quinta-feira, 10 de maio de 2012

Comentando o "Manifesto contra a Corrupção e a favor da vida"

No dia 13 do mês de abril deste ano, a Casa da Juventude Pe. Burnier (CAJU) e mais 37 Entidades populares e pastorais da sociedade civil, que lutam pelos direitos humanos, assinaram o “Manifesto contra a Corrupção e a favor da Vida”, que representa o clamor de nossa sociedade e - embora não tenha saído na imprensa - foi amplamente divulgado na internet. “A sociedade - diz o Manifesto - acompanha, estarrecida e indignada, a sequência de escândalos envolvendo diversos órgãos oficiais. Em 2011, foram trazidos a público resultados da Operação ‘Sexto Mandamento’ da Polícia Federal, o que evidenciou a realidade de várias famílias pobres que choravam e continuam chorando a execução de seus/suas filhos/as diante de ações violentas e organização criminosa dos responsáveis pela Segurança Pública. No início deste ano, novas e mais amplas denúncias na Operação ‘Monte Carlo’ revelam ligações de uma rede de corrupção que envolve as diversas estruturas oficiais - representantes eleitos, funcionários públicos e altos escalões das Polícias - e contraventores, todos liderados pelo bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira”. Diante dessas situações - que deveriam ser “alertas à população sobre o Estado e sua organização política”, e suscitar na sociedade civil “uma postura crítica” - “muitas pessoas deixam-se levar pela indiferença, outras pela desesperança e outras ainda pelo medo”. Por isso, as Entidades abaixo e demais pessoas comprometidas com a justiça, “denunciam essas estruturas de violência e de morte e gritam pela vida, especialmente pela vida da juventude empobrecida”. “A indignação - continua o Manifesto - é maior ainda pelo fato de que os envolvidos nas denúncias são justamente os que imputam aos/às pobres, aos/às adolescentes e jovens a culpa pela violência. Fazem os discursos de endurecimento das leis, pela redução da maioridade penal e, continuamente, buscam ratificar as ações violentas e de extermínio desta população, fazendo-a responsável por todas as desgraças sociais, levando as vítimas a reelegerem esses personagens, confirmando esse discurso, que banaliza e até estimula a própria violência”. O Manifesto denuncia, pois: “a precarização e o abandono de Políticas Públicas”, “a deficiência na garantia de direitos à população jovem e pobre”, o descaso para com “os/as professores/as surpreendidos/as por golpes contra suas conquistas e qualificações”, a situação das “escolas sem as condições necessárias”, “a prática de segurança pública marcada pelo medo e pela violência com índices que se comparam aos de uma guerra” (em Goiânia, só no mês de março, foram assassinadas 60 pessoas), a realidade desumana das “cadeias superlotadas e interditadas”, da “saúde marcada por mortes”, da “falta de atendimento”, das “más condições para os/as profissionais”, da “exploração e abuso sexual”, das “crianças em situação de rua”, do “trabalho escravo”, da “concentração de terras” e de “inúmeras outras situações de desgoverno”. Na imprensa destes dias, novas revelações apareceram. “Vídeos inéditos feitos pela Polícia Federal durante a Operação Monte Carlo mostram as ligações do grupo de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com policiais acusados de corrupção e acompanham até mesmo um suposto pagamento de propina em uma i igreja. As imagens são as primeiras que surgem na operação Monte Carlo e foram reveladas ontem (dia 29 de abril/12) com exclusividade pela ‘TV Folha’. Os vídeos se complementam com os áudios obtidos pela PF na operação que levou o Ministério Público Federal a denunciar 81 pessoas e revelou as relações de políticos, servidores públicos e policiais civis e federais com o empresário acusado de comandar jogos ilegais” (Folha de S. Paulo, 30/04/12, p.A4). E ainda: Cachoeira “negociou a compra do controle de um partido político, conforme indicam gravações feitas pela Polícia Federal durante a Operação Monte Carlo. Uma sequência de diálogos ocorrida em maio de 2011 faz referência ao negócio e cita o nome do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e o de um assessor do governador Agnelo Queiroz (PT-DF). No dia 5 daquele mês, apontam os grampos, Cachoeira havia jantado com Perillo na casa do senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO). No dia seguinte, Cachoeira conversa com Edivaldo Cardoso, ex-presidente do Detran-GO, que também participara do encontro” (Folha de S. Paulo, 01/05/12, p. A4). Infelizmente - como escrevi no último artigo - na nossa sociedade a corrupção é estrutural e faz parte de um sistema socioeconômico, político, ecológico e cultural podre, iníquo e antiético. Os atos de corrupção são vazamentos da máscara desse sistema, que rachou (Cf. A máscara rachou e a corrupção vazou. Diário da Manhã, Opinião Pública, 28/04/12, p. 2). As Entidades - que, expressando o sentimento geral da população, assinam o Manifesto - temem que, no caso em apuração, “se confirme um anúncio prévio de novo engavetamento de todas essas denúncias, como foi o exemplo da Operação ‘Sexto Mandamento’, com todos os policiais envolvidos soltos e, em alguns casos, já absolvidos”. Esperamos (embora existam motivos para desconfiar) que esse temor não se torne realidade e que a CPMI da corrupção cumpra o seu papel com isenção, responsabilidade e ética. Esperamos também que os responsáveis desse mar de lama sejam processados e julgados. É isso o que almejam as Entidades - que assinam o Manifesto - quando afirmam: “Cabe-nos, nessa conjuntura, mobilizar a sociedade civil, os movimentos sociais, as igrejas e todas as lideranças comprometidas com os direitos humanos a unirem forças no intuito de exigir apuração transparente - inclusive das denúncias de financiamento de campanhas eleitorais -, fim da corrupção, punição à rede criminosa, cassação de mandatos, devolução de valores aos cofres públicos e continuidade das investigações em busca de ramificações de redes criminosas”. Enfim, as Entidades concluem dizendo: “É preciso que a luz lançada sobre essas situações provoque sentimentos de justiça e reafirmação do compromisso com a vida. Cremos que estas ações darão à população novo vigor para se manter indignada, mas, ao mesmo tempo, confiante na busca da humanização marcada pela garantia de direitos”. Estamos, os cristãos/ãs, no tempo da Páscoa, que é Vida. Lutemos para que todos/as tenham Vida e Vida em abundância (Cf. Jo 10,10). Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 05/05/12, p. 04 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120505&p=20 http://www.adital.com.br/site/noticia_imp.asp?lang=PT&img=S&cod=66624 (Sobre a divulgação do Manifesto na internet, veja os links: http://www.casadajuventude.org.br/index.php?option=content&task=view&id=3394&Itemid=2 http://www.cptgoias.com/ http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=66154 http://www.ihu.unisinos.br/noticias/508568 http://caritas.org.br/novo/2012/04/18/manifesto-contra-corrupcao-favor-da-vida/ (divulgação em diversas línguas) http://correiodobrasil.com.br/manifesto-contra-a-corrupcao-e-a-favor-da-vida/434820/ http://verbonet.com.br/verbonet/index.php?option=com_content&view=article&id=19730:goias-e-df-entidades-da-igreja-assinam-qmanifesto-contra-corrupcao-e-pela-vidaq&catid=5:noticias http://www.radiovaticana.net/bra/Articolo.asp?c=581109) Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) Prof. de Filosofia da UFG aposentado Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos (Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO) Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos