domingo, 12 de maio de 2019

“A Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da convivência comum” (5ª parte)


Ao destacar a importância do papel das religiões na construção da Paz Mundial, o Documento do Grão Imame e do Papa continua reflexionando sobre:
  1. A liberdade: “A liberdade é um direito de toda a pessoa: cada um goza da liberdade de credo, de pensamento, de expressão e de ação. O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos. Esta Sabedoria divina é a origem donde deriva o direito à liberdade de credo e à liberdade de ser diferente. Por isso, condena-se o fato de forçar as pessoas a aderir a uma determinada religião ou a uma certa cultura, bem como de impor um estilo de civilização que os outros não aceitam”.
  2. A justiça: “A justiça baseada na misericórdia é o caminho a percorrer para se alcançar uma vida digna, a que tem direito todo o ser humano”.
  3. O diálogo: “O diálogo, a compreensão, a difusão da cultura da tolerância, da aceitação do outro e da convivência entre os seres humanos contribuiriam significativamente para a redução de muitos problemas económicos, sociais, políticos e ambientais que afligem grande parte do género humano”. E ainda: “O diálogo entre crentes significa encontrar-se no espaço enorme dos valores espirituais, humanos e sociais comuns, e investir isto na propagação das mais altas virtudes morais que as religiões solicitam; significa também evitar as discussões inúteis”.
  4. Os locais de culto: “A proteção dos locais de culto - templos, igrejas e mesquitas - é um dever garantido pelas religiões, pelos valores humanos, pelas leis e pelas convenções internacionais. Qualquer tentativa de atacar locais de culto ou de os ameaçar através de atentados, explosões ou demolições é um desvio dos ensinamentos das religiões, bem como uma clara violação do direito internacional”.
  5. O terrorismo: “O terrorismo execrável que ameaça a segurança das pessoas, tanto no Oriente como no Ocidente, tanto no Norte como no Sul, espalhando pânico, terror e pessimismo não se deve à religião - embora os terroristas a instrumentalizem - mas tem origem no cúmulo de interpretações erradas dos textos religiosos, nas políticas de fome, de pobreza, de injustiça, de opressão, de arrogância; por isso, é necessário interromper o apoio aos movimentos terroristas através do fornecimento de dinheiro, de armas, de planos ou justificações e também a cobertura mediática, e considerar tudo isto como crimes internacionais que ameaçam a segurança e a paz mundial. É preciso condenar tal terrorismo em todas as suas formas e manifestações”.
  6. A cidadania: “O conceito de cidadania baseia-se na igualdade dos direitos e dos deveres, sob cuja sombra todos gozam da justiça. Por isso, é necessário empenhar-se por estabelecer nas nossas sociedades o conceito de cidadania plena e renunciar (reparem!) ao uso discriminatório do termo minorias, que traz consigo as sementes de se sentir isolado e da inferioridade; isto prepara o terreno para as hostilidades e a discórdia e subtrai as conquistas e os direitos religiosos e civis de alguns cidadãos, discriminando-os”.
  7. O Ocidente e o Oriente: “O relacionamento entre Ocidente e Oriente é uma necessidade mútua indiscutível, que não pode ser comutada nem transcurada, para que ambos se possam enriquecer mutuamente com a civilização do outro através da troca e do diálogo das culturas. O Ocidente poderia encontrar na civilização do Oriente remédios para algumas das suas doenças espirituais e religiosas causadas pelo domínio do materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civilização do Ocidente tantos elementos que o podem ajudar a salvar-se da fragilidade, da divisão, do conflito e do declínio científico, técnico e cultural. É importante prestar atenção às diferenças religiosas, culturais e históricas que são uma componente essencial na formação da personalidade, da cultura e da civilização oriental; e é importante consolidar os direitos humanos gerais e comuns, para ajudar a garantir uma vida digna para todos os seres humanos no Oriente e no Ocidente, evitando o uso da política de duas medidas”.
Ah, se tudo isso fosse colocado em prática! O mundo seria bem diferente! Pensemos! A esperança nunca morre!



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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 08 de maio de 2019

sábado, 4 de maio de 2019

Espírito patriótico ou espírito diabólico?

Depois da aprovação do projeto da “Reforma” da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o presidente Bolsonaro agradeceu o empenho do presidente da Câmara Rodrigo Maia e dos demais parlamentares e afirmou: o governo continua a contar com o espírito patriótico dos deputados. Que hipocrisia! Que desfaçatez!
Cortar - com frieza e crueldade - os poucos direitos que os trabalhadores e trabalhadoras pobres conquistaram com muita luta e a duras penas, é espírito diabólico e não espírito patriótico.
    Disse ainda o presidente que se nada for feito, o País não terá recursos para garantir uma aposentadoria para todos os brasileiros. Mentira! Enganação do povo! Bolsonaro sabe disso e, mesmo assim, trata os trabalhadores e as trabalhadoras como se fossem idiotas!  
Por que o governo desvia dinheiro da Previdência para pagar juros aos banqueiros? Por que não cobra as estrondosas dívidas para com a Previdência das empresas? Por que não taxa as grandes fortunas?
    Os governantes e parlamentares que apoiam essa “Reforma” (ou melhor, Antirreforma) perversa e iníqua, são os demônios de hoje. Para obter vantagens pessoais, eles aderem a uma prática política covardemente submissa aos interesses dos poderosos, que se enriquecem sempre mais com a exploração dos pobres.  Os ricos e seus asseclas, terão de prestar conta a Deus. Aguardem! 
“Agora, vocês, ricos, chorem e gritem por causa das desgraças que cairão sobre vocês. Suas riquezas estão podres e suas roupas foram roídas pelas traças. O ouro e a prata de vocês estão enferrujados e a ferrugem deles será testemunha contra vocês” (Tg 5,1-3).
    Outro absurdo de Bolsonaro e seu governo é o menosprezo pela sociologia e filosofia nas escolas e nas universidades, que - infelizmente - faz parte da lógica de um governo ditatorial, disfarçado de democrático. Esse governo quer que os trabalhadores e as trabalhadoras sejam meras máquinas de produção para enriquecer os detentores do poder econômico. Se forem pessoas conscientes que pensam e exigem seus direitos atrapalham os objetivos do governo.
    A filosofia - além de ser parte integrante da formação do ser humano enquanto ser racional - é também uma dimensão de profundidade de todas as ciências: exatas, biológicas e humanas (aliás, do ponto de vista do sujeito do conhecimento, todas as ciências são humanas). Por exemplo, um verdadeiro físico é também filósofo da física; um verdadeiro matemático é também filósofo da matemática; um verdadeiro biólogo é também filósofo da vida; um verdadeiro educador é também filósofo da educação; um verdadeiro historiador é também filósofo da história; um verdadeiro jurista é também filósofo do direito. E assim por diante.
Enfim, entre os muitos que ainda poderiam ser lembrados, cito mais um absurdo desse governo, que representa um inimaginável atraso cultural e ético. Bolsonaro e sua equipe de pessoas, na maioria desiquilibradas e ditatoriais - afirmam que a propriedade particular é um direito “sagrado” (verdadeira blasfêmia!); que os Movimentos de Trabalhadores e Trabalhadoras - que lutam pelo direito à terra (um direito de todos e não só de alguns) e que organizam Ocupações de latifúndios improdutivos - são Movimentos de criminosos; e que os “proprietários” podem defender suas terras com armas de fogo, matando - se necessário - os ocupantes. Em caso de morte, os “proprietários” poderão ser chamados a depor em juízo, mas - garante o presidente - por serem “pessoas de bem”, não serão condenados. Que loucura! Que barbárie!
    Bolsonaro e sua equipe esquecem - ou fingem de esquecer - que toda propriedade particular, para ser legítima, deve ter uma função social; que (como diz São Tomás de Aquino, cujo pensamento foi assumido pelo Ensino Social da Igreja) a destinação dos bens para o uso de todos os seres humanos é um direito primário e a propriedade particular, um direito secundário (que nunca pode prejudicar o primário).
    Ah, se os governantes e políticos - que, com tanta facilidade, usam o nome de Deus em vão - refletissem sobre o projeto de vida, radicalmente revolucionário, de Jesus de Nazaré! Ele é também - ao menos como ideal a ser perseguido - o projeto de seus seguidores e seguidoras. “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum. (...) Entre eles ninguém passava necessidade. (...) O dinheiro era distribuído a cada um conforme sua necessidade” (At 4,32-35).
    Dia do Trabalhador e Trabalhadora! 1º de Maio Unificado, rumo à Greve Geral (14 de junho)! A luta dos Trabalhadores e Trabalhadoras é justa e Deus está do seu lado! (Leia também: http://www.ihu.unisinos.br/588044-uma-reforma-da-previdencia-maquiavelica).

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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 01 de maio de 2019

sábado, 27 de abril de 2019

“A Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da convivência comum” (4ª parte)



No Documento “A Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da convivência comum”, o Grão Imame e o Papa destacam também o papel da família no mundo de hoje. “É evidente quão essencial seja a família, como núcleo fundamental da sociedade e da humanidade, para dar à luz filhos, criá-los, educá-los, proporcionar-lhes uma moral sólida e a proteção familiar. Atacar a instituição familiar, desprezando-a ou duvidando da importância de seu papel, constitui um dos males mais perigosos do nosso tempo”.
Destacam ainda, como fator positivo, o despertar do sentido religioso: “Atestamos a importância do despertar do sentido religioso e da necessidade de o reanimar nos corações das novas gerações, através duma educação sadia e da adesão aos valores morais e aos justos ensinamentos religiosos, para enfrentarem as tendências individualistas, egoístas, conflituosas, o sectarismo e o extremismo cego em todas as suas formas e manifestações”.
Lembram o objetivo das religiões: “O primeiro e mais importante objetivo das religiões é o de crer em Deus, honrá-Lo e chamar todos os seres humanos a acreditarem que este universo depende de um Deus que o governa: é o Criador que nos moldou com a Sua Sabedoria divina e nos concedeu o dom da vida para o guardarmos. Um dom que ninguém tem o direito de tirar, ameaçar ou manipular a seu bel-prazer; pelo contrário, todos devem preservar este dom da vida desde o seu início até à sua morte natural”.
Por isso, declaram: “Condenamos todas as práticas que ameaçam a vida, como os genocídios, os atos terroristas, os deslocamentos forçados, o tráfico de órgãos humanos, o aborto e a eutanásia e as políticas que apoiam tudo isto”.
E continuam: “De igual modo declaramos - firmemente - que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de pessoas de religião que abusaram - em algumas fases da história - da influência do sentimento religioso sobre os corações dos seres humanos para os levar à realização daquilo que não tem nada a ver com a verdade da religião, para alcançar fins políticos e económicos mundanos e míopes”.  
Fazem, pois, um apelo para que as religiões não sejam instrumentalizadas para justificar e legitimar atos violentos: “Pedimos a todos que cessem de instrumentalizar as religiões para incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego e deixem de usar o nome de Deus para justificar atos de homicídio, de exílio, de terrorismo e de opressão. Pedimo-lo pela nossa fé comum em Deus, que não criou os seres humanos para serem assassinados ou lutarem uns com os outros, nem para serem torturados ou humilhados na sua vida e na sua existência”.
Com efeito, “Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas”.
Por fim, o Documento do Grão Imame e do Papa - de acordo com o ensinamento dos Documentos Internacionais anteriores - sublinha “a importância do papel das religiões na construção da Paz Mundial” e atesta: “A forte convicção de que os verdadeiros ensinamentos das religiões convidam a permanecer ancorados aos valores da paz; apoiar os valores do conhecimento mútuo, da fraternidade humana e da convivência comum; restabelecer a sabedoria, a justiça e a caridade e despertar o sentido da religiosidade entre os jovens, para defender as novas gerações a partir do domínio do pensamento materialista, do perigo das políticas da avidez do lucro desmesurado e da indiferença baseadas na lei da força e não na força da lei”. Diante dessas colocações, não dá para ficar indiferentes! Lutemos!


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 24 de abril de 2019


sexta-feira, 12 de abril de 2019

A Espiritualidade da Semana Santa

Durante o Ano Litúrgico, os cristãos e cristãs celebramos a memória, ou seja, tornamos presente hoje - em nossa realidade histórica - o significado dos principais acontecimentos da Vida, Morte e Ressurreição de Jesus.
Ainda antes de nascer, Jesus - juntamente com sua mãe Maria e seu pai José - foi “morador de rua”; nasceu como “sem-teto” na manjedoura de um estábulo (cf. Lc 2,1-7); anunciou - pela voz do anjo - a Boa Notícia do seu nascimento aos pastores, os “sem-terra” da época (cf. Lc 2,8-20); recebeu a visita dos Magos, representando todos os povos e todas as culturas (cf. Mt 2,1-12); com Maria e José, seus pais, foi “migrante e refugiado” no Egito, para escapar da ganância e da perversidade de Herodes, que queria mata-lo (cf, Mt 2,13-18); e exerceu a profissão  de carpinteiro, junto com seu pai José (cf. Mt 13,54-55 e Mc 6,3).
Em sua vida pública, Jesus foi sempre próximo e entranhadamente solidário com todos os excluídos/as e descartados/as da sociedade. Como exemplo (entre os muitos que poderiam ser citados), lembro a cura do homem que tinha a mão direita paralisada (cf. Lc 6, 8-11).
Denunciou - cheio de indignação - a hipocrisia dos fariseus e doutores da Lei (cf. Mt 23,13-36); dialogou com o jovem rico, que - pelo seu apego aos bens - não teve a coragem de segui-lo e foi embora triste (cf. Mt 19,16-30; Mc 10,17-31;Lc 18,18-30); encontrou-se com Zaqueu - também homem rico - em sua casa, que se converteu e mudou totalmente de vida, praticando a partilha dos bens (cf. Lc 19,1-10); foi acusado de “subverter” o povo (cf. Lc 23,1-5); e celebrou a Ceia com os discípulos, lavando seus pés (cf. Jo 13,1-20).
Jesus “andou por toda parte fazendo o bem” (At 10,38) e - justamente por isso - incomodou os poderosos de sua época. “O justo nos incomoda e se opõe às nossas ações” (Sb 2,12).
Depois de muitas tentativas por parte dos fariseus e doutores da Lei, Jesus - o Libertador, o Salvador, o Filho de Deus - foi traído por Judas, foi preso e morto na cruz como criminoso, mas Ele venceu a morte e ressuscitou. “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui! Ressuscitou!” (Lc 24, 5-6).
Jesus Ressuscitado enviou o Espírito Santo (o Amor de Deus) aos discípulos. “Jesus disse para eles: ‘A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês’. Tendo falado isso, soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo’” (Jo 20, 21-22).
A Espiritualidade da Semana Santa, sobretudo do Tríduo Pascal (a Páscoa - Passagem - em três momentos: o Cristo Crucificado, o Cristo Sepultado e o Cristo Ressuscitado) - é o centro e o cume da Espiritualidade do Ano Litúrgico.
Viver a Espiritualidade da Semana Santa significa viver hoje a Ceia do Senhor, sua Paixão e Morte e sua Ressurreição: a maior prova do Amor de Deus para conosco.
Jesus continua celebrando a Ceia com seus seguidores e seguidoras, em Comunidades de irmãos e irmãs, que - com o testemunho e com a palavra - anunciam a Boa Notícia do Reino de Deus.
Jesus continua sendo criminalizado, preso e morto na cruz, na pessoa dos “moradores de rua”, dos “sem-teto”, dos “sem-terra”, dos “sem-trabalho”, das mulheres violentadas e assassinadas, dos jovens - sobretudo negros - presos e mortos pela polícia, das crianças e dos idosos que morrem por falta de Políticas Públicas de atendimento à Saúde e de todos os excluídos/as e descartados/as de nossa sociedade.
Jesus continua também ressuscitando nas lutas e vitórias do Povo, unido e organizado, nas quais os verdadeiros seguidores e seguidoras de Jesus estão presentes e atuam (Movimentos Populares, Sindicatos de Trabalhadores/as, Partidos Políticos Populares, Fóruns ou Comitês de Defesa dos Direitos Humanos, e outros).
Por fim, a Espiritualidade da Semana Santa é histórica e perpassa todas as dimensões do ser humano - pessoais e sociais (sócio-econômico-político-ecológico-culturais) - e do mundo. Por isso, Ela é Espiritualidade libertadora. Vivamos hoje a Espiritualidade da Semana Santa! Feliz Páscoa!

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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 10 de abril de 2019

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Ditadura militar - Tortura: requinte de perversidade humana


O golpe civil-militar do dia 31 de março de 1964 inaugurou 21 anos de ditadura militar no Brasil. Durante esse malfadado período da história do País, foram praticados os piores crimes contra a humanidade.
Por incrível que pareça, o presidente Jair Bolsonaro determinou que o dia 31 de março de 1964 fosse comemorado, pelas Forças Armadas e pela sociedade, como a “data histórica” do aniversário do golpe civil-militar (55 anos). Além disso, o Planalto – sempre por decisão do presidente - divulgou um vídeo de exaltação ao golpe.
“O Programa Brasil Urgente da TV Bandeirante veiculou entrevista na qual Jair Bolsonaro voltou a dizer que não houve ditadura militar no Brasil, afirmou que o regime foi marcado (reparem!) por ‘probleminhas’ e chamou o golpe de ‘revolução democrática’”. Disse ainda “que o regime militar não acabou com as liberdades individuais no País” (O Popular, 28/03/19, p. 5). Verdadeiro absurdo!
O presidente e os políticos que fazem a apologia da ditadura militar só podem ser “demônios” ou psicopatas. Não há outra alternativa. A memória dos “mártires” da ditadura militar fala por si mesma. Quantos militantes (jovens e adultos, homens e mulheres), políticos, sindicalistas, líderes de Movimentos Populares, religiosos e religiosas foram barbaramente torturados e mortos ou estão desaparecidos!
É arrepiante e muito doido ouvir testemunhos de sobreviventes de sessões de torturas ou de pessoas (à época, algumas delas ainda crianças) que presenciaram sessões de tortura. Não dá para entender como um ser humano possa ser capaz de requinte - tão diabólico e, ao mesmo tempo, tão cínico - de perversidade e crueldade! Os “demônios” responsáveis por esses crimes contra a humanidade terão - se já não o fizeram - de prestar conta a Deus!
Órgãos Federais condenaram a determinação de Jair Bolsonaro. O Ministério Público Federal (MPF), por exemplo, em Nota Pública afirmou: “É incompatível com o Estado Democrático de Direito festejar um golpe de Estado e um regime que adotou políticas de violações sistemáticas aos Direitos Humanos e cometeu crimes internacionais”.
No Brasil inteiro - sobretudo nas capitais - aconteceram, no dia 31 de março e 1ª de abril, Atos Públicos contra a ditadura militar, em repúdio ao presidente Jair Bolsonaro e em memória das pessoas torturadas, mortas e desaparecidas.
Em Goiânia, foram realizados - com numerosa participação - dois Atos Públicos de protesto. O primeiro, “Cultura pela Democracia, Ditadura nunca mais!”, ocorreu no domingo, 31 de março, a partir das 14 horas, no CEPAL do Setor Sul. O segundo, na segunda-feira, 1º de abril, a partir das 16 horas, na Praça da Catedral Metropolitana. Entidades Sindicais, Movimentos Populares, Partidos Políticos Populares, Comitês ou Fóruns de Defesa dos Direitos Humanos e outras Organizações Populares se encontraram na praça da Catedral, onde teve início a caminhada “Ditadura nunca mais, Democracia sim: punição aos torturadores”. A caminhada percorreu o Centro da cidade, até o Monumento aos Mortos e Desaparecidos na Luta Contra a Ditadura Militar, situado na esquina das Avenidas Assis Chateaubriand e Dona Gercina Borges.
Além de cartazes e painéis com fotos e mensagens de indignação e denúncia, os participantes da caminhada carregaram 30 cruzes de madeira com o nome dos mortos e desaparecidos em Goiás durante a ditadura militar e com faixas de pano brancas “ensanguentadas”. O Ato foi em repúdio aos horrores da ditadura militar, à determinação do presidente Jair Bolsonaro de comemorar e festejar a data do golpe civil-militar e, sobretudo, em memória dos 30 mortos e desparecidos, que foram aclamados nominalmente, com a resposta: “presente”. O Ato encerrou por volta das 18:30 horas.
Uma advertência aos que defendem e comemoram o aniversário do golpe civil-militar de 31 de março de 1964: não usem o nome de “cristãos” e “cristãs”. Usar esse nome é trair Jesus de Nazaré”! É blasfemar contra o Espírito Santo, o Amor de Deus!
Ditadura nunca mais, democracia sim!


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Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 03 de abril de 2019



A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos