terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Tempo do Natal

               O tempo litúrgico do Natal inicia com as primeiras vésperas da solenidade do Natal do Senhor e - incluindo a solenidade da Epifania do Senhor (dos Santos Reis) - vai até a festa do Batismo do Senhor. È um “tempo forte” de graça de Deus e, portanto, de espiritualidade humana e cristã
            No Natal do Senhor fazemos a memória, ou seja, tornamos presente hoje o nascimento de Jesus Cristo, celebramos a “troca de dons entre o céu e a terra” e pedimos que, já neste mundo, possamos “participar da divindade daquele que uniu ao Pai a nossa humanidade” (Missa da Noite de Natal. Oração sobre as Oferendas).
            Na Epifania do Senhor, fazemos a memória e celebramos a manifestação de Jesus Cristo, Filho de Deus, “luz para iluminar todos os povos no caminho da salvação” (Prefácio da Epifania do Senhor), que é o caminho da felicidade, que é o caminho da perfeição humana (da plena realização humana) dentro do plano de Deus, que é, em outras palavras, o caminho da busca do verdadeiro sentido da vida humana e de todas as formas de vida. 
            Durante o tempo litúrgico do Natal, “cantamos, com a euforia dos profetas e evangelistas de todos os tempos, o mistério da encarnação (Natal) e da manifestação (Epifania) do Verbo (Palavra) de Deus, do Príncipe da Paz, do Emanuel (Deus conosco). Os pobres ao nos ouvirem, acorrerão pressurosos até o presépio. A Boa Notícia é sobretudo para eles, embora seja de alegria para todos os povos” (Diretório da Liturgia. Canto e Música na Liturgia. Cantar o Natal do Senhor).
“Para os que habitavam nas sombras da morte (nas trevas), uma luz resplandeceu. Fizestes crescer a alegria e aumentaste a felicidade. Todos se regozijam em tua presença” (Is 9, 1-2). “Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2, 2).
            Terminando, pois, o tempo litúrgico do Natal, na festa do Batismo do Senhor fazemos a memória e celebramos a consagração de Jesus Cristo para a missão, revivemos e renovamos a nossa consagração batismal, e somos confirmados na missão de ser luz das nações e anunciadores da Boa Notícia do Reino.
            Perguntemo-nos agora: Como aconteceu o Natal de Jesus? Em que contexto social ele se deu? Enquanto Maria e José estavam em Belém para o recenseamento, “completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou, e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria" (ou, "dentro de casa”) (Lc 2, 6-7).
Os primeiros que receberam a Boa Notícia do nascimento de Jesus foram os pastores. "Eu anuncio a vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto lhes servirá de sinal: vocês encontrarão um recém-nascido, envolto em faixas e deitado na manjedoura" (Lc 2, 10-12). Os pastores foram às pressas se encontrar com Maria e José, e o recém-nascido. Voltaram louvando e glorificando a Deus, e tornaram-se os primeiros anunciadores da Boa Notícia do nascimento de Jesus.
Os pastores eram pessoas "odiadas por não respeitar as propriedades alheias, invadindo-as com seus rebanhos e cobrando preços exorbitantes pelos produtos. Um pastor - segundo o Talmud babilônico - não podia ser eleito ao cargo de juiz ou testemunha nos tribunais, por causa da má fama e do desrespeito à propriedade" (Pe. José Bortolini, Roteiros homiléticos. Paulus, 2006, p. 3 - Missa da noite de Natal). Os pastores não eram, portanto, "pessoas de bem".
Jesus, diríamos hoje, nasceu como "sem-teto" e anunciou a Boa Notícia do seu nascimento aos "sem-terra" (os pastores). Nasceu rejeitado e excluído. "Veio para a sua casa, mas os seus não o receberam" (Jo 1, 11). O Filho de Deus, o Salvador do mundo, não só se encarnou, assumindo a nossa natureza e a nossa condição humana na história, mas tornou-se solidário - afetiva e efetivamente - com todos aqueles/as que no mundo não têm voz e não têm vez, com todos aqueles/as que não "cabem" nas casas das nossas cidades: os empobrecidos, os oprimidos, os excluídos, os indesejados, os rejeitados e os descartados da nossa sociedade. Jesus se identificou totalmente com eles/elas, tornando-se um deles/delas.
É verdade que Jesus veio para todos/as, mas o caminho que Ele escolheu, para anunciar ao mundo a Boa Notícia do Reino de Deus, não foi o caminho dos poderosos (dos Herodes de ontem ou de hoje), mas o caminho dos pobres, que é um caminho alternativo (Cf. o meu Artigo: Jesus o “sem teto” de Belém. Em: www.adital.com.br - 10/01/11). E nós, os cristãos e as cristãs, será que escolhemos o caminho de Jesus?
Perguntemo-nos ainda: O que o Natal de Jesus representa para nós hoje? Um dia, "enquanto ia andando, alguém no caminho disse a Jesus: 'Eu te seguirei para onde quer que fores', mas Jesus lhe respondeu: 'As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça'” (Lc 9, 57-58). E, num outro encontro com os discípulos, Jesus acrescentou: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16, 24).
Será que nós, os cristãos e as cristãs, queremos realmente seguir Jesus”, procurando “discernir os 'sinais dos tempos' à luz do Espírito Santo” e nos colocando a serviço do Reino de Deus, a partir dos pobres? (Documento de Aparecida - DA, 33). “O seguimento de Jesus é fruto de uma fascinação que responde ao desejo de realização humana, ao desejo de vida plena. O discípulo é alguém apaixonado por Cristo, a quem reconhece como o mestre que o conduz e o acompanha” (DA, 277). “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10-10).

“Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens e às mulheres por ele amados e amadas” (Lc 2, 14).
            Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 26/12/11, p. 06
                            

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
                                                                                                                                                     E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

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A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos