terça-feira, 25 de março de 2014

O anúncio e a denúncia

Há poucos dias, num Encontro, uma pessoa - que, por sinal, exerce um ministério de muita responsabilidade na Igreja - estava fazendo algumas colocações sobre o novo ano pastoral.
À pergunta, feita por um participante do Encontro, sobre qual seria a posição da Igreja diante dos inúmeros assassinatos de jovens que acontecem todo dia, o palestrante - demostrando falta de interesse pelo assunto - respondeu: “Fazer Notas (na imprensa) não adianta nada, o que precisamos fazer é evangelizar”. Sem maiores comentários, continuou suas colocações. 
Muitos dos que estávamos presentes, ficamos indignados com a afirmação. O palestrante demonstrou ter uma visão equivocada e reducionista do que seja evangelizar.
Evangelizar significa anunciar a Boa Notícia do Reino de Deus - que é a Boa Nóticia de Jesus de Nazaré - e, consequentemente, denunciar tudo aquilo que é contrário a essa Boa Notícia. O anúncio e a denúncia (oral e/ou por escrito) são partes integrantes, ou seja, constitutivas da Evangelização. Na perspectiva do Evangelho, uma não pode existir sem a outra. Anunciar sem denunciar é trair a Palavra de Deus.
O anúncio e a denúncia levam, pois, os seguidores e seguidoras de Jesus a um compromisso radical com a Vida. “Eu vim para que todos e todas tenham Vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). “Jesus, tendo amado os seus discípulos que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1), ou seja, até não poder mais, até dar a Vida. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a Vida pelos amigos” (Jo 15,13). Os cristãos e cristãs são chamados a ser no mundo “profetas e profetisas da Vida” (Documento de Aparecida - DA, 471).
O nosso referencial é sempre a prática de Jesus. Vejamos - por exemplo - como Jesus se comportou com os doutores da Lei e fariseus, e com Herodes.
Jesus denuncia e condena a hipocrisia religiosa dos doutores da Lei e fariseus. “Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Vocês fecham o Reino do Céu para os homens. Nem vocês entram, nem deixam entrar aqueles que desejam. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês exploram as viúvas, roubam suas casas e, para disfarçar, fazem longas orações. Por isso, vocês vão receber uma condenação mais severa” (Mt 23, 13-14).
E a ladainha das maldições de Jesus continua. “Ai de vocês, guias cegos! (...) Cegos insensatos! (...) Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, da erva doce e do cominho, e deixam de lado os ensinamentos mais importantes da Lei, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade. (...) Vocês coam um mosquito e engolem um camelo. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês limpam o copo e o prato por fora, mas por dentro vocês estão cheios de ganância e cobiça. (...) Limpe primeiro o copo e o prato por dentro, e assim o lado de fora também ficará limpo. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão. Assim também são vocês: por fora parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça” (ib. 16-28).
Com palavras ainda mais fortes, Jesus denuncia: “Serpentes, raça de cobras venenosas (víboras)! Como é que vocês poderão escapar da condenação do inferno?” (ib. 33).
Por que Jesus denunciou a hipocrisia religiosa dos doutores da Lei e dos fariseus com palavras tão duras, desrespeitosas e ofensivas? De acordo com o palestrante acima citado, Jesus - no lugar de fazer isso - não deveria ter “evangelizado” os doutores da Lei e os fariseus?
A denúncia de Jesus não é uma advertência para nós, que muitas vezes - como Igreja - silenciamos e nos omitimos diante das injustiças, por covardia e medo de desrespeitar e ofender os poderosos e os governantes? “A verdade vos libertará!” (Jo 8,32).
Jesus vai até o fim. Diante das reações que a sua atividade provoca, Ele não tem medo das autoridades. Em determinado momento, algumas pessoas se aproximam de Jesus e dizem: “Vá embora daqui, porque Herodes quer te matar”. Jesus responde: “Vão dizer a essa raposa: eu expulso demônios, e faço curas, hoje e amanhã, e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã, e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém” (Lc 13, 31-33). 
Por que Jesus chamou Herodes - uma “autoridade constituída” - de “raposa”?. Não é um comportamento desrespeitoso e ofensivo? Sempre de acordo com o palestrante acima citado, no lugar de fazer isso, Jesus não deveria ter “evangelizado” Herodes?  
Enfim, tenho certeza que se Jesus vivesse hoje - na era das comunicações, da informática e, sobretudo, da internet - faria suas denúncias não só oralmente, mas também por escrito, usando a mídia e as redes sociais. Sem hesitação e medo de ser instrumentalizado (como costumam dizer as chamadas “pessoas prudentes”, que na realidade são “pessoas covardes”), Jesus faria também Notas na imprensa, que - contrariando mais uma vez a afirmação do palestrante acima citado - serviriam muito e seriam certamente de grande valia para o cumprimento de sua missão. 
A prática de Jesus sempre nos incomoda, nos questiona e nos compromete. Que coragem Jesus demonstrou! Que firmeza e que coerência Ele sempre teve! Quantos mártires, da América Latina e do mundo, seguiram o seu exemplo! E nós?
Estamos no tempo da Quaresma e vivendo a Campanha da Fraternidade, que tem como tema “Fraternidade e Tráfico Humano” e como lema “É para a Liberdade que Cristo nos Libertou” (Gl 5,1). 
O Tráfico de Seres Humanos é atualmente um dos maiores crimes da humanidade e um grande desafio para todos/as nós. Peçamos que o Espírito Santo - o Amor de Deus - provoque uma verdadeira “revolução” na nossa vida.

Um comentário:

  1. Mais uma vez me alegro por sua profecia. precisamos fazer nossas opiniões ecoarem. Usar nosso direito de voz e fazer com que a profecia seja nossa principal tarefa.

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos