sábado, 4 de fevereiro de 2017

Discurso do Papa Francisco no 3º EMMP 4. O drama dos migrantes e refugiados: como agir diante desta tragédia?


No tema “A falência e o resgate” destaco (neste artigo e nos dois próximos) o quarto e o quinto pontos marcantes do Discurso do Papa Francisco aos participantes do 3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares (3º EMMP): O drama dos migrantes e refugiados: como agir diante desta tragédia? e A relação entre povo e democracia.
A respeito destes pontos, Francisco - logo de início - diz: “Queridos irmãos, quero compartilhar com vocês algumas reflexões sobre outros dois temas (ou subtemas) que, junto com os ‘3 t’ e a ecologia integral, foram centrais em seus debates dos últimos dias e são centrais neste tempo histórico”.
O Papa começa a compartilhar suas reflexões sobre o primeiro tema dizendo: “Sei que vocês dedicaram um dia ao drama dos migrantes, dos refugiados e dos deslocados. Como agir diante desta tragédia?”.
Com a coragem de um profeta, o Papa denuncia: “Trata-se de uma situação infamante (reparem: infamante!), que só posso descrever com uma palavra que me brotou espontaneamente em Lampedusa: vergonha! Ali, assim como em Lesbos, pude sentir de perto o sofrimento de numerosas famílias expulsas da sua terra por motivos ligados à economia ou por violências de todos os tipos, multidões exiladas - eu o disse diante das autoridades do mundo inteiro - por causa de um sistema socioeconômico injusto (reparem mais uma vez: por causa de um sistema socioeconômico injusto!) e das guerras que não foram procuradas nem criadas por aqueles que hoje padecem a dolorosa erradicação da sua pátria, mas ao contrário por muitos daqueles que se recusam a recebê-los”. Quanta clareza e quanta firmeza nas palavras do Papa!
Francisco continua dizendo: “Faço minhas as palavras do meu irmão, o Arcebispo Hieronymos da Grécia: ‘Quem fita os olhos das crianças que encontramos nos campos de refugiados é capaz de reconhecer imediatamente, na sua totalidade, a ‘falência’ da humanidade’” (Discurso no Campo de Refugiados de Moria, Lesbos, 16 de abril de 2016).
Com profunda dor no coração, faz um desabafo: “O que acontece com o mundo de hoje que, quando se verifica a falência de um banco, imediatamente aparecem quantias escandalosas para salvá-lo, mas quando ocorre esta falência da humanidade praticamente não aparece nem uma milésima parte para salvar aqueles irmãos que sofrem tanto? E assim o Mediterrâneo tornou-se um cemitério, e não apenas o Mediterrâneo… muitos cemitérios perto dos muros, muros manchados de sangue inocente”. Que desumanidade! Que iniquidade!
Em sua denúncia profética, o Papa afirma: “O medo endurece o coração e transforma-se em crueldade cega, que se recusa a ver o sangue, a dor, a face do próximo. Quem o disse foi o meu irmão, o Patriarca Bartolomeu: ‘Quem tem medo de vocês, não fitou vocês nos olhos. Quem tem medo de vocês não viu os rostos de vocês. Quem tem medo de vocês não viu os filhos de vocês. Esquece-se que a dignidade e a liberdade transcendem o medo e superam a divisão. Esquece-se que a migração não é um problema do Médio Oriente e da África setentrional, da Europa e da Grécia. Trata-se de um problema do mundo’ (Discurso no Campo de Refugiados de Moria, Lesbos, 16 de abril de 2016)”.
Francisco, com muito realismo, conclui: “É verdadeiramente um problema do mundo. Ninguém deveria ver-se obrigado a fugir da sua pátria. Mas o mal é duplo quando, diante destas circunstâncias terríveis, os migrantes se veem lançados nas garras dos traficantes de pessoas, para atravessar as fronteiras; e é triplo se, chegando à terra na qual julgavam encontrar um futuro melhor, são desprezados, explorados e até escravizados! Pode-se ver isto em qualquer recanto de centenas de cidades. Ou simplesmente não os deixam entrar”.
O Papa faz, pois, um fraterno e caloroso pedido aos Movimentos Populares: “Peço a vocês que façam tudo o que for possível; e que nunca se esqueçam que inclusive Jesus, Maria e José experimentaram a condição dramática dos refugiados. Peço a vocês que exerçam aquela solidariedade tão singular que existe entre quantos sofreram. Vocês sabem recuperar fábricas falidas, reciclar aquilo que outros abandonam, criar postos de trabalho, cultivar a terra, construir habitações, integrar bairros segregados e reclamar de modo incessante, como a viúva do Evangelho que pede justiça insistentemente (cf. Lc 18, 1-8)”.
Quanta confiança Francisco tem para com os Movimentos Populares! E nós, será que temos a mesma confiança? Ah, se os nossos Governos (Federal e Estaduais), ao invés de criminalizar os Movimentos Populares, seguissem o exemplo do Papa!
Enfim, Francisco, que nunca perde a esperança, diz: “Talvez com o exemplo e a insistência de vocês, alguns Estados e Organizações internacionais abram os olhos e adotem medidas adequadas para acolher e integrar plenamente todos aqueles que, por um motivo ou por outro, procuram refúgio longe de casa. E também para enfrentar as profundas causas pelas quais milhares de homens, mulheres e crianças são expulsos cada dia da sua terra natal”.
Lutemos para que os Estados e outras Organizações internacionais adotem realmente “medidas adequadas para acolher e integrar” todos os migrantes e “para enfrentar as profundas causas” deste drama humano, que é hoje uma das faces mais cruéis do “pecado do mundo”! Não sejamos indiferentes! Precisamos agir! É urgente!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 01 de fevereiro de 2017

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