sábado, 25 de fevereiro de 2012

Tempo da Quaresma

"Para que toda a humanidade
se abra à esperança de um MUNDO NOVO"
(Oração Eucarística VI-D)

            O Tempo da Quaresma começa na 4ª Feira de Cinzas e se estende até a Celebração da Ceia do Senhor na 5ª Feira Santa. É o tempo de preparação para a Celebração da Páscoa. “Tanto na liturgia quanto na catequese litúrgica esclareça-se melhor a dupla índole do tempo quaresmal que, principalmente pela lembrança ou preparação do Batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do mistério pascal” (Concílio Vaticano II. A Sagrada Liturgia - SC, 109).
            O Tempo da Quaresma é um convite permanente à conversão, que é um processo contínuo de mudança de vida. Nesse processo, vivenciamos também “tempos fortes” de conversão, que são “tempos fortes” de graça de Deus. Eles brotam da ação do Espírito Santo e provocam transformações profundas, que levam as pessoas a reorientar a vida, a mudar de direção, a deixar de caminhar numa estrada para andar numa outra e a aderir radicalmente ao projeto de Deus - ao Reino de Deus - que satisfaz plenamente as aspirações do ser humano. “O tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam na Boa Notícia (no Evangelho)” (Mc 1, 15).
Em outras palavras, o processo de conversão é o próprio processo de aperfeiçoamento do ser humano como vir-a-ser, como ser de busca permanente dentro do projeto de Deus, que é o seu Reino. “Sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu” (Mt 5, 48). Esse processo de aperfeiçoamento é histórico, mas aberto ao metahistórico (ao transcendente), ou seja, à plenitude da perfeição (da santidade, da salvação) e da vida, que é o Reino de Deus definitivo.
            O processo de conversão envolve, pois, o ser humano todo e todos os seres humanos, em todas as dimensões: pessoais (corpórea, biopsíquica,  espiritual), sociais (socioeconômica, sociopolítica, socioecológica, sociocultural) e cósmica.
            “Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora. E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no íntimo, esperando a adoção, a libertação para o nosso corpo. Na esperança, nós já fomos salvos. Ver o que se espera já não é esperar: como se pode esperar o que já se vê? Mas se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos” (Rm 8, 22-25).
            Na medida em que a conversão acontece, ela liberta de tudo aquilo que impede a vida: dos pecados pessoais, do pecado social ou estrutural e do pecado do mundo (o Antirreino de Deus). O pecado do mundo inclui o pecado social ou estrutural e os pecados pessoais, mas é mais do que a soma do pecado social ou estrutural e dos pecados pessoais. O pecado social (socioeconômico, sociopolítico, socioecológico, sociocultural) ou estrutural inclui os pecados pessoais, mas é mais do que a soma dos pecados pessoais. “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).
A Igreja, diz o Documento de Aparecida (DA), depois de constatar que "muitas das estruturas atuais geram pobreza" (501) e falar por isso de “um sistema econômico iníquo” (385), denuncia as “situações de pecado" (95), as “estruturas de pecado” (92, 532), as “estruturas de morte" (112). A Igreja quer colaborar "com outros organismos ou instituições para organizar estruturas mais justas nos âmbitos nacionais e internacionais".
Afirma que "é urgente criar estruturas que consolidem uma ordem social, econômica e política na qual não haja iniquidade e onde haja possibilidades para todos" (384). Os cristãos e as cristãs devem contribuir "para a transformação das realidades e para a criação de estruturas justas segundo os critérios do Evangelho" (210).
Podemos, portanto, afirmar que a conversão - como processo contínuo de mudança de vida - passa necessariamente pela conversão das pessoas (conversão pessoal), pela conversão da sociedade ou das estruturas (conversão social ou estrutural) e pela conversão do mundo (conversão cósmica).
            Enfim, “cantar a Quaresma é cantar a dor que se sente pelo pecado do mundo, que, em todos os tempos e de tantas maneiras, crucifica os filhos de Deus e prolonga, assim, a Paixão de Cristo (CNBB. Guia Litúrgico-Pastoral. Edições CNBB, 2ª Edição, 2007, p. 86). Tudo isso, porém, com a certeza da ressurreição, com a certeza da vitória. “Vitória! Tu reinarás! Ó Cruz, tu nos Salvarás!” (Canto pascal).

A Campanha da Fraternidade de cada ano explicita o compromisso dos cristãos e cristãs na vivência concreta da Quaresma. O tema da Campanha da Fraternidade 2012 é: “Fraternidade e Saúde Pública” e o lema: “Que a Saúde se difunda sobre a Terra” (cf. Eclo 38, 8). Com a Campanha da Fraternidade 2012, a Igreja deseja SENSIBILIZAR a todos e a todas “sobre a dura realidade de irmãos e irmãs que não têm acesso à assistência da Saúde Pública condizente com suas necessidades e dignidade”; REFLETIR sobre essa realidade, “que clama por ações transformadoras” e MOBILIZAR “por melhoria no Sistema Público de Saúde”. “A conversão pede que as estruturas de morte sejam transformadas” (Texto-Base, p. 9 e 12). Que todos e todas vivamos intensamente a Quaresma e a Campanha da Fraternidade!
 Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 24/02/12, p. 04

22/02/12



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos