quarta-feira, 6 de maio de 2026

O Jesus da Trabalhadora e Trabalhador: o Jesus do Evangelho

 


No 1º de maio/26 celebramos, mais uma vez, o Dia Internacional da Trabalhadora e Trabalhador. No Brasil (como em outros países) as Centrais Sindicais, os Sindicatos de Trabalhadoras e Trabalhadores, os Movimentos Sociais Populares, as Organizações de Mulheres, as Entidades de Jovens Estudantes, os Fóruns ou Comitês de Direitos Humanos, as Comissões de Justiça e Paz e Outras Organizações Populares - unidas e unidos (mesmo com suas diferenças) realizaram Manifestações, que fortaleceram - e continuam fortalecendo - sua vontade de lutar com esperança, que já é certeza de vitória.

Em Goiânia - no 1º de maio/26 - as entidades acima citadas realizaram, no centro da cidade - das 8 às 12 horas - com a participação de cerca mil pessoas (entre as quais me incluo) uma Manifestação muito bonita e significativa.

Em todas as Manifestações do país foram destacadas as questões: do emprego (condenando a exploração estrutural do sistema capitalista e os casos de trabalho escravo), do direito das trabalhadoras e trabalhadores, da democracia popular, da soberania e da vida digna para todas e todos. Foi reivindicada também a votação do fim da escala 6x1 no trabalho.

Como cristão, acredito que - nas Manifestações do 1º de maio/26 - o Jesus da Trabalhadora e Trabalhador, que o Jesus do Evangelho, estava presente e caminhava conosco.

Ora, eu pergunto: quem é o Jesus do Evangelho? De forma muito resumida, respondo: o Jesus do Evangelho é o Jesus que nasceu como Sem-Teto. Maria grávida e José seu esposo tinham ido a Belém para o recenseamento. Chegou a hora de Maria dar à luz. Tudo indica que - ainda no seio de sua mãe Maria e junto com seu pai José - Jesus foi Morador de Rua, pousando debaixo das marquises da cidade de Belém.

Alguém que estava passando ficou com pena da situação e abriu um estábulo para Maria dar à luz. Jesus nasceu numa manjedoura como Sem-Teto. “Não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7). Os que, em primeira mão, receberam a Boa Notícia do nascimento de Jesus foram os Pastores, os Sem-Terra da época. “Eu anuncio a vocês a Boa-Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador” (Lc 2,10-11).

Jesus manifestou-se aos Reis Magos, sábios e estudiosos que - vindo do Oriente em busca de sinais da presença de Deus - representavam todos os povos de todas as culturas.

Com sua mãe Maria e seu pai José, Jesus foi migrante no Egito para fugir de Herodes que - obcecado pelo poder - queria matá-lo.

Jesus cresceu, em sabedoria e graça, numa família pobre e - vivendo uma vida simples e anônima - trabalhou por muitos anos como carpinteiro com seu pai José. “Não é este o filho do carpinteiro?” Sua mãe não se chama Maria? (Mt 13,55). “Não é este o carpinteiro?” (Mc 6,3).

Em sua vida pública - anunciando a Boa Notícia do Reino de Deus a todas e todos, mas a partir da manjedoura e de tudo o que ela significa, Jesus - como o Profeta e o Enviado do Pai - sempre foi próximo, compassivo e entranhadamente solidário para com o Povo: os Pobres - doentes, leprosos, sofredores, marginalizados, oprimidos, explorados, descartados - e todos aqueles e aquelas que não tinham voz e não tinham vez na sociedade. “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8,20).

Pela sua proximidade, compaixão e entranhável solidariedade tornou-se defensor intransigente do Povo; denunciou, com indignação e firmeza, a hipocrisia dos fariseus e doutores da Lei. “Serpentes! Raça de cobras venenosas!” (Mt 23,33).

Dialogou com o jovem rico, que - pelo seu apego aos bens - não teve a coragem (ao menos naquele momento) de segui-lo e foi embora triste (cf. Mt 19,16-26; Mc. 10,17-27; Lc 18,18-30). Encontrou-se com Zaqueu - também homem rico - em sua casa, que se converteu e mudou totalmente de vida, praticando a partilha dos bens (cf. Lc 19,1-10).

A presença de Jesus, anunciando a Boa Notícia do Reino de Deus - que é sua Utopia, seu Projeto de Vida - não deixou e não deixa ninguém indiferente ou em cima do muro. Todas e todos sentiram-se e sentem-se obrigadas e obrigados a tomar uma posição: a favor ou contra. As exigências de Jesus para com suas seguidoras e seguidores, são radicais. Todas e todos, mesmo diferentes, são iguais em dignidade e valor, chamados a viver em Comunidades de irmãs e irmãos de verdade (sem classes). Existe um projeto de vida mais revolucionário do que esse? Não é esse o verdadeiro socialismo e comunismo (ou comunitarismo)?

Jesus celebrou a última Ceia com os discípulos e - depois de lavar seus pés - disse: “Eu vos dei o exemplo para que vocês façam o que eu fiz” (Jo 13,16).

Pelo seu jeito de ser e agir, pela sua pregação, Jesus foi considerado subversivo. “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo”. “Ele está provocando revolta entre o povo, com seu ensinamento” (Lc 23,2.5). Diante de Pilatos, Jesus foi acusado de ser um malfeitor. “Se ele não fosse malfeitor, não o teríamos trazido até aqui” (Jo 18,30).

Foi como subversivo e malfeitor que Jesus foi preso e condenado. Morreu na Cruz por amor. “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim(Jo 13,1).

Jesus ressuscitou, está vivo e caminha conosco. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome (por minha causa e do meu Projeto), eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20). “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (ib. 28,20).

É esse o Jesus do Evangelho, ontem, hoje e sempre. É esse o Jesus que caminha com as Trabalhadoras e Trabalhadores em suas lutas por um Mundo Novo.

Por fim, faço minhas as palavras do Papa Francisco aos representantes dos Movimentos Populares, por ocasião do 10º aniversário do 1º Encontro mundial: "continuem a combater a economia criminosa com a economia popular.  Não desistam...” (20 de setembro de 2024).

Trabalhadoras e Trabalhadores unidos e organizados jamais serão vencidos!


Marcos Sassatelli, frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979 2282

Goiânia, 03 de maio de 2026




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