sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Nossa Senhora da Terra motiva Romaria

No último dia 19 (domingo), no Jardim Curitiba III (Goiânia - GO), aconteceu a 1ª Romaria das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) à Nossa Senhora da Terra, padroeira de todos e todas que - com responsabilidade - lutamos para cuidar de nossa Mãe Terra: Terra Casa Comum, Terra de Moradia (Teto) e Terra de Trabalho (os 3 T: Terra, Teto, Trabalho).
Queremos que a Terra seja de verdade a Casa Comum e que - nessa Casa Comum - haja Moradia de qualidade e Trabalho digno para todos e para todas. Os trabalhadores e trabalhadoras - sejam aqueles e aquelas que trabalham diretamente na produção agroecológica, sejam aqueles e aquelas que trabalham em outros setores de produção, ou aqueles e aquelas que trabalham nas áreas de serviços, como educação, saúde e outras - devem, com seus dons e suas capacidades, buscar o bem de toda a sociedade, cuidando - como jardineiros e jardineiras - da Casa Comum, para que se transforme num grande e bonito Jardim.
Que Nossa Senhora da Terra, mulher pobre e trabalhadora, interceda por nós para que possamos cumprir a missão que Deus nos deu, que é a de cuidar de nossa Casa Comum, a Mãe Terra e de todas as formas de vida que nela se encontram.
A Romaria teve como tema: “Nossa Senhora da Terra caminha com seu Povo” e como lema: “o Projeto de Jesus é uma Igreja Povo de Deus comprometida com os Pobres”. Já, os destaques foram: “a história da Imagem de Nossa Senhora da Terra”, cuja origem é ligada à luta pela terra no nordeste do Brasil; “a memória dos 60 anos da Arquidiocese de Goiânia” (Jubileu de Diamante), sobretudo seu papel fundamental na caminhada das CEBs não só na Capital, mas também em todo o Estado de Goiás e o Distrito Federal; e “o 1º Dia Mundial dos Pobres”, que nos ajudou a refletir sobre o verdadeiro sentido das Obras de Misericórdia e o compromisso com a busca da Justiça Social.
A Romaria começou às 7:30 horas com a acolhida ao Povo e a Celebração do Perdão nas Comunidades: Jesus de Nazaré (Jardim Curitiba I e II), Nossa Senhora da Vitória (Bairro Floresta) Maria Mãe Santíssima (Bairro Boa Vista), Nossa Senhora da Paz (Bairro São Domingos) e Nossa Senhora da Terra (Jardim Curitiba III); continuou com cantos e paradas meditativas durante a caminhada; e chegou às 9:30 horas (aproximadamente) no pátio da Igreja Nossa Senhora da Terra (que é a referência da Paróquia), levantando os estandartes das Comunidades,
Participaram também da Romaria diversos irmãos e irmãs - entre as quais algumas religiosas - de Comunidades Eclesiais de Base de outros lugares.
Entramos festivamente na Igreja Nossa Senhora da Terra, cantando o Glória. Na Igreja, acolhemos os romeiros e romeiras das 5 Comunidades, que fazem a Paróquia, e aqueles e aquelas que vinham de outras Comunidades. Seguiu-se a Celebração compartilhada da Palavra e a Celebração da Ceia (a Missa), com grande participação do povo, terminando às 12:30 horas com um lanche comunitário.
A manhã inteira foi celebrativa. Foi uma experiência de Fé e Vida tão bonita e profunda que ninguém viu o tempo passar. No final, tivemos o momento do Envio, com a benção de Nossa Senhora da Terra, Mãe dos Excluídos e Excluídas. Todos e todas fomos enviados em Missão, invocando o Espírito Santo com um canto e recordando as palavras de Jesus: “O Espírito Santo descerá sobre vocês e Dele receberão força para serem as minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os extremos da Terra” (At 1, 8). E as palavras: “Como o Pai me enviou, eu envio vocês. (...) Recebam o Espírito Santo” (Jo 20, 21-22).
Terminada a Romaria, como Igreja em saída, voltamos para as nossas casas fortalecidos, com muita esperança e com muita vontade de lutar. Manifestamos também o desejo de, no próximo ano, realizar a 2ª Romaria das CEBs à Nossa Senhora da Terra.
Comprometemo-nos com o jeito de ser Igreja dos Documentos de Medellín, que encarnam os Documentos do Concílio Vaticano II na América Latina e no Caribe e - como afirma Clodovis Boff - são os Documentos fundantes da Igreja Latino-americana e Caribenha, enquanto Latino-americana e Caribenha (e não enquanto Igreja europeia implantada na América Latina e no Caribe).
A CEB é “o primeiro e fundamental núcleo eclesial” ou “a célula inicial da estrutura eclesial” (Medellín, XV, 10) e a Paróquia, “um conjunto pastoral unificador das Comunidades de Base” (Ib. 13).
Infelizmente, hoje temos Igrejas que - na prática - jogaram no lixo os Documentos da Conferência de Medellín (que em 2018 celebra seu Jubileu de Ouro). Quem não aceita os Documentos de Medellín, não pode exigir que sejam aceitos outros Documentos posteriores.
Por fim, queremos que a Paróquia Nossa Senhora da Terra se torne, cada vez mais, um espaço aberto para que as CEBs - que atualmente são obrigadas, muitas vezes, a viverem nas catacumbas ou simplesmente “descartadas” - possam se encontrar e se fortalecer na escuta dos sinais dos tempos, na Celebração compartilhada da Palavra e na Celebração da Ceia.
Por considera-lo de fundamental importância para as Pastorais Sociais e Ambientais e para a nossa militância nos Movimentos Populares, retomo um texto do Papa Francisco (que as Igrejas - que fazem oposição seletiva e silenciosa ao Papa - nunca citam).
Soube - afirma Francisco - que são muitos na Igreja aqueles e aquelas que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares.
Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (Discurso do Papa Francisco aos participantes do 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).
Queremos que a Paróquia Nossa Senhora da Terra - atendendo ao convite do Papa Francisco - se torne também um espaço aberto para os Movimentos Populares, Sindicatos autênticos de Trabalhadores, Partidos Políticos (ou Correntes de Partidos Políticos) comprometidos com o Povo e outras Organizações Populares, para que sintam o nosso apoio e a nossa solidariedade e para que contem com a nossa participação de militantes em suas lutas por outro mundo possível, que à luz da Fé, é para nós o Reino de Deus acontecendo na história do ser humano e do mundo.

As CEBs não morreram, elas estão muito vivas. Elas são a Igreja de Jesus de Nazaré hoje. Estamos a caminho do 14º Intereclesial das CEBs (Londrina - PR, 23-27/01/18). “CEBs e os Desafios do Mundo Urbano”. “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3, 7).






Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 22 de novembro de 2017

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos