidade? Continuem a fazer o exame de consciência!
A Nota termina afirmando: “A CBJP tem se empenhado em dialogar com os movimentos sociais (populares) e os agentes públicos, principalmente os senadores/as da República. Sua conclusão é que o processo de impeachment em andamento não responde aos anseios mais profundos do povo brasileiro. No entanto, se empenha na construção de uma saída para a crise, negociada com todos os setores sociais, exigindo que sejam garantidos os direitos humanos e sociais da população, consciente do que nos diz a Palavra de Deus: ‘Deus ouviu os clamores do seu povo’”.
Senadores/as do Brasil, o que vocês pensam sobre a conclusão a que chegou a CBJP? Continuem a fazer o exame de consciência!
(Nota da CBJP sobre o Momento Atual. Para onde vamos? Brasília, 09 de agosto de 2016 - Carlos Alves Moura, Secretário Executivo).
Senadores/as do Brasil, antes de votar pelo impeachment da presidenta Dilma, democraticamente eleita, reflitam seriamente sobre o que diz a CBJP e terminem de fazer o exame de consciência! Terão que prestar contas a Deus pelo seu voto, que pode mudar os destinos do Brasil. Lembrem: Deus é justo!
Eleitores e eleitoras, vamos prestar bem atenção aos senadores/as que - no processo do impeachment da presidenta - votaram ou votarão contra a vontade do povo, para que esses políticos - que só buscam seus próprios interesses - nas próximas eleições sejam banidos para sempre da vida pública.
Enfim, reconhecemos que - na ótica dos oprimidos, excluídos e descartados da sociedade, ou seja, na ótica do projeto político popular - os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) merecem muitas críticas. Infelizmente - em nome talvez de uma governabilidade equivocada - cometeram diversos erros, que precisam ser corrigidos.
Não podemos, porém, desconhecer o que foi feito (mesmo com muitas ambiguidades) e voltar atrás, retomando o projeto político neoliberal, que - por ser estruturalmente desumano - é “um sistema econômico iniquo” (Documento de Aparecida - DA, 385), é “injusto em sua raiz” e é “um mal embrenhado nas estruturas” (A Alegria do Evangelho - EG, 59).
Dentro daquilo que as condições objetivas permitem, precisamos dar passos significativos para construir o projeto político popular, que esteja realmente a serviço do bem comum (o bem de todos e de todas), na prática da justiça e na promoção dos direitos humanos.
Queremos uma sociedade sem opressores e opressoras, sem oprimidos e oprimidas, sem excluídos e excluídas, sem descartados e descartadas: uma sociedade de iguais, uma sociedade de irmãos e irmãs, na diversidade de serviços e na vivência do verdadeiro amor.
É a sociedade do bem viver, é o projeto de Jesus de Nazaré, é o projeto do Reino de Deus!
Senadores/as do Brasil (depois deste exame de consciência, feito à luz das reflexões da CBJP) ponham a mão na consciência. Hoje, em nome de seus eleitores/as, vocês são os principais responsáveis pelos destinos do Brasil. Tenham certeza, seu voto será cobrado por Deus. “Ai daqueles que fazem leis injustas!” (Is 10,1).

 
Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 17 de agosto de 2016

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