Vimos que na realidade - social e individualmente
falando - a Prática ou Ação humana da classe média (os médios
proprietários e os assalariados de alto poder aquisitivo) e da classe
trabalhadora (trabalhadores e trabalhadoras ligados diretamente à
produção), em sua maioria, é também (do ponto de vista objetivo e não sempre do
ponto de vista subjetivo ou intencional) - uma Prática "desde o
mesmo", ou seja, uma Prática "comprometida" com o sistema
dominante, contribuindo - mesmo inconscientemente - para sustentá-lo
(defendê-lo, legitimá-lo) e reproduzi-lo.
A Prática "desde o mesmo"
parte de uma visão essencialista e fixista da história; sustenta e reproduz a
história (a sociedade e o indivíduo) como totalidade totalizada
(fechada, estabelecida), absolutizada e divinizada ("história da
totalidade"), e, ao mesmo tempo, em processo de totalização, absolutização
e divinização sempre maior ("meta-história da totalidade" ou
"história da totalidade" em permanente processo de
meta-historicização). Ela "nega" o "outro" como o
"diferente", o "distinto", aquele que não faz parte
(não integra) essa totalidade, aquele que - para essa totalidade - "não-existe"
("não-é") e, fazendo isso, acaba negando o próprio Ser humano
enquanto tal.
Existem fundamentalmente duas maneiras de
"negar" o "outro" (como o "diferente", o
"distinto"): a primeira, "absorvendo" o
"outro" no "mesmo" (enquanto possível,
"agradavelmente"); a segunda, excluindo (desconhecendo,
desconsiderando, descartando) o "outro" e dizendo que o
"outro" "não-existe" ("não-é"). As duas
maneiras estão presentes no processo histórico e meta-histórico do Ser humano
como um todo, mas - podemos dizer - a primeira "predomina" nos países
capitalistas industrializados (desenvolvidos) e a segunda "predomina"
nos países capitalistas não-industrializados (subdesenvolvidos, do chamado
Terceiro Mundo).
Nos países capitalistas industrializados, a Prática
"desde o mesmo" (histórico-social e histórico-individual) se
projeta e se processa (acontece) "comprometida" com um modo de fazer
história em que a sociedade "absorve", "instrumentaliza" e
"mercantiliza" o Ser humano em todos os campos, inclusive no da
sexualidade, e não admite nem a possibilidade da existência do
"outro" (do "diferente", do "distinto") histórico
(social e individual) e meta-histórico (meta-social e meta-individual). Esta
sociedade caracteriza-se pelo fim da oposição, pela aliança das classes, pelo
totalitarismo, pela manipulação das necessidades e pela doutrinação dos objetos.
Na sociedade industrial desenvolvida, a
produção e a distribuição em massa de objetos (produtos, mercadorias)
"reivindicam o indivíduo inteiro e a psicologia industrial deixou de há
muito de limitar-se à fábrica. Os múltiplos processos de introjeção parecem
coisificados em reações quase mecânicas. O resultado não é o ajustamento, mas a
mimese: uma identificação imediata do indivíduo com a sua sociedade e, através
dela, com a sociedade em seu todo" (MARCUSE, H. A Ideologia da Sociedade
Industrial. O Homem unidimensional. Zahar, Rio de Janeiro, 19734, p.
30-31. Para caracterizar a sociedade industrial desenvolvida sigo de perto o
pensamento de H. MARCUSE com o qual estou plenamente de acordo).
Essa identificação imediata e automática
"é o produto de uma gerência e organização complicadas e científicas"
(Ib., p. 31). Até o "espaço
privado" (interior), no qual o Ser humano pode tornar-se e permanecer
"ele próprio", se apresenta invadido e desbatado pela realidade
tecnológica (Cf. Ib., p. 30).
Inclusive, na sociedade industrial
contemporânea, "o progresso técnico e a vida mais confortável permitem a
inclusão sistemática de componentes da libido (sexualidade) no campo da
produção e troca de mercadorias. Mas, independentemente do quão controlada
possa ser a mobilização da energia instintiva (importa às vezes em
administração científica da libido), do quanto possa servir de sustentáculo do
statu quo - ela é também agradável aos indivíduos administrados, como o é o
pilotar uma lancha, empurrar a segadora motorizada no jardim, dirigir o
automóvel a grande velocidade" (Ib., p. 84-85). Essa mobilização e
administração da libido - que é um processo de dessublimação repressiva
(controlada, ajustada, institucionalizada) - traz satisfação, mas, ao mesmo
tempo, "gera submissão e enfraquece a racionalidade do protesto"
(Ib., p. 85).
A classe trabalhadora, porém, podendo
ter como seus "aliados" pessoas da chamada classe média e até
de algumas pessoas da classe dominante (dispostas - por uma motivação humana e
ética - a fazer o "suicídio de classe") poderá (como veremos) - de
acordo com o seu nível de consciência e de organização (Movimentos Sociais
Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partifos Políticos
Populares e outras Organiações Sociais Populares) - se tornar o sujeito
primordial da Práxis prático-teórica (Prática ou Ação humana)
"desde o outro", ou seja, da Prática que - a partir dos
pobres, empobrecidos, marginalizados, oprimidos, explorados e descatados pelo
sistema dominante (dos que "não-são", dos que "não-contam")
- leva à construção de uma história socialmente (estruturalmente) e individualmente
(subjetivamente) nova.
Como diz o ditado: Povo unido e organizado
jamais será vencido! É a nossa esperança. Para os que somos - ou queremos ser -
Cristãos e Cristãs (radicalmente Seres humanos) é o Reino de Deus acontecendo
na história do Ser Humano no Mundo com o Mundo: a Irmã Mãe Terra Nossa Casa
Comum. A luta continua! Vamos em frente!
(Continua no próximo artigo
sobre o mesmo tema)
Marcos Sassatelli, frade
dominicanoDoutor em Filosofia (USP) e
em Teologia Moral (Assunção - SP)Professor aposentado de
Filosofia da UFGE-mail: mpsassatelli@uol.com.br - Cel. e WA: (62) 9 9979
2282
Goiânia, 28 de maio de 2026
O artigo foi publicado originalmente em:

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