quinta-feira, 3 de maio de 2012

A máscara rachou e a corrupção vazou

Assistimos, nestes últimos tempos, a um espetáculo deprimente. O tema dominante da mídia, nacional e regional, é a corrupção. Parece que estamos mergulhados num mar de lama. A teia de corrupção - comandada pelo empresário Carlinhos Cachoeira - é tão extensa e complexa, que se torna até difícil fazer uma síntese do que está acontecendo. Antes das minhas reflexões, para apresentar o “estado da questão” sobre o caso Carlinhos Cachoeira, sirvo-me de uma reportagem da Folha de S. Paulo. “Cachoeragate/O esquema. A Máquina de Cachoeira. Entenda como operava, segundo a Polícia Federal, o esquema montado pelo empresário para que políticos atuassem em favor de seu grupo no Congresso e em Governos estaduais”. A respeito da Operação Monte Carlo: Após 15 meses de investigação, a Polícia Federal (PF) prendeu, em fevereiro deste ano, o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. O contraventor tem 48 anos de idade, herdou do pai Sebastião as atividades do jogo do bicho nos anos 1960 - 1970 e ajudava a recolher apostas nas bancas de Anápolis - GO. “Ganhou notoriedade em 2004, quando veio a público um vídeo de 2002 em que negociava propina para fazer negócios no Governo do Rio. Seu interlocutor, Waldomiro Diniz, mais tarde foi assessor do ex-ministro José Dirceu”. Segundo a apuração feita, “ele explorava jogos ilegais e tinha um laboratório farmacêutico, entre outros negócios. Nos dias seguintes, diversas relações de Cachoeira vieram à tona”. A respeito dos Políticos envolvidos: “Escutas telefônicas feitas pela PF mostram que Cachoeira tinha influência sobre políticos que defendiam interesses de seu grupo no Congresso e em Governos estaduais. A relação que mais ganhou destaque foi com o senador Demóstenes Torres”. “Políticos receberam ao menos R$ 780 mil em doações de firmas contratadas pelo grupo de Cachoeira e abastecidas por recursos cuja origem é a Delta, segundo a PF”. A respeito dos Governos envolvidos: “Segundo as investigações, Cachoeira tinha pessoas de sua confiança em postos-chave dos Governos de Goiás e do Distrito Federal, além de influência em Órgãos federais, como a Anvisa”. A PF, “com a autorização da Justiça, gravou desde 2009 conversas de Cachoeira e de pessoas que trabalhavam para ele com políticos e empresários”. As gravações “sugerem relação entre o grupo e os governadores (de Goiás e do Distrito federal), mas não mostram conversas diretas entre eles. Os dois admitem contatos ocasionais com Cachoeira, mas negam influência dele em seus Governos”. A respeito das Empresas envolvidas: “As investigações sugerem também que o grupo trabalhou para defender interesses da construtora Delta nos Estados onde ela tinha contratos. A PF suspeita também que o laboratório Vitapan era usado por Cachoeira para lavar dinheiro do jogo ilegal”. Sempre segundo a PF, “Cachoeira controlava uma rede de empresas de fachada que movimentaram milhões de reais nos últimos anos. Pelo menos R$ 39 milhões foram repassados pela construtora Delta para elas” (Folha de S. Paulo, 20/04/12, p. A8. Vejam, na íntegra, os documentos da Operação Monte Carlo, nos sites: www.jb.com.br/pais/noticias/2012/04/04 e www.leidoshomens.com.br). No dia 19 do mês corrente, com o apoio de 72 dos 81 senadores e de 396 dos 513 deputados, foi criada a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), que vai apurar a ligação de políticos e agentes públicos com Carlinhos Cachoeira. O documento de criação da CPMI especifica como alvo da investigação pelo menos 15 tipos de crimes cometidos pelo contraventor e seu grupo: tráfico de influência, fraude nas licitações, corrupção e formação de quadrilha, entre outros. Especifica também a necessidade de investigar todas as empresas "associadas" a Cachoeira, o que inclui a Delta Construções, maior empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O documento se refere a "empresas supostamente legais, controladas por Cachoeira ou que a ele estejam associadas, direta ou indiretamente". E afirma: "Urge enfrentar o desafio de destrinçar as relações entre o poder público e as atividades do senhor Carlos Augusto Ramos". O enfrentamento da ligação do contraventor com agentes públicos "é ponto de honra para o Congresso Nacional". "Está em causa o resguardo da própria lisura do devido processo legislativo". Será que podemos acreditar nas palavras dos parlamentares? Será que é isso mesmo o que eles querem ou será que eles (o que é mais provável) não estão debochando da nossa cara? Vejam o cúmulo do absurdo e do descaramento. A CPMI, criada para investigar os negócios do empresário Carlinhos Cachoeira, terá entre seus integrantes “fichas-sujas”: o ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL), que foi afastado do cargo por corrupção e hoje é senador, e outros 16 parlamentares com pendências na Justiça, como os senadores Romero Jucá (PMDB-RR) e Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) (Cf. Folha de S. Paulo, Ib., p. A4). É muita maracutaia! É muita falta de respeito para com o povo! Diversas pessoas, diante dessa teia de corrupção (lembremos também o “mensalão” e outros escândalos de corrupção) ficam surpresas e decepcionadas com determinados políticos, que sempre se apresentaram como defensores da “moralidade”. É compreensível, mas não podemos esquecer que, atrás dessa máscara de “moralidade”, existe “um sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida - DA, 385), ou melhor, um sistema socioeconômico, político, ecológico e cultural iníquo, corrupto, podre e imoral. A iniqüidade, a corrupção, a podridão e a imoralidade são sistêmicas, estruturais. Os atos de corrupção - que mais aparecem - são simples vazamentos (erupções) desse sistema. A máscara rachou e a corrupção vazou. Para os políticos e agentes públicos desse sistema iníquo, o importante não é “ser éticos”, mas “parecer éticos”. Colaborar, com o nosso voto e a nossa prática política para fortalecer esse sistema dominante, é um crime. Unidos e organizados - os Movimentos Sociais Populares, os Sindicatos autênticos (sobretudo de Trabalhadores), as Igrejas, as Pastorais Sociais e todas as pessoas que acreditam num mundo novo - precisamos tomar consciência da urgente necessidade de aproveitar os espaços e as brechas possíveis (abrindo sempre novos espaços e novas brechas) para fazer acontecer um projeto socioeconômico, político, ecológico e cultural alternativo: um projeto popular, justo e fraterno. A esperança já é certeza de vitória. Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 28/04/12, p. 02 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120428&p=18 - 28/04/12 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=66456 - 26/04/12 http://correiodobrasil.com.br/a-mascara-rachou-e-a-corrupcao-vazou/442046/ - 26/04/12 http://minutonoticias.com.br/a-mascara-rachou-e-a-corrupcao-vazou - 26/04/12 http://desacato.info/2012/04/a-mascara-rachou-e-a-corrupcao-vazou/ - 27/04/12) Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) Prof. de Filosofia da UFG aposentado Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos (Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO) Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos