quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A Espiritualidade das CEBs

A Espiritualidade - se for autêntica - é, antes de tudo, Espiritualidade Humana. Ser espiritual significa ser “humano”, viver o “humano” (a “humanidade”) sempre mais radicalmente, libertando-se de tudo aquilo que oprime e desumaniza. “O pecado diminui o ser humano, impedindo-o de conseguir a plenitude” (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 13). Nunca o ser humano exagera em ser “humano”, nunca o ser humano é “humano” demais. Jesus de Nazaré é o maior exemplo de radicalidade humana e de vivência do “humano”.  
            Se queremos ser homens e mulheres espirituais (de Espiritualidade), sejamos humanos, radicalmente humanos, em todos os momentos e em todas as situações da vida, mesmo e sobretudo nas situações que ainda são desumanas.
A Espiritualidade Humana, à luz da fé, é Espiritualidade Cristã. Não são duas Espiritualidades diferentes. É a mesma Espiritualidade. A Espiritualidade não pode ser cristã se não for humana e, se for humana, é - implícita ou explicitamente - cristã.
            A fé é como um farol que ilumina a razão humana, amplia seus horizontes e a torna capaz de enxergar melhor e mais longe. Em outras palavras, a fé dá à razão humana as condições de compreender - sempre mais profunda e radicalmente - o ser humano. Em Jesus Cristo, o “humano” é tão humano que se torna “divino” e o “divino” é tão divino que se torna “humano”.
            Por ser Cristo “a chave, o centro e o fim de toda a história humana” (GS, 10), "o mistério do ser humano (homem e mulher) só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. Com efeito, Adão o primeiro homem era figura daquele que haveria de vir, isto é, de Cristo Senhor. Novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor, Cristo manifesta plenamente o ser humano ao próprio ser humano e lhe descobre a sua altíssima vocação" (GS, 22).
            “A fé esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do ser humano. E por isso orienta a mente para soluções plenamente humanas" (GS, 11).
            Para os cristãos e cristãs, o plenamente humano inclui a dimensão da fé, que perpassa e impregna todas as dimensões da vida humana na sociedade e no mundo. A fé - quando verdadeira - humaniza, torna o ser humano mais ser humano. O autêntico cristianismo é um humanismo pleno, é um humanismo radical.
            Ora, pela condição do ser humano no mundo e pela ligação umbilical que ele tem com a mãe terra e com a natureza (todos os seres, vivos ou não), podemos dizer que o humanismo pleno e radical é um humanismo natural e um naturalismo humano.
            Ser cristãos e cristãs é ser plena e radicalmente humanos. O plena e radicalmente humano é cristão e o cristão é plena e radicalmente humano. Os cristãos e cristãs devem ser, por assim dizer, especialistas em humanidade. Pela fé, eles e elas descobrem sempre mais claramente o verdadeiro sentido da vida na história, até o seu pleno, último e definitivo sentido na meta-história (na eternidade).
            A Espiritualidade Cristã é, portanto, um projeto de Espiritualidade plena e radicalmente humana. “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos seres humanos de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (GS, 1). Trata-se de uma solidariedade (com-paixão) entranhável dos cristãos e cristãs com todos os seres humanos, homens e mulheres, a partir dos pobres (a Opção pelos Pobres).
            A Espiritualidade Cristã é Espiritualidade Pascal, ou seja, Espiritualidade que brota da vivência, sempre mais profunda e sempre mais envolvente, da Páscoa: o mistério do Cristo crucificado, sepultado e ressuscitado, que é o mistério do amor infinito de Deus para conosco. 
            De fato, a Páscoa ou o mistério pascal é o centro da vida dos cristãos e cristãs e, do ponto de vista celebrativo, é o centro do ano litúrgico, no qual o tempo cronológico é transformado em tempo kairológico, que é o tempo da ação de Deus em favor do seu povo. Fazendo a memória, ou seja, tornando presente a Páscoa do Senhor na Eucaristia, participamos de seu mistério de morte e ressurreição. A liturgia é a celebração do mistério pascal na vida e a celebração da vida no mistério pascal.
            Viver a Espiritualidade Cristã como Espiritualidade Pascal significa viver o mistério pascal, ou seja, viver como Jesus viveu, morrer como Jesus morreu, ressuscitar como Jesus ressuscitou.  
E viver o mistério pascal significa fazer acontecer a Páscoa de Jesus - que é a nossa Páscoa, que é o Reino de Deus - na vida pessoal e social (sócio-econômico-político-ecológico-cultural), na história humana e no mundo todo, até à Páscoa definitiva, que é a plenitude do Reino de Deus, a plenitude da vida e da felicidade.
A Páscoa ou o mistério pascal, que é passagem da morte (e de tudo o que a morte significa) para a vida (vida nova em Cristo, vida segundo o Espírito), é uma realidade dinâmica e processual, que - de maneira sempre mais integrada e integradora - perpassa e impregna a totalidade da existência humana no mundo. “Toda a criação espera ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. (...) Pois ela também será libertada da escravidão da corrupção, para participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus” (Rm 8,19.21).
            A vida, para os que foram batizados e têm fé, é uma caminhada pascal. Enquanto estamos no mundo, sempre precisamos morrer a tudo o que está errado em nossa vida, sepultando os nossos pecados (o ser humano velho) e sempre precisamos ressuscitar para a vida nova em Cristo (o ser humano novo) (cf. Rm 6,1-11). "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude" (Jo 10,10).
            A alma da Espiritualidade Pascal - que é Espiritualidade de comunhão - é o Espírito Santo, o Amor de Deus, que nos faz mergulhar no mistério da Santíssima Trindade (a melhor Comunidade), nos torna testemunhas do Cristo Ressuscitado e nos compromete pessoal e comunitariamente com o seu Projeto de Vida, que é o Reino de Deus, na sociedade e no mundo.
A Espiritualidade Pascal é Espiritualidade do Seguimento de Jesus. "Todo aquele que segue Cristo, o Homem perfeito, torna-se ele também mais ser humano" (GS, 41). 
            A Espiritualidade do Seguimento de Jesus “se alimenta de uma verdadeira paixão por Ele, de uma amizade singular, (...) de uma compenetração intimíssima, comunhão mesmo” (Dom Pedro Casaldáliga, Nosso Deus tem um sonho e nós também: Carta espiritual às Comunidades. X Encontro Intereclesial, Ilhéus - BA, 11-15 de julho de 2000). Encara os desafios do mundo de hoje como apelos de Deus e é um caminho de libertação, de realização humana e de felicidade.
            “O seguimento de Jesus é fruto de uma fascinação que responde ao desejo de realização humana, ao desejo de vida plena. O discípulo é alguém apaixonado por Cristo, a quem reconhece como mestre, que o conduz e acompanha" (Documento de Aparecida - DA, 277).
            “No seguimento de Jesus Cristo, aprendemos e praticamos as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão entranhável frente à dor humana, sua proximidade aos pobres e aos pequenos, sua fidelidade à missão encomendada, seu amor serviçal até à doação de sua vida. Hoje, contemplamos a Jesus Cristo tal como os Evangelhos nos transmitem para conhecermos o que Ele fez e para discernirmos o que nós devemos fazer nas atuais circunstâncias” (DA. 139).
            Os cristãos e cristãs são chamados a viver - sempre mais radicalmente - a Espiritualidade do Seguimento de Jesus, a partir da opção pelos empobrecidos, oprimidos e excluídos da sociedade, sendo “profetas da vida” (DA, 471) em todas as situações concretas da realidade humana e cósmica.
            Enfim, a Espiritualidade Humana, Cristã, Pascal e do Seguimento de Jesus é Espiritualidade da Libertação, é Espiritualidade da Vida. E é essa a Espiritualidade das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base).
            A CEB é “o primeiro e fundamental núcleo eclesial”, “célula inicial da estrutura eclesial” (Documentos de Medellín, XV, 10) e a Paróquia renovada é “um conjunto pastoral unificador das Comunidades de Base” (ib. 13).
            Faça a experiência desse “novo e antigo jeito de ser Igreja”, que é “o jeito evangélico de ser Igreja”, que é “o jeito de ser Igreja que Jesus quer”.

            Participe da 4ª Romaria da CEBs: 14 de setembro de 2014, concentração no Portal de entrada do Trevo de Trindade - GO, às 9 horas. Sua presença nos alegrará muito!

Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
                                                                                 Goiânia, 20 de agosto de 2014

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos