segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

“Não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7)

 




Estamos no tempo litúrgico do Natal, que vai até o dia 11 de janeiro/26: 2º domingo do mês e Festa do Batismo de Jesus. 

Em geral, nas Celebrações do Natal fazemos a memória, ou seja, tornamos presente hoje o nascimento de Jesus, mas não refletimos - salvo poucas exceções - sobre o caminho que Maria grávida e José fizeram antes de Jesus nascer e o lugar onde Ele nasceu.

“Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o Império. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, se completaram os dias para o parto e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro da casa” (Lc 2,1-7).

Jesus nasceu como sem-teto e tudo indica que - ainda no seio de sua mãe Maria e junto com seu pai José - foi morador de rua em Belém.

Os próprios textos litúrgicos e os padres ou ministros que coordenam as Celebrações do tempo do Natal não falam nada sobre a manjedoura do estábulo onde Jesus nasceu e sobre o seu significado para nós hoje. Cito três exemplos: 

Na Missa da Noite de Natal - no Anúncio do Natal - lemos: “Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do eterno Pai, querendo santificar o mundo com o seu misericordioso advento, concebido pelo Espírito Santo, decorridos nove meses após a sua concepção, nasceu em Belém de Judá, da Virgem Maria, feito homem: natividade de nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne”.

Na mesma Missa - na Oração depois da Comunhão - rezamos: “Senhor nosso Deus, ao celebrarmos com alegria o Natal de Nosso Redentor, dai-nos alcançar, por uma vida santa, seu eterno convívio”.

E ainda: na Missa do Dia de Natal - também na Oração depois da Comunhão - rezamos: “Que o Salvador do mundo, hoje nascido, como nos fez nascer para a vida divina, nos conceda também a imortalidade”.

Pergunto: Por que Jesus nasceu na manjedoura de um estábulo? O que Ele quis nos dizer com isso? 

O que significam para nós as palavras: “Não havia lugar para eles dentro de casa”? Em nossa realidade de hoje, há lugar para Jesus nascer dentro de casa? Onde Jesus nasce? Meditemos!

Na Região Metropolitana de Goiânia - por exemplo - com certeza Jesus continua nascendo hoje como sem-teto nas Ocupações: Paulo Freire, Zumbi dos Palmares, Marielle Franco, Terra Prometida, Alto da Boa Vista e Beira da Mata (entre outras), onde nossos irmãos e irmãs lutam pelo direito à moradia digna, que é um direito fundamental de todo ser humano.

É nessas Ocupações e a partir delas que acontece hoje o nascimento de Jesus na vida de todos e todas aqueles e aquelas que querem ser seus seguidores e suas seguidoras.

Na Região onde Jesus nasceu “havia pastores, que passavam a noite nos campos tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: ‘Não tenham medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto lhes servirá de sinal: vocês encontrarão um recém-nascido, envolto em faixas e deitado na manjedoura’. De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: ‘Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados’” (Lc 2, 8-14).

Quando os anjos voltaram para o céu, “os pastores combinaram entre si: ‘Vamos a Belém, ver esse acontecimento que o Senhor nos revelou’. Foram então, às pressas, e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura. Tendo-o visto, contaram o que o anjo lhes anunciara sobre o menino. E todos os que ouviam os pastores, ficaram maravilhados com aquilo que contavam. Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração. Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido, conforme o anjo lhes tinha anunciado” (Lc 2, 15-20).

Os pastores foram os primeiros que receberam a Boa Notícia do nascimento de Jesus. Eles eram os “sem-terra” da época, mal-vistos pelos poderosos, porque ocupavam as grandes propriedades com seus rebanhos de ovelhas. Segundo uma lei daquele tempo, um pastor não podia ser testemunha em Tribunal. Não era considerado uma pessoa idônea.

Pessoalmente, neste Natal, não ouvi nenhum padre ou ministro (certamente houve alguns) que - coordenando a Celebração - falasse claramente sobre o significado para nós hoje do nascimento de Jesus como sem-teto na manjedoura de um estábulo

Ora, é a partir do seu nascimento como sem-teto, que Jesus continua nascendo hoje para todos aqueles e aquelas que querem ser seus seguidores e seguidoras.

Um feliz tempo de Natal e um Ano Novo de muitas vitórias para todos e todas nós que lutamos por um Mundo Novo. À luz da fé, é o Reino de Deus acontecendo na história do Ser humano e da Irmã Mãe Terra, Nossa Casa Comum.

Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)   
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282  

Goiânia, 28 de dezembro de 2025





Paróquia Nossa Senhora da Terra - Jardim Curitiba 3 - Goiânia - GO - Natal de 2021

Por representar uma mulher pobre com o menino Jesus pobre,

sumiram com a imagem original de Nossa Senhora da Terra.

Pergunto: será que uma mulher rica dá à luz na manjedoura de um estábulo?

Quanta hipocrisia!



sábado, 20 de dezembro de 2025

“Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23, 2)



A acusação - que levou Jesus de Nazaré, o Salvador do mundo, a ser preso e a morrer na Cruz por amor a todos e todas nós, desde os pobres, marginalizados, oprimidos, excluídos e descartados - foi essa: “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo” (Lc 23, 2).

Jesus ressuscitou, está vivo e caminha conosco. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome (por minha causa), eu estou aí no meio deles” (Mt 18, 20). E ainda: “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20).

Hoje, muitos cristãos e cristãs, que - como discípulos missionários e discípulas missionárias de Jesus de Nazaré continuam sua missão no mundo - são chamados e chamadas de “subversivos e subversivas”. Lembremos, por exemplo, os mártires do Brasil e da América Latina, como Pe. Josimo Tavares, Margarida Alves, Dom Oscar Romero e muitos outros.

O pior e o que mais dói é quando essas acusações são da própria Igreja Instituição e daqueles que - pelo ministério que exercem - deveriam ser verdadeiros irmãos e animadores das Comunidades cristãs.

A tomada de posição de Dom Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo, no Brasil, a respeito do Pe. Júlio Lancellotti - é uma grave violação dos Direitos Humanos e um comportamento totalmente antievangélico.

O caso repercutiu negativamente no Brasil, na América Latina e no mundo. É lamentável! Que Igreja é essa! Certamente não é a Igreja que Jesus sonhou e quis!

Faço minhas as palavras dos teólogos Leonardo Boff e Fernado Altemeyer Junior:

“Nos últimos dias, fomos surpreendidos por um fato que nos deixou estarrecidos: o Padre Júlio Lancellotti, o Cura d’Ars dos pobres e de gente de rua, que já há 40 anos cuida com ternura e amorosidade de centenas da população de rua, dando-lhes o pão, o abrigo, a biblioteca, a escola e tantas obras de genuína misericórdia bíblica, foi-lhe imposta, de repente, a proibição de transmitir pela mídia sua Missa dominical. Frequentavam a Missa, bem no sentido tradicional, portanto, livre de qualquer censura canônica, pessoas de sua Paróquia de São Miguel Arcângelo, gente de toda a cidade de São Paulo, gente vinda de todos os Estados da Federação, Missa seguida até no estrangeiro, na América Latina e na Europa. Não só. Foi-lhe vedado o acesso à mídia virtual na qual era frequente com sua presença profética e profunda sabedoria. Irradiava bondade e esperança. Sempre terminava com estas palavras-geradoras: Força! Coragem! Ninguém desanime!”.

(https://www.ihu.unisinos.br/661394-pe-julio-lancelllotti-um-justo-entre-as-nacoes-perseguido-artigo-de-leonardo-boff-e-fernando-altemeyer-jr).

Infelizmente, a posição de Dom Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo, é - ao menos nesse caso - a mesma dos Políticos que defendem uma sociedade estruturalmente injusta, desigual e que - por abominarem a população em situação de rua - perseguem e caluniam o Pe. Júlio Lancellotti.

Pe. Júlio, estamos com você. Apreciamos sua Nota Pública, mas temos consciência do profundo sofrimento seu, dos nossos irmãos e irmãs, moradores em situação de rua e dos pobres em geral. Desejamo-lhes um Natal de muita esperança e um Ano Novo de muitas vitórias.

Por fim, um Feliz Natal e um Feliz Ano Novo aos nossos leitores e leitoras.




Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)   
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282  

Goiânia, 18 de dezembro de 2025












domingo, 7 de dezembro de 2025

O Ser Humano meta-histórico “além da morte” (5)

 


 (Continua o tema do artigo anterior - parte 5)

O Ser humano meta-histórico “já e ainda não” - além de meta-social - é também meta-individual, mas a meta-individualidade não é a totalidade do Ser humano meta-histórico.

A "meta-individualidade" - "meta-corporeidade", "meta-biopsiquicidade" e "meta-espiritualidade" ou "meta-pessoalidade" - é, podemos dizer, "meta-individualidade social", porque o indivíduo influencia e condiciona dialeticamente a sociedade (e vice-versa, como já vimos).

O Ser humano individual, ou seja, em suas relações individuais (interindividuais), é "ontologicamente" voltado para o meta-individual; é, "já e ainda não", meta-individual. A dimensão da meta-individualidade - meta-corporeidade, meta-biopsiquicidade, meta-espiritualidade ou meta-pessoalidade - é constitutiva do Ser humano meta-histórico.

O Ser humano individual - ser corpóreo, biopsíquico e espiritual ou pessoal - meta-individualiza-se, dialética e permanentemente, como “Vida individual” ou “Morte individual”, até à meta-individualização plena (total, absoluta) como “Vida individual plena” ou “Morte individual plena”.

A meta-individualização plena (total, absoluta) como “Vida individual plena” é a afirmação da dimensão individual do Ser humano em sua plenitude: humanização plena (Vida eterna, Páscoa definitiva, plenitude da Ressurreição, plenitude do Reino de Deus, Salvação eterna, Céu, Paraíso).

A meta-individualização plena (total, absoluta) como “Morte individual plena” é a negação de tudo o que foi dito no parágrafo anterior (Anti-Reino de Deus, Perdiçao eterna, Inferno).

Para o Ser humano meta-individual (meta-corpóreo, meta-bio-psíquico, meta-espiritual ou meta-pessoal) unido aos outros (semelhantes), o processo dialético e permanente da meta-individualização - até à meta-individualização plena (total, absoluta) como Vida meta-individual plena ou Morte meta-individual plena - passa pelo reconhecimento dos outros como outros ou não e pela experiência do amor meta-individual (meta-corpóreo, meta-bio-psiquico, meta-espiritual ou meta-pessoal) ou não (desamor meta-individual, egoísmo meta-individual), em todas as suas manifestações (expressões).

Essa experiência é ainda a condição necessária para encontrar (conhecer e vivenciar) o significado fundamental - último e definitivo - da existência humana individual. A experiência do amor meta-individual ou não se dá (acontece) na e pela Práxis meta-individual (voltaremos sobre o assunto, falando da Práxis meta- individual).

No final do tema do Ser humano meta-histórico “já e ainda não” e “além da morte”, sinto a necessidade - baseado em argumentos racionais iluminados pela fé - de levantar alguns questionamentos e de dar-lhes a minha resposta.

Os questionamentos: Se cremos que Deus é Amor (Comunidade de Amor, Santíssima Trindade) e que o Ser humano - criado à imagem e semelhança de Deus - é também Amor, como podemos admitir que irmãos e irmãs nossos se encontrem na “absoluta frustração no ódio” (desamor), ou seja, na Morte plena (Morte eterna, Inferno)? Como podemos ser felizes, aceitando que irmãos e irmãs nossos sejam infelizes, sofrendo para toda a eternidade? Qual é a relação que existe entre a vontade de Deus e a liberdade do Ser humano?

A minha resposta: Reconheço que, ontologicamente falando, a possibilidade meta-histórica da Morte plena (Morte eterna) existe. Creio, porém, que Deus Amor, na sua infinita misericórdia (que é o Amor acontecendo), nunca permitiu (até no caso do traidor Judas Iscariotes), nunca permite e nunca permitirá que essa possibilidade meta-histórica “além-da-morte” se torne uma realidade concreta. Creio ainda que Deus - por ser Amor - no limiar entre o tempo e a eternidade, sempre deu, sempre dá e sempre dará a todos e a todas (inclusive, aos maiores criminosos e criminosas) as condições necessárias para fazerem um ato de Amor totalmente livre e sincero - tão intenso e tão profundo - que leve à conversão e à mudança total de vida (penso também que tenha acontecido o mesmo - embora de maneira diferente - com o chamado “mundo dos anjos”).

Na minha experiência existencial (imagino que isso aconteça com todos os Seres humanos), não conseguiria ser feliz, sabendo que um irmão meu (mesmo que tenha sido o maior criminoso do mundo e mesmo que seja um só) é infeliz para sempre, na Morte eterna. Afinal, é meu irmão ou minha irmã!

“Reconhecemos o Amor que Deus tem por nós e acreditamos nesse Amor. Deus é Amor: quem permanece no Amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4, 16). “Em Deus vivemos, nos movemos e existimos”. “Deus quer que todos os Seres humanos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”. “É Deus que realiza em nós tanto o querer como o fazer, conforme seu desígnio benevolente” (At 17, 28; 1Tm 2, 4; Fl 2, 13 respectivamente. Veja também: CONCÍLIO VATICANO II.  A Igreja no mundo de hoje - GS, 45)

Ora, se é Deus “que realiza em nós tanto o querer como o fazer”, com certeza Ele só pode querer e fazer o bem.

Em atitude de adoração diante da infinita sabedoria de Deus Amor,

faço minha a prece das Laudes (Oração da Manhã)

da segunda-feira da Sexta Semana do Tempo Pascal:

“Pelos méritos da cruz de Cristo, que morreu para libertar o mundo,

dai à humanidade inteira a salvação e a paz”.

(No próximo artigo começaremos a refletir sobre o tema: O Ser Humano como Ser de Práxis)


Marcos Sassatelli, Frade dominicano

Goiânia, 06 de novembro de 2025





O artigo foi publicado originalmente em:
https://portaldascebs.org.br/o-ser-humano-meta-historico-alem-da-morte-5/ (16/11/25)

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos aponta caminhos novos