sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Do pecado de omissão libertai-nos, Senhor!

“Eu quero que a Igreja vá para as ruas” (Francisco)

O maior pecado da Igreja hoje - e a Igreja somos todos nós, cristãos e cristãs - é o pecado de omissão: conivência silenciosa com as estruturas sociais de injustiça e de violação dos direitos humanos, justificada, muitas vezes, em nome da prudência, do diálogo e da verdade. Mas, que verdade é essa! Não é mera hipocrisia! Falo isso com dor no coração, porque amo a Igreja. Ela é a minha mãe. Eu também sou a Igreja.
Parafraseando João XXIII e Francisco, como gostaria de uma Igreja pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres!
Um exemplo recente de pecado de omissão - entre os muitos que poderiam ser citados - foi o comportamento da Igreja, que está em Goiânia, em relação ao Grito dos/as Excluídos/as 2013.
No dia 22 de julho passado, a Comissão Episcopal Pasto­ral para o Serviço da Cari­dade, da Justiça e da Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) enviou a todas as dioceses, paróquias e comunidades a Carta “Em apoio ao Grito dos/as Excluídos/as”.
A Carta inicia dizendo: “estamos celebrando o 19º Grito dos Excluídos/as com o lema: Juventude que ousa lutar constrói o Projeto Popular. O Grito acontece também em sintonia com a 5ª Semana Social Brasileira que traz a reflexão sobre o Estado: Estado para que e para quem?” (Diga-se de passagem, a Igreja, que está em Goiânia, não enviou nenhum representante na 5ª SSB).
“Com mais este Grito - continua a Carta - queremos contri­buir na superação da contradição funda­mental existente na sociedade brasileira, que continua sendo obrigada a conviver com a aberrante contradição de ser a 6ª potência econômica mundial e a 184ª em desigualdade social”. Que absurdo! Que pecado estrutural!
A Carta faz, pois, um caloroso convite: “convidamos as juventudes e a sociedade brasileira para participar des­te momento especial. Queremos também contribuir, com a força da fé, para que os raios de luz que irradiam das juventudes sejam alimentados e jamais se apaguem. E que o Estado brasileiro se coloque a serviço da sociedade e não do poder econômico”.
Continua ainda a Carta: “apoiamos a juventude brasileira que emerge como novos sujeitos sociais e exige novas estruturas de participação democrática, reforçando a democracia participativa e direta como forma legiti­ma de governo da sociedade brasileira. Acreditamos que as mani­festações populares poderão encontrar no 19º Grito uma rica oportunidade de expressão dos legítimos anseios da juventude brasileira que exige um novo Estado, uma nova política e uma nova nação”.
A Carta termina com um veemente apelo: “participe do 19º Grito dos Excluídos/as em sua comunidade e ouse lutar por um Projeto Popular fundamentado na garantia e proteção à saúde, segurança, transporte, emprego, salário e educação!” (Guilherme Werlang, bispo de Ipa­meri - GO e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da CNBB).
Pergunto agora: Por que a Igreja, que está em Goiânia, na sua grande maioria, não atendeu a este apelo insistente da CNBB? Por que a participação dos cristãos e cristãs - embora expressiva - foi numérica e proporcionalmente tão pequena? Onde estavam, no dia 7 de setembro, de manhã, os representantes de muitas das nossas comunidades e paróquias? E os padres, que, como pastores, devem guiar (e guiar - diz Francisco - “não é o mesmo que comandar”) as nossas Comunidades e Paróquias? Mesmo tendo consciência que alguns faltaram por razões válidas, dói muito saber que só dois padres participaram da manifestação. Felizmente, tivemos a presença de muitas religiosas, inseridas nas comunidades. Foi um testemunho muito bonito e de profundo espírito evangélico.
É verdade que o Grito dos/as Excluídos/as é um espaço de participação livre e popular e não só eclesial, mas a Igreja não deve ser fermento na massa, sal da terra e luz do mundo? Como pode ser fermento, sal e luz ficando por fora? Jesus não estava sempre no meio do povo, anunciando - com sua vida e palavra - a Boa Notícia do Reino de Deus? Por que tanto medo da diversidade e do pluralismo? Não é essa uma atitude farisaica? Falando, por exemplo, dos nossos irmãos gays, Francisco diz: "se uma pessoa é gay e busca Deus, quem sou eu para julgá-la?" E Jesus não foi acusado pelos fariseus - os legalmente “perfeitos” - de comer na casa dos pecadores? Ele não foi condenado porque subvertia a ordem? O que significa realmente seguir Jesus hoje, no mundo em que vivemos? Ser cristãos e cristãs - como nos lembra o Documento de Aparecida (471 e 220) - não é ser “profetas da vida”? E ser religiosos e religiosas não é ser “radicalmente profetas da vida”?
Apesar dessas limitações, a manifestação do Grito dos/as Excluídos/as em Goiânia (como, aliás, em todo o Brasil) foi muito boa e muito significativa. Participaram cerca de 800 pessoas, que - depois de uma caminhada pela Rua 10, da Praça Universitária até a Praça Cívica, com uma parada ao lado da Catedral - se uniram a outros grupos de manifestantes, cerca de 1000 pessoas, todos e todas gritando e lutando - embora no respeito à diversidade - por um outro mundo possível, mais justo, mais humano e mais fraterno. Num dos cartazes lia-se: “O Povo acordou! O Povo decidiu! Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil! Agora chega!”. Ver tanta coragem e tanta vontade de lutar - sobretudo no meio dos jovens - nos anima a todos e a todas.
“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos/as de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (A Igreja no mundo de hoje - GS, 1). 
Escutemos o apelo do nosso irmão Francisco: a Igreja deve “sair das torres de marfim e ir ao encontro do povo.” "Eu quero agito nas dioceses, que vocês saiam às ruas. Eu quero que a Igreja vá para as ruas, eu quero que nós nos defendamos de toda acomodação, imobilidade, clericalismo. Se a Igreja não sai às ruas, se converte em uma ONG. A igreja não pode ser uma ONG". "Eu peço desculpas aos bispos e aos padres se isso pode gerar uma confusãozinha para vocês também" (JMJ, Encontro com os jovens argentinos, 25 de julho). Quanta sensibilidade humana! Quanta sinceridade! Quanto ardor missionário!  O testemunho de Francisco renova a nossa esperança.
A Primeira Leitura de domingo passado pergunta: “qual é o ser humano que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem pode imaginar o desígnio do Senhor? (...) Acaso alguém teria conhecido o teu desígnio, sem que lhe desses Sabedoria e do alto lhe enviasses teu Santo Espírito? (Sb. 9, 13.17).  Que Deus  nos dê essa Sabedoria!

"Para desempenhar sua missão, a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho”.
“Por conseguinte, é necessário conhecer e entender o mundo no qual vivemos,
suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática"
 (A Igreja no mundo de hoje - GS, 4).



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP),
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 11 de setembro de 2013

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos