segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A Boa Notícia do Natal de Jesus, hoje

"Eu anuncio a vocês a Boa Notícia,
que será uma grande alegria para todo o povo” (Lc 2, 10)

O Evangelho de Lucas diz que, estando José e Maria em Belém, chegou a hora de Maria dar à luz. Como “não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2, 7), Jesus nasceu num estábulo, “rejeitado” e “excluído” pela sociedade da época. Maria o enfaixou e o colocou numa manjedoura. “Veio para a sua casa, mas os seus não o receberam" (Jo 1, 11). Jesus - diríamos hoje - nasceu como “sem-teto”.
Antes de encontrar abrigo num estábulo, José e Maria, grávida de Jesus, perambularam nas ruas e praças de Belém, bateram em muitas portas, que - por serem pobres - sempre se fechavam na frente deles. Dormiram - penso eu - debaixo das marquises nessas mesmas ruas e praças. Hoje diríamos que Jesus, ainda no seio de Maria, foi “morador de rua”.
Os pastores foram os primeiros que receberam a Boa Notícia do Natal de Jesus. "Eu anuncio a vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto lhes servirá de sinal: vocês encontrarão um recém-nascido, envolto em faixas e deitado na manjedoura" (Lc 2, 10-12).
Os pastores foram às pressas se encontrar com José e Maria, e o recém-nascido. Voltaram louvando e glorificando a Deus, e tornaram-se os primeiros anunciadores da Boa Notícia do Natal de Jesus.
Quem eram os pastores? Eram pessoas "odiadas por não respeitar as propriedades alheias, ocupando-as com seus rebanhos e cobrando preços exorbitantes pelos produtos. Um pastor - segundo o Talmud babilônico - não podia ser eleito ao cargo de juiz ou testemunha nos tribunais, por causa da má fama e do desrespeito à propriedade" (Pe. José Bortolini, Roteiros homiléticos. Paulus, 2006, p. 3 - Missa da noite de Natal). Os pastores não eram, portanto, considerados "pessoas de bem". Eram - diríamos hoje - os “sem-terra” da época de Jesus.
E o Natal de Jesus, hoje? Quem são os pastores, hoje? A partir da nossa realidade e à luz da mensagem do Evangelho, podemos afirmar que os pastores são, hoje:
- os “moradores de rua”, que a sociedade hipócrita, injusta e excludente considera “lixo humano” e que são barbarmante assassinados, com a anuência silenciosa das chamadas “pessoas de bem”;
- os “sem-teto”, que, como verdadeiros heróis e verdadeiras heroínas, lutam incansavelmente pelo direito à moradia digna;
- os “sem-terra”, que, unidos e organizados em movimentos, combatem o latifúndio, reivindicam uma verdadeira reforma agrária e defendem o direito à terra de trabalho;
- os “presos”, que, considerados a escória da sociedade, vivem nas cadéias (verdadeiros depósitos de “lixo humano”) em condições degradantes e subumanas;
- os “desempregados”, que, como massa sobrante, descartável e excluída do direito à cidadania, não encontram trabalho para poder sustentar com dignidade a si e a suas famílias;
- os “subempregados” que são explorados por empresas gananciosas, que visam somente o lucro;
- os “trabalhadores”, que - mesmo empregados, na rede pública ou privada - trabalham o dia inteiro e ganham um salário de fome;
- os “doentes”, que, por omissão de socorro, morrem à mingua, devido a uma saúde pública, que é uma verdadeira calamidade;
- os “jovens”, que - envolvidos no mundo das drogas, por falta de políticas públicas de qualidade - são cruelmente exterminados;
- enfim, “todos aqueles e aquelas” que - solidários com os empobrecidos, oprimidos e excluídos da sociedade - denunciam profeticamente as injustiças e lutam, com muito amor e esperança, por um mundo novo, que, à luz da Fé, é o Reino de Deus, acontecendo na história humana e cósmica.
Hoje, são estes os pastores, os primeiros que recebem, com alegria, a Boa Notícia do Natal de Jesus em seu meio. Hoje, são estes os pastores, que, louvando e glorificando a Deus, se tornam os primeiros anunciadores dessa Boa Notícia para todos nós.
Há poucos dias, recebi da Pastoral do Povo da Rua do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia - que acompanho de perto - o convite (o mais honroso da minha vida) para ajudar a servir o almoço a cerca de 100 Moradores de Rua e para almoçar junto com eles. Conversando com os Moradores de Rua, fiquei profundamente impressionado com a sensibilidade humana desses nossos irmãos e irmãs, sofridos e “descartados” pela sociedade.

Fiquei também muito sensibilizado e edificado pelo testemunho de ternura com que a Neusa, a Madalena e a equipe de voluntários trataram os Moradores de Rua. Todos receberam uma cesta de Natal, preparada com carinho e amor de irmãos e irmãs.
Para mim e para todos e todas que estávamos lá, foram eles e elas os primeiros e as primeiras que - numa situação de muito sofrimento - receberam, com grande alergria e esperança, a Boa Notícia do Natal de Jesus. Foram eles e elas os primeiros e as primeiras que anunciaram essa Boa Notícia para todos e todas nós.
No juízo final, “os justos perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar? O Rei responderá: em verdade vos digo: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 37-40) 
Atenção, meus irmãos e minhãs irmãs! Não nos iludamos, procurando a Boa Notícia do Natal de Jesus onde ela não se encontra. Procuremo-la onde ela realmente se faz ouvir e onde ecoa com toda força profética. Feliz Natal!.

Leia também os artigos:
Jesus, o “sem-teto” de Belém, em:
Jesus, “morador de rua” em Belém, em:

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