quarta-feira, 27 de abril de 2016

Misericórdia: amor que se faz vida

          No dia 8 de dezembro de 2015, solenidade da Imaculada Conceição, o Papa Francisco abriu o Jubileu Extraordinário da Misericórdia ou o Ano Santo da Misericórdia. “Escolhi - diz o Papa - a data de 8 de dezembro, porque é cheia de significado na história recente da Igreja. Com efeito, abrirei a Porta Santa no cinquentenário da conclusão do Concílio Ecumênico Vaticano II. A Igreja sente a necessidade de manter vivo aquele acontecimento” (O Rosto da Misericórdia - MV, 4).
         Diante da realidade eclesial de hoje, podemos perguntar-nos: será que a Igreja sente realmente a necessidade de manter vivo o Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín, que para nós é a encarnação do Concílio na América Latina e no Caribe?
Com o Concílio Vaticano II - continua Francisco - começava para a Igreja “um percurso novo de sua história. Os Padres, reunidos no Concílio, sentiram de maneira muito forte, como um verdadeiro sopro do Espírito, a exigência de falar de Deus aos homens de seu tempo de modo mais compreensível. Derrubadas as muralhas, que, por demasiado tempo, tinham encerrado a Igreja numa cidadela privilegiada, chegara o tempo de anunciar o Evangelho de maneira nova”. “A Igreja sentia a responsabilidade de ser, no mundo, o sinal vivo do amor do Pai” (ib.).
          Diante da realidade eclesial de hoje, podemos perguntar-nos novamente: será que a Igreja não tem a tentação de reconstruir as muralhas que a encerrem numa cidadela privilegiada? Meditemos!
          “O Ano Jubilar - anuncia Francisco - terminará na solenidade litúrgica de Jesus Cristo, Rei do Universo, 20 de novembro de 2016. Naquele dia, ao fechar a Porta Santa, animar-nos-ão, antes de tudo, sentimentos de gratidão e agradecimento à Santíssima Trindade por nos ter concedido este tempo extraordinário de graça. Confiaremos a vida da Igreja, a humanidade inteira e o universo imenso à Realeza de Cristo, para que derrame a sua misericórdia, como o orvalho da manhã, para a construção duma história fecunda com o compromisso de todos no futuro próximo”.
          Como um verdadeiro irmão, sensível aos desafios que o mundo de hoje apresenta, o Papa exclama: “Quanto desejo que os anos futuros sejam permeados de misericórdia para ir ao encontro de todas as pessoas levando-lhes a bondade e a ternura de Deus!”. Manifesta, pois, seu profundo desejo: “A todos, crentes e afastados, possa chegar o bálsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus já presente no meio de nós”.
         Mas, afinal, o que é misericórdia? “Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o ser humano, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado (ib., 2).
         Segundo os ensinamentos da Palavra de Deus - que o Papa Francisco retoma de forma clara e objetiva - misericórdia é amor que se faz vida; é amor que se faz história; é amor que acontece em todas as dimensões e relações do ser humano com o mundo, com os outros e com Deus.
         Ser misericordioso/a é viver, cada vez mais, a radicalidade do humano no mundo, que é a radicalidade do amor. Viver, pois, a radicalidade do amor é estar presente, ser próximo, escutar, dialogar, partilhar, fazer a experiência do encontro, caminhar juntos como irmãos e irmãs e - unidos/as - lutar para fazer acontecer um novo projeto de sociedade e de mundo, que é a sociedade e o mundo do “bem-viver” e do “bem-conviver” ou, à luz da Fé, o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo. “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).
         “Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4,16). Ora, se Deus é amor, e o ser humano no mundo é criado à imagem e semelhança de Deus, ele também é amor.
         “A misericórdia de Deus - diz Francisco - não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até ao mais íntimo das suas vísceras. É verdadeiramente o caso de dizer que se trata de um amor ‘visceral’. Provém do íntimo como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão” (ib. 6)
         O Salmista lembra-nos sinais concretos da misericórdia de Deus: “O Senhor liberta os prisioneiros. O Senhor abre os olhos dos cegos. O Senhor endireita os encurvados. O Senhor ama os justos. O Senhor protege os estrangeiros, sustenta o órfão e a viúva, mas transtorna o caminho dos injustos” (Salmo 146, 7-9). “Eterna é a sua misericórdia”, ou seja, “o seu amor é para sempre”! (Salmo 136).
         “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”. Ele revela-nos “de modo definitivo o seu amor”. “Com a sua palavra, os seus gestos e toda sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus” (ib., 1).
         “Com o olhar fixo em Jesus e no seu rosto misericordioso, podemos individuar o amor da Santíssima Trindade”. “Este amor tornou-se visível e palpável em toda a vida de Jesus. A sua pessoa não é senão amor, um amor que se dá gratuitamente” (ib.,8). “Jesus, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).
         “A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa”. “O tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada”. “A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo”. “Onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai” (ib., 12).

         Que todos e todas nós sejamos com o nosso testemunho - no mundo e na sociedade de hoje - sinal visível e eficaz da misericórdia de Deus: amor que se faz vida.


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 06 de abril de 2016

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