sábado, 18 de novembro de 2017

1º Dia Mundial dos Pobres



No dia 20 de novembro de 2016, na conclusão do Ano Santo extraordinário da Misericórdia - com a Carta Apostólica “Misericórdia et mísera” - o Papa Francisco instituiu o Dia Mundial dos Pobres, que será celebrado sempre em novembro e, neste ano, no dia 19 (próximo domingo).
No dia 13 de junho passado, o Papa publicou a Mensagem “Não amemos com palavras, mas com obras” para o 1º Dia Mundial dos Pobres.
Na Mensagem ele afirma: “No final do Jubileu da Misericórdia, quis oferecer à Igreja o ‘Dia Mundial dos Pobres’, para que as Comunidades cristãs se tornem, em todo o mundo, cada vez mais e melhor, sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais necessitados”.
Diz ainda: “Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste Dia, em todos aqueles e aquelas que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste. Este Dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão” (6).
A misericórdia - lembra-nos o Documento de Aparecida - sempre será necessária, mas não deve contribuir para criar círculos viciosos que sejam funcionais a um sistema econômico iníquo. Requer-se que as obras de misericórdia estejam acompanhadas pela busca de uma verdadeira justiça social, que vá elevando o nível de vida dos cidadãos, promovendo-os como sujeitos de seu próprio desenvolvimento” (385).
À luz da Mensagem de Francisco e a partir do texto citado, faço algumas reflexões sobre as obras de misericórdia e o compromisso com a justiça.
A misericórdia é o amor que acontece ou - em outras palavras - é o amor que se faz história do ser humano e do mundo. Para que as nossas obras de misericórdia sejam realmente humanas e evangélicas (isto é, radicalmente humanas) devemos sempre considerar as pessoas que se encontram em situação de necessidade (seja qual for) como filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs em Cristo (não só na teoria, mas sobretudo na prática); e ir ao encontro dessas pessoas com o desejo de partilhar a vida e os bens, tratando-as como sujeitos de sua própria história (não como objetos de “caridade”, que - na realidade - não tem nada de caridade). Precisamos ser bons samaritanos e boas samaritanas hoje.
Infelizmente, além de obras de misericórdia realmente humanas e evangélicas, temos também - mesmo nas Igrejas - obras de assistência social (não propriamente obras de misericórdia) que - mesmo oferecendo alguma ajuda material às pessoas necessitadas - não são humanas e evangélicas.
Existem pessoas - e muitas delas se dizem cristãs (católicas ou evangélicas) -que realizam obras de assistência social por “egoísmo religioso”, como tranquilizante de consciência (o único que não se encontra nas farmácias) e para ganhar o céu, ou meramente “por pena”. Os assistidos e assistidas são tratadas como “objetos de caridade” e até com certo nojo.
Só para citar um exemplo, lembro-me de uma senhora - esposa de um político muito conhecido - que, depois de oferecer ajuda material aos pobres, voltava para a sua casa e tomava banho com desinfetante. Ela não percebia - ou não queria perceber - que o seu lar era muito mais infeccionado que o dos pobres.
A respeito das obras de assistência social, temos também outro comportamento igualmente desumano e antievangélico: o de Igrejas (Dioceses, Paróquias e Comunidades) que falam de boca cheia e até com certo orgulho de suas numerosas obras sociais, mas não dizem uma palavra sequer de denúncia das estruturas sociais injustas (que são a causa da miséria da grande maioria do nosso povo) para não desagradar os poderosos. A grande maioria dos membros dessas Igrejas - hipócrita e farisaicamente - não participam (como, em nome de sua consciência cidadã e de sua Fé, deveriam fazer) das lutas dos Movimentos Sociais Populares para mudar essas estruturas injustas e construir outro mundo possível. Preferem - como já afirmei em outra ocasião - ser Igrejas de Pilatos (que lavam as mãos) ou Igrejas de Judas (que traem Jesus nos pobres).
Como desculpa para não participar, algumas dessas pessoas dizem que os Movimentos Sociais Populares - além de bandeiras que são justas - defendem também outras bandeiras com as quais não podem concordar.
Pergunto: Os cristãos e cristãs não devem ser sal da terra, luz do mundo e fermento na massa?
Será que Jesus de Nazaré pediu aos seus discípulos e discípulas para escolherem a comida que devem salgar, o mundo que devem iluminar e a massa que devem fermentar? Não é isso um absurdo?
No 1º Dia Mundial dos Pobres, ouçamos o convite do Papa Francisco a todos os cristãos e cristãs: “Soube que são muitos na Igreja aqueles e aquelas que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares.
Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (Discurso do Papa Francisco aos participantes do 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).
Celebremos com muita fé e esperança o 1º Dia Mundial dos Pobres!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 15 de novembro de 2017


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